Eduardo Ramos pode retornar pro Leão

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O meia Eduardo Ramos, que disputou o Campeonato Paraense e a Copa Verde pelo Clube do Remo, pode retornar ao Evandro Almeida ainda neste semestre. Sem conseguir se estabilizar no Joinville, o jogador teria demonstrado interesse em voltar a vestir a camisa azulina na campanha da Série D. O diretor de Futebol, Tiago Passos, admitiu que há entendimentos com o empresário de Ramos. O técnico Roberto Fernandes ainda não se manifestou oficialmente, mas, a princípio, não teria nenhuma objeção ao ex-camisa 33. (Foto: MÁRIO QUADROS/Bola)

Warst du schon mal in Bahia? (final)

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Por Roberto Andrés, na Piauí

O séjour alemão botou o pequeno vilarejo na mídia. Logo na largada, uma foto do time na balsa foi capa da Folha de S.Paulo. Imagens cotidianas da vila ganharam o mundo. Mais de 200 jornalistas alemães estiveram em Santo André, o que representa um quarto dos moradores. Um centro de mídia foi montado para coletivas de imprensa. Antenas de celular e rádio foram instaladas pela DFB.

Junto com os jogadores, aportou um time de policiais. A vila, com índices de criminalidade quase inexistentes, não tem posto policial. E boa parte dos moradores parece preferir a vida assim. Reclamaram sobretudo da velocidade com que as viaturas passavam pelas ruas – estreitas, sem calçadas e cheias de crianças. Uma associação local pintou e distribuiu placas indicando velocidade máxima de 20 quilômetros por hora.

A rua em frente ao Campo Bahia virou território da Fifa, vigiado por policiais que impediam a passagem dos sem-crachá. Nos primeiros dias, alguns pais não conseguiram buscar as crianças na escolinha, situada dentro da área cercada. Com o transcorrer da Copa, o ímpeto dos guardas foi arrefecendo e entrou em vigor a manjada lógica do jeitinho e do privilégio. A rua continuou cercada, mas caucasianos e amigos tinham mais chance de transitar.

Como Santo André é constituída basicamente por uma rua longitudinal e várias transversais, quem era barrado precisava dar a volta e caminhar pela estrada de asfalto e sem acostamento, que segue rumo ao norte. Numa tarde de junho, o carro da Sorveteria Sabor Capixaba foi forçado a se desviar de seu trajeto habitual. O sorveteiro vai à vila toda terça-feira, vende quatro bolas a 1 real. O desvio o fez perder clientes fiéis e obrigou Maicon e Marlon, habitantes do perímetro cercado, a correr para o asfalto atrás de sorvete.

Mas os garotos não tiveram só infortúnios. Como moram em frente à entrada do resort, vira e mexe acabavam topando com os atletas e abiscoitaram camisas de treino autografadas, tênis e bonés. Maicon vendeu uma camisa por 50 reais e teve outra roubada. Ainda conserva uma terceira, “com autógrafo de todos os jogadores”, que não vende “nem por mil reais”, segundo informou a um possível comprador num Vectra cinza.

downloadOs impactos imediatos na economia local são concentrados. Jogadores e comissão técnica ficaram a maior parte do tempo no Campo Bahia. Os jornalistas, alojados no Costa Brasilis – onde se alocou o Centro de Imprensa, com um McCafé e cerveja grátis –, costumavam almoçar por lá. Algumas pousadas receberam mais hóspedes, mas a diferença em geral não foi significativa. No setor de restaurantes, quase nada mudou. Os taxistas tampouco lucraram, uma vez que os jornalistas, maioria do público, haviam fretado carros.

Já o Costa Brasilis, cuja diária sai por cerca de 500 reais, alugou seus 120 quartos e o restaurante esteve sempre lotado. O Campo Bahia não divulga quanto recebeu da DFB por suas 65 suítes. Como costuma acontecer em megaeventos e, em especial, nos da Fifa, a distribuição dos prejuízos foi bem maior do que a dos lucros.

Era uma manhã de temperatura amena em Santo André, mar límpido, céu azul, areia branquinha. Uma escuna trazia turistas de Cabrália quando Joachim Löw e alguns jogadores iniciaram uma caminhada pela praia. Houve um pequeno alvoroço. Enquanto o treinador se deixava fotografar, perguntei-lhe o que seu pessoal estava achando do lugar. Ele abriu um sorriso raro e ergueu o polegar em sinal de positivo. A Alemanha havia passado das oitavas de final na tarde anterior, num jogo difícil contra a Argélia. Técnico e jogadores estavam descalços, alegres e relaxados.

Nenhum outro time parece ter tirado maior proveito da estada nos trópicos. Os companheiros de Neuer iam aos treinos correndo pela praia, tomavam água de coco, nadavam e passeavam de barco. Regressavam sempre na mesma noite em que haviam jogado. “Toda vez que entrávamos na balsa, tínhamos a sensação de estar voltando para casa”, comentou Bierhoff. Turistas habituais da vila costumam dizer o mesmo.

Houve quem tenha se lembrado das histórias da Seleção Brasileira na Suécia, em 1958, quando Garrincha e companhia desfrutavam da liberdade sexual do país nórdico, divertiam-se e jogavam bola em grande medida. Mas para a turma de Joachim Löw, com seus atletas patrocinados, a vida privada serve ao marketing e a simpatia produz ótimos virais. As páginas dos principais jogadores alemães no Facebook são patrocinadas pela Adidas, e é para lá que vão as fotos da doce vida praiana, da interação com os índios e das brincadeiras no hotel.

Em A Vida Descalço, o escritor argentino Alan Pauls comenta “a prodigiosa capacidade midiática da praia”, sua espetacularidade e sua capacidade de realçar a imagem. Os alemães parecem ter percebido isso. Uma foto postada por Kroos com a vista da janela do quarto teve 21 092 curtidas. Hummels na praia, 61 505. Neuer e Schweinsteiger na areia com o professor de dança, 99 414. Neuer oferecendo banana a um macaquinho, 227 856. Schweinsteiger mostrando a língua enquanto Podolski dorme, 406 977. Uma foto de Podolski com moradores de Santo André teve 31 826 curtidas, mas Oliveira, um senhor de 68 anos e pele enrugada que posou ao lado do alemão, nunca chegou a vê-la.

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INVENCIONICES E CASCATAS 

Alemanha ganhou a Copa e o título de seleção mais simpática, este último em parte provocado pela imagem de turistas felizes e bons moços. Por ocasião da vitória acachapante sobre o Brasil, muito se disse que o clima entre eles era de constrangimento. Em Santo André, corre que naquela noite os rapazes voltaram cabisbaixos. Funcionários do resort relatam, com certo orgulho, que o dia seguinte foi de poucas brincadeiras.

Além do jogo de bola com crianças, do hino do Bahia entoado com torcedores locais e da dança com os pataxós, abundaram na mídia e nas redes sociais notícias das benesses que os alemães teriam proporcionado ao pequeno vilarejo. Dentre elas, a reforma do campo de futebol, a entrega de um veículo para uma aldeia indígena, a doação das bicicletas usadas pelos atletas, além do financiamento do turno integral de uma escola, para a qual também comprariam carteiras.

Considerável também foi a imprecisão na cobertura do legado. Na manhã de 14 de julho, a paulista Patricia Farina, diretora da escola municipal, conversava com uma jornalista da Rede Globo. Apesar do tom tranquilo, a diretora emanava irritação: reclamava de uma matéria do dia anterior, em que o repórter Pedro Bassan, da mesma emissora, afirmara que a DFB estaria bancando o turno integral na escola. De fato, prometeram a doação de 20 mil euros anuais por quatro anos, mas o projeto ainda não está firmado e o dinheiro só vai cobrir dois dias de período integral por semana.

Alguns jornais também noticiaram que as carteiras da escola haviam sido doadas pela DFB. Cascata. As carteiras estão lá desde o ano passado e foram adquiridas por meio de uma campanha entre moradores. “A escola é apoiada pelos moradores daqui. A ajuda dos alemães é muito bem-vinda, mas daqui a pouco vão pensar que estamos ricos e parar de doar”, comentou Patricia, franzindo a testa. Ela implorou à jornalista que passasse as informações corretas.

O campo de futebol da vila está sendo gramado, mas não por uma gentileza da DFB, como foi divulgado. A reforma foi uma das contrapartidas acordadas entre os empreendedores do resorte a prefeitura. Sete bicicletas foram de fato doadas pela DFB à escola. Enormes e acompanhadas de capacetes, foram entregues pessoalmente por Oliver Bierhoff, que afirmou custar 1 500 euros cada uma. Em seu último dia na vila, Bierhoff também passou às mãos do cacique Piki, da aldeia Coroa Vermelha, um cheque simbólico no valor de um carro. Na aldeia vivem 800 pessoas e não há nenhum veículo. O cacique havia pedido o automóvel para levar pessoas a hospitais e postos de saúde. Ele conserva o cheque gigante, no estilo Faustão, num lugar seguro, “enquanto o dinheiro vivo não chega”.

Nas redes a invencionice reinou. A notícia falsa de que o resort seria doado à comunidade bombou tanto quanto as matérias que a desmentiram, no dia seguinte. “As casas do condomínio já estão à venda”, disse-me Tobias Junge, que se absteve de divulgar os preços. No site do Campo Bahia, porém, pode-se reservar hospedagem. A 900 reais a diária na baixa estação, o “resort esportivo” oferece a possibilidade de escolher “a suíte de seu jogador preferido, com uma grande sala de estar compartilhada”.

No dia da final da Copa, muita gente em Santo André vestia camisas de treino da Alemanha, e havia um senso comum de que a vitória dos rapazes seria benéfica para o povoado. Quem destoava era a colônia argentina, a segunda maior do vilarejo. No mesmo bar em que Viviana e suas camareiras se divertiam na noite anterior, um grupo assistia à partida. O clima era de rivalidade. Os argentinos estavam à flor da pele, e os brasileiros abusavam da gozação. “Esse é o Brasil, amigo!”, dizia Galvão Bueno diante da imagem do Cristo Redentor sobre o Maracanã.

Quando o jogo começou, a atmosfera ficou ainda mais tensa. O bordão “Haja coração”, repetido mecanicamente pelo narrador global ao longo da partida, ali fazia algum sentido. Depois de intermináveis 120 minutos, quase no final da prorrogação, o golaço de voleio de Götze levou ao desespero os argentinos a meu lado. Poucos no bar repararam que a dança dos vencedores em volta do troféu era uma homenagem ao povo Pataxó. O som da tevê já estava baixo e começou a tocar uma música.

Com o caneco nas mãos e a pele bronzeada, os alemães desfilaram em Berlim. Em Santo André, a rua voltou a ser pública e o carro de sorvete pôde retomar seu trajeto. Viviana Romero voltou para Arraial D’Ajuda e vai viver um tempo com o dinheiro amealhado. A diretora da escola pensa em leiloar as bicicletas pela internet. A aldeia Coroa Vermelha já organiza uma vaquinha para manter abastecido o veículo por chegar.

Schweinsteiger postou em seu Facebook um último selfie praiano, direto do Leblon, e teve 1 254 915 curtidas.

Warst du schon mal in Bahia? (parte I)

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Por Roberto Andrés, na Piauí

Sentadas na copa de uma amendoeira, três garotas conversam. O estuário do rio reflete as luzes de uma cidadezinha, a lua cheia clareia o céu e põe as nuvens em relevo. Uma lambada em batida eletrônica, pontuada por gritos animados, compõe a paisagem sonora.

Santo André, vilarejo praiano do sul da Bahia. As meninas são paulistas, de uma família que janta em um restaurante italiano à beira da foz do João de Tiba. Ao fundo, Santa Cruz Cabrália, uma das primeiras formações urbanas do Brasil. A música vem do bar Cabana Nativa, onde Viviana Romero, uma argentina loira e atarracada, risada forte e roupa justa, é homenageada com um bota-fora surpresa naquela noite de 12 de julho.

Era véspera da final da Copa do Mundo de Futebol. Viviana serviu como governanta do Campo Bahia, o resort que acolheu a seleção alemã. A festa havia sido organizada pelas moças que até então constituíam seu pequeno batalhão de camareiras. O entusiasmo na pista não parecia combinar com aquele dia de demissões em massa. Do total de 80 funcionários que atenderam ao time alemão durante um mês, menos de vinte mantiveram o emprego. Das 23 camareiras, apenas seis vão continuar.

A Alemanha foi a única das 32 seleções que disputaram o torneio a não se hospedar em um hotel sugerido pela Fifa. Quando a decisão foi anunciada, a sete meses da disputa, o Campo Bahia era uma vaga promessa. Oliver Bierhoff, gerente da equipe teutônica, justificou a opção mencionando “logística” e “infraestrutura”, o que é curioso, uma vez que o acesso ao vilarejo se dá por balsa. Também ressaltou que o local, na mesma zona climática dos estádios dos três primeiros jogos (Salvador, Fortaleza e Recife), poderia favorecer a adaptação dos atletas.

A escolha gerou polêmica e desinformação. Na imprensa brasileira, prevaleceu a versão de que a Confederação Alemã – a DFB – estaria construindo o hotel. Na verdade, é um empreendimento privado, da Acquamarina Santo André e da RLL Transporte e Logística, que tem como investidores os alemães Christian Hirmer, empresário de moda, Kay Bakemeier, ligado à seguradora Allianz, e Tobias Junge, um engenheiro do ramo da mineração que mora no país e foi o gestor da obra.

Em uma conversa por telefone no dia seguinte à final da Copa, Junge, ainda de ressaca pela vitória, contou que o projeto do condomínio data de 2009. Em janeiro de 2013, Hirmer jantou com Bierhoff e apresentou a ideia de receber a seleção em Santo André. Em abril, Bierhoff veio conhecer o vilarejo. O namoro prosseguiu com outras duas visitas, até que o sorteio da Copa, em dezembro, pôs a Alemanha na chave do Nordeste e selou o casamento.

Locutores esportivos chegaram a dizer que os alemães se hospedavam em “uma vila de 800 pescadores”. A imagem de oito centenas de pessoas que não fazem mais do que empunhar uma vara não deixa de ser simpática, mas Santo André nunca foi uma vila de pescadores típica. Sua formação remonta a uma fazenda do início do século passado, com um grande armazém e um porto, cujas atividades eram baseadas na economia extrativista. O povoado que se consolidou às margens de um córrego vizinho à fazenda vivia de plantação, pesca, corte de madeira e colheita de piaçava. Na década de 70, Porto Seguro e as praias do entorno foram descobertas pelos hippies. Arraial d’Ajuda, Praia do Espelho e Trancoso marcaram uma geração. O boom turístico que se seguiu foi avassalador e transformou toda a região. Santo André ficou preservada, graças à dificuldade de se cruzar o rio João de Tiba.

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Ana Pessoa é uma mulher alta, magra, que ainda guarda um quê dos hippies que frequentavam a região. Bióloga de formação e hoje dona de pousada e restaurante, ela desembarcou em Santo André com seu primeiro marido, em 1983. Naquela época não havia luz elétrica, água encanada, estrada ou balsa. Depois de atravessar o rio numa canoa, era preciso caminhar 2 quilômetros pelo mangue. Os banhos eram no córrego. A luz elétrica, ela lembra, chegou a tempo de mostrar na tevê a queda do muro de Berlim e a novela Tieta.

A vila foi crescendo e sendo loteada por italianos, argentinos, alemães, paulistas e outros forasteiros. Com o surgimento de pousadas e restaurantes, a instauração da balsa e o asfaltamento da estrada, Santo André se tornou um destino turístico acessível e calmo. Em meados dos anos 2000 foi construído o primeiro resort, o Costa Brasilis, que acabou abrigando a imprensa durante a Copa. Na ocasião, temeu-se o fim da tranquilidade do lugar. Hoje, placas de venda de terrenos pululam pelo vilarejo, algumas em alemão ou inglês.

Em fevereiro de 2014, o Campo Bahia não dava pinta de que ficaria pronto a tempo. Faltavam menos de cinco meses para a Copa e as paredes ainda estavam sendo erguidas. Não havia sinal de telhado, janelas, portas, acabamento ou paisagismo. Abrangendo uma área total de 15 mil metros quadrados, era uma empreitada ousada, especialmente no calor da Bahia.

“Foram mais de 300 operários na obra”, conta Railan, um rapaz tímido de 18 anos que trabalhou como servente. Quando os jogadores chegaram, no dia 8 de junho, alguns arremates ainda estavam por fazer. Recrutados em cidades vizinhas, vários dos peões ficaram morando em alojamentos e pousadas. Ao estilo Brasília, faziam turnos dobrados. Houve algum transtorno e pequenos roubos durante o período.

Como Santo André fica em área de preservação ambiental, a aprovação da licença de novos empreendimentos pode levar anos. “O Campo Bahia foi construído em cinco meses, sem audiência pública e sem licença ambiental”, afirma Rogério Paixão, um homem com sotaque carioca e pinta debon vivant. Na vila há quase trinta anos, à frente de uma pousada, ele é dos mais céticos com relação às vantagens coletivas da passagem da seleção alemã. Paixão afirma ainda que “a construção do campo de treinamento desmatou mais de 20 mil metros quadrados de restinga”. Restinga é uma vegetação costeira sobre terreno arenoso, citada no decreto de preservação ambiental da região.

Em conversa por telefone, perguntei a Tobias Junge sobre a licença ambiental. Ele afirmou que dispõe de todas as autorizações desde 2009 e que “houve muita difamação sobre o Campo Bahia”. Documentos do Ministério Público Estadual, no entanto, apontam que foi feito um Termo de Ajustamento de Conduta que obrigou os proprietários a pagar uma multa de 300 mil reais por crimes socioambientais. O termo é um procedimento que busca evitar uma ação judicial, por meio do comprometimento das partes, perante promotores públicos, de realizar uma contrapartida para compensar um eventual problema. Perguntei a Junge qual foi a razão do termo e da multa. “Isso você pergunta ao Ministério Público, porque tem coisas no Brasil que eu não entendo”, respondeu, dando o assunto por encerrado.

O que há por trás da aposentadoria de J. Barbosa

Por Márcio Chaer// // //

Em uma noite calorenta de Brasília em maio de 2005, um jornalista pôs-se a dar conselhos a Joaquim Barbosa, então ministro do Supremo Tribunal Federal. Nos seus dois primeiros anos na corte, Joca, como o chamam os mais próximos, mostrava-se perdido nas funções. Ele ouviu que precisava encontrar seu espaço no tribunal. Mostrar a que veio.

Por essa época, cada voto era um suplício. Até a leitura da decisão, preparada pela assessoria, a coisa ia bem. Mas quando chegava a hora dos costumeiros questionamentos dos demais ministros ao relator, complicava. Atônito, sem respostas, ele se punha a reler o voto — que não contemplava a informação solicitada. Uma nova pergunta se seguia de nova leitura do voto.

Até que um ou outro colega mais paciente, ou menos cruel, passou a vir em seu socorro. “Vossa Excelência, então, quanto à preliminar suscitada, acolhe os embargos, certo?” Ao que Joaquim murmurava algo em sentido positivo. Outro completava: “Quanto ao mérito, o relator considera prejudicado o pedido, é isso?”. Com uma variação ou outra, os votos iam sendo acochambrados até se dar formato a uma decisão inteligível ou minimamente satisfatória.

Naquela noite de maio, quando se sugeriu a Barbosa divulgar melhor sua produção técnica, outro ministro ouviu parte da conversa. Em outra roda, da qual participavam cinco colegas dele, o assunto virou piada. “Olha o que ouvi agora: sugeriram ao Joaquim mostrar sua contribuição técnica no Supremo”. E todos caíram na risada.

A pelo menos um amigo, Joaquim Barbosa confessou sua vontade de abandonar o tribunal. Mas foi aconselhado a desafiar e “peitar” a estrutura. No campo do Direito ele não tinha como se destacar, estava claro. Mas poderia puxar os colegas para outro ringue em que eles não tivessem como superá-lo.

imagesNo livro Como a picaretagem conquistou o mundo, o jornalista britânico Francis Wheen analisa a receita da construção de personagens que, com largas doses de demagogia e populismo chegaram a altos cargos, como a presidência dos Estados Unidos ou ao cargo de primeiro-ministro do Reino Unido. Em uma das resenhas dessa obra, o crítico Rafael Rodrigues cita o teatrólogo Nelson Rodrigues, que disse que esses personagens tomaram o lugar dos melhores a tal ponto que se criou “uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina”.

É claro que Joaquim Barbosa não se enquadra no perfil. Mas o livro é pedagógico no sentido de evidenciar como a construção de um personagem, no mundo da política, do jornalismo, das artes ou das finanças, possibilita o sucesso sem que a celebridade artificial tenha realmente o estofo para pontificar no píncaro a que foi alçado.

Assim como nos primeiros anos em que ralhava com seus assessores por não preverem as perguntas que lhe seriam feitas em Plenário, o ministro manteve-se até o fim em estado de guerra com quase todos os colegas. Aperfeiçoou-se no uso da comunicação instantânea pelo laptop de tal forma que outros ministros resolveram não levar mais o equipamento para a bancada. Mas isso aliviou bastante o que considerava uma prática maldosa dos colegas: as tais perguntas embaraçosas.

Em sua passagem pelo STF, Joaquim Barbosa raramente recebeu advogados que lhe solicitavam a oportunidade de oferecer subsídios para suas decisões. Essa tarefa era penosa para ele da mesma forma que a interlocução com os ministros em Plenário. A sua explicação era que considerava esse tipo de “conluio” indecoroso. Em entrevista à revista eletrônica Consultor Jurídico, o também ministro aposentado Cezar Peluzo, aponta outro motivo, mais prosaico, que cabia numa só palavra: insegurança.

Na mesma entrevista, Peluzo contrariou outra crença disseminada largamente por Barbosa: o de que suas ausências no plenário e sua impaciência com as sessões deviam-se a problemas de saúde.

O sucesso de Barbosa, como relator da Ação Penal 470, o chamado mensalão, lustrou a imagem externa do ministro. Mas junto à elite da comunidade jurídica foi motivo apenas de desconsolo. As poucas vozes que ousaram “chutar a santa” canonizada pela opinião pública, sedenta de vingança contra a comunidade política em geral e contra o PT em particular, enfrentaram o risco aventado por Nelson Rodrigues e as vaias da plateia.

Como presidente do Conselho Nacional da Justiça, originalmente apelidado de órgão de controle externo do Judiciário, Joaquim Barbosa viveu um paradoxo lógico entre o substantivo e o adjetivo. Durante toda sua gestão, foi o mais feroz crítico do sistema judicial e seus protagonistas. Mas não apresentou ou aprovou uma única proposta que corrigisse as distorções e deformações elencadas por ele mesmo. Na análise de pessoas que acompanham a carreira de Barbosa, o seu portfólio como procurador da República (em que passou dez de vinte anos em licença), como ministro e como presidente do STF e do CNJ têm igual relevância. A sua contribuição técnica, jurídica e institucional deixam a mesma marca nos três órgãos.

Por fim, depois de onze anos de embates e desinteligências, ao menos se sabe que Joaquim Barbosa e os ministros do Supremo, no plano institucional, concordaram em alguma coisa. Essa ideia se resume na sintética expressão que o ministro divulgou em seu perfil no Twitter, ao se retirar do ringue: “Alívio, finalmente!”.

E Maurício Assumpção está solto

Do Blog do Juca Kfouri

O presidente do Botafogo confessou — o verbo é exatamente este, não é admitir, é confessar — que parou de pagar os impostos devidos pelo clube durante oito meses na espera da aprovação da Proforte, nome original da lei que anistiava as dívidas dos clubes.

A confissão foi feita ao “Bola da Vez” da ESPN Brasil, que foi gravado ontem e irá ao ar hoje, às 21h30.

Lembremos que Assumpção ao confessar o ato deliberado, confessa, também, ter cometido o crime de apropriação indébita porque, certamente, no período, foram recolhidos na fonte, e não depositados para quem de direito, os impostos da folha salarial dos jogadores.

Lembremos, ainda, que o cartola esteve recentemente à mesa com a mais alta autoridade da República e ainda ameaçou tirar o Botafogo do Brasileirão.

Mas deveria estar preso.

Pelos bares do mundo

Por Palmério Dória

Numa mesa da churrascaria Plataforma, no Rio de Janeiro, João Ubaldo e Tarso de Castro choram, um no ombro do outro, a morte de Glauber Rocha em Portugal.

Na mesa ao lado, um casal de sessentões acompanha a cena com ar de desaprovação.

A mulher especula com o marido:

– Acho que a “moça” é o de bigode.

Método cubano livra a Bolívia do analfabetismo

O vice-ministro da Educação alternativa da Bolívia, Noel Aguirre, declarou na última terça-feira (29) que a Unesco aceitou o relatório enviado pelo governo que aponta que o país está livre do analfabetismo. “Podemos dizer orgulhosamente que o Estado Plurinacional é um estado livre do analfabetismo”, declarou. De acordo com Aguirre, o país tem nesse momento um índice de 3,8% de analfabetos, abaixo dos 4% que a ONU declara que um país precisa ter para erradicar o analfabetismo. O ministro apontou que o objetivo do governo é chegar até a população “residual”,  com mais de 60 anos.

Nascido em Cuba, o método “yo si puedo” (sim, eu posso) começou a ser exportado para outras nações a partir de 1999 e já foi utilizado na alfabetização de milhões de pessoas pelo mundo e foi utilizado pelo governo Morales. O método busca entender as necessidades dos alunos e  todas as peculiaridades do local ultilizando recursos audiovisuais e combinações entre números e letras. Além disso,  tem a vantagem de poder ser durar pouco mais de três meses e de poder ser impantado em locais com pouco estrutura.

No Brasil, o método é aplicado pelo MST em diversos estados, e foi importado pelo governo Lula em 2010.