Minas de carvão, pobreza e tragédias pessoais: a saga de Charles Bronson

bronson-abre

Por André Barcinski – andrebarcinski.com.br 

Se os fãs conhecessem a história de vida de Charles Bronson, entenderiam por que ele ficou marcado por interpretar personagens tão durões no cinema: a vida do ator faz qualquer um de seus filmes parecer “Cinderela”. Nascido Charles Buchinsky em novembro de 1921, foi o 11º de 15 filhos de uma família lituana que trabalhava em minas de carvão na Pensilvânia (nordeste dos Estados Unidos).

Em 1974, Bronson deu uma entrevista – coisa rara, já que odiava falar sobre si mesmo – ao crítico de cinema Roger Ebert, em que lembrou a dureza de sua infância:

“Lembro que meu pai raspou nossas cabeças para evitar piolhos. Os tempos eram duros. Eu usava roupas que não cabiam mais em meus irmãos mais velhos. E porque as crianças mais velhas em minhas famílias eram meninas, eu era obrigado a usar as roupas delas. Lembro que fui para a escola de vestido. E minhas meias, quando eu chegava em casa, precisava emprestar para meu irmão trabalhar nas minas de carvão”.

Charles trabalhou dentro das minas por quatro anos, 16 horas por dia. Recebia um dólar por cada tonelada de carvão. A família morou – 17 pessoas – no porão da casa de outra família lituana, que tinha oito filhos. O pai de Charles, Valteris, morreu quando o menino tinha 14 anos. Charles cometeu furtos e chegou a ser preso por um curto período. Em casa, todas as crianças falavam lituano e russo, e Charles só aprendeu a falar inglês quando era adolescente.

Um de seus irmãos foi combater os nazistas na Segunda Guerra, e disse que preferia enfrentar bombas e granadas a descer mais uma vez naquela mina escura. O próprio Charles serviu na Força Aérea por três anos durante a Guerra. Foi ferido em combate e condecorado por bravura.

De volta aos Estados Unidos, trabalhou colhendo frutas em fazendas e numa padaria, até que resolveu tentar a sorte como ator: “Era o trabalho mais fácil que eu podia pensar em fazer”. Estreou no cinema no início dos anos 50, fazendo pontas em faroestes e filmes de guerra. Na mesma época, mudou o sobrenome para Bronson, para escapar da perseguição anticomunista do Macartismo.

Destacou-se no faroeste “Sete Homens e um Destino” (1960) e nos filmes de guerra “Fugindo do Inferno” (1963) e “Os Doze Condenados” (1967), mas só fez sucesso mesmo na Europa, em faroestes como “Era Uma Vez no Oeste” (1968), de Sergio Leone, e filmes de suspense como “O Passageiro da Chuva” (1970), de René Clément.

No início dos anos 70, Charles Bronson era um dos atores mais famosos do mundo, um astro na Europa e na Ásia. Nos Estados Unidos, no entanto, não tinha a mesma fama. Até que, em 1974, aos 53 anos, ganhou o papel de Paul Kersey, o arquiteto que se torna matador de bandidos em “Desejo de Matar”.

“Desejo de Matar” foi um sucesso de bilheteria, rendendo o que hoje equivaleria a 108 milhões de dólares, mas foi tão violentamente rechaçado pela crítica, que o considerou apologia à violência, que o produtor Dino De Laurentiis não quis fazer uma continuação. Hoje pouca gente lembra, mas entre o primeiro e o segundo “Desejo de Matar”, houve um intervalo de oito anos. E o segundo filme da série só aconteceu porque o original foi “redescoberto”.

charles-e-jill-641x1024

No início dos anos 1980, com a explosão do mercado de videocassetes nos Estados Unidos, “Desejo de Matar” tornou-se um filme dos mais procurados em videolocadoras. Isso levou dois produtores espertíssimos, os israelenses Menahem Golan e Yoram Globus, da produtora Cannon, a comprar os direitos da franquia e fazer outros quatro filmes da série, terminando em 1994, com o quinto “Desejo de Matar”, último filme de Charles Bronson no cinema.

Se a infância de Charles Bronson foi dura, os anos 90 foram os mais difíceis de sua vida. No fim de 1989, Charles e sua segunda esposa, a atriz Jill Ireland, perderam Jason, filho adotivo de Jill. Jason era viciado em heroína e cocaína, e morreu de ov

erdose em novembro de 1989.

Seis meses depois, a lindíssima e talentosa Jill Ireland, com quem Bronson era casado desde 1968 e tinha sete filhos, entre crianças de outros casamentos e adotadas, morreu de câncer. Em uma de suas últimas entrevistas, ela brincou com sua doença e os personagens violentos interpretados pelo marido: “Charlie não pode simplesmente pegar uma metralhadora e exterminar as células cancerígenas”.

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Belém, paraíso da impunidade

1526337257_927035_1526337505_noticia_normal_recorte1

Por Arthur Stabile e Maria Teresa Cruz – de São Paulo, no El País

A série de homicídios que atinge a região metropolitana de Belém, capital do Pará, desde o último final de semana de abril, reflete a ação de grupos de extermínio, muitas vezes formados por policiais militares, de acordo com especialistas ouvidos pela Ponte. A ação desses grupos acaba legitimando a atuação de milícias, que atualmente disputam o território com outros grupos criminosos, como a PGN (Primeira Guerrilha do Norte), facção local que é rival do PCC (Primeiro Comando da Capital).

Doutora em ciências sociais, a tenente-coronel da reserva da PM paraense, Cristiane do Socorro Loureiro Lima, explica que, quando morre um policial, automaticamente os homicídios crescem, pela ação ilegal de policiais que passam a agir como matadores. “Antes da cabo, tivemos uma semana com sequência de mortes pelo assassinato de um policial. Ouvi de um aluno policial dizendo que eles estão em uma caça e estão sendo caçados. E é essa sensação que se tem”, pondera. “Estamos entrando em um clima de pânico generalizado e da própria polícia. Tenho observado no discurso [de colegas da ativa] que existe um misto do medo com a vingança: o medo de morrer frente à necessidade de fazer algo. ‘É a gente ou eles’, é o que dizem”, analisa Cristiane.

Os corpos ‘matáveis’ dos bairros pobres

A onda de matança que atinge os corpos consideráveis “matáveis, pessoas que não vão falar muito por eles, normalmente em bairros mais pobres”, como afirma a tenente-coronel da reserva da PM paraense, Cristiane do Socorro Loureiro, tem gerado pânico e até mesmo a criação de alguns estigmas. Um deles é o carro prata. É uma coisa meio cega que escolhe aleatoriamente. “Aqui tem muito do carro prata, veículos que param e atiram. Um aluno disse que parou com seu carro perto de um bar e viu um monte de gente sair correndo. É o mito de que o carro prata chega e vai matar quem estiver aí. Carro prata significa morte agora e um toque de recorrer velado”, explica.

Sobre a atuação de policiais nos grupos de extermínio, Cristiane diz que alguns “saem não fardados, mascarados e executando. Não tem a investigação, mas a indicação de serem policiais. A própria secretaria já identificou parte de grupo com policiais da ativa, outros da reserva, outros com grupos criminais. Mas não se apurou ativamente a atuação delas sobre grau de organização”, criticou. Houve a discussão do envio da Força Nacional para tentar aplacar a situação, mas a possibilidade foi descartada.

O geógrafo e pesquisador da área de segurança e geografia urbana Aiala Colares concorda com Cristiane: a investigação falha do Estado não consegue acabar com as mortes. “Existe toda uma relação preconceituosa, de estigmatizar o morador da periferia, o preto, pobre que no final são o principal alvo dos grupos de extermínio. É uma higienização social e isso é terrível. A característica deles enquanto moradores da periferia faz com que se tornem culpados por um crime que não cometeram. A morte nesse caso passa a ter um fator político de poder. Quanto mais você mata, mais poder você demonstra ter”, explica Colares.

Traficantes X narcomilícias

Colares explica que, nos últimos meses, vem ocorrendo a intensificação de conflitos territoriais que envolvem o narcotráfico e as milícias. “A gente já sabe da presença do CV [Comando Vermelho] no Pará, que hoje vem dando ordem para que os policiais sejam expulsos da periferia, sejam executados para que o tráfico possa ocupar tudo. Ao mesmo tempo, há uma disputa pela milícia, que passou a querer se apropriar do tráfico, extorquindo traficante, executando. A gente já pode falar em narcomilícia atuando no Estado”, afirma.

O tráfico de drogas começa a atuar na periferia da grande Belém, nos anos 90, no contexto das chamadas gangues, de forma pulverizada, não organizada. Alguns dos bairros são Cabanagem, Terra Firme e Tapanã. A partir do momento que esses grupos costuram alianças com o Comando Vermelho, que já tinha uma estrutura, essas gangues vão se transformando em facções ou sendo absorvidas pelo próprio comando. O pesquisador aponta que, hoje, há pelo menos 9 grupos — entre facções criminosas e milícias — atuando no território. A aliança da FDN (Família do Norte) com o CV foi fundamental para o domínio completo da rota da cocaína Manaus-Pará e fez surgir uma nova facção local, especializada em assalto a banco e roubo de caixa eletrônico: a Primeira Guerrilha do Norte (PGN). Essa articulação em rede, basicamente, quer barrar a entrada do PCC (Primeiro Comando da Capital) no estado.

Aiala explica que as disputas passam pelo domínio do território por interesse econômico na “rota do pó”, que oferece vantagem aos parceiros, pelo custo operacional ser mais baixo do que a dominada pelo PCC, que comanda hoje rotas que passam pelo Paraguai, Mato Grosso e Bolívia. “O Pará acabou se tornando um importante nó na rota da cocaína do Comando Vermelho, que vem de Manaus e escoa, em grande parte, para o Sudeste do país”. Em 2014, o PCC chegou a Belém para fazer uma articulação com um grupo ligado ao tráfico de drogas em Terra Firme, na capital paraense. Mas a estratégia não vingou. “Quando se deflagra o conflito entre a FDN e PCC nos presídios, os grupos de tráfico de Belém acharam mais interessante se aproximar do CV porque a cocaína passa por Manaus e acaba sendo vantajoso em termos de custo”.

Os locais dos 13 crimes ocorridos nos dias 5 e 6 deste mês não foram especificados. Dos ataques anteriores, 41 aconteceram na capital Belém, nove em Ananindeua e um em Marituba, outro município que compõe a região metropolitana. A Polícia Civil de cada bairro ficará responsável pelas investigações dos homicídios ocorridos em suas áreas.

Em nota, a SEGUP afirma que a Divisão de Homicídios foi, inclusive, reforçada para agilizar o trabalho de apuração e elucidação dos crimes. A pasta, no entanto, não informou se há investigações específicas que apontem possíveis conexões entre as mortes.

Direto do Twitter

“Pesquisa sem Lula têm dois objetivos:

1- criar percepção de ausência: a tendência não é só votar em quem está bem colocado, mas sobretudo em quem está na lista

2- potencializar os demais candidatos: sem Lula ou sua indicação, seus votos são divididos entre os demais .

Fraude!”

Tiago Estéfano, no Twitter

Papa do “new journalism”, Tom Wolfe morre aos 87 anos

1393924334_608458_1393925171_sumario_normal

O escritor e jornalista Tom Wolfe, autor de A Fogueira das Vaidades (1987), morreu aos 87 anos, segundo informaram nesta terça-feira diversos veículos de comunicação norte-americano. O autor era considerado um dos pais do New Journalism (Novo Jornalismo ou jornalismo literário), corrente jornalística que usava elementos da literatura para narrar fatos reais, com técnicas narrativas próprias da ficção, mas sempre respeitando o rigor dos fatos, que teve como expoentes nomes como Gay Tales, Norman Mailer e Truman Capote.

Seu último romance, Sangue nas Veias (editora Rocco), foi lançado em outubro de 2012.

1393924334_608458_1396276895_noticia_normal

“Não quero minimizar meu trabalho literário, mas em primeiro lugar me considero jornalista. Quando as pessoas criticam meus romances por serem muito jornalísticos, eu lhes digo que não são o suficiente. É uma obrigação, embora poucos escritores considerem assim”.

Agora é Taison + 22

20180514140845_5af9c29d2cf05-1-1024x682

POR GERSON NOGUEIRA

Existe hoje um clube digno de admiração pela perturbadora frequência com que cede atletas para a seleção pentacampeã mundial. Tite definiria isso como “consistência de carreira” ou algo assim. Trata-se do surpreendente Shakhtar Donetsk, que tem conseguido marcar presença em todas as convocações da Seleção desde 2006.

É uma façanha e tanto para uma agremiação periférica sem maior destaque entre os grandes clubes da Europa. Pois dois jogadores do brioso clube ucraniano estão confirmados na lista dos 23 eleitos para a Copa da Rússia: Taison e Fred. Além deles, Douglas Costa, Fernandinho e Willian passaram por lá também.

Puxo o assunto apenas para pontuar a natureza movediça do poder que rege os negócios no mundo moderno. Como o Shakhtar não é nenhuma potência do esporte para merecer tamanha atenção dos técnicos da Seleção, é legítimo supor que há algo de mais significativo por trás de tudo isso.

Ontem, durante a entrevista de Tite, um repórter teve a picardia de indagar onde e quando havia começado o encanto dele por Taison, que surgiu no Internacional e depois tomou o rumo da Ucrânia.

Com a verborragia daquelas imersões em oficinas de coaching, o técnico embromou por uns três minutos até dizer que Taison foi chamado por ter uma carreira vitoriosa, com participações na Europe League.

Ora, adotando isso como critério, dúzias de outros brasileiros que passaram por essas competições mereciam ser lembrados também. Na real, a escolha vai muito além das estatísticas e retrospectos do jogador. E, pensando bem, Taison nem é o caso mais grave de escolhas estranhas para a Seleção em ano de Copa. Já vimos coisa pior.

É só puxar a lista histórica de estrupícios mais ou menos recentes. Mestre Telê (até ele) convocou Elzo. Zagallo se encantou com Paulo Sérgio. Felipão inventou Polga e Vampeta (2002) e Bernard (2014). Parreira chamou Viola e Josué. Mano Menezes caiu de amores por Huck. Dunga apostou em Grafitte. O próprio Tite já foi de Talisca e até Muralha…

É claro que o Shakhtar não tem culpa por ter caído na predileção dos funcionários da CBF, dos técnicos e clubes brasileiros. Parece que todos estão felizes – e, como pensava Poliana, felicidade é o que importa.

Na prática, a lista anunciada por Tite não pode ser observada pelo lado catastrófico. Fagner, Cássio, Taison e Fred estão tecnicamente abaixo de Fabinho, Grohe, Luan e Artur, mas convocação é principalmente um exercício de escolha pessoal do técnico. E é normal que seja assim.

Com o respaldo de ter evitado o desastre da eliminação do Brasil nas Eliminatórias, situação que se desenhava sob o comando de Dunga, Tite amealhou prestígio e se tornou imune a críticas. Técnico competente e aplicado, virou unanimidade nacional. Pode, portanto, fazer as coisas mais sem-noção que seguirá a receber aplausos entusiasmados.

Além disso, a cota de bizarrices na Seleção, com Taison à frente, não deve ser motivo de maiores apreensões. São jogadores chamados e raramente aproveitados. Receio mesmo deve-se ter é se, por necessidade, tiverem que entrar em campo. O carniceiro Fagner já mostrou inúmeras vezes seu despreparo, inclusive emocional, para encarar competições de alto nível.

Preocupação também deve haver com as escolhas para compor o time titular, a começar pelo goleiro. Alisson não é o melhor da posição, mas é o preferido de Taffarel, o preparador de goleiros. Seja o que Deus quiser. Do meio-campo em diante, o Brasil tem qualidade técnica suficiente para fazer uma grande Copa, apesar das esquisitices da lista do professor Tite. Se isso será suficiente para conquistar o título, aí já é outra história.

Sobre o pujante Shakhtar, persiste a dúvida sobre seu incrível sucesso na Seleção Brasileira. Talvez esteja na qualidade da água ou na velocidade do vento. Sabe Deus. Mistérios insondáveis.

—————————————————————————————–

Um comovente e involuntário tributo a Lazaroni

Ao explicar taticamente porque Taison pode ter funções polivalentes na Seleção, Tite, sem querer, homenageou Sebastião Lazaroni, mencionando “valências”, “dois terços de campo”, “verticalidade profunda” e “contundência de dribles”.

À luz da hermenêutica, tudo parece se encaixar, mas desconfio que nem o próprio Taison entendeu a gororoba verbal do professor.

E, por falar em Lazaroni, execrado pelo fracasso na Copa de 1990, por culpa de Maradona e Caniggia, penso que o estilo loroteiro pode empurrar o bom Tite para o mesmo destino do popular “Galgando parâmetros” caso não traga o hexa. A conferir.

——————————————————————————————

Convocação preserva o recorde alvinegro em Copas

Clube brasileiro que mais forneceu talentos para a Seleção Brasileira em disputa de mundiais, o Botafogo continuará soberano por mais quatro luas. Como o São Paulo, o mais direto concorrente, não teve nenhum atleta convocado – Rodrigo Caio perdeu a vaga para Geromel –, a Estrela Solitária segue absoluta.

São 47 convocações para Copas contra 46 do Tricolor do Morumbi. É claro que nisso aí está inclusa a portentosa participação no Mundial de 1962, único da história vencido por um clube! Só para avivar a memória dos infiéis, o Brasil bicampeão mundial era praticamente o Botafogo em campo: Nilton Santos, Didi, Zagallo, Amarildo e Mané Garrincha.

——————————————————————————————-

Leão precisa fechar mais as beiradas do campo

O Remo, revigorado pela importante vitória em João Pessoa, não pode fechar os olhos para questões pontuais que atrapalham o time. Depois de contratar um lateral direito (Nininho) para fazer sombra a Levy, precisa trazer um especialista para disputar posição com Esquerdinha, dado a apagões como no lance do gol do Botafogo.

(Coluna publicada no Bola desta terça-feira, 15)

A implacável Justiça subjetiva do Brasil

DaDg-jGW4AALFik

Por Carla Jiménez, no El País

Já se vai mais de um mês da prisão do ex-presidente Lula, peça central na luta anticorrupção encabeçada pela Justiça brasileira, e o sentimento geral da nação não parece ser exatamente a do conforto que se esperava de uma decisão dessa natureza, que prometia sinalizar a ladeira acima do Brasil em busca de um patamar mais ético. O encarceramento de Lula, no entanto, cristalizou uma realidade, questionada por boa parte dos brasileiros, que estão perdendo o fundamental para viver em sociedade: a confiança. As nuances ao redor de Paulo Vieira de Souza, mais conhecido como Paulo Preto, indicado como operador do PSDB, do ex-governador tucano Eduardo Azeredo e do outro emplumado, o pré-candidato Geraldo Alckmin, explicam por que a Justiça atual mais aumenta uma fenda no Brasil partido, em vez de entregar um alento de que tempos novos virão.

Desde que o petista chegou à prisão de Curitiba, esses nomes centrais do tucanato têm logrado se desviar da fúria jurídica que aplacou o ex-presidente Lula em pleno voo, fazendo o lema “Justiça para todos” flertar com a sensação de um indisfarçável teatro. A pesquisa CNT/MDA divulgada nesta segunda mostra bem isso, quando 90,3% dos brasileiros dizem que ela não é igual para todos. E por que chegamos a esse ponto? Porque não há mais verniz que dissimule algumas percepções. Nos labirintos jurídicos do Brasil, por exemplo, o ministro do STF Gilmar Mendesconcedeu habeas corpus na última sexta a Paulo Preto, que estava preso desde o dia 6 de abril. Nem a acusação de que ele mantém contas suspeitas na Suíça, de um aparente desvio de 7,7 milhões de reais de obras do Rodoanel, e o relato de que ameaçou uma das testemunhas do processo, foram suficientes para que Gilmar o detivesse.

Também na terra dos vazamentos de trechos de processo para a imprensa, e dos escrutínios venais do entorno do ex-presidente, o sigiloso processo de Geraldo Alckmin que seguiu para o Tribunal Regional Eleitoral, deixando a força tarefa da Lava Jato de São Paulo de mãos abanando, secou a garganta de muitos brasileiros crentes do “para todos”. São Paulo, principal centro econômico do país, por onde o dinheiro circula de fato. Haveria aqui terra fértil para corruptores que atuam em consonância com o poder público?

Já em Belo Horizonte, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais, uma corte de segunda instância, teve a missão de julgar também no mês de abril os recursos interpostos pela defesa do ex-governador Eduardo Azeredo, pivô do mensalão mineiro, de 1998, denunciado em 2007. Sua tentativa de questionar a sentença de 20 anos, dada em primeira instância, foi brecada no mês passado, por um placar apertado, de 3 a 2. Sua pena já havia sido confirmada no mesmo tribunal, mas por uma corte de três desembargadores, sob o placar de 2 a 1. A falta de unanimidade nesse julgamento abriu espaço para o tal recurso, os chamados embargos infringentes, votado no dia 24 de abril. Acusado de desviar 3,5 milhões de reais a título de caixa 2 ao superfaturar patrocínios a eventos esportivos com dinheiro de estatais mineiras, Azeredo viu seu processo demorar 11 anos para chegar às instâncias superiores, e duas décadas para responder pelo crime do qual é acusado.

Sem unanimidade sobre a sentença, o procurador de Minas Gerais Antônio Padova chegou a afirmar que se sentia constrangido de levar o ex-governador à prisão. Além da solidariedade de seus julgadores, Azeredo ainda ganhou um benefício extra no início deste mês. Sua defesa pediu que as notas taquigráficas do processo sejam anexadas para esclarecer detalhes da sentença, e com isso ele ganha tempo. Quanto tempo? Não se sabe. Mas se passar do dia 9 de setembro, quando ele completa 70 anos, o Brasil pode assistir a mais uma benevolência a seu favor. A partir dessa idade, os réus podem ter a pena reduzida.

Um salto para outra segunda instância, a de Porto Alegre, o Tribunal Regional Federal da Quarta Região, famoso TRF-4, revela que ali não houve discordâncias entre os seus integrantes ao analisar o processo de Lula. Ao contrário. Quando instados, em 24 de janeiro, a acolher a sentença dada pela primeira instância – a do juiz Sergio Moro, que condenou Lula a nove anos e meio de prisão pelo caso do tríplex do Guarujá –, os três desembargadores gaúchos concluíram, por unanimidade, que a pena deveria ser elevada a doze anos e um mês. Também por unanimidade derrubaram embargos solicitados pela defesa do ex-presidente. Prejuízo financeiro na sentença de Lula: 2,4 milhões de reais, que seria o custo do apartamento e das obras que seriam financiadas pela OAS, em troca de favores no caso Petrobras. Triplex cuja posse consta do nome da OAS na hora de ser leiloado. Placar apertado versus unanimidade em duas segundas instâncias.

Um levantamento da revista Época, feito com casos similares aos de Lula, mostrou que o tribunal gaúcho só teve unanimidade em 32% dos processos julgados dentro da Lava Jato. Mostrou, ainda, que a pena do ex-presidente foi a mais severa já aplicada por aquela corte, e também o tempo para julgamento de um preso. Foram seis meses e meio, quando, em média, eles levam 18 meses para julgar os casos da Lava Jato.

Vá lá, vale o peso do réu, que se lançou inclusive a candidato à presidência deste ano. Mas sob essa lente, por que a Justiça brasileira não olhou até agora com a mesma severidade e alerta outro candidato a ocupar o cargo de presidente, como Geraldo Alckmin? É inocente? Não tem uma vírgula fora do lugar? Nem no seu partido? Prove-se que este ou aquele partido são exemplares, para dar algum parâmetro do que é Justiça nos tempos surreais que o Brasil está vivendo. Porque com Lula preso, a urgência de provar que

Por ora, o único que se vê é que os fatos que hoje se impõem dão razão ao que era tratado como narrativa vitimista do PT. Afinal de contas, não se sabe qual régua a Justiça está utilizando para estabelecer o que é crime e o que não é neste Brasil novo em que Luana Piovani acredita. Logo após a prisão de Lula no dia 7 de abril, pesquisas apontaram um nó na opinião pública, que nada tem a ver com ideologia petista ou não petista. Muito embora tenha se destacado que uma maioria havia considerado a pena de Lula justa – 54%, segundo o Datafolha, contra 40% que não concordam e 6% que não sabem – a pesquisa CNT desta segunda, fala em 51% a favor. Há várias evidências de que os bem intencionados procuradores e ministros do Supremo em levar os colarinhos brancos para a cadeia estão tornando a Justiça menos confiável aos olhos dos brasileiros. Embora a ciência política mostre que 30% da população apoia Lula até debaixo d’água, outro levantamento do Ipsos havia mostrado que 73% dos entrevistados concordavam com a afirmação de que Lula estava sendo preso porque poderosos não queriam que ele concorresse.

A prisão de Lula, aliás, fez com que a população ficasse, ironicamente, até mais simpática à sua figura, e um pouco menos à da presidente do Supremo, Carmen Lucia, e à do juiz Sérgio Moro, como mostrou o recente levantamento da pesquisa Ipsos. A desaprovação a Lula caiu de 57% para 54%, e a de Carmen Lúcia e Moro subiu igualmente de 47% para 49%. Mas, não é preciso se perder em estatísticas. Basta conversar com pessoas que apoiam a Lava Jato e torciam pela prisão de Lula para verificar que muitos estão sentindo angústia e vergonha, até porque não se sentem confortáveis diante das feições de ‘terra de ninguém’ que o país vive agora. As surpreendentes buscas e apreensões, que não pouparam parentes do presidente, um escrutínio de presentes que recebeu durante seu governo, e a vergonhosa divulgação de áudios familiares sem conexão com os crimes, são memórias que martelam a Lava Jato e que, se naquela época já soavam fora de tom, hoje se mostram aberrações diante do andamento de outros casos.

Há, sim, uma sensação de fracasso e de engodo com os demais desdobramentos na seara política. O mais dramático ainda é o que se conquistou com toda esta caçada subjetiva. O desprezo pela democracia cresce, a ponto de praticamente metade do país enxergar com simpatia um golpe apoiado por militares, como demonstrou um levantamento do Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação: 47,8% apoiariam um golpe diante de um quadro de muita corrupção, contra 46,3% que não veem numa intervenção militar uma solução para nossos problemas.

A Lava Jato e o Supremo vivem hoje a estranha realidade de não responder ao que se espera da Justiça. A pesquisa da CNT/MDA mostra que 52,8% da população considera o Poder Judiciário  pouco confiável, e outros 36,8%, nada confiável. O conceito de Justiça conforta, liberta, e pacifica uma sociedade. A nossa, ao contrário, está afetando diretamente a percepção do regime democrático. E não se culpe a crise econômica, o partidarismo ou qualquer outra escusa. Elegeu-se um inimigo comum, trabalhou-se midiaticamente esse propósito, e deixou-se dormindo a investigação de outros nomes graúdos. A severidade para um e a ponderação para outros podem se diferenciar de uma instância para outra mas fazem parte do mesmo poder Judiciário. Os fios que manejam este acochambrado de Justiça geram um mal estar envergonhado impossível de engolir. É isso que as pesquisas estão gritando.

Pesquisa CNT/MDA: para 90%, Justiça brasileira não é igual para todos

wjrAP9zN

Em meio à prisão política do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a pesquisa do Instituto MDA para a Confederação Nacional dos Transportes (CNT), divuglada na manhã desta segunda-feira, 14, traz uma informação importante sobre a percepção dos brasileiros sobre o Poder Judiciário.

Segundo a pesquisa, para 90,3% a Justiça brasileira não age de forma igual para todos. Apenas 6,1% consideram que age de forma igual. A avaliação sobre a atuação da Justiça no Brasil é negativa para 55,7% (ruim ou péssima) dos entrevistados. 33,6% avaliam a Justiça como sendo regular e 8,8% dos entrevistados avaliam que a atuação da Justiça no Brasil é positiva (ótima ou boa).

52,8,% consideram o Poder Judiciário pouco confiável; 36,5% nada confiável; e 6,4% muito confiável.  Dos entrevistados, 44,3% acreditam que, mesmo após as recentes ações da Justiça na Operação Lava Jato, a corrupção irá continuar na mesma proporção no Brasil. Enquanto isso, 30,7% avaliam que a corrupção irá diminuir e 17,3% acreditam que vai aumentar. (Do Brasil247)

Leia a pesquisa na íntegra.