Com arbitragem hostil, Tubarão vence mas não leva a vaga

Na reta final da partida, quando o Bragantino vencia por 2 a 1 e pressionava em busca do terceiro gol, que levaria a decisão para os pênaltis, a arbitragem exagerou no rigor e expulsou dois atletas do time paraense – Paulo de Tárcio e Pecel. Em outros lances do jogo, o árbitro inverteu marcações, tendo o Braga sempre como prejudicado.

A campanha do Bragantino, porém, foi digna de elogios. Chegou à terceira fase e brigou de igual para igual com o Vila Nova, time de Série B. A vitória foi aplaudida pelos pouco mais de 7 mil torcedores presentes ao Mangueirão na tarde deste sábado (20).

Clube mais popular do Brasil reforça preconceito contra favelados

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O grito de guerra “festa na favela” é conhecido no país todo como a expressão maior de alegria dos torcedores do Flamengo. Só que o grito de orgulho rubro-negro foi vetado nas redes sociais do clube. A justificativa: favela é “algo associado à violência”.

A decisão de não usar o termo é da X-Tudo, empresa contratada pela vice-presidência de comunicação do Flamengo. Após a repercussão negativa, o clube recuou da decisão e emitiu uma nota em que diz que não é bem assim, mas acentua o preconceito.

Confira:

Há quanto tempo não se lia a palavra favela nos jornais do Grupo O Globo?

Certamente há muito tempo. Não somente nos jornais do referido grupo, como também na grande maioria dos veículos de comunicação e nos comunicados de empresas/instituições. Já tem tempo que favela não é mais uma palavra utilizada na comunicação institucional.

Estranhamente, neste sábado, o jornal Extra faz uma matéria sobre o Flamengo com a expressão “festa na favela” sendo apresentada num contexto parcial e tendencioso, numa clara tentativa de se criar um possível constrangimento com a torcida um dia antes da decisão do Campeonato Carioca.

Coincidentemente a mesma tentativa que foi feita pouco tempo antes da decisão da Taça Rio, quando se deu um enorme destaque à “demissão de um psicólogo“.

O porquê disto? Só o veículo para responder.

A matéria, ao pegar parte de uma conversa de profissionais do clube – que deveria ser restrita a eles – tenta passar a ideia que “existe um veto“ na utilização da expressão “festa na favela”. Não é verdade.

O fato é que um canto alegre e contagiante da torcida não necessariamente precisa ser a melhor maneira para a comunicação da Instituição.

Não usá-la regularmente na comunicação Institucional não significa nenhum veto ao termo ou desvalorização de uma tradição da torcida. Esta é a verdade. Nada mais que isto.

Na realidade mais que palavras ou promessas, o Flamengo de hoje se mostra cada vez mais forte, inclusivo, praticando preços altamente populares, trazendo o seu torcedor de volta ao Maracanã e tendo, disparado, os maiores públicos do futebol brasileiro neste ano.

Para a tristeza daqueles que apostaram no contrário.

Globo News faz ‘jornalismo espírita’ na cobertura da crise na Venezuela

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Por Moisés Mendes, em seu blog

A Globo News comete mais do que um erro, comete uma fraude jornalistica quando põe Ariel Palácios, de Buenos Aires, a falar da realidade na Venezuela.A Globo dá a entender que o correspondente tem uma melhor percepção dessa realidade, por alguma proximidade mediúnica. Não se trata de ter a melhor capacidade de análise, mas de observação da realidade, como tentou demonstrar agora há pouco, ao dizer que não há mais manifestações gigantes nas ruas porque muita gente foi embora do país.
Já escrevi a respeito desse truque da Globo News, mas agora foi brabo ouvir o sujeito dizer que falta gente nos protestos contra Maduro porque todo mundo fugiu para o Brasil e a Colômbia.
Ariel Palacios só não estaria mais distante da Venezuela do que o correspondente da Globo na Patagônia, se a Globo tivesse correspondente lá. Nenhum correspondente da América Latina está mais longe de Caracas do que o de Buenos Aires. Nem o da Cidade do México.
É enganador é só contribui para mais desinformação dar a entender que, por estar em Buenos Aires, Ariel Palácios está perto da realidade de Caracas. Não está. Ele está a mais de 5 mil quilômetros, em linha reta, da capital da Venezuela.
Caracas está numa ponta do mapa, e Palacios está na outra. Por isso, ele sabe tanto da vida real na Venezuela quanto todos nós sabemos por informações que qualquer um pode acessar. Palacios está muito distante da vida real na Venezuela.
O correspondente talvez opine sobre a situação do país por sua contribuição ao pensamento mais básico e mais reacionário. Mas o telespectador não pode ser enganado. Ariel Palácios está tão perto de Caracas quanto eu estou da Groenlândia.

.x.x.x.x.

Moisés Mendes é jornalista desde os 17 anos. Em 1970, começou como repórter (e depois foi editor) da Gazeta de Alegrete, jornal criado em 1882 por Luís de Freitas Vale, o Barão do Ibirocay, com a missão de combater a escravidão.

Técnico divulga lista de relacionados, mas não anuncia a escalação do Leão

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Depois de realizar um treino aberto na manhã deste sábado (20), no estádio Evandro Almeida, confraternizando com o torcedor azulino, o técnico Márcio Fernandes divulgou a lista de relacionados para o jogo deste domingo (21) contra o Independente, decidindo o título estadual.

A relação de jogadores traz as ausências de Edno e Echeverría, já desligados do clube, e de Deivid Batista, atacante que parece fora dos planos de Fernandes.

Apesar de divulgar os relacionados, o técnico não anunciou a escalação, fazendo mistério para o jogo no qual o Remo precisará vencer por dois gols de diferença. A provável formação é: Vinícius; Geovane, Kevem, Marcão e Jansen; Djalma, Yuri e Douglas Packer; Gustavo, Emerson Carioca e Alex Sandro. 

Goleiros: Vinícius, Evandro Gigante e Thiago

Zagueiros: Rafael Jensen, Fredson, Kevem e Marcão

Laterais: Ronaell e Geovane

Volantes: Djalma, Robson, Dedeco, Vacaria, Yuri, Pingo e Ramires

Meias: Diogo Sodré, Douglas Packer e Lailson

Atacantes: Alex Sandro, Gustavo, Mário Sérgio e Emerson Carioca.

Aluna de escola pública se recusa a cumprimentar Bolsonaro

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Uma menina se recusou a cumprimentar o presidente Jair Bolsonaro durante celebração de Páscoa, na última quarta-feira (17/4), no Palácio do Planalto. O próprio Bolsonaro divulgou um vídeo em sua conta no Twitter do momento em que cumprimenta crianças da Escola Classe 1 da Estrutural, região da periferia de Brasília, e uma delas se nega a estender a mão para ele.

Na imagem, Bolsonaro aparece ao lado da primeira-dama Michelle Bolsonaro. Ele sorri e pega algumas crianças no colo. Quando ele cumprimenta as crianças que estavam na última fila do grupo, a menina cruza os braços e faz sinal de negativo com a cabeça diante da investida do presidente.

Não é a primeira vez que um fotógrafo registra o momento em que um presidente não consegue cumprimentar uma criança. Em 1979, a menina Raquel Coelho Menezes de Souza, de quatro anos, se negou a cumprimentar o então presidente João Baptista Figueiredo durante uma parada cívico-militar no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte. A foto virou símbolo da resistência à ditadura militar.

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O passado é uma parada

Despedida firme e emocionada de Jorge Cúri do microfone da Rádio Globo, em 1984, após um Vasco x Botafogo, no Maracanã. A “Voz Padrão” do rádio elogiou seus patrocinadores e companheiros de trabalho, dedicando palavras ácidas e irônicas aos seus diretores. Encerra suas despedidas dizendo que foi tocaiado por dois de seus superiores. Infelizmente, Cúri morreu em dezembro de 1985, vítima de um acidente de carro em Caxambu (RJ).

Uma decisão em aberto

POR GERSON NOGUEIRA

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O Campeonato Paraense 2019 tem hoje a última chance de deixar uma impressão menos negativa. É claro que, por mais interessante que seja a decisão desta tarde, não conseguirá apagar a ruindade que predominou ao longo de três meses de disputa, com artilharia anêmica e jogos sofríveis. A coisa foi tão pífia este ano que o artilheiro da competição (Michel, do Paragominas) anotou apenas cinco gols.

Remo e Independente podem contribuir mostrando mais organização, buscando o ataque e se preocupando com a qualidade do jogo. A responsabilidade pela maneira de jogar e o desempenho dos finalistas está nas mãos dos técnicos Márcio Fernandes e Charles Guerreiro.

À frente de elencos pouco mais que razoáveis, os treinadores têm como grande desafio desfazer a péssima impressão deixada no primeiro jogo da final, decidido com um grotesco gol contra do zagueiro Marcão.

A final está em aberto. Com a vantagem do empate, o Independente tem a opção de adotar estratégia de espera, com cautela, o que não exclui a chance de propor o jogo também, sem cair na tentação de sofrer em seu próprio campo.

No Remo, onde Fernandes precisa desesperadamente fazer o ataque funcionar, a opção natural é um sistema 4-3-3 ou até mesmo o 3-4-3, com Emerson, Gustavo e Alex Sandro na linha ofensiva. O problema está na elaboração das jogadas no meio e na transição.

Douglas Packer, que estreou bem, caiu muito de rendimento nas últimas partidas. A ameaça de escalação de Diogo Sodré, cujo passe é o pior dos meio-campistas do Remo, é um ponto a considerar. Na ausência de Djalma, o garoto Lailson seria a melhor alternativa, pela capacidade de marcação e de movimentação junto à área.

Acima de tudo, para que consiga superar a boa zaga do Independente, o Remo precisará criar situações dentro da área ou arriscar chutes de média distância, coisas que não fez no domingo passado. Precisa, enfim, jogar bola, o que também deixou de mostrar no primeiro confronto.

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O advento do VAR e seus efeitos paralelos

Uma das piores consequências da instituição do VAR no futebol brasileiro é o jeito excessivamente respeitoso que as emissoras de TV adotam quando diante de lances analisados pelo árbitro de vídeo.

Cismam de retardar a exibição do replay, talvez preocupados em não sofrer acusação de interferência, o que é uma bobagem, visto que o árbitro está olhando as mesmas imagens no monitor.

Demorar a oferecer ao telespectador a chance de observar o lance constitui um cerceamento do direito à informação.

Nem entro no mérito da interferência – às vezes cruel, como naquele Manchester City x Tottenham – no andamento de um jogo, mas a adoção do sistema requer a urgente adaptação de todos os envolvidos.

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Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda a atração, a partir das 22h, na RBATV. Giuseppe Tommaso e este escriba de Baião participam como debatedores. Tudo sobre a decisão do Parazão, com a análise da grande final e cobertura da festa dos campeões. Sorteios de brindes para os telespectadores.

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Serviço de streaming começa a testar plataforma

A DAZN está convidando jornalistas e comunicadores para testar a sua plataforma de streaming de esportes gratuitamente. A Versão Beta dará acesso exclusivo a jogos ao vivo da Série A e da Ligue 1 antes do lançamento oficial do serviço no Brasil.

Serviço global de streaming de esportes, a DAZN começou na quarta-feira (17) a disponibilizar o teste de sua plataforma OTT antes do seu lançamento oficial no país.

Neste fim de semana, o serviço oferece atrações da Série A italiana e da Ligue 1 francesa, com as partidas entre Juventus x Fiorentina, Inter x Roma e PSG x Monaco.

Além disso, os convidados poderão acompanhar jogos exclusivos, do WTA de Tênis e provas da IndyCar. A DAZN continuará a disponibilizar alguns jogos com exclusividade em seus canais de Youtube e Facebook.

Será através da plataforma da DAZN que os torcedores da dupla Re-Pa poderão ter acesso aos jogos da Série C do Campeonato Brasileiro, em quantidade e horários ainda não definidos.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 21)

Após eliminação na Champions, Juve vence Fiorentina e conquista Italiano

A Juventus se redimiu neste sábado da melhor maneira possível após a eliminação para o Ajax nas quartas de final da Liga dos Campeões. Recebendo a Fiorentina no Allianz Stadium pela 33ª rodada do Campeonato Italiano, a Velha Senhora fez um primeiro tempo bastante ruim, porém, se recuperou na etapa complementar e acabou vencendo por 2 a 1, graças aos gols de Alex Sandro e Pozzela (contra). Melinkovic abriu o placar para os visitantes. Com o resultado, o time bianconeri se sagrou octacampeão nacional, uma vez que chegou aos 87 pontos e deu fim às chances de título do Napoli, vice-líder.

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Nesta temporada, restou à Juventus apenas o ‘Calcio’, como é chamado o Campeonato Italiano. Após caírem na Copa da Itália para a Atalanta e serem eliminados da Liga dos Campeões pelo Ajax, Cristiano Ronaldo e companhia tiveram de se contentar com o título nacional, algo que já se tornou rotina para os torcedores da Velha Senhora, mas não para o camisa 7 da equipe, que ergueu seu primeiro troféu pela Velha Senhora.

Restando cinco jogos para o fim do Italiano, a Juventus agora só terá a missão de cumprir rodada, uma vez que já não há mais qualquer objetivo a ser alcançado na temporada. Desta forma, atletas que não vêm recebendo tantas oportunidades do técnico Massimiliano Allegri, deverão ser acionados com mais frequência.

Trivial variado de um país dominado pelo engodo obscurantista

“Os indícios e provas que Moro pode ter combinado a perseguição e condenação do Lula com Bolsonaro e aliados, bem antes do que suponhamos, são muitos. Um dos mais claros é quando Bolsonaro foi a Curitiba no dia da condução coercitiva do Lula, isso foi bem antes da condenação”. Adriano Argolo

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“A República dos Procuradores é o próximo passo da direita. Bolsonaros e seus generais serão defenestrados em nome de uma pureza moral, cujo líder é . Que, alias, entrou na procuradoria pela janela. Pobre Brasil!”. José de Abreu

“A Lava Jato de Moro e Dallagnoll, parceira de Bolsonaro, já se acovarda e foge do Congresso como o capeta da Cruz. Mas terão de ir depor em uma CPI, debaixo de vara ou coercitivamente”. Rogério Correia

“Sério que a tal de Fernanda Venturini deu um livro pro Bolsoasno, ele abriu, viu que o livro não tinha figuras e devolveu. E ela achou fofo?”. Cristina Andrade

“Alan Garcia, inocente ou não -creio que mais inocente do que FHC na compra da reeleição- sobretudo deu um exemplo de dignidade com seu suicídio. Recusou a submissão às execuções sumárias pelos Juízes treinados pela CIA, para fulminar o Estado de Direito na América Latina”. Tarso Genro

“Flamengo proibiu a expressão ‘Festa na favela’ de suas redes sociais. Antigamente, o Flamengo era o time do povo, enquanto Fluminense, Botafogo e outros, da elite. O Flamengo da diretoria Coxinha é do elitismo brega retrógrado, na contramão da torcida”. Hildegard Angel

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Conselho que proferiu insultos racistas pede renúncia à diretoria do Santos

O conselheiro do Santos Adilson Durante Filho pediu renúncia neste sábado. A informação foi divulgada pelo Peixe por meio de nota oficial. Adilson teve um áudio racista vazado. A gravação foi feita há cerca de três anos, num grupo de amigos. Ele afirma que todos os pardos e mulatos não têm caráter.

“Sempre que tiver um pardo… O pardo o que que é? Não é aquele negão, mas também não é o branquinho. É o moreninho da cor dele. Esses caras, você tem que desconfiar de todos que você conhecer. Essa cor é uma mistura de uma raça que não tem caráter. É verdade (…) É verdade, isso é estudo. Todo pardo, mulato, tu tem que tomar cuidado. Não mulato tipo o P…(membro do grupo). O P… é tipo para índio, tipo chileno, essas porr*. Tô dizendo um mulato brasileiro. Os pardos brasileiros. São todos mau-caráter. Não tem um que não seja”, diz o áudio de quase um minuto.

Adilson Durante havia sido desligado do cargo de secretário-adjunto de Turismo na Prefeitura do Santos e do PSD anteriormente. Uma notícia-crime foi registrada contra ele. 

Veja a nota oficial do Santos abaixo:

Na manhã deste sábado, 20 de abril de 2019, o associado Adilson Durante Filho protocolou na secretaria do Egrégio Conselho Deliberativo o pedido de renúncia da função de conselheiro, triênio 2018/2020, e afastamento definitivo do quadro associativo do Clube.

Tristeza no céu

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Por Carlos Drummond de Andrade

No céu, também, há uma hora melancólica
Hora difícil em que a dúvida penetra as almas
Por que fiz o mundo?
Deus se pergunta e se responde: “Não sei”

Os anjos olham-no com reprovação e plumas caem
Todas as hipóteses
A graça, a eternidade, o amor, caem
São plumas

Outra pluma, o céu se desfaz
Tão manso, nenhum fragor denuncia
O momento entre tudo e nada
Ou seja, a tristeza de Deus

A intransparente transparência: Assange, Lula e Moro

Se os jornalistas são quem vive mais diretamente a selectividade da transparência, quem mais sofre as consequências dela é a qualidade da democracia e a credibilidade do dever de prestação de contas a que os governos democráticos estão obrigados. Por que é que a luta pela transparência se dirige a certos alvos políticos e não a outros? Por que é que as revelações nalguns casos são saudadas e produzem efeitos, enquanto noutros são impedidas e, se feitas, são ignoradas? Daí a necessidade de conhecer melhor os critérios que presidem à selectividade.

Claro que o outro lado da seletividade da transparência é a seletividade da luta contra a transparência. Talvez não soubéssemos das perturbadoras revelações da WikiLeaks em 2010 – vídeos militares sobre o assassinato em 2007, no Iraque, de civis desarmados, dois dos quais trabalhavam para a Reuters – se elas não fossem divulgadas amplamente pelos meios de comunicação de referência de todo o mundo.

Por que é que toda a sanha persecutória desabou sobre o fundador da WikiLeaks e não sobre esses meios, alguns dos quais ganharam muito dinheiro que nunca reverteu adequadamente para Assange? Porque é que nessa altura os editoriais do New York Times saudavam Assange como o campeão da liberdade de expressão e as revelações como o triunfo da democracia, e o editorial da semana passada considera a sua prisão como o triunfo da “rule of law“? Por que é que o governo do Equador protegeu “os direitos humanos de Assange durante seis anos e dez meses”, nas palavras do presidente Lenin Moreno, e o entregou repentina e informalmente, violando o direito internacional de asilo?

Será porque, segundo o New York Times, o novo empréstimo do FMI ao Equador no valor de cerca de quatro mil milhões de dólares teria sido aprovado pelos EUA sob a condição de o Equador entregar Julian Assange? Será porque a WikiLeaks revelou recentemente que Moreno poderia vir a ser acusado de corrupção em face de duas contas, tituladas pelo seu irmão, uma em Belize e outra no Panamá, onde alegadamente terão sido depositadas comissões ilegais?

Quanto à seletividade da luta pela transparência há que distinguir entre os que lutam a partir de fora do sistema político e os que lutam a partir de dentro. Quanto aos primeiros, a sua luta tem, em geral, um efeito democratizador porque denuncia o modo despótico, ilegal e impune como o poder formalmente democrático e legal se exerce na prática para neutralizar resistências ao seu exercício. No caso da WikiLeaks haverá que reconhecer que tem publicado informações que afetam governos e atores políticos de diferentes cores políticas, e este é talvez o seu maior pecado num mundo de rivalidades geopolíticas. A sorte da WikiLeaks mudou quando, em 2016, revelou as práticas ilegais que manipularam as eleições primárias no partido democrático dos EUA para que Hillary Clinton, e não Bernie Sanders, fosse o candidato presidencial, e mais ainda depois de ter mostrado que Hillary Clinton fora a principal responsável pela invasão da Líbia, uma atrocidade pela qual o povo líbio continua a sangrar. Pode objectar-se que a WikiLeaks se tem restringido, em geral, aos governos mais ou menos democráticos do dito mundo eurocêntrico ou nortecêntrico. É possível, mas também é verdade que as revelações que têm sido feitas para além desse mundo colhem muito pouca atenção dos mediadominantes.

A seletividade da luta por parte dos que dominam o sistema político é a que mais dano pode causar à democracia porque quem protagoniza a luta pode, se tiver êxito, aumentar por via não democrática o seu poder. O sistema jurídico-judiciário é hoje o instrumento privilegiado dessa luta. Assistimos nos últimos dias a tentativas desesperadas para justificar a revogação do asilo de Assange e a sua consequente prisão à luz do direito internacional e direito interno dos vários países envolvidos, mas a ninguém escapou que se tratou de um verniz legal para cobrir uma conveniência política ilegal, se não mesmo uma exigência por parte dos EUA.

Mas obviamente que o estudo de caso do abuso do direito para encobrir conveniências políticas internas e imperiais é a prisão do ex-presidente Lula da Silva. O executor desse abuso é Sérgio Moro, acusador, juiz em causa própria, ministro do governo que conquistou o poder graças à prisão de Lula da Silva.

Lula da Silva foi processado mediante sórdidos dislates processuais e a violação da hierarquia judicial, foi condenado por um crime que nunca foi provado, e mantido na prisão apesar de o processo não ter transitado em julgado. Daqui a 50 anos, se ainda houver democracia, este caso será estudado como exemplo de como a democracia pode ser destruída pelo exercício abusivo do sistema judicial.

Este é também o caso que melhor ilustra a falta de transparência na seletividade da luta pela transparência. Não é preciso insistir que a prática de promiscuidade entre o poder econômico e o poder político vem de longe no Brasil e que cobre todo o espectro político. Nem tão pouco que o ex-presidente Michel Temer pôde terminar o mandato para o qual não fora eleito apesar dos desconchavos financeiros em que alegadamente teria estado envolvido.

O importante é saber que a prisão de Lula da Silva foi fundamental para eleger um governo que entregasse os recursos naturais às empresas multinacionais, privatizasse o sistema de pensões, reduzisse ao máximo as políticas sociais e acabasse com a tradicional autonomia da política internacional do Brasil e se rendesse a um alinhamento incondicional com os EUA em tempos de rivalidade geopolítica com a China.

Objetivamente, quem mais beneficia com estas medidas são os EUA. Não admira que interesses norte-americanos se tenham envolvido tanto nas últimas eleições gerais. Também é sabido que as informações que serviram de base à investigação da Operação Lava-Jato resultaram de uma íntima colaboração com o Departamento de Justiça dos EUA. Mas talvez seja surpreendente a rapidez com que, neste caso, o feitiço se pode virar contra o feiticeiro.

A WikiLeaks acaba de revelar que Sérgio Moro foi um dos magistrados treinados nos EUA para a chamada “luta contra o terrorismo”. Tratou-se de um treino orientado para o uso musculado e manipulativo das instituições jurídicas e judiciárias existentes e para o recurso a inovações processuais, como a delação premiada, com o objectivo de obter condenações rápidas e drásticas. Foi essa formação que ensinou os juristas a tratar alguns cidadãos como inimigos e não como adversários, isto é, como seres privados dos direitos e das garantias constitucionais e processuais e dos direitos humanos supostamente universais.

O conceito de inimigo interno, originalmente desenvolvido pela jurisprudência nazi, visou precisamente criar uma licença para condenar com uma lógica de estado de excepção, apesar de exercida em suposta normalidade democrática e constitucional. Moro foi assim escolhido para ser o malabarista jurídico-político ao serviço de causas que não podem ser sufragadas democraticamente. O que une Assange, Lula e Moro é o serem peões do mesmo sistema de poder imperial, Assange e Lula, enquanto vítimas, Moro enquanto carrasco útil e por isso descartável quando tiver cumprido a sua missão ou quando, por qualquer motivo, se transformar num obstáculo a que a missão seja cumprida.

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