A Fifa, a faixa e a hipocrisia

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POR GERSON NOGUEIRA

Caso precisasse pagar pelos atos de hipocrisia que tem cometido ao longo de sua existência, dona Fifa estaria falida a essa altura. Desde o reinado de João Havelange, a entidade se notabiliza por decisões e normas que visam exprimir uma aparente neutralidade em relação ao que ocorre no mundo.

A proibição a manifestações políticas e religiosas, adotada nos tempos do próprio Havelange, cumpria o papel de evitar problemas com as ditaduras ao redor do mundo. Preocupada em ampliar seu poder, a Fifa, obviamente, não queria atritos com os tiranetes de plantão.

Avalizou sem pruridos a Copa do Mundo na Argentina durante a sangrenta ditadura militar no país. Jorge Rafael Videla, o ditador de plantão, comandou a festa ao lado de um conivente Havelange. A conquista da taça serviu para prolongar por mais alguns anos o reinado de terror.

Chile e Brasil, entregues a regimes militares à época, jamais sofreram qualquer sanção. Tiranos do continente africano também foram aceitos como integrantes dos conselhos internados da instituição. A Fifa sempre foi fiel a seus próprios interesses, levando as coisas à sua maneira e sempre condescendente com os poderosos.

Nos últimos anos, reforçou ainda mais a política de neutralidade, agindo contra manifestações de natureza política nos estádios, ao mesmo tempo em que se mostra branda com as seguidas e vergonhosas explosões de racismo em estádios da Europa.

Atenta ao receituário ético da Fifa, a CBF procura caprichar na repressão seletiva. Não permite faixas que critiquem a Globo, principal parceira de negócios desde sempre, e é rigorosa com cartazes que façam alusão à prisão do ex-presidente Lula, mas faz vista grossa quando torcedores exibem aqueles cartazes babando ovo de apresentadores globais.

Ocorre que na Arena Itaquera, em São Paulo, a torcida corintiana tornou rotineiras manifestações desse gênero, assim como torcidas do Grêmio, Atlético-MG, Botafogo e Cruzeiro. Em Belém, no jogo Remo x Santa Cruz, pela Série C, um desses protestos pacíficos foi detectado pelo quarto árbitro, que, pressuroso, avisou o árbitro.

A retirada da faixa foi imediata e ríspida, além de obviamente hipócrita, visto que a manifestação não foi (nem de longe) mais grosseira que as vaias e xingamentos dirigidos à presidente da República na abertura da Copa do Mundo de 2014, em espetáculo de selvageria transmitido para o mundo inteiro. O então presidente, Josef Blatter, presente ao evento, manteve-se calado e a Fifa não tomou qualquer atitude punitiva.

É compreensível que o árbitro tenha mandado retirar a faixa no Mangueirão, afinal recebe ordens expressas nesse sentido. Esquisito é ver a CBF patrocinando a inquisição. Justo ela, useira e vezeira em atropelar normas, com dirigentes envolvidos até o pescoço em maracutaias e eleições maculadas por irregularidades flagrantes.

Não se pode esquecer que a censura atenta contra um dos pilares da Constituição – ainda temos uma – e preceito básico de qualquer democracia: o direito à liberdade de expressão, desde que exercido pacificamente. Respeitar esse princípio deve ser missão e objetivo de todos, acima de ingerências externas.

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Pitacos dos baluartes do blog campeão

“Já comentei aqui: o Flamengo só não ganha títulos em série, nos campeonatos nacionais, porque sua administração é de uma incompetência atroz. Suas cotas de TV são absurdamente superiores às dos demais clubes. O banco estatal, patrocinador de vários outros clubes brasileiros, contempla esse clube com valores bem maiores. A juizada sempre dá uma ajuda para que o Flamengo saia vencedor. As tabelas são montadas para facilitar o arranque nos torneios que o clube participa. E, aí, não há como não desconfiar da mão grande da Globo, maior interessada no sucesso do clube queridinho, pela audiência que isso pode proporcionar”.

Miguel Silva, a respeito de um dos tópicos da coluna de ontem.

“Nunca o Remo foi tão prejudicado em um início de campeonato. Em quatro jogos, dois gols erroneamente anulados e dois pênaltis não assinalados; todas as situações ocorridas enquanto os jogos estavam no 0x0. Coincidentemente, isso ocorre no ano de pior relação da torcida remista com o Esporte Interativo, atual ‘dono da série C’. Quem gosta de teorias da conspiração, já pode botar a pulga atrás da orelha”. Thiago Corrêa, azulino desconfiado do poder do apito.

“Sabe por que o Atlético Acreano é vice-líder da Série C? Por que fez exatamente o que se espera dele. Não investiu em grandes contratações, mas em conjunto. O mau futebol apresentado até aqui pelos demais decorre de investir no elenco sem se interessar com o conjunto, com a forma de entrosar e de todos jogarem bem”. Lopes Junior, certeiro, como sempre.

“Todo mundo sabe que o Dado faz parte daquela confraria da Elenko e é treinador de empresário. Eles são resistentes a usar aqueles que não fazem parte do grupinho. Carlinhos combina com chinelinho, igualzinho Carmona, Maicon Silva, Danilo Pires, Cáceres e Walter. Vêm fazer turismo e ganhar altos salários. Se estivesse bem, Carlinhos estaria na Série A”. Aldo Valente, peremptório sobre a política de contratações do Papão.

“Sem dúvida, foi mais um bom resultado. O Sampaio teve chance de liquidar, mas o Papão também teve a melhor chance do jogo quase no final com Danilo Pires, que recebeu passe açucarado e perdeu certo. Era o gol que levaria à liderança isolada da competição e talvez nem perdesse a ponta nem com derrota para o Juventude. Danilo Pires que foi uma das mais badaladas contratações parece não dar liga. Nesse jogo em São Luís teve chance de ouro, diamante, esmeralda de se redimir fazendo o gol da liderança, mas bateu fofo novamente. Numa bola dessas é encher o pé de primeira e até de bico que o goleiro não veria a cor da bola. Um dos maiores artilheiros do Brasil , Rei Dadá, disse certa vez que ‘feio não é fazer gol de qualquer jeito. Feio mesmo é perder gol’.” Nélio, ainda abespinhado com a falha de Danilo Pires no Castelão.

(Coluna publicada no Bola desta terça-feira, 08)

O destino de Lula é a Presidência

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Por Emiliano José, em resposta a Wanderley G. dos Santos

Não, professor Wanderley Guilherme dos Santos, e digo professor com toda a força que a palavra tem, com o respeito que merece, o PT não quer o “Lula ou nada”. Seu texto parece uma quase-chantagem ao partido, como se fosse ele obrigado, não se sabe por que, a abrir mão da disputa das eleições de 2018, da luta para ter Lula livre, do direito de Lula ser candidato. O PT faz isso em nome da inocência de um prisioneiro político e do nome mais forte para tal disputa. Respondo a quente, como convém nessa conjuntura de tanta velocidade, com tantos acentos de imprevisibilidade. O seu texto reclama isso, porque injusto com o partido e com o presidente. Não falo à distância, como observador neutro. Tenho lado, como você, todos têm. E Lula carrega consigo enorme, inegável responsabilidade histórica, e não cuida apenas de seu destino pessoal. Fosse assim, e poderia ter ido embora do País, exilar-se e conscientemente não o fez.

Não ousaria lembrá-lo mais extensivamente da luta de tantas lideranças que presas, ao longo da história, souberam honrar suas trajetórias, e corresponder à confiança e esperança nelas depositadas. Não é necessário. Fosse por um argumento, que um raciocínio frio poderia denominar de sentimental, que partido abandonaria sua principal liderança, de longe principal liderança do povo brasileiro, às traças, jogado numa prisão, um prisioneiro político, como se pudesse ser descartado assim, sem mais? Não é esse o principal argumento, nem deve ser, embora ele nos assalte a vista de seu texto, porque isso corresponderia evidentemente a um abandono.

Não é disso que se trata, no entanto. A questão central é que tentam impor que a principal esperança do povo brasileiro, a liderança que encarna o sonho de resgatar a democracia, barrar a monumental retirada de direitos, barrar o fim de nossa soberania, tentam impor, pelo arbítrio, com o Estado de Exceção vigente, que se mate a esperança de tanta gente. É, abandonar Lula no cárcere, o líder de todas as pesquisas, é exatamente matar a esperança dos pobres, dos excluídos, dos tantos milhões a quem as políticas desenvolvidas por ele permitiram a chegada à condição de cidadãos. O povo brasileiro tem o direito de tê-lo como candidato, livre. E o PT tem o dever de levar essa luta às últimas consequências, e não por qualquer capricho, mas porque não o fazendo frustra os que o dão vencendo as eleições em qualquer situação, em repetidas pesquisas.

Deveria o PT abaixar a cabeça, dizer sim ao arbítrio? Não, não seria digno, e, sobretudo, não corresponderia àquilo que está no coração de nossa gente. Discutindo por outro ângulo, para caminhar no raciocínio desenvolvido pelo professor, algumas indagações me vêm. O PT é de longe o partido mais bem avaliado do povo brasileiro – é isso mesmo, as pesquisas recentes estão à disposição. Tem, insista-se, o candidato mais forte para a disputa, não obstante, e por causa disso, preso. O povo reconhece sua inocência. Que argumentos o PT teria para abrir mão da candidatura? Por que não esgotar todas as possibilidades, e a política é o território dos milagres, disso o professor sabe, para que ele venha a ser o candidato? Ele não foi preso por acaso, mas exatamente para tentar evitar sua participação na disputa. E o PT não pode e não dever ser o cordeiro que caminha de cabeça baixa para a imolação.

Além disso, admita-se cheguemos a uma situação-limite em que o arbítrio vença, e ele não possa ser candidato. Que razão teria o principal partido da esquerda, que tem dado mostras seguidas de amplitude, de política de alianças, de solidariedade com candidaturas do campo progressista, para deixar de ofertar outro nome do próprio partido, fosse o caso, alguns deles com enorme potencial, que obviamente poderiam crescer mais e mais com o apoio de Lula? Não, não se trata de qualquer sectarismo. O argumento de tantos, com a existência de primeiro e segundo turnos, vale também para o PT, e nós não podemos ser cobrados por não tentar. Não se acuse, porque injusto, o partido de ser intolerante com outras candidaturas, nem de agredi-las.

A direção do partido tem sido cuidadosa diante, de manifestações que não carregam o selo da unidade, às vezes agressivas, arrogantes e desrespeitosas . O partido tem sabido, corresponder às necessidades de unidade do campo democrático, popular, de esquerda e progressista. Não se desespera no momento da dificuldade, não deve desesperar, que destino a gente constrói, não espera acontecer. Não abandona seu líder. Não deixa de participar dos esforços, e já são consideráveis, para a construção de um programa comum. Estamos construindo a unidade. Lula pode ser libertado com a luta do nosso povo e alguns candidatos à presidência, de esquerda, dignamente, estão nessa luta. Lula será candidato para agregar forças para o resgate da democracia, para o início de uma nova fase em nossa história, tão agredida pelo golpe de abril de 2016. Se não o for, o PT manterá sua solidariedade a ele, a vida segue, e saberá continuar no caminho que derrote os golpistas e o Estado de Exceção implantado no País.

Grêmio dá show dentro e fora de campo

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Faixa estendida pela torcida gremista, ontem, durante o jogo contra o Santos, na Arena do Grêmio, em Porto Alegre.

No Mangueirão, sábado à tarde, no jogo Remo x Santa Cruz, uma faixa com os mesmos dizeres, em defesa da libertação de Lula, foi estendida nas cadeiras do estádio, mas foi logo retirada por funcionários da Seel atendendo ordem do árbitro da partida, que foi avisado pelo quarto árbitro, Joelson Cardoso.

Leão abusa do desperdício

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POR GERSON NOGUEIRA

O Remo teve no sábado à tarde seu melhor tempo de jogo na Série C ao longo dos 45 minutos iniciais. Teve repetidas chances de definir a parada. Funcionou bem na defesa, com nova dupla (Mimica e Moisés), nas laterais, na marcação e foi quase impecável no ataque. O “quase” fica por conta da imperícia do centroavante Isac na hora da definição. Fez um gol, anulado erradamente, mas perdeu outros dois em situação privilegiada, de frente pro crime. É claro que o gol poderia ter saído por outros meios, mas o camisa 9 não pode vacilar nos momentos decisivos.

A jornada infeliz do centroavante continuou no segundo tempo, quando falhou em duas outras oportunidades, além de sofrer pênalti claro, tendo a camisa puxada acintosamente dentro da área do Santa Cruz

A verdade é que nem contra o Globo-RN, quando obteve sua única vitória na competição, o Remo se mostrou com as linhas bem aproximadas e funcionais como no sábado. Naquela partida, apesar do placar final favorável (1 a 0), sofreu terrivelmente desde os primeiros movimentos, chegando a levar sufoco na etapa final.

Mas, apesar de render satisfatoriamente na primeira metade, faltou a faísca necessária para garantir o triunfo sobre o Santa Cruz. O rendimento coletivo ficou comprometido no tempo final pelas deficiências individuais e cansaço de alguns atletas. O declínio só não foi mais danoso porque o adversário não teve força, nem categoria para impor seu jogo.

Em nenhum momento, o Remo chegou a ser envolvido pelo Santa Cruz, embora em três ocasiões o time pernambucano tenha rondado o gol. No primeiro tempo, Charles mandou uma bola na trave esquerda de Vinícius e na etapa final Fabinho Alves e Robert quase balançaram as redes.

Quanto à intensidade e desenvolvimento de jogo, o Remo foi sempre superior, até mesmo quando sobreveio o desgaste físico de jogadores como Elielton, Felipe Marques, Dudu, Levy e Everton. Alguns erros de passes, cruzamentos e finalizações podem ser atribuídos a esse esforço.

Everton, por sinal, deu ao time pela primeira vez fluência e sentido lógico na saída ao ataque, com passes certos e manobras criativas. Dinâmico, empenhou-se até em ajudar na marcação quando os laterais subiam.

Ao precisar alterar o meio, com a substituição de Everton por Adenilson, Givanildo Oliveira tornou o time mais previsível e lento na transição. Além disso, perdeu a primorosa chance de adicionar força e ofensividade à meia-cancha com a entrada de Dedeco, volante-artilheiro que veio do Castanhal e ainda não estreou no Remo.

Givanildo poderia, ainda, ter lançado Jefferson Recife ou Gabriel Lima nos últimos 20 minutos. Mesmo voltando de contusão grave, Lima é o mais agressivo dos atacantes reservas. A não ser que seu condicionamento esteja muito deficiente ainda, não pode estar em condições inferiores a Jaime, que ainda não se reencontrou desde que voltou a jogar.

O empate teve gosto ruim e foi péssimo em termos de tabela de classificação, mas é indiscutível que houve evolução em relação aos outros jogos. O êxito no futebol é medido por gols e o Remo tem abusado do pecado do desperdício, desde a estreia em Rio Branco. A entrada de um novo atacante, Eliandro, pode sanar os erros ofensivos, contribuindo para estabilizar os demais setores do time.

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Violência se alastra impunemente (também) no futebol

É espantosa a parcimônia com que a Polícia tratou o ataque de membros de proscrita facção uniformizada do Remo a lideres de uma facção ligada ao Santa Cruz, na madrugada de sábado, no aeroporto internacional de Belém.

O caso foi tratado inicialmente como um arrastão nas dependências do aeroporto, como se isso fosse menos grave. O confronto de gangues foi confirmado – pelos agressores e agredidos – através das redes sociais.

A ação consentida das ditas “torcidas organizadas” é um dos motivos da queda de público nos estádios e do distanciamento que o cidadão comum tem em relação ao futebol, como indica pesquisa do Datafolha, revelando que a maioria dos brasileiros não se interessa mais pelo esporte.

O levantamento não é específico quanto ao papel das facções violentas, mas nem precisa. Os episódios de enfrentamento dentro e fora de estádios afugentam as pessoas, que já sofrem com a violência diária imposta pelos bandidos de outras procedências e uniformes.

No caso da facção clandestina (foi extinta pela Justiça) mais notória das que são ligadas ao Remo, a baderna no aeroporto vem se juntar à agressiva investida contra o técnico Givanildo Oliveira e os jogadores durante o treino de sexta-feira no estádio do Souza.

Não custa lembrar que foi justamente um dos dirigentes máximos dessa organização que acabou executado no centro da cidade, ao sair de uma reunião no Comando da PM às vésperas do segundo Re-Pa do Parazão, em fevereiro. Crime que continua impune, como tantos outros no Pará.

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As meras coincidências do Campeonato Brasileiro

Há alguns anos, em acesso de sincericídio, Vanderlei Luxemburgo comentou um fato curioso sobre sua primeira passagem pelo Flamengo como técnico. A informação passou despercebida para muitos. Segundo ele, antes de divulgada a tabela do Campeonato Brasileiro, o clube da Gávea era devidamente consultado sobre a ordem dos jogos.

A preocupação, ainda segundo Luxa, era sempre com os cinco primeiros jogos da competição. Nunca encarar logo de cara equipes mais cascudas.

Por razões óbvias. Começar bem é fundamental para o time engrenar e ganhar confiança. Ou seja, permite que a cangula pegue vento. Por outro lado, fechar a disputa em situações favoráveis pode salvar a campanha.

Imagina-se que a prática trapaceira tenha sido abolida desde que a CBF anunciou práticas internas modernizantes e mais éticas. Por isso, deve ser apenas coincidência o fato de o líder Fla ter enfrentado Vitória, América, Ceará, Internacional-RS e Chapecoense nas primeiras cinco rodadas deste ano. Também por pura coincidência, com certeza, três deles (América, Ceará e Inter) vindos da Série B 2017.

(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 07)