Por Roberto Andrés, na Piauí
Sentadas na copa de uma amendoeira, três garotas conversam. O estuário do rio reflete as luzes de uma cidadezinha, a lua cheia clareia o céu e põe as nuvens em relevo. Uma lambada em batida eletrônica, pontuada por gritos animados, compõe a paisagem sonora.
Santo André, vilarejo praiano do sul da Bahia. As meninas são paulistas, de uma família que janta em um restaurante italiano à beira da foz do João de Tiba. Ao fundo, Santa Cruz Cabrália, uma das primeiras formações urbanas do Brasil. A música vem do bar Cabana Nativa, onde Viviana Romero, uma argentina loira e atarracada, risada forte e roupa justa, é homenageada com um bota-fora surpresa naquela noite de 12 de julho.
Era véspera da final da Copa do Mundo de Futebol. Viviana serviu como governanta do Campo Bahia, o resort que acolheu a seleção alemã. A festa havia sido organizada pelas moças que até então constituíam seu pequeno batalhão de camareiras. O entusiasmo na pista não parecia combinar com aquele dia de demissões em massa. Do total de 80 funcionários que atenderam ao time alemão durante um mês, menos de vinte mantiveram o emprego. Das 23 camareiras, apenas seis vão continuar.
A Alemanha foi a única das 32 seleções que disputaram o torneio a não se hospedar em um hotel sugerido pela Fifa. Quando a decisão foi anunciada, a sete meses da disputa, o Campo Bahia era uma vaga promessa. Oliver Bierhoff, gerente da equipe teutônica, justificou a opção mencionando “logística” e “infraestrutura”, o que é curioso, uma vez que o acesso ao vilarejo se dá por balsa. Também ressaltou que o local, na mesma zona climática dos estádios dos três primeiros jogos (Salvador, Fortaleza e Recife), poderia favorecer a adaptação dos atletas.
A escolha gerou polêmica e desinformação. Na imprensa brasileira, prevaleceu a versão de que a Confederação Alemã – a DFB – estaria construindo o hotel. Na verdade, é um empreendimento privado, da Acquamarina Santo André e da RLL Transporte e Logística, que tem como investidores os alemães Christian Hirmer, empresário de moda, Kay Bakemeier, ligado à seguradora Allianz, e Tobias Junge, um engenheiro do ramo da mineração que mora no país e foi o gestor da obra.
Em uma conversa por telefone no dia seguinte à final da Copa, Junge, ainda de ressaca pela vitória, contou que o projeto do condomínio data de 2009. Em janeiro de 2013, Hirmer jantou com Bierhoff e apresentou a ideia de receber a seleção em Santo André. Em abril, Bierhoff veio conhecer o vilarejo. O namoro prosseguiu com outras duas visitas, até que o sorteio da Copa, em dezembro, pôs a Alemanha na chave do Nordeste e selou o casamento.
Locutores esportivos chegaram a dizer que os alemães se hospedavam em “uma vila de 800 pescadores”. A imagem de oito centenas de pessoas que não fazem mais do que empunhar uma vara não deixa de ser simpática, mas Santo André nunca foi uma vila de pescadores típica. Sua formação remonta a uma fazenda do início do século passado, com um grande armazém e um porto, cujas atividades eram baseadas na economia extrativista. O povoado que se consolidou às margens de um córrego vizinho à fazenda vivia de plantação, pesca, corte de madeira e colheita de piaçava. Na década de 70, Porto Seguro e as praias do entorno foram descobertas pelos hippies. Arraial d’Ajuda, Praia do Espelho e Trancoso marcaram uma geração. O boom turístico que se seguiu foi avassalador e transformou toda a região. Santo André ficou preservada, graças à dificuldade de se cruzar o rio João de Tiba.
Ana Pessoa é uma mulher alta, magra, que ainda guarda um quê dos hippies que frequentavam a região. Bióloga de formação e hoje dona de pousada e restaurante, ela desembarcou em Santo André com seu primeiro marido, em 1983. Naquela época não havia luz elétrica, água encanada, estrada ou balsa. Depois de atravessar o rio numa canoa, era preciso caminhar 2 quilômetros pelo mangue. Os banhos eram no córrego. A luz elétrica, ela lembra, chegou a tempo de mostrar na tevê a queda do muro de Berlim e a novela Tieta.
A vila foi crescendo e sendo loteada por italianos, argentinos, alemães, paulistas e outros forasteiros. Com o surgimento de pousadas e restaurantes, a instauração da balsa e o asfaltamento da estrada, Santo André se tornou um destino turístico acessível e calmo. Em meados dos anos 2000 foi construído o primeiro resort, o Costa Brasilis, que acabou abrigando a imprensa durante a Copa. Na ocasião, temeu-se o fim da tranquilidade do lugar. Hoje, placas de venda de terrenos pululam pelo vilarejo, algumas em alemão ou inglês.
Em fevereiro de 2014, o Campo Bahia não dava pinta de que ficaria pronto a tempo. Faltavam menos de cinco meses para a Copa e as paredes ainda estavam sendo erguidas. Não havia sinal de telhado, janelas, portas, acabamento ou paisagismo. Abrangendo uma área total de 15 mil metros quadrados, era uma empreitada ousada, especialmente no calor da Bahia.
“Foram mais de 300 operários na obra”, conta Railan, um rapaz tímido de 18 anos que trabalhou como servente. Quando os jogadores chegaram, no dia 8 de junho, alguns arremates ainda estavam por fazer. Recrutados em cidades vizinhas, vários dos peões ficaram morando em alojamentos e pousadas. Ao estilo Brasília, faziam turnos dobrados. Houve algum transtorno e pequenos roubos durante o período.
Como Santo André fica em área de preservação ambiental, a aprovação da licença de novos empreendimentos pode levar anos. “O Campo Bahia foi construído em cinco meses, sem audiência pública e sem licença ambiental”, afirma Rogério Paixão, um homem com sotaque carioca e pinta debon vivant. Na vila há quase trinta anos, à frente de uma pousada, ele é dos mais céticos com relação às vantagens coletivas da passagem da seleção alemã. Paixão afirma ainda que “a construção do campo de treinamento desmatou mais de 20 mil metros quadrados de restinga”. Restinga é uma vegetação costeira sobre terreno arenoso, citada no decreto de preservação ambiental da região.
Em conversa por telefone, perguntei a Tobias Junge sobre a licença ambiental. Ele afirmou que dispõe de todas as autorizações desde 2009 e que “houve muita difamação sobre o Campo Bahia”. Documentos do Ministério Público Estadual, no entanto, apontam que foi feito um Termo de Ajustamento de Conduta que obrigou os proprietários a pagar uma multa de 300 mil reais por crimes socioambientais. O termo é um procedimento que busca evitar uma ação judicial, por meio do comprometimento das partes, perante promotores públicos, de realizar uma contrapartida para compensar um eventual problema. Perguntei a Junge qual foi a razão do termo e da multa. “Isso você pergunta ao Ministério Público, porque tem coisas no Brasil que eu não entendo”, respondeu, dando o assunto por encerrado.


Eis aí uma ínfima parte do verdadeiro legado da copa.
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