Até prova em contrário, investigação da PF sobre hackers é uma grande armação

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Por Joaquim de Carvalho, no DCM

Uma vazamento aqui, outro ali, e a Polícia Federal comandada por Moro vai construindo uma narrativa. Coube ao Estadão de hoje publicar a versão bombástica: Walter Delgatti Neto, hacker suposto, estelionatário fichado, teria confessado que deu ao jornalista Glenn Greenwald acesso a informações capturadas do aplicativo Telegram. A informação foi parar na manchete do jornal: “Hacker diz à polícia que deu a site acesso a conversas de Moro”.

Só no corpo do texto é que vem a advertência: “Os investigadores tratam o relato com cautela, uma vez que o hacker é apontado como estelionatário. Razão pela qual tudo o que ele informar será investigado, especialmente a partir da quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático do grupo.”

A manchete lembra o que o mesmo jornal fez em 1989, quando deu destaque a uma versão divulgada pelo então secretário de Segurança Pública, que ligava o PT ao sequestro de Abílio Diniz:

“Fleury diz ter encontrado material do PT”.

Na ocasião, um perito da Polícia Civil chegou até a tirar a foto de um dos sequestradores com a camiseta da campanha de Lula a presidente.

Vi a fotografia, que não chegou a ser divulgada, mas integrava um inquérito sigiloso. O sequestrador estava com o rosto desfigurado, mas a camiseta era impecável, como se tivesse saída da embalagem. Esta foto foi juntada em um investigação da denúncia de tortura feita pelo advogado do sequestrador.

A investigação foi arquivada por decisão do Ministério Público do Estado de São Paulo.

Posteriormente, ficou comprovado que o PT não tinha nenhuma ligação com o sequestro, mas já era era tarde: até o presidente do Ibope na época, Carlos Augusto Montenegro, entendeu que a divulgação das notícias foi decisiva para a derrota de Lula na eleição daquele ano.

Desta vez, não há eleição, mas um julgamento em curso na Justiça, relacionado a Lula. Trata-se do HC em que a parcialidade de Sergio Moro é o fundamento do pedido para libertar o ex-presidente.

Não havia necessidade de vazamento de mensagens pelo Intercept para comprovar a parcialidade do ex-juiz.

Basta ler o processo e o noticiário. Depois de condenar Lula, abrindo caminho para que ele fosse proibido de se candidatar, Moro se tornou ministro do presidente eleito.

É um escândalo.

Os diálogos divulgados pelo Intercept apenas mostram como a armação se deu, ilustram o crime, que já era nítido com as decisões e o comportamento de Sergio Moro à frente do processo.

O poder das mensagens está na percepção do escândalo por parte do público.

Moro agora se apressa para tentar obscurecer a narrativa. Em agosto, a segunda turma do Supremo Tribunal Federal deve retomar o julgamento do HC sobre a parcialidade do ex-juiz. Uma vez admitido que Moro agiu com parcialidade, o HC deve ser concedido e Lula, libertado.

Ontem mesmo, antes da manchete do Estadão, o ex-juiz cravou no Twitter que os estelionatários de Araraquara são a fonte do Intercept.

Talvez sim, talvez não.

É o que menos importa, e o Intercept tem assegurado o direito ao sigilo da fonte.

No entanto, ligar os estelionatários presos pela polícia de Moro ao Intercept é o tipo de informação que ajuda os aliados dele na imprensa a construir uma narrativa que seja útil na busca de uma saída para a acusação de parcialidade contra o ex-juiz.

Não estranha, portanto, que o tuíte de Moro tenha se desdobrado em detalhes que foram parar na manchete do Estadão. O jornal não diz quem é a fonte de sua manchete, mas nem precisa.

Os jornalistas comprometidos com a Lava Jato estão recebendo argumentos para fazer a defesa do ex-juiz e dos demais, e confundir a opinião pública. Não tem nada a ver com notícia.

Felizmente, nem todos os jornalistas estão nesse círculo e alguns têm coragem de denunciar que a investigação da Polícia Federal não tem credibilidade alguma com Moro no Ministério da Justiça e, portanto, chefe do órgão.

“Seria adequado que a OAB, ABI e sindicatos de jornalistas acompanhassem a investigação a convite da própria Polícia Federal. Sem essa providência, qualquer conclusão da PF não poderá ser considerada a sério, porque a priori estará comprometida com um projeto de extrema direita, e seu chefe, o ministro da Justiça, não pediu afastamento do cargo”, disse o jurista Pedro Serrano.

Só pra esclarecer

“Amigos bolsonaristas. Sei que alguém os convenceu de q jornalista q recebe info obtida criminalmente é equivalente ao camelô que recebe produtos roubados. Não é. A liberdade de imprensa é garantida pela Constituição e informação não é produto. O Intercept está dentro da lei.”

Pedro Dória, jornalista e colunista de O Globo

Abraham Weintraub e a metamorfose do Brasil

Por José Cassio, no DCM

Estado de direito se degrada dia após dia no Brasil, de forma escancarada. Em alguns Estados do norte do país, como o Pará, o conceito já está no limite da extinção.

Vemos um recente exemplo do ataque à liberdade de expressão no incidente protagonizado pelo Ministro da Educação, Abraham Weintraub, tristemente famoso por seus ataques à liberdade nas universidades, por seu desprezo por pessoas comuns e por sua insultante ignorância.

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Abraham Weintraub, ontem estava jantando com sua família no terraço de um restaurante na cidade de Alter do Chão, no Pará, quando um pequeno grupo de ativistas pertencentes à organização Engajamundo, fez um belo ato de protesto.

O ato consistia em dar-lhe um prato de “kafta”, uma comida popular da culinária árabe. Não era nada mais que uma pequena sátira, em alusão à confusão que o ministro estrelou em pronunciar o nome deste prato típico para se referir ao brilhante autor checo Franz Kafka, autor de, entre outros grandes livros, A Metamorfose e O Processo, obras imortais da literatura universal que um ministro da educação deveria conhecer bem.

O protesto foi acompanhado por uns poucos cartazes que se referiam às medidas controversas do ministro contra as universidades públicas ou seus cortes orçamentários nas escolas públicas, e em particular a sua tentativa ridícula de explicar os cortes com barras de chocolate, como ele fez em um vídeo transmitido pelo Facebook Live, onde ele separou 4 barrinhas de uma pilha de 100 para mostrar que seus cortes afetariam apenas 3,4% do orçamento total.

Além disso, para ficar mais próximo desse 3,4%, uma das barras teve que ser cortada em dois. Mas quando o ministro foi incapaz de quebrar a barrinha, o próprio presidente Bolsonaro, que o acompanhava na encenação dessa farsa, mordeu a barra do orçamento pela metade e comeu sem remorso. Não deveria surpreender que esse modo grosseiro e ofensivo de lidar com algo tão importante para a cidadania, como o orçamento da educação, ultrajou muitos no Brasil e não conquistou muita simpatia para o ministro Weintraub.

Mas diante do ato de protesto lúdico e criativo dos ativistas, Weintraub reagiu com agressão e raiva e pegou o microfone de um grupo de músicos de rua que estavam na praça, e de lá lançou um discurso de insultos e ofensas indiscriminadas, apesar de os ativistas já terem deixado o lugar.

A tensão e a polarização vividas em todo o Brasil ficaram evidentes nesse exemplo de intolerância. Dono do microfone, Weintraub lançou um discurso desarticulado de ataques sem nexo a uma suposta esquerda “petista”, preguiçosa e parasítica, enquanto destacava as virtudes de ser um pai de família que só tira férias uma semana por ano. Ele também acusou os ativistas de humilhar sua família, que estava na praça quando os eventos ocorreram.

O discurso agressivo e intolerante do ministro provocou a reação de muitos dos presentes na praça, incluindo alguns indígenas, que vaiaram o político, o chamaram de fascista e até usaram um microfone para se defender de ataques, que inflamaram ainda mais o temperamento arrogante do ministro. Em cima de em uma cadeira de plástico, ele continuou a insistir em suas ofensas e até usou sua filha para se fazer de vítima e provocar a adesão de alguns dos presentes, que o aplaudiram e encorajaram quando ele deixou o local.

O incidente terminou sem maiores problemas, mas causou um profundo desânimo entre os presentes na praça desta pacata cidade que parecia estar longe da tensão política das cidades.

Depois do protesto, a organização Engajamundo divulgou um comunicado explicando que o ato era simplesmente um gesto de protesto simbólico, e que, depois de entregar o prato de kafta e os dois cartazes, os ativistas deixaram o local imediatamente, sem agredir ninguém em momento algum.

Engajamundo usa criatividade e diversão para tornar suas reivindicações visíveis, mas nunca realiza ações agressivas ou agride ninguém como Weintraub fez quando ele assumiu o microfone e lançou uma manifestação ofensiva contra supostos esquerdistas, que teriam tentado humilhar sua família.

A atitude arrogante do ministro e a reação do povo às suas palavras ofensivas deram à ação de protesto de Engajamundo uma dimensão indesejada, mas que demonstra até que ponto há tensão neste país, mesmo em locais remotos e tranquilos da Amazônia.

A educação tem sido um eixo central da política brasileira. Durante os governos anteriores, apesar de algumas ineficiências, existiram inúmeras iniciativas e investimentos que buscaram melhorar as condições de pessoas humildes e facilitar o acesso ao ensino superior a pessoas desfavorecidas, incluindo grupos geralmente marginalizados dentro sistema educacional, como os mais pobres, indígenas e negros.

Mas Bolsonaro chegou com a intenção de acabar com tudo o que oferece igualdade de oportunidades. Sua agenda deixa muito claro que ele acredita que devemos expulsar os mais fracos, quem ele considera parasitas alimentados pelos “petistas”.

O que realmente é uma vergonha, e o que não deveria surpreender ninguém, é um ministro se sentir ofendido quando, em um ato de simples liberdade de expressão, alguns ativistas o lembram que ele não sabe pronunciar corretamente o nome de Kafka ou que ele banaliza cortes da educação mordendo chocolates. E mais vergonhoso ainda é seu discurso ofensivo encontrar simpatizantes em uma praça de uma pequena cidade tranquila.

O presidente do Conselho de Desenvolvimento Comunitário da Vila de Alter do Chão emitiu imediatamente uma vergonhosa “Carta de repúdio a ato hostil sofrido pelo Ministro da Educação e sua família”, que descreveu o protesto como “atos de hostilidade praticados puramente por intolerância política” e pede às autoridades competentes que “este [sic] agressores e perturbadores da ordem [s]ejam identificados e punidos por suas ações”.

Após o incidente, sem dissimular suas intimidações, um grande grupo de bolsonaristas se reuniu na praça em uma demonstração de apoio ao ministro e ao “mito” que o nomeou.

Esse incidente, que em qualquer democracia madura é considerado “ossos do ofício” de qualquer representante público, no Brasil, torna-se uma “agressão, um ato hostil, um sinal de intolerância”.

Isso mostra até que ponto o estado de direito no Brasil foi degradado, com o respeito pela liberdade de expressão desaparecendo enquanto as autoridades tentam intimidar os cidadãos que exercem seu direito de protestar enquanto recebem insultos, arrogância e ameaças de prisão e punição. É por isso que é importante que ativistas como os do Engajamundo se levantem e resistam a essa degradação.

O ministro Abraham Weintraub deveria ler A Metamorfose de seu ignorado Kafka e refletir sobre como o Estado democrático de direito, se insultado, degradado e atacado diariamente, pode acordar um belo dia transformado em um inseto gigantesco.

Mídia compromete a democracia naturalizando absurdos de Bolsonaro

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Quando Jair Bolsonaro chama nordestinos de “paraíbas” e sugere que um governador não deve ter nada do governo federal, ele não está criando uma “polêmica”, mas falando um “absurdo” que deve ser exposto, criticado e duramente condenado pelos meios de comunicação. Essa é a avaliação do jornalista Kennedy Alencar, que nesta semana deu vários sinais de indignação com o papel da mídia na naturalização das falas e propostas mais grotescas de Bolsonaro.

Para Kennedy, “ao classificar absurdos (…) como polêmicas, jornalistas pegam leve com o presidente da República e normalizam condutas que não devem ser normalizadas numa democracia plena. Recorrer a eufemismos para normalizar absurdos do presidente da República é como as democracias morrem. É coisa de república de bananas”, disparou.

No episódio dos “paraíbas”, por exemplo, a “polêmica” é, na verdade, “uma manifestação de xenofobia, preconceito, ignorância e, por último, covardia.”

Quando Bolsonaro defende o fim da multa de 40% do FGTS, há polêmica, pois é possível abrir uma discussão contra ou a favor da medida com bons argumentos dos dois lados. Mas quando ele diz que o desemprego é culpa dos direitos trabalhistas, e que “o brasileiro terá um dia de escolher entre direitos trabalhistas e emprego”, ele não está abrindo uma polêmica, ele está falando um “absurdo” que deveria ser condenado pelo jornalismo de qualquer meio.

O mesmo vale para o caso do Inpe, com Bolsonaro tentando desqualificar dados apenas porque eles não o agradam.

“O presidente da República está errado. Enfim, vale dar uma olhada nos dicionários para entender o significado de polêmica. Quem quiser passar pano para os absurdos de Bolsonaro, pode, pelo menos, fazê-lo com mais lealdade à inculta e bela. Vale dar uma olhadinha no Aurélio, tá ok?”

A frase do dia

“A mídia sabe que os hackers são de mentira, lorota,cascata. Entra nessa de cúmplice do Moro, sua cambada e tudo o que representam contra a soberania nacional. Barões, analistas e repórteres. Todos cumprindo seu papel na farsa do jornalismo ‘isento’.”

Palmério Dória

Greenwald pode ser preso. Amanhã, você. E, depois, os que se calaram diante de Moro

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Por Kiko Nogueira, no DCM

Aqueles que vivem hipotecando solidariedade a Míriam Leitão por qualquer coisa — inclusive as cascatas que ela inventa sobre xingamentos em aviões — vergam diante da escalada autoritária de Sergio Moro contra Glenn Greenwald.

Numa delação (ainda não se sabe se premiada), um dos “hackers” de Araraquara afirmou que o que foi divulgado pelo Intercept é fruto da invasão dos celulares.

Noves fora o fato de que isso não deslegitima o que foi publicado, cuja autenticidade foi confirmada por Folha, Veja e El País, Sergio Moro resolveu partir para tudo ou nada sem ser incomodado.

Vale lembrar que não há crime em publicar esse material, ainda que vazado por essas pessoas. Moro mobilizou sua Polícia Federal numa operação que lhe interessa, num franco atropelo da democracia e do Direito.

A ideia é intimidar e, mais tarde, dependendo dos cálculos, prender Greenwald.

Daí em diante serão alvos todos aqueles que ele enxergar como inimigos, não apenas dele, mas do Estado, já que ambos se confundem numa mente autoritária e sem limite.

Enquanto isso, o silêncio dos covardes é ensurdecedor.

Quando Míriam foi vetada de uma feira do livro por causa de postagens no Facebook, a grita dessa brava gente inundou as redes sociais.

Não se ouve um pio.

É preciso falar. O DCM vai continuar gritando ao seu lado.

A Globo, que dedicou um editorial do Jornal Nacional à defesa da mesma Míriam que se ajoelhou, por ordem dos Marinhos, diante de Bolsonaro, escala colunistas como Merval para justificar o chefe da Lava Jato.

Amanhã, se não nos levantarmos, seremos nós.

E depois, eles, que não disseram nada.

Grupo de torcedores interrompe treino do Remo para cobrar mais empenho

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Estava demorando. Um grupo de aproximadamente 20 torcedores, ligados uma facção que foi declarada extinta pela Justiça, interrompeu o treino do time na manhã desta quarta-feira. Na conversa com o executivo de futebol, Luciano Mancha, disseram que estavam no estádio Evandro Almeida para cobrar comprometimento e foco na campanha da Série C. 

No final do treino, puderam conversar no centro do gramado com os jogadores, fazendo as cobranças de praxe. Esse tipo de manifestação costuma ser sazonal, dependendo do nível de desempenho do time nas competições. Como o Remo está há 6 rodadas sem vencer, embora seja o quarto colocado (dentro da zona de classificação), os protestos reapareceram.

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Desta vez, pelo menos, não houve tumulto e nem ofensas a jogadores e comissão técnica. A preocupação do grupo era pedir empenho nas próximas rodadas, contra Atlético-AC e Tombense, a fim de retomar o caminho das vitórias. Os jogadores deixaram claro que não há falta de comprometimento e que o foco é permanecer no G4.