Conexão África (14)

Dois golaços e alguns momentos inspirados

Quando insisto que passe e velocidade são itens indispensáveis no futebol atual é porque não há defesa ou esquema defensivo que resista a essa combinação. Alguns confundem com afobação, mas o conceito é simples e dispensa a correria desenfreada. É consenso que o Brasil não fez um bom primeiro tempo, pois reincidiu no pecado da lentidão na saída para o ataque e na ausência de agressividade. Mas venceu ao construir a única grande jogada desse período: uma tabelinha perfeita envolvendo Robinho, Luís Fabiano e Kaká, com direito a um toque de calcanhar e um passe sutil para o centroavante estufar as redes marfinenses. Foi o solitário sopro de talento da seleção, mas abriu esperanças quanto ao desenvolvimento da partida.
No segundo tempo, tudo se modificou – e sem que fosse necessária a troca de jogadores. Apenas com o novo posicionamento do meio-campo, o
Brasil adquiriu outra feição em campo e desfez a apatia predominante nos 45 minutos iniciais. Do 4-2-3-1 que se arrastava sem grande inspiração, o time evoluiu para um 4-4-2 clássico, que em certos momentos se transformava em 4-2-4, pois Kaká e Elano passaram a atuar praticamente como extremas. Os resultados práticos dessa iniciativa não tardaram a aparecer, com a providencial interferência de Luís Fabiano, que aproveitou um chutão para fazer o segundo gol brasileiro, depois de aplicar dois dribles sensacionais (incluindo um chapéu) sobre os zagueiros.
A inspiração pelo golaço de Luís Fabiano parece ter contagiado o restante do time, que por cerca de 20 minutos realizou sua melhor atuação nesta Copa, coroada pelo gol de Elano em lance inteiramente executado por Kaká em incursão pela extrema esquerda. Dali veio não um lançamento, mas um passe perfeito para a finalização do volante. A partir daí, com rapidez na reposição de bola e fluidez na troca de passes, a Seleção ainda teve duas ou três chances de disparar uma goleada. A partir dos 35 minutos, a partida acabou apresentando uma sequencia de faltas duras cometidas pelos marfinenses, sem que o árbitro coibisse o jogo violento. Para surpresa geral, Kaká acabou se envolvendo na escaramuça e foi expulso, desfalcando o time, que já havia perdido Elano, também atingido asperamente por um zagueiro adversário. Sem seus dois homens mais dinâmicos na armação, Dunga lançou Daniel Alves, sem conseguir porém o mesmo rendimento da formação anterior. Um cochilo de marcação permitiu que Drogba descontasse, de cabeça.
O saldo final do confronto, contudo, é bem positivo para a Seleção. Sem ser brilhante nem regular, o time mostrou competência para aproveitar os espaços no segundo tempo, usando velocidade e habilidade na dose certa e beneficiando-se do talento individual de seus atacantes. A dúvida é como o time irá se comportar no clássico com Portugal, com a saída de Elano (contundido) e Kaká justo quando o bom futebol começava a aparecer.

Castigo para quem mais sofreu faltas

Kaká, bom moço e rapaz de família, não pode entrar na malandragem de jogadores acostumados a usar a catimba como arma. Depois de ter sofrido uma falta dura, Kaká levou injustamente um cartão amarelo. Abalado, continuou a aceitar as provocações e acabou dando um esbarrão, punido severamente pelo confuso árbitro da partida. A repetição das imagens de todos os lances de tumulto indicam que Kaká fez por onde ser advertido, mas a expulsão foi um exagero, típico de árbitros que não conseguem fazer cumprir as determinações da Fifa quanto ao antijogo. Afinal, quem estava travando o jogo com faltas seguidas era justamente a equipe da Costa do Marfim, mas o castigo foi aplicado na vítima maior de faltas violentas durante o jogo. Para sorte do Brasil, o placar já estava construído quando perdeu seu camisa 10, mas fica a lição para as próximas jornadas. Quando a confusão se apresentar, garotos bem educados devem se manter longe e deixar a coisa com os malandros passados na casca do alho.

Luís Fabiano, Kaká, Elano e Felipe em destaque

A atuação não foi exuberante, mas a vitória garantiu a classificação antecipada às oitavas, o que não é pouca coisa numa Copa marcada pelo equilíbrio. Os melhores da Seleção aqui no Soccer City nesta noite fria de domingo foram, pela ordem: Luís Fabiano, Elano, Kaká e Felipe Melo. Luís Fabiano pelos dois golaços e a luta incessante de em busca do gol, aproveitando todas as brechas que apareciam. Elano foi discreto, mas muito eficiente, como prega Dunga. Kaká deu sinais de que recuperou a confiança e pela primeira vez tentou os lances individuais, participando da construção de dois gols. Felipe Melo fez uma boa apresentação, sem errar tantos passes e cobrindo muito bem a saída dos meias e laterais pelo lado direito. No outro extremo,
Robinho foi discretíssimo, apesar do esforço. Juan e Lúcio andaram muito hesitantes nas antecipações e falharam na marcação a Drogba no lance do gol marfinense. E os dois laterais, Maicon e Michel Bastos, estiveram abaixo de sua produção habitual.

Farpas desnecessárias e fora de lugar

Para não perder o hábito, Dunga usou a entrevista coletiva para atirar farpas contra os jornalistas, perdendo uma excelente oportunidade de valorizar o trabalho da Seleção, principalmente no segundo tempo. As ironias demonstram que será difícil o técnico assimilar que saber vencer é uma grande virtude. Se o comportamento já é assim hoje, quando o Brasil ainda não ganhou nada, fico a imaginar o que o nosso Capitão do Mato poderá fazer se o hexa for conquistado.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta segunda-feira, 21)

8 comentários em “Conexão África (14)

  1. Aqui pra nós, fazem perguntas um pouco tolas. Devem fazer com inteligência para que Dunga fique de saia justa. Ele está ganhando todas. Ainda não é hora de se fazer perguntas óbvias

  2. Luiz Fabiano um misto de trombada e categoria no segundo golaço que fez. Elano, o elemento surpresa do esquema, por pouco não teve a perna partida pela extema violência dos marfinenses. O mesmo risco correu o Michel. Aliás, este bem poderia ceder o lugar para o Gilberto, ao menos para uma experiência em busca de um melhor rendimento no setor. Kaká, a dúvida: melhor perdê-lo agora ou para o mata-mata? A certeza é que ele poderia ter sido substituído logo que o placar ficou sob controle e a disciplina do jogo saiu completamente do controle do juiz, eis que vinha dando sinais de irritação desde cedo. Dunga, de fato, esteve excessivamente “zangado”, eis que se as perguntas ontem nem foram assim tão capciosas não custava nada ter se controlado um pouco. Não ficou nada bonito aqueles palavrões captados pelo audio da Fifa durante a coletiva.

  3. Gerson, o Fantástico de ontem mostrou o completo descontrole do Dunga na entrevista, chegando até a chamar palavrões ininterruptamente. Segundo o folhetin, tudo por causa de uma reação de discordância de um reporte global a suas colocações.

    Caro blogueiro, não quero nem imaginar o que esse individuo fará caso volte com a taça. Só sei de uma coisa, ele é mal educado, desrespeitoso e deselegante.

    Paciência pra aturar um cabôco desse.

    1. O comportamento do técnico da Seleção é deplorável, Maciel, sob todos os pontos de vista. O sujeito que assume esse cargo precisa ter a exata noção do que ele representa. É quase como um cargo diplomático porque representa o país. Há quem veja nessas exibições de grosseria uma justa reação de Dunga a seus críticos. Nada mais falso. Dunga foi e é criticado como qualquer outro treinador da Seleção, só não vê isso quem não acompanha o nosso futebol. Parreira também foi muito atacado pelo mau futebol do Brasil e nunca perdeu a linha. Um outro exemplo é o próprio Maradona, reconhecidamente um sujeito azedo com jornalistas, mas que nesta Copa tem se comportado muito bem, consciente do papel que representa.

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