Morre Otavinho Frias, diretor de redação da Folha de SP

O diretor de redação do jornal Folha de S. Paulo, Otavio Frias Filho, morreu nesta terça-feira no Hospital Sírio-Libanês em São Paulo, vítima de um câncer originado no pâncreas, aos 61 anos. Frias Filho havia sido diagnosticado há um ano e meio e lutava contra a doença desde 2017.

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Formado em direito pela USP, o jornalista assumiu o comando do jornal em 1984, cargo que jamais deixaria de ocupar. Inspirado pelos jornais norte-americanos, o filho do então dono do grupo de mídia, Otavio Frias de Oliveira (1912-2007), implementou mudanças editoriais e gráficas para reformular a Folha: texto direto, a conduta dos jornalistas e a criação de uma seção para admitir falhas, o “Erramos”.

Em anos recentes, o jornal vinha sendo criticado por se alinhar como oposição contra os governos do PT. Outra controvérsia aconteceu em um editorial de 2009, no qual a Folha classificou de “ditabranda” o regime militar brasileiro, em comparação às ditaduras vizinhas. O texto provocou inúmeros protestos, tido com uma relativização dos crimes e violações de direitos humanos do período.

Ainda em relação aos governos do PT, outro episódio envolve a presidenta Dilma Rousseff. Em abril de 2009, o jornal publicou uma suposta ficha criminal de Dilma, com acusações de diversos crimes, entre eles terrorismo e planejamento de assassinato. Na edição de 25 de abril daquele ano, o jornal fez uma errata, admitindo que a autenticidade do documento não era comprovada.

Otávio Frias Filho também disparou uma de suas provocações contra o presidente Lula: em almoço oferecido ao então presidenciável pelo PT em 2002, Otavinho perguntou ao ex-metalúrgico “como ele pretendia ser presidente da República sem saber falar inglês”. Ricardo Kotscho, então assessor de imprensa de Lula, relembra que o petista engoliu em seco e apesar da incredulidade, “deu uma resposta até tranquila diante daquela situação constrangedora”.

Kotscho recorda que o tom das perguntas seguiu hostil em relação ao convidado. Alguém perguntou a Lula como seria se aliar a Maluf – no entanto, não havia aliança entre o PP e o PT para o governo do estado de São Paulo. Foi a gota d´água. Lula não respondeu; levantou-se, dirigiu-se a “seu” Frias e comunicou: “O senhor me desculpe, mas eu não posso mais ficar aqui. Vou embora. Não posso aceitar isso em nome da minha dignidade”.

Frias levantou-se também. Antes de sair, Lula ainda disse a Otavinho, o único que permaneceu na sala: “Eu não tenho culpa se você está nervoso porque o teu candidato vai mal nas pesquisas”. Para ele, a Folha estava apoiando José Serra. Pegando no braço do candidato, “seu” Frias o acompanhou até o elevador e depois até o carro, no estacionamento: “Nunca tinha acontecido isso antes na nossa casa”, lamentou o diretor do jornal”, conforme relembra Kotscho.

Nos anos 90, a Folha se viu com um adversário no Planalto: Fernando Collor de Mello foi o primeiro Presidente a processar um órgão de imprensa durante o mandato.  Collor processou três jornalistas, além do próprio Otávio por uma nota publicada no Painel Econômico. Acusava-os de calúnia.

Meses antes, em episódio patético, a Receita e a Polícia Federal foram à redação da Folha supostamente fiscalizar se o jornal estava emitindo suas faturas na nova moeda, o cruzeiro. Sem se intimidar, Otávio respondeu a Collor em carta na primeira página do jornal: disse que o processo na Justiça era apenas “a ponta visível de um iceberg de ataques, discriminações, ameaças e violência contra [o] jornal” e que o Presidente havia mobilizado “todo o aparelho do Estado” contra a Folha.

Deixa Fernanda Diamant, editora da revista literária Quatro Cinco Um, com quem teve as filhas Miranda e Emilia, e os irmãos Maria Helena, médica, Luiz, presidente do Grupo Folha, e Maria Cristina, editora da coluna Mercado Aberto. O jornal deverá ser dirigido por sua irmã, Maria Cristina Frias. (Da Revista Forum)