Combate às drogas: o exemplo da Islândia (3)

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Por Emma Young,  no El País

Depois de nosso passeio pelo parque Laugardalur, Gudberg Jónsson nos convida a voltar para sua casa. Do lado de fora, no jardim, seus dois filhos mais velhos – Jón Konrád, de 21 anos, e Birgir Ísar, de 15 –, falam comigo sobre álcool e cigarro. Jón bebe álcool, mas Birgir diz não conhecer ninguém em seu colégio que beba ou fume. Também falamos das aulas de futebol. Birgir treina cinco ou seis vezes por semana; Jón, que cursa o primeiro ano de Administração de Empresas na Universidade da Islândia, pratica cinco vezes. Os dois começaram a jogar bola como atividade extra-escolar quando tinham seis anos. “Temos muitos instrumentos em casa”, diz o pai. “Tentamos fazer com que gostassem de música. Antes tínhamos um cavalo. Minha mulher adora montar, mas não deu certo. No final, escolheram o futebol.” Alguma vez acharam que o treino era excessivo? Foi preciso pressioná-los para que treinassem quando teriam preferido fazer outra coisa? “Não, a gente se divertia jogando futebol”, responde Birgir. Jón completa: “Começamos a jogar e nos acostumamos, então continuamos jogando.”

Embora Gudberg e a esposa não planejem de forma consciente um determinado número de horas semanais com seus três filhos, tentam levá-los regularmente cinemas, teatros, restaurantes, trilhas pelas montanhas e pesca. Em setembro, quando na Islândia as ovelhas descem das terras altas, fazem até excursões de pastoreio em família.

Pode ser que Jón e Birgir gostem mais de jogar futebol que as pessoas em geral, e que tenham mais talento (Jón recebeu oferta de uma bolsa de futebol na Universidade Metropolitana do Estado de Denver e, poucas semanas depois de nosso encontro, Birgir foi convocado para a seleção nacional sub-17). No entanto, será que um aumento significativo da porcentagem de jovens que participam de atividades esportivas pelo menos quatro vezes por semana teria outras vantagens, além de fazer os meninos crescerem mais saudáveis?

Isso pode ter relação, por exemplo, com a contundente derrota da Inglaterra para a Islândia na Eurocopa de 2016? Quando fazemos essa pergunta a

Inga Dóra Sigfúsdóttir, eleita Mulher do Ano da Islândia 2016, ela responde com um sorriso: “Também podemos citar os sucessos na música, como o Of Monsters and Men [grupo independente de folk-pop de Reykjavik]. São jovens que decidiram fazer atividades organizadas. Algumas pessoas me agradeceram”, reconhece, piscando um olho.

Nos demais países, as cidades que participam do Juventude na Europa relatam outros resultados positivos. Em Bucareste, por exemplo, caíram os índices de suicídios e consumo de álcool e drogas entre os adolescentes. Em Kaunas, o número de menores que cometem crimes foi reduzido em um terço entre 2014 e 2015.

Como afirma Inga Dóra, “os estudos nos mostraram que tínhamos de criar circunstâncias nas quais os menores pudessem levar uma vida saudável, sem precisar de consumir drogas porque a vida é divertida. Os meninos têm muitas coisas para fazer e contam com o apoio de pais que passam tempo com eles.”

Em suma, as mensagens – embora não necessariamente os métodos – são simples. E quando vê os resultados, Harvey Milkman pensa nos EUA, seu país. Será que o modelo Juventude na Islândia funcionaria por lá?

E os Estados Unidos?

São 325 milhões de habitantes frente a 330.000; 33.000 bandas em vez de praticamente nenhuma; e ao redor de 1,3 milhão de jovens sem teto contra meia dúzia.

É claro que os EUA enfrentam dificuldades que não existem na Finlândia. Mas os dados de outras partes da Europa, incluindo cidades como Bucareste, com graves problemas sociais e uma pobreza relativa, mostram que o modelo islandês pode funcionar em culturas muito diferentes, afirma Milkman. E os EUA precisam com urgência de um programa assim. O consumo de álcool entre menores de idade representa 11% do total consumido no país. O abuso de álcool provoca mais de 4.300 mortes por ano entre os menores de 21 anos.

No entanto, é difícil que o país implemente um programa nacional similar ao Juventude na Islândia. Um dos principais obstáculos é que, enquanto no pequeno país europeu existe um compromisso de longo prazo com o projeto nacional, nos EUA os programas de saúde comunitários costumam ser financiados com subvenções de curta duração. Milkman aprendeu, por experiência própria, que, mesmo quando recebem reconhecimento geral, os melhores programas para jovens nem sempre são ampliados ou mesmo mantidos. “Com o Projeto Autodescoberta, parecia que tínhamos o melhor programa do mundo”, recorda. “A Casa Branca me convidou duas vezes. O projeto ganhou prêmios nacionais. Achávamos que seria reproduzido em todas as cidades, mas isso não aconteceu.”

Segundo ele, o motivo é que não se pode receitar um modelo genérico a todas as comunidades, pois nem todas têm os mesmos recursos. Qualquer iniciativa que pretenda dar aos adolescentes dos EUA as mesmas oportunidades de participar dos tipos de atividades habituais na Islândia, ajudando-os assim a se afastar do álcool e das drogas, terá que se basear no que já existe. “Você depende dos recursos da comunidade”, reconhece. Seu colega Álfgeir Kristjánsson está introduzindo as ideias islandesas na Virgínia Ocidental. Alguns colégios do estado já distribuem questionários aos alunos, e um coordenador ajudará a informar os resultados aos pais e a qualquer pessoa que possa utilizá-los para ajudar os garotos. Mesmo assim, o pesquisador admite que provavelmente será difícil obter os mesmos resultados da Islândia.

A visão de curto prazo também é um obstáculo para a eficácia das estratégias de prevenção no Reino Unido. É o que adverte Michael O’Toole, diretor-executivo da Mentor, uma organização sem fins de lucro voltada à redução do consumo de drogas e álcool entre crianças e jovens. Nesse país tampouco existe um programa de prevenção de dependências coordenado em âmbito nacional. Em geral, o assunto é deixado nas mãos das autoridades locais ou dos centros de ensino. Assim, somente são oferecidas aos meninos informações sobre os perigos das drogas e do álcool, uma estratégia que O’Toole também reconhece que não funciona.

Reforçaram-se os vínculos entre os pais e os centros de ensino, mediante organizações de mães e pais, que deviam ser criadas por lei em todos os centros, juntamente com conselhos escolares com representação dos pais. Também foi pedido que os pais comparecessem às palestras sobre a importância de passar muito tempo com os filhos, em vez de dedicar a eles “tempo de qualidade” esporadicamente

O diretor da Mentor é um forte defensor do protagonismo que o modelo islandês confere à cooperação entre os pais, as escolas e a comunidade para ajudar a dar apoio aos adolescentes, e à implicação dos pais ou tutores na vida dos jovens. Melhorar a atenção poderia ajudar em muitos sentidos, diz ele. Inclusive quando se trata somente de álcool e cigarro, há enorme quantidade de evidências demonstrando que, quanto mais velho for o menino na hora de começar a beber ou fumar, melhor será sua saúde ao longo da vida.

No Reino Unido, contudo, nem todas as estratégias são aceitáveis. O “toque de recolher” infantil é uma delas. Outra, certamente, são as rondas de pais pela vizinhança para identificar garotos que não respeitam as normas. Além disso, um teste experimental realizado em Brighton pela Mentor, que incluía convidar os pais para participar de oficinas nas escolas, descobriu que era difícil conseguir seu comparecimento.

O receio das pessoas e a recusa a se comprometerem serão dificuldades onde o método islandês for proposto, afirma Milkman, e afetam a questão da divisão de responsabilidade entre os Estados e os cidadãos. “Quando controle você quer que o Governo tenha sobre o que acontece com os seus filhos? É excessivo que ele tenha ingerência na forma como as pessoas vivem?

Na Islândia, a relação entre a população e o estado permitiu que um eficaz programa nacional reduzisse as taxas de abuso de cigarro e álcool entre os adolescentes e, de quebra, unisse mais as famílias e promovesse a saúde dos jovens em todos os sentidos. Será que nenhum outro país decidirá que esses benefícios também têm seus custos?

Marin das Medalhas pega pena de 4 anos de prisão, multa e confisco da fortuna

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O ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de 2012 a 2015, José Maria Marin, foi sentenciado hoje (22) a quatro anos de prisão federal nos Estados Unidos por envolvimento em um escândalo de corrupção no futebol. O dirigente havia sido condenado em dezembro por seis acusações de crimes como corrupção e lavagem de dinheiro. Segundo a condenação da juíza Pamela Chen, Marin também deve pagar uma multa de US$ 1,2 milhão e ter US$ 3,3 milhões confiscados. O pedido da promotoria do Distrito Leste de Nova York havia sido de 10 anos de prisão.

O ex-dirigente da CBF cumpriu 13 meses de prisão, sendo cinco meses na Suíça e outros oito em uma penitenciária nos Estados Unidos. Na contagem não é descontado o período em que esteve em detenção domiciliar em seu apartamento, localizado em Nova York. Durante o julgamento, Marin, de 86 anos, se descontrolou e chorou copiosamente, obrigando a juíza Chen a interromper o julgamento por cerca de 10 minutos.

Marin foi um dos dirigentes da Fifa detidos no dia 27 de maio de 2015 em um hotel de luxo de Zurique pela polícia da Suíça, a pedido da justiça dos Estados Unidos. Depois de passar cinco meses em uma uma prisão suíça e ser extraditado aos Estados Unidos, pagou uma fiança de US$ 15 milhões e passou dois anos em prisão domiciliar, em seu apartamento na Trump Tower na Quinta Avenida de Nova York, de onde saía apenas duas vezes por semana para assistir à missa.

Marin foi preso imediatamente em Nova York após sua condenação, anunciada em 22 de dezembro de 2017. Após sete semanas de julgamento no tribunal do Brooklyn, um júri popular o considerou culpado de seis das sete acusações de associação criminosa, lavagem de dinheiro e fraude bancária por aceitar subornos ligadas a contratos da Copa Libertadores e da Copa América.

Durante o julgamento, a defensa o apresentou como um idoso sem poderes, a quem a presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) caiu no colo de surpresa em 2012, para preencher o espaço deixado pela inesperada renúncia do até então poderoso Ricardo Teixeira.

Combate às drogas: o exemplo da Islândia (2)

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Por Emma Young, no El País

Jón Sigfússon pede desculpa por chegar alguns minutos atrasado. “Recebi um telefonema por uma situação de crise.” Prefere não dizer onde, mas era uma entre as várias cidades do mundo inteiro que adotaram parcialmente as ideias do programa Juventude na Islândia.

O Juventude na Europa, dirigido por Jón, nasceu em 2006 após a apresentação dos já então extraordinários dados da Islândia numa das reuniões do Cidades Europeias contra as Drogas. “As pessoas nos perguntavam como conseguíamos”, recorda Sigfússon.

A participação no Juventude na Europa não se dá por iniciativa dos Governos nacionais; corresponde às Prefeituras. Oito municípios aderiram ao plano no primeiro ano. Hoje participam 35 cidades de 17 países. Em algumas, poucas escolas estão envolvidas; em outras, como Tarragona (Espanha), há 4.200 adolescentes de 15 anos engajados. O método é sempre igual. Jón e sua equipe falam com as autoridades locais e elaboram um questionário com as mesmas perguntas fundamentais utilizadas na Islândia, além de outras adaptadas ao lugar. Algumas cidades, por exemplo, têm registrado casos de problemas graves com as apostas pela internet, e as autoridades querem saber se isso está relacionado com outros comportamentos de risco.

Dois meses após a devolução do questionário à Islândia, a equipe já manda um relatório preliminar com os resultados, além de informações comparando-os com os de outras zonas participantes. “Sempre dizemos que, assim como as verduras, as informações têm que ser frescas”, brinca Jón. “Se você entregar os resultados depois de um ano, as pessoas te dirão que passou muito tempo e que as coisas talvez tenham mudado.” Além disso, os dados têm que ser locais para que os centros de ensino, os pais e as autoridades possam saber exatamente que problemas existem em quais regiões.

A equipe analisou 99.000 questionários de lugares tão distantes entre si como as ilhas Feroé, Malta e Romênia, assim como a Coreia do Sul e, mais recentemente, Nairóbi e Guiné-Bissau. Em linhas gerais, os resultados mostram que, no que se refere ao consumo de substâncias tóxicas entre os adolescentes, os mesmos fatores de proteção e de risco identificados na Islândia são válidos em todos os lugares. Mas há algumas diferenças. Em um lugar (um país “do Báltico”), a participação em esportes organizados foi um fator de risco. Uma pesquisa mais profunda revelou que isso acontecia porque os clubes eram dirigidos por jovens ex-militares viciados em anabolizantes, assim como em bebidas e cigarro. Neste caso, portanto, tratava-se de um problema concreto, imediato e local que deveria ser resolvido.

Jón e sua equipe oferecem assessoria e informações sobre as iniciativas que deram bons resultados na Islândia, mas cada comunidade decide o que fazer com base nos resultados. Algumas vezes, não fazem nada. Um país predominantemente muçulmano, que o pesquisador prefere não mencionar, rechaçou os dados porque revelavam um desagradável nível de consumo de álcool. Em outras cidades – como a que originou o telefonema de “crise” de Jón – estão abertas aos dados e têm dinheiro, mas Sigfússon observou que pode ser muito mais difícil assegurar e manter financiamento para as estratégias de prevenção de saúde do que para os tratamentos.

Nenhum outro país fez mudanças tão amplas quanto as da Islândia. Algum deles seguiu o exemplo da legislação para impedir que os adolescentes saiam de noite? Jón sorrie: “Até a Suécia ri dessa medida, chamando-a de ‘Toque de recolher’ infantil.”

Ao longo dos últimos 20 anos, as taxas de consumo de álcool e drogas entre os adolescentes melhorou em termos gerais, embora em nenhum lugar isso tenha acontecido de forma tão radical quanto na Islândia. E as causas dos avanços nem sempre têm a ver com as estratégias de fomento ao bem-estar dos jovens. No Reino Unido, por exemplo, o fato de eles passarem mais tempo em casa relacionando-se pela Internet, em vez de cara a cara, poderia ser um dos principais motivos da redução do consumo de álcool.

Mas Kaunas, na Lituânia, é um exemplo do que se pode conseguir por meio da intervenção ativa. Desde 2006, a cidade distribuiu os questionários em cinco ocasiões. E as escolas, pais, agências de saúde, igrejas, polícia e serviços sociais reuniram esforços para tentar melhorar a qualidade de vida dos meninos e frear o consumo de substâncias tóxicas. Por exemplo, os pais recebem entre oito e nove sessões gratuitas de orientação parental por ano. Um programa novo facilita um financiamento adicional às instituições públicas e ONGs que trabalham pela melhora da saúde mental e a gestão do estresse. Em 2015, a cidade começou a oferecer atividades esportivas gratuitas nas segundas, quartas e sextas-feiras. Agora planeja implementar um serviço de transporte também grátis para as famílias de baixa renda, a fim de contribuir para que os meninos que vivem longe dos estabelecimentos possam participar.

Entre 2006 e 2014, o número de jovens de 15 e 16 anos de Kaunas que declararam ter se embriagado nos 30 dias anteriores caiu cerca de 25%, e os dos que fumavam diariamente foi reduzido em mais de 30%.

No momento, a participação no Juventude na Europa não é sistemática, e a equipe da Islândia é pequena. Jón gostaria que existisse um organismo centralizado com seus próprios fundos específicos para promover a expansão do plano. “Embora nos dediquemos a isso há 10 anos, não é nossa principal ocupação. Gostaríamos que alguém imitasse e mantivesse a iniciativa em toda a Europa”, afirma. “E por que ficar restritos à Europa?” .

Combate às drogas: o exemplo da Islândia (1)

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Por Emma Young, no El País

Falta pouco para as 15h de uma ensolarada tarde de sexta-feira, e o parque de Laugardalur, perto do centro de Reykjavik, está praticamente deserto. De vez em quando, um adulto passa empurrando um carrinho de bebê. Mas, se os jardins estão rodeados de casas e edifícios residenciais, e os meninos já saíram do colégio, onde estão as crianças?

Sou acompanhada em meu passeio por Gudberg Jónsson, um psicólogo islandês, e Harvey Milkman, professor de psicologia norte-americano que leciona na Universidade de Reykjavik durante uma parte do curso. Há 20 anos, conta Gudberg, os adolescentes islandeses estavam entre os que mais bebiam na Europa. “Nas noites de sexta, você não podia andar pelas ruas do centro de Reykjavik porque não se sentia seguro”, diz Milkman. “Havia uma multidão de adolescentes se embebedando diante de todos.” Chegamos perto de um grande edifício. “E aqui temos a pista de patinagem coberta”, informa Gudberg.

Não há jovens passando a tarde no parque neste momento, explica Gudberg, porque eles se encontram nas instalações fazendo atividades extra-escolares ou em clubes de música, dança e arte. Talvez também tenham saído com os pais.

A Islândia ocupa hoje o primeiro lugar no ranking europeu sobre adolescentes com um estilo de vida saudável. A taxa de meninos de 15 e 16 anos que consumiram grande quantidade de álcool no último mês caiu de 42% em 1998 para 5% em 2016. Já o índice dos que haviam consumido cannabis alguma vez passou de 17% para 7%, e o de fumantes diários de cigarro despencou de 23% para apenas 3%.

O país conseguiu mudar a tendência por uma via ao mesmo tempo radical e empírica, mas se baseou, em grande medida, no que se poderia denominar de “senso comum forçado”. “É o estudo mais extraordinariamente intenso e profundo que já vi sobre o estresse na vida dos adolescentes”, elogia Milkman. “Estou muito bem impressionado com seu funcionamento.” Se fosse adotado em outros países, diz ele, o modelo islandês poderia ser benéfico para o bem-estar psicológico e físico geral de milhões de jovens. Isso sem falar dos orçamentos dos organismos de saúde e da sociedade como um todo. Um argumento que não pode ser ignorado.

Estive no olho do furacão da revolução das drogas”, diz Milkman, enquanto tomamos um chá em seu apartamento em Reykjavik. No início dos anos setenta, quando trabalhava como residente no Hospital Psiquiátrico Bellevue de Nova York, “o LSD já estava na moda, e muita gente fumava maconha. Havia um grande interesse em saber por que as pessoas consumiam certas drogas.”

Em sua tese de doutorado, Milkman concluiu que as pessoas escolhiam a heroína ou as anfetaminas dependendo de como queriam lidar com o estresse. Os consumidores de heroína preferiam se insensibilizar, enquanto os usuários de anfetaminas optavam por enfrentar o estresse ativamente. Quando o trabalho foi publicado, Milkman entrou para um grupo de pesquisadores recrutados pelo Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA para que respondessem a determinadas perguntas. Entre elas, por que as pessoas começam a consumir drogas, por que continuam consumindo, quando atingem o limite do abuso, quando deixam de consumi-las e quando têm recaída. “Qualquer aluno da faculdade poderia responder à pergunta sobre por que começa: é que as drogas são fáceis de conseguir e os jovens gostam de riscos. Também é preciso levar em conta o isolamento e talvez a depressão”, afirma. “Mas, por que continuam consumindo? Por isso, passei à pergunta sobre o limite do abuso… e me iluminei. Vivi minha própria versão do ‘eureka!’. Os garotos podiam estar à beira da dependência inclusive antes de tomar a droga, pois o vício estava na maneira como enfrentavam seus problemas.”

Na Universidade Estatal Metropolitana de Denver, Milkman foi fundamental para o desenvolvimento da ideia de que a origem dos vícios estava na química cerebral. Os menores “combativos” procuravam ter “sensações intensas” e podiam consegui-las roubando calotas de carro, rádios e depois os próprios carros – ou através das drogas estimulantes. Claro que o álcool também altera a química cerebral. É um sedativo, mas primeiro seda o controle do cérebro, o que por sua vez pode suprimir as inibições e, em doses limitadas, reduzir a ansiedade.

As pessoas podem se tornar dependentes de bebida, carro, dinheiro, sexo, calorias, cocaína… de qualquer coisa”, diz Milkman. “A ideia da dependência comportamental se transformou no traço que nos caracteriza.

Dessa ideia nasceu outra. “Por que não organizar um movimento social baseado na embriaguez natural, em que as pessoas ‘sintam barato’ com a química de seu cérebro – porque me parece evidente que as pessoas desejam mudar seu estado de consciência – sem os efeitos prejudiciais das drogas?

Em 1992, sua equipe de Denver obteve uma subvenção de 1,2 milhão de dólares (3,7 milhões de reais) do Governo para criar o Projeto Autodescoberta, que oferecia aos adolescentes maneiras naturais de se embriagar, alternativas aos entorpecentes e ao crime. Os cientistas pediram aos professores, assim como às enfermeiras e aos terapeutas de centros escolares, que lhes enviassem alunos. E incluíram no estudo meninos de 14 anos que não achavam que precisavam de tratamento, mas que tinham problemas com as drogas ou com crimes leves.

Não lhes contamos que vinham para uma terapia, e sim que lhes ensinaríamos algo que quisessem aprender: música, arte, dança, hip hop ou artes marciais”, explica. A ideia era que as diferentes aulas pudessem provocar uma série de alterações em sua química cerebral e lhes proporcionassem o que necessitavam para enfrentar melhor a vida. Enquanto alguns talvez desejassem uma experiência para ajudar a reduzir a ansiedade, outros poderiam estar em busca de emoções fortes.

Ao mesmo tempo, os participantes receberam formação em capacidades para a vida, centrada em melhorar suas ideias sobre si mesmos, sua existência e sua maneira de interagir com os demais. “O princípio básico era que a educação sobre as drogas não funciona porque ninguém dá atenção a ela. Precisamos de capacidades básicas para levar essas informações à prática”, afirma Milkman. A equipe disse aos adolescentes que o programa duraria três meses. Alguns ficaram cinco anos.

Em 1991, Milkman foi convidado para falar sobre seu trabalho, suas descobertas e suas ideias na Islândia. Tornou-se assessor do primeiro centro residencial de tratamento de dependência de drogas para adolescentes do país, situado na cidade de Tindar. “A ideia [do centro] era oferecer aos meninos coisas melhores para fazer”, explica. Lá conheceu Gudberg, que na época estudava Psicologia e trabalhava como voluntário. Desde então, os dois são amigos íntimos.

No início, Milkman viajava regularmente à Islândia para dar conferências. Suas palestras e o centro de Tindar atraíram a atenção de Inga Dóra Sigfúsdóttir, uma jovem pesquisadora da Universidade da Islândia. Ela se perguntava o que aconteceria se fosse possível utilizar alternativas saudáveis às drogas e ao álcool dentro de um programa que não tivesse o objetivo de tratar jovens com problemas, mas, sobretudo, de conseguir que eles deixassem de beber e consumir drogas.

Você já experimentou álcool? Se a resposta for afirmativa, quando foi a última vez que bebeu? Ficou bêbado em alguma ocasião? Consumiu tabaco? Se sim, quanto você fuma? Quanto tempo passa com os seus pais? Tem uma relação estreita com eles? De que tipo de atividade você participa?

Em 1992, os meninos e meninas de 14, 15 e 16 anos de todos os centros de ensino da Islândia preencheram um questionário com perguntas como essas. O processo foi repetido em 1995 e em 1997.

Os resultados da pesquisa foram alarmantes. Em todo o país, quase 25% dos jovens fumavam diariamente, e mais de 40% havia se embriagado no mês anterior. Mas quando a equipe se aprofundou nos dados, identificou com precisão quais centros tinham mais problemas e quais tinham menos. A análise expôs as claras diferenças entre as vidas dos garotos que bebiam, fumavam e consumiam outras drogas e as vidas daqueles que não utilizavam essas substâncias. Também revelou que havia diversos fatores com um efeito decididamente protetor: a participação, três ou quarto vezes por semana, em atividades organizadas – sobretudo esportivas; o tempo que passavam com os pais durante a semana; a sensação de que os professores do colégio se preocupavam com eles; e não sair de noite.

Naquela época, houve inúmeras iniciativas e programas para a prevenção do consumo de drogas”, diz Inga Dóra, que foi pesquisadora ajudante nas pesquisas. “A maioria se baseava na educação.” As campanhas alertavam os meninos sobre os perigos da bebida e das drogas, mas, como Milkman observara nos EUA, os programas não davam resultado. “Queríamos propor um enfoque diferente.”

O prefeito de Reykjavik também estava interessado em testar algo novo, e muitos pais compartilhavam seu interesse, conta Jón Sigfússon, colega e irmão de Inga Dóra. As filhas de Jón eram pequenas na época, e ele entrou para o Centro Islandês de Pesquisa e Análise Social de Sigfúsdóttir em 1999, ano de sua fundação. “A situação estava ruim”, recorda. “Era evidente que precisávamos fazer alguma coisa.”

A partir dos dados da pesquisa e dos conhecimentos proporcionados por diversos estudos, entre eles o de Milkman, aos poucos foi introduzido um novo plano nacional, que recebeu o nome de Juventude na Islândia.

As leis mudaram. Penalizou-se a compra de tabaco por menores de 18 anos e a de álcool por menores de 20. Proibiu-se a publicidade das duas substâncias. Reforçaram-se os vínculos entre os pais e os centros de ensino, mediante organizações de mães e pais, que deviam ser criadas por lei em todos os centros, juntamente com conselhos escolares com representação dos pais. A estes também foi pedido que comparecessem às palestras sobre a importância de passar muito tempo com os filhos, em vez de dedicar a eles “tempo de qualidade” esporadicamente, assim como falar com eles de suas vidas, conhecer suas amizades e ressaltar a importância de ficar em casa de noite. Além disso, foi aprovada uma lei que proibia que os adolescentes de 13 a 16 anos saíssem depois das 22h no inverno e da meia-noite no verão. A norma continua vigente.

Casa e Escola, a entidade nacional que agrupa as organizações de mães e pais, estabeleceu acordos que os pais tinham de assinar. O conteúdo varia dependendo da faixa etária, e cada organização pode decidir o que deseja incluir. Para os meninos a partir de 13 anos, os responsáveis podem se comprometer a cumprir todas as recomendações e, por exemplo, a não permitir que seus filhos realizem festas sem a sua supervisão, a não comprar bebida alcoólica aos menores de idade e a estar atentos ao bem-estar dos garotos.

Esses acordos sensibilizam os pais e ajudam a reforçar sua autoridade em casa, afirma Hrefna Sigurjónsdóttir, diretora da Casa e Escola. “Desse modo, fica mais difícil para eles utilizar a velha desculpa de que os demais [garotos] têm permissão para fazer essas coisas.”

Também aumentou o financiamento estatal para clubes esportivos, musicais, artísticos, de dança e outras atividades para oferecer aos garotos maneiras alternativas de se sentirem bem fazendo parte de um grupo, sem terem que consumir álcool e drogas. Os filhos de famílias de baixa renda receberam ajuda para participar das atividades. Em Reykjavik, onde mora um terço da população do país, o chamado Cartão do Lazer dá direito a 35.000 coroas (cerca de 1.030 reais) anuais por filho para custear atividades recreativas.

Um fator decisivo é a continuidade das pesquisas. A cada ano, quase todos os garotos islandeses as preenchem. Isso significa que sempre há dados novos e confiáveis.

Entre 1997 e 2012, duplicou a proporção de adolescentes de 15 e 16 anos que declararam que “com frequência ou quase sempre” passavam tempo com os pais no fim de semana – a cifra passou de 23% para 46%. Já a dos que participavam de atividades esportivas organizadas pelo menos quatro vezes por semana subiu de 24% para 42%. Ao mesmo tempo, o consumo de cigarros, álcool e maconha nessa mesma faixa etária caiu drasticamente. “Embora não possamos apresentar esse fenômeno como uma relação causal – o que é um bom exemplo de por que às vezes é difícil vender aos cientistas os métodos de prevenção primária –, a tendência é muito clara”, observa

Kristjánsson, que trabalhou com os dados e hoje integra a Escola Universitária de Saúde Pública da Virgínia Ocidental, nos EUA. “Os fatores de proteção aumentaram e os de risco diminuíram – assim como o consumo de entorpecentes. Além disso, na Islândia essas variações ocorreram de modo mais coerente que em qualquer outro país da Europa.”

Corinthians e Cruzeiro decidirão semifinais da Copa BR em casa

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Corinthians e Cruzeiro decidirão as semifinais da Copa do Brasil em seus respectivos domínios. O sorteio realizado nesta quarta-feira (22), na sede da CBF, colocou o segundo jogo dos duelos em São Paulo e Belo Horizonte, respectivamente. Dessa maneira, o Flamengo fará o primeiro jogo contra o Corinthians em casa, e o Palmeiras receberá o Cruzeiro no primeiro duelo entre eles.

Os jogos acontecerão nos dias 12 e 26 de setembro. Todas as partidas serão disputadas às 21h45 (de Brasília). Os duelos serão afetados pelos amistosos da Seleção Brasileira. Dos quatro semifinalistas, apenas o Palmeiras não teve jogador convocado pelo técnico Tite.

Desafio do PT não é convencer, é informar e emocionar

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Por Fernando Brito, no Tijolaço

Quando se trabalha com planejamento de comunicação, define-se o objetivo e o desafio que se tem de enfrentar para alcançá-lo. Não é diferente com uma campanha político-eleitoral.

O objetivo da comunicação, no caso da campanha presidencial do PT, no caso provável da negação de seu direito legítimo de ser candidato, é informar que Fernando Haddad é o candidato de Lula e legitimá-lo nesta condição e na de personagem político qualificado para representar o ex-presidente.

Vejam que é diferente do que seria uma campanha em condições normais, onde o candidato tem como maior esforço o de convencer o eleitor de que seu projeto e suas vinculações políticas são as que interessam e motivam os cidadãos.

Lula já tem – e como tem! – isso e nenhuma pesquisa o coloca longe dos 40% do eleitorado.

Pode não ser- como não foi em todas as campanhas presidenciais desde 2002 – o suficiente para vencer em primeiro turno, embora o componente emocional da perseguição que sofreu e sofre e o desastre do governo Temer, que leva junto o PSDB façam diferença, desta vez, e o ex-presidente, pessoalmente, pudesse triunfar na primeira volta eleitoral.

Mas a realidade perversa que se desenha é a de sua exclusão e, a partir daí, o problema da comunicação é saber como transferirá a Fernando Haddad este patrimônio eleitoral que Lula construiu em seus governos.

Patrimônio, aliás, que não está expresso nos 39% que lhe dá o Datafolha, mas provavelmente agrega uma parcela dos que, convencidos de que Lula não será candidato, manifestam intenção de voto em outros candidatos com os quais simpatizam.

Daí que o núcleo da comunicação é, primeiro, informar que “Lula é Haddad” e, portanto e sem vacilações, “Haddad é Lula”.

Não é um candidato comum, que apresenta um elenco de propostas e medidas de sua formulação: a sua representação é a de “procurador” de Lula e só os tolos chamam isso de “poste”, porque acham que a política é ou deva ser um desfile de vaidades.

Isso não cola, porque não passa pela cabeça de ninguém que possa faltar capacidade pessoal para alguém que tem o currículo de Haddad.

O segundo ponto da campanha, o da emoção, é o grande diferencial da comunicação que a propaganda Lula-Haddad conterá e nem é preciso muito esforço para fazê-lo, pois há matéria-prima de sobra para isso.

Não apenas, como antes, a saga do retirante nordestino. Mas a memória recente do que foram seus governos, a inclusão que construiu a identidade com o povão e, daí, a fidelidade indestrutível, que sobreviveu a uma campanha de ódio e perseguição e sobrevive á própria prisão de Lula.

Neste aspecto, nada é tão importante quanto a decisão da ONU de que ele deveria poder ser candidato e falar livremente: dá legitimidade e razão compreensível à verdade de que sua exclusão das urnas é um processo político, muitíssimo mais que judicial.

Com estes ingredientes, penso que os dois minutos de TV, no programa eleitoral, e as inserções na programação normal, multiplicadas pelas redes sociais e com os acréscimos massificadores que elas permitem que se supere o bloqueio da imprensa e se supere o latifúndio televisivo – com certeza enfadonho e insípido – de Geraldo Alckmin.

Do lado de lá, dificilmente Bolsonaro e Marina Silva terão combustível para crescer com a TV, pelo pouquíssimo espaço que terão, em razão de seu isolamento político.

Quem espera alguma surpresa na campanha de “tiro curto” a que reduziram os horários eleitorais, espere-as do lado da campanha petista.

Morre Otavinho Frias, diretor de redação da Folha de SP

O diretor de redação do jornal Folha de S. Paulo, Otavio Frias Filho, morreu nesta terça-feira no Hospital Sírio-Libanês em São Paulo, vítima de um câncer originado no pâncreas, aos 61 anos. Frias Filho havia sido diagnosticado há um ano e meio e lutava contra a doença desde 2017.

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Formado em direito pela USP, o jornalista assumiu o comando do jornal em 1984, cargo que jamais deixaria de ocupar. Inspirado pelos jornais norte-americanos, o filho do então dono do grupo de mídia, Otavio Frias de Oliveira (1912-2007), implementou mudanças editoriais e gráficas para reformular a Folha: texto direto, a conduta dos jornalistas e a criação de uma seção para admitir falhas, o “Erramos”.

Em anos recentes, o jornal vinha sendo criticado por se alinhar como oposição contra os governos do PT. Outra controvérsia aconteceu em um editorial de 2009, no qual a Folha classificou de “ditabranda” o regime militar brasileiro, em comparação às ditaduras vizinhas. O texto provocou inúmeros protestos, tido com uma relativização dos crimes e violações de direitos humanos do período.

Ainda em relação aos governos do PT, outro episódio envolve a presidenta Dilma Rousseff. Em abril de 2009, o jornal publicou uma suposta ficha criminal de Dilma, com acusações de diversos crimes, entre eles terrorismo e planejamento de assassinato. Na edição de 25 de abril daquele ano, o jornal fez uma errata, admitindo que a autenticidade do documento não era comprovada.

Otávio Frias Filho também disparou uma de suas provocações contra o presidente Lula: em almoço oferecido ao então presidenciável pelo PT em 2002, Otavinho perguntou ao ex-metalúrgico “como ele pretendia ser presidente da República sem saber falar inglês”. Ricardo Kotscho, então assessor de imprensa de Lula, relembra que o petista engoliu em seco e apesar da incredulidade, “deu uma resposta até tranquila diante daquela situação constrangedora”.

Kotscho recorda que o tom das perguntas seguiu hostil em relação ao convidado. Alguém perguntou a Lula como seria se aliar a Maluf – no entanto, não havia aliança entre o PP e o PT para o governo do estado de São Paulo. Foi a gota d´água. Lula não respondeu; levantou-se, dirigiu-se a “seu” Frias e comunicou: “O senhor me desculpe, mas eu não posso mais ficar aqui. Vou embora. Não posso aceitar isso em nome da minha dignidade”.

Frias levantou-se também. Antes de sair, Lula ainda disse a Otavinho, o único que permaneceu na sala: “Eu não tenho culpa se você está nervoso porque o teu candidato vai mal nas pesquisas”. Para ele, a Folha estava apoiando José Serra. Pegando no braço do candidato, “seu” Frias o acompanhou até o elevador e depois até o carro, no estacionamento: “Nunca tinha acontecido isso antes na nossa casa”, lamentou o diretor do jornal”, conforme relembra Kotscho.

Nos anos 90, a Folha se viu com um adversário no Planalto: Fernando Collor de Mello foi o primeiro Presidente a processar um órgão de imprensa durante o mandato.  Collor processou três jornalistas, além do próprio Otávio por uma nota publicada no Painel Econômico. Acusava-os de calúnia.

Meses antes, em episódio patético, a Receita e a Polícia Federal foram à redação da Folha supostamente fiscalizar se o jornal estava emitindo suas faturas na nova moeda, o cruzeiro. Sem se intimidar, Otávio respondeu a Collor em carta na primeira página do jornal: disse que o processo na Justiça era apenas “a ponta visível de um iceberg de ataques, discriminações, ameaças e violência contra [o] jornal” e que o Presidente havia mobilizado “todo o aparelho do Estado” contra a Folha.

Deixa Fernanda Diamant, editora da revista literária Quatro Cinco Um, com quem teve as filhas Miranda e Emilia, e os irmãos Maria Helena, médica, Luiz, presidente do Grupo Folha, e Maria Cristina, editora da coluna Mercado Aberto. O jornal deverá ser dirigido por sua irmã, Maria Cristina Frias. (Da Revista Forum)

De jovem impetuoso a bilionário reacionário

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Por Mauro Lopes

Na redação da Folha, tratávamos Otavio Frias Filho de três maneiras: nas conversas entre nós, jornalistas, ele era “Otavinho”; por escrito, especialmente nos textos de circulação interna que podiam ser lidos por ele, “OFF”; uma maneira que se considerava elegante e esperta de se referir ao dono de um jornal, ainda mais um jornal revolucionário, não no sentido político, mas editorial – off the records é uma expressão do jargão jornalístico que designa a informação apurada e publicada sem que se revele a fonte; no diálogo direto com ele, Otavio e, para os que não gozavam de uma relação mais íntima, sempre um diálogo formal, com um clima de tensão que Otavinho sempre criava ao redor.

Cheguei ao jornal numa data que não dá para esquecer, 24 de dezembro de 1986 – e trabalhei sem parar e sem folga até o início de 1987. Fiquei no jornal até maio de 1991, numa trajetória inesperada. De redator (uma função que sequer existe mais e era o “peão” da redação) a secretário de redação da sucursal de Brasília em 1988, integrante do time que cobriu as eleições de 1989 e, por fim, editor do Painel.

Convivi com “seu Frias” e o filho com alguma intensidade, especialmente como editor do Painel, por ser uma coluna de notas políticas sensíveis e exclusivas, e como responsável pela agenda dos famosos “almoços de sexta”, quando a redação reunia-se ao redor dos donos do jornal e um convidado ou convidada, desde presidente da República a ministros, parlamentares, intelectuais, gente “importante”.

No fim de 1986 o período culminante da revolução modernizadora que Otavinho havia liderado com seu Projeto Folha já havia passado. Era o tempo do império das normas erigidas no processo, condensadas no Manual de Redação. Mas ainda havia brasas do período mais incendiário, marcado sobretudo pela campanha das Diretas.

A redação era composta por algumas dezenas de ex-militantes do movimento estudantil da virada dos anos 1970/80, gente politizada e articulada, verdadeiros quadros que Otavinho (ou OFF) soube aproveitar. Tínhamos a sensação nítida de estarmos fazendo algo de muito importante, de estarmos “fazendo história”. Não era propriamente um “trabalho”; era mais uma “jornada”. A mesma sensação que temos hoje no 247.

Aos poucos a brasa apagou-se, o jornal acomodou-se, tornou-se mais e mais conservador, sem qualquer ambição de chacoalhar o ambiente do jornalismo.

A lógica do “business” impôs-se.

Otavio fez um percurso similar ao dos tucanos, por quem, mesmo com sua personalidade sisuda e pouco dado a expressões de emoção ou preferências, nutria simpatia e alguma identidade intelectual. Assim como FHC, Serra e outros que eram referências suas, Otavinho foi cada vez mais para a direita.

O jornal, que havia apoiado o golpe de 1964 e depois migrara até as Diretas já e à renovação do jornalismo brasileiro, apoiou decididamente o golpe de 2016 e tornou-se um dos líderes da campanha de ódio a Lula e ao PT.

Aos poucos, o jornalismo da revolução foi substituído por uma agenda ideológica. Na redação, a “jornada” virou fumaça e a Folha virou um emprego qualquer.

Nos últimos tempos, nem a Folha ou o UOL eram mais o importava para o grupo dos irmãos Frias. O negócio realmente relevante tornou-se a maquininha de fazer dinheiro, o PagSeguro, com o qual o grupo levantou bilhões de dólares em duas ofertas de ações na Bolsa de Nova York em 2018.

Jovem impetuoso dos anos 1970/80, aos poucos, Otavio tornou-se um bilionário reacionário.

Bate-papo no boteco virtual – Brasil x PSC

Campeonato Brasileiro da Série B 2018 – 22ª rodada

Brasil x Paissandu – estádio Bento Ribeiro, em Pelotas (RS), 19h15

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Na Rádio Clube, Guilherme Guerreiro narra, Carlos Castilho comenta. Reportagens – Valdo Souza, Dinho Menezes. Banco de Informações – Fábio Scerni