Pode assim?

Por Antonio Fernando Ramos

Havia chegado na cidade um sargento de conhecida família baionense das bandas do Marariá enchendo de regras a cidade. Não se podia falar alto em rodas de potocas, andar sem camisa, crianças deveriam se recolher cedo e por aí vai. Costumeiramente faltava água nas torneiras, obrigando as pessoas a apanharem o chamado precioso líquido nas bicas (tinha uma no Japão e outra na baixa do cemitério) ou então descer até o porto de refrescar-se em salutar banho na escadinha do trapichinho.

Certa feita desceu pra lá o “seu” João Reis com sua habitual calça comprida preta e camisa de mangas curtas de tecido fino. Depois de dar uma conferida “pra cima” e “pra baixo” se podia, decidiu tirar a roupa e tomar banho de cueca, já que não havia mulheres para lhes causar qualquer constrangimento, nenhuma embarcação estava escostada ao trapiche ou mesmo vinha alguém pelo meio da ladeira. Com a maré de lançante desafiando um majestoso mergulho, “seu” João não deixa por menos. Lança-se Tocantins adentro! Não se agalope pensando que foi do trapichinho, muito menos do trapichão, foi de um degrau acima do nível da enchente. Belo mergulho!

Dá uma boa nadada, certamente lembrando dos tempo de banho de rio em Joana Peres quando “tirava” castanha. Boia passando as mãos no rosto a fim de evitar água nos olhos e dá de cara com o sargento. Ele continuou dentro d’água lavando o suvaco, depois o saco, dando uma esfregada aqui e ali até decidir se ensaboar, tendo, então de retirar-se d’água e subir um degrau para apanhar um pedaço de sabão Regência. Foi, então, interpelado pelo sargento: “Não pode tomar banho de cueca aqui no porto. É proibido”.

“Seu” João Reis, pacientemente como sempre agia, nada respondeu. Subiu mais um degrau, tomou sua calça comprida, a vestiu ainda molhado, em seguida vestiu a camisa, desceu um degrau e, quase ao nível da lançante do Tocantins, pula para dentro d’água, mergulha e, ao boiar, pergunta ao sargento: “Pode assim?”

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