Ronaldo Porto, o repórter

Por Orly Bezerra, no Facebook

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Conheci o Ronaldo Porto em meados dos anos 70, quando eu iniciava minha carreira profissional na redação do jornal Liberal e ele, um pouco mais velho, vinha da Marajoara para a equipe de esportes da rádio Liberal. Éramos jovens, ainda cheios de projetos, desejos e impulsos. O Ronaldo sempre foi agitado, elétrico e extrovertido, daí que rapidamente ganhou a alcunha de locutor 40 Graus. Muito comunicativo e extrovertido, logo se tornou um dos bambambãs da locução esportiva, formando um time de primeira ao lado de Jaime Bastos, Cláudio Guimarães, Jones Tavares, Ivo Amaral, Zaire Filho e Guerreiro, entre outros. Mas o Ronaldo foi mais longe.

Além do sucesso nas jornadas esportivas, com a dinâmica característica, era polivalente e sempre estava presente nos grandes eventos, contribuindo com seu talento. Quem não lembra dos resultados do vestibular, na época em que a leitura do listão dos aprovados era uma verdadeira “guerra” pra ver quem acabava primeiro? E nesse ponto o Ronaldo era insuperável: leitura rápida com locução firme e compreensiva.

Nas cerimônias, sejam de que forma for, lá estava o Ronaldo com seu charme de apresentador. Depois abraçou a carreira televisiva com grande sucesso na TV RBA , estrelando vários programas por muitos anos. O tempo passou e , mesmo à distância, até por dever de ofício, nos encontrávamos vez por outra. E os nossos encontros sempre foram festivos, a não ser em um momento quando nos estranhamos , fato que, felizmente, foi logo superado.

O Ronaldo construiu uma legião de amigos e fãs em vida. E a prova disso está nas mais diversas manifestações e homenagens que vem sendo feitas pra ele, desde quando foi acometido por essa terrível doença, que acabou por tirar-lhe a vida. E hoje, abatido pela triste notícia, fiquei aqui pensando na trajetória de mais um amigo que a gente perde nessa batalha desigual devido a essa pandemia. E queria registrar um fato que pouca gente sabe, mas que sempre foi motivo de muito orgulho para o Ronaldo. Falo do Ronaldo repórter.

Sim, era um 6 de agosto de 1978, data marcante no cenário mundial. Dia do falecimento do Papa Paulo VI. Naquele dia, ou melhor naquela final de noite e início da madrugada, o Ronaldo voltava de uma noitada com amigos. Chegando carro, costume caraterístico de quem trabalha com notícia , ligou o rádio. Eis que no dial sintonizado , em um noticiário retransmitido de uma emissora de fora, era dada a notícia em edição extra da morte do Papa Paulo VI.

Não acreditando no que ouvia e ainda meio grogue pelos efeitos da noitada, Ronaldo não contou conversa: foi direto para a redação do jornal O Liberal, que funcionava na Gaspar Viana, no prédio que foi da Folha do Norte. Naquela hora, já por volta das 2h da manhã, a edição do dia seguinte estava na oficina pronta pra ser impressa. Numa hora dessa o repórter não se conforma. E o Ronaldo não se conformou. Ligou da portaria do jornal (ainda não tínhamos celular naquela época) para a casa do Cláudio Augusto de Sá Leal, que comandava a redação.

Naquela altura, com a voz um pouco “atrapalhada” e agitada, do outro lado da linha o Leal ficou meio incrédulo com a narrativa daquele locutor esportivo, louco pra dar um “furo” jornalístico, numa época em que a redação brigava muito pra ter uma notícia exclusiva. Pra desespero do pessoal da oficina, que sempre queria rodar o jornal mais cedo possível, a edição foi mudada com a manchete do Liberal do dia seguinte anunciando a morte do Papa Paulo VI. Um senhor furo, já que, devido o horário, o Liberal foi o único jornal impresso do país a sair com notícia, um senhor furo nacional. Esse “furo” é teu, Ronaldo.

Quando cheguei no Liberal, antes das 7h pra começar o trabalho da chefia de reportagem, encontrei o Ronaldo amanhecido na portaria. Estava se deliciando da edição quentinha , que acabara de sair com o firo da morte do Papa.
Como uma mãe baba sobre uma cria…

Que descanse em paz, amigo!

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