POR GERSON NOGUEIRA
Uma semana depois do bicampeonato estadual conquistado pelo Remo, as comemorações pelo feito se restringem a um ou outro meme ou provocação nas redes sociais e piadas entre colegas de trabalho. O próprio clube, assoberbado com os preparativos para o Brasileiro da Série C, quase não se dispôs a festejar.
Não houve nem mesmo o jantar especial em torno do elenco vitorioso, como era prática obrigatória e tradicional em outros tempos. O foguetório durou até terça-feira nos bairros da periferia. Depois disso, restou apenas o silêncio.

Era uma época quase romântica, quando os títulos conquistados em campo eram efusivamente saudados nas ruas. Logo que findava a volta olímpica dos campeões, carregando a taça em torno do gramado para delírio nas arquibancadas, a festa invadia ruidosamente as ruas de Belém.
Havia, até os anos 80, a prática de cortejos a pé, verdadeiras passeatas pelas principais ruas, como um carnaval fora de época, sem axé. Rojões estouravam, as pessoas arrancavam galhos das árvores que encontravam pelo caminho e o desfile ia tomando contornos de grande evento pós-jogo.
A gourmetização do futebol, afastando o povão dos estádios a golpes de ingressos caríssimos, tem parte nestes novos tristes tempos. A violência galopante responde por outro quinhão de responsabilidade.
O certo é que uma das últimas aglomerações motivadas por feitos futebolísticos foi a recepção da torcida do PSC aos heróis da conquista da Copa dos Campeões, em 2002. Uma multidão tomou as cercanias do aeroporto e seguiu até o centro, comboiando o carro de bombeiros que trazia os jogadores até a Curuzu.
Três anos depois, outra retumbante manifestação popular foi promovida pela massa remista, tendo novamente o Aeroporto Internacional de Val-de-Cans como palco. O povo cercou o terminal de passageiros e avançou para receber os campeões da Série C 2005, dando início a um cortejo que foi até o centro da cidade e terminou no estádio Evandro Almeida.
Depois disso, poucas vezes a multidão encheu ruas para cantar os feitos de seus times. De vez em quando bate um último suspiro da velha alegria. Como na conquista da Copa Verde, no ano passado, quando a torcida alviceleste em festa ainda lotou a Doca de Souza Franco.
O futebol, aos poucos, vai perdendo elos com o seu passado glorioso, o que compromete as possibilidades de um futuro triunfante.
—————————————————————————————–
Nem tudo acaba no dia seguinte – pelo contrário
Jürgen Klopp disse em entrevista, no começo da semana, que a possibilidade de perder o título inglês ao cabo de uma das mais brilhantes campanhas de um time na Premier League, não era (nem poderia ser) a preocupação a martelar a cabeça dele e dos jogadores do Liverpool. Garante que há a plena convicção no grupo de que todos exploraram seus talentos e especialidades no limite máximo para fazer o melhor.
Um alemão bem adaptado na Inglaterra, mais à vontade do que se poderia imaginar, Klopp vive um casamento feliz com o Liverpool e sua musical torcida – nem podia ser diferente para a cidade que é berço dos Beatles.
O que mais encanta é a lógica que domina técnicos e jogadores na Europa. A consciência de que perder um campeonato não é o fim do mundo. Afinal, sempre virão outros.
—————————————————————————————–
E a Conmebol enfim discute a violência no futebol
A Conmebol não é propriamente uma referência quando o assunto é organização, bom senso e modernidade. Tem se caracterizado pela complacência com a violência dentro e fora dos gramados. O caso mais notório foi a final da Libertadores do ano passado, que acabou transferida para o estádio Santiago Bernabeu, em Madri, após o ataque ao ônibus do Boca Juniors por barra-bravas do River Plate.
Na quarta-feira, no Paraguai, a entidade promoveu a primeira reunião de cúpula para discutir a violência que assola o futebol e formar uma cúpula “de alto nível” sobre segurança no futebol. Depois de décadas de omissão, foram discutidos regulamentos, recursos e estratégias de prevenção para enfrentar a onda de violência e reforçar a segurança nos jogos de futebol.
Com certo atraso, o chefão da Conmebol, Alejandro Dominguez, clamou para que o futebol sul-americano não fique marcado por episódios de violência. Ora, o continente é famoso pela selvageria e a ausência quase total de sistemas que controlem ou fiscalizem a ação de grupos organizados.
A situação só mudará de aspecto quando cada país fizer sua parte. O Chile criou o programa Estadio Seguro, abrangendo serviços e entidades. No Brasil, a CBF segue de braços cruzados, como se nada tivesse a ver com as batalhas sangrentas em volta dos estádios.
——————————————————————————————–
Bola na Torre
Guilherme Guerreiro comanda a atração, a partir das 22h, na RBATV, com Giuseppe Tommaso e este escriba baionense na bancada de debates. Em pauta, a estreia dos times paraenses na Série C.
(Coluna publicada no Bola deste domingo, 28)