Uma noite de felicidade e xingamentos

Dunga saiu do campo chutando a grama e gritando contra o árbitro francês Stephane Lannoy. Não engoliu a expulsão de Kaká nem os pontapés que seus jogadores levaram dos africanos da Costa do Marfim. Desde os primeiros instantes do jogo, ele não conseguiu disfarçar sua irritação com o juiz. Xingou até a quarta geração de Lannoy. Pouco mais de 15 minutos após a partida, aparentemente sereno, o treinador atribuiu a vitória (3 a 1) à maturidade dos jogadores, que não revidaram as pancadas, e ao futebol arte do seu time.

Quando entrou na sala de entrevistas do Soccer City, diante de cerca de 200 jornalistas brasileiros e estrangeiros, Dunga tinha um sorriso sarcástico. Ele acabava de classificar o Brasil às oitavas de final da Copa. Não havia motivos para ser bombardeado. E mesmo assim se irritou com alguns jornalistas. Antes da entrevista, deu uma abraço em Cafu, capitão do penta, que passou pela sala só para dar parabéns ao treinador e a Luís Fabiano. Antes de se indispor com um repórter da TV Globo, Dunga disse que a partida foi muito difícil, não só pelo estilo do adversário, mas também pela complacência do árbitro aos pontapés dos marfinenses.

“O jogo foi muito complicado, atlético, de muita força física, de muitas faltas. Todos nós que gostamos do futebol não podemos aceitar o que aconteceu hoje (domingo). Pessoas que têm a missão controlar espetáculo tem de saber o que é futebol e o que não é. Difícil jogar futebol arte como pedem, se o árbitro deixar passar o que deixou passar hoje.” Após a resposta, Dunga olhou para Alex Escobar, da Globo, que estava na sala e disse assim: “Algum problema?” Escobar respondeu: “Nenhum, Dunga. Eu nem estava olhando para você.”

Em seguida, um jornalista brasileiro pediu a avaliação do treinador sobre o desempenho de Luís Fabiano. Antes de responder, Dunga continuou olhando para Escobar e murmurando palavrões. Depois falou do artilheiro da noite. “Todos os jogadores da seleção confiam no Luís. E ele sempre deu a resposta aqui na seleção. Vinha de uma lesão, cinco jogos sem marcar um gol. Havia muita cobrança dele próprio e de vocês (imprensa). Os gols foram importantes para acabar com essa ansiedade. A gente sabia que o seu momento ia chegar”, respondeu e voltou a olhar para Escobar. De novo murmurando para sua fala não sair no microfone, xingou o repórter da Globo.

Então perguntaram sobre Kaká, se ele concordava com a expulsão. Mais um bom momento para espetar Lannoy, o juiz francês. “A expulsão do Kaká foi totalmente injusta. O cara sofre a falta e ainda é punido. Essa arbitragem seria boa para mim quando jogava, ia fazer faltas à vontade e não ia levar o cartão. Fizemos três gols e levamos mais cartões que o adversário. Fica a dúvida: o que temos de fazer para jogar futebol?”. E o Kaká? “Ele vinha bem, faltava ganhar confiança. Essa parada (pela expulsão), que vai ser curta entre um jogo (Portugal) e o outro (pelas oitavas de final), vai acabar ficando boa para o Kaká se recuperar ainda mais.”

Quase ao final entrevista perguntaram ao treinador se daria folga aos jogadores hoje. “Não adianta dar tempo livre aos jogadores porque vocês (jornalistas) vão atrás deles. Então é melhor ficar relaxado lá no hotel. Assim teremos mais tempo lapidar o que cada um precisa”. Antes de deixar a sala, o técnico disse assim a um funcionário da Globo: “É preciso ser homem, olho no olho e não m… nas calças.”. Dunga estava feliz.

(Do Estadão)

9 comentários em “Uma noite de felicidade e xingamentos

  1. Eu como jornalista ou similar tomaria a atitude de me referi a ele como treinador da seleção. Omitir a pronuncia ou escrita do seu nome já é uma boa represália.

    Curtir

  2. O Pessoal da Rede Globo, deveria esquecer que a seleção tem um técnico e não procurá-lo mais para entrevistas.

    Eu não sei o que ele tem contra a Globo, todas as emisssoras do país o criticaram e ainda criticam, por que ele só se vinga na Globo?

    Curtir

  3. É incrível a passividade da imprensa brasileira diante dos xingamentos gratuitos de Dunga. Nem diante dos palavrões, os jornalistas deixam a postura acomodada. Não se vê um comunicado de protesto, uma reclamação. Somente um silêncio covarde. Nem o corporativismo tradicional costuma pesar num momento destes. Parece que Dunga desperta mesmo terror nos jornalistas. Em 94 ele foi escolhido para companheiro de quarto de Romário, exatamente para vigiá-lo e este não saiu da linha porque sabia das consequências físicas.

    Por muito menos que isso, assistimos arranca-rabos homéricos em outras copas, principalmente a de 94, com Parreira e Zagallo às turras com a imprensa paulista. Outros tempos.

    De certa forma, a imprensa merece o tratamento que vem recebendo. Qual será o comportamento do anão quando seu time foi eliminado?

    Curtir

  4. Nem sempre torno minhas as opiniões de outros, mas, desta vez concordo com o decano da cronica esportiva, Luiz Mendes (gaucho) que sugere a ausencia da imprensa brasileira nas coletivas do Dunga. Acrescento, omitir o nome do cujo também seria bom. Olha que tenho defendido o capitão do mato, mas agora passou dos limites.

    Curtir

  5. Pelo comportamento inadequado na coletiva de ontem já há fortes rumores de que o Dunga provavelmente será punido pelo Comitê Disciplinar da FIFA, tal como o Maradona o foi (R$ 42 mil reais, um jogo e participação de eventos festivos da FIFA) ou até mais gravosamente ainda. Se tal se confirmar, nada mais legítimo. Até para indignação (justa ou não), há limites e o Dunga com os palavrões que chamou em rede mundial os ultrapassou a todos.
    Mas, além disso, também estou de acordo com a idéia já veiculada no blog de que os órgãos constituídos da mídia nacional também poderiam fazer uma representação formal à CBF cobrando firmemente um comportamento mais urbano e cortês do treinador sem ofensas e insultos pessoais aos profissonais que ali exercem seu respectivo mister. E isso, apesar de algumas veementes e legítimas reclamações isoladas, ainda não feito. Ah, mas por uma questão de reciprocidade, os jornalitas bem que poderiam também se abster de ataques e ofensas pessoais. Poderiam se limitar a criticar, ainda que acidamente, o trabalho ou a inexistência de trabalho do treinador, e, neste particular, há muitos motivos tanto para a crítica quanto para a acidez.

    Curtir

  6. O Dunga errou na medida, mas não no remédio . Seguindo a mais recente origem dessa perseguição ao cara, vamos encontrar a falta de exclusivas para a globo. Dunga fez o que o restante da imprensa pedia, e mesmo assim a imprensa se junta pra meter o pau nele. Mas não se pode agradar a todo mundo.

    Outra coisa: quando há espetáculo e não há resultado, choramos. Quando há resultado sem espetáculo (Dunga) choramos. Acho que temos o direito de sermos exigentes, mas precisamos ser mais respsitosos com o trabalho bem sucedido. Posso não gostar do cara, mas ele GANHA É duro você trabalhar sério, ganhar e ser malhado por conta de 1990, uma antipatia que nunca se desfez.

    A Globo tá na dela, esperneia, chora e vai tratar de destruir a reputação do Dunga rapidinho. Mas os outros vão na onda de achar assunto quando assunto não há.

    Não acho o Dunga um excelente técnico. não acho que ele tenha o perfil de ídolo ou ícone do futebol. Mas respeito o que ele consseguiu e acredito que vá conseguir mais. Se assim o fizer, ainda dirão: “Ah, o Brasil ganhou apesar do Dunga”. Se não o fizer, vai ser o inferno pra ele. Mas disso ele já sabia quando assumiu a seleção.

    A Rapadura é doce mas não é mole não.

    Curtir

Deixar mensagem para Antonio Oliveira Cancelar resposta