Schumacher sofre trauma cerebral e está em coma

Por Fábio Seixas

O Hospital Universitário de Grenoble divulgou, pouco antes das 20h de Brasília, nota oficial sobre o estado de Schumacher. Com informações preocupantes.
Segundo o boletim médico, o alemão “sofreu traumatismo craniano, com coma, o que exigiu uma cirurgia neurológica”. A nota, curta, só informa ainda que sua condição é “crítica”. Não sou especialista no assunto, longe disso. Mas sabemos que toda lesão cerebral requer cuidado.
Schumacher está num hospital especializado em traumas e sendo atendido por um mestre da matéria, Gérard Saillant. Só nos resta aguardar mais informações.

Sobre o direito de recomeçar

Por Xavi Sancho, do El País

Um enorme carro preto, desses que nunca são comprados por unidades, só como frota, cruza o gradil que dá acesso ao Alma Sclosshotel, em Berlim, um palacete construído em 1911 e que é um pedaço da história da capital alemã – aqui se casou Romy Schneider, e a seleção alemã de futebol se hospedou na Copa de 2006 –, e estaciona em frente à escadaria que conduz ao interior do edifício. Desce o chofer com um terno que combina com o veículo. Abre a porta traseira e surge alguém que não chamamos para esta reportagem. É Juliette Binoche. O homem acompanha a atriz até o saguão, lhe arruma uma cadeira, sussurra-lhe algo, a que ela responde com um gesto de assentimento, e então se dirige ao recepcionista para lhe informar de que a estrela francesa chegou. Este está um pouco aflito tentando convencer a assessora de Kristen Stewart – ambas as atrizes se encontram no mesmo hotel que nós, rodando sob as ordens de Olivier Assayas – de que a água de Berlim é potável. “Certeza? Não acredito.Miss Stewart não pode ficar doente, como você imagina…”, insiste a mulher, com forte sotaque americano, num tom entre o imperativo e o de suspeita, enquanto o empregado do hotel negocia com a pouca paciência que lhe resta. E então aparece um senhor nem alto nem baixo, nem bonito nem feio. Chega sozinho. Veste jeans e casaco cinza, e leva uma mochila. Discretamente, aproxima-se de uma funcionária e pergunta pelo pessoal da revista espanhola. Sobe as escadas e, chegando ao primeiro andar, se apresenta: “Olá, sou o Michael”.

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O fotógrafo informa ao ex-vocalista do R.E.M. que convém se sentir um felizardo: nesta suíte onde ele será retratado já dormiram Jay-Z e Beyoncé. O autor de Losing My Religion fica olhando o teto e responde algo a respeito da década de 1940, quando, ao que parece, os quartos de hotel começaram a ser pintados desse jeito. “Foi durante a entrega do MTV Awards na cidade”, insiste o fotógrafo. Stipe se aproxima agora de outra parede, decorada com um papel cuja estampa requer certo esforço para ser apreciada. “Minha casa em Berlim tinha um igual”, afirma o vocalista, que hoje divide seu tempo entre Nova York e a capital germânica. “Precisei derrubar a parede.” Não teria sido mais fácil arrancá-lo?, perguntamos. Silêncio. “Karl Lagerfeld desenhou parte deste hotel”, informamos. Mais silêncio. Muito.

O R.E.M. terminou em 2011, com uma nota em que o grupo de Athens, na Geórgia (EUA), anunciava o fim da mais bem sucedida banda de rock com origem independente, com três décadas de parceria e 85 milhões de discos vendidos. Nove anos antes, em 2002, uma revista norte-americana publicou uma longuíssima reportagem tendo Michael Stipe como protagonista. Era a época de Reveal, o mais regular em uma série de discos, entre bons e ruins, que a banda lançou entre sua última obra-prima, Automatic for the People (1992), e seu álbum de despedida,Collapse Into Now (2011). A reportagem o acompanhava durante vários dias em Los Angeles e retratava uma estrela excêntrica, caprichosa, volúvel e obcecada em agradar todo mundo. Num trecho do artigo, Stipe exigia ao jornalista que descesse da sua limusine (cada um viajava num veículo) e desse seu guarda-chuva a um sujeito que estava parado numa esquina, tomando chuva. Aquele personagem e esta pessoa que há meia hora era retratada na piscina – e que ao sair dela, vestido e empapado, em vez de chamar seu assistente para que deportasse alguém simplesmente sussurrou: “Estava mais fria do que vocês me disseram” – parecem ter pouca coisa em comum.

1388153938_885524_1388155974_sumario_normalUma vez terminada a sessão de fotos, secos e sentados no estufa que ocupa parte do jardim traseiro do hotel, observamos isso a ele. “Mas você acreditou nessa reportagem?”, pergunta esse homem de 53 anos, que hoje dedica seu tempo à escultura e a dizer sim apenas às ofertas que embutem algum desafio ou, no mínimo, alguma novidade. Isso inclui conceder esta entrevista – não fala com a imprensa praticamente desde a dissolução do R.E.M. – e falar em público, algo que o aterroriza e que fez duas vezes neste ano (em Dubai e Londres). “Aquele artigo foi uma piada terrível, perpetrada por um autor terrível. Eles queriam dizer algo sobre como as estrelas são guiadas e cuidadas até o limite por outras pessoas. Eu não sou assim. Escolheram a pessoa errada. O jornalista é um romancista fracassado, e o editor, um sujeito frustrado. E, bom, decidiram rir de mim.”

– Até que ponto o incomodou?

– Ninguém gosta de ser insultado, mas para entender bem o ofício de astro pop é preciso supor que nem todo mundo irá lhe amar. Muitos acham que sou simplesmente um esquisito e um idiota. Isso já aconteceu com muita gente antes. Você não é especial por nada disso. É simplesmente um espelho, é parte do seu papel, e muita gente se olha nesse espelho e não gosta. Então culpam você por isso.

– Às vezes isso é uma carga pesada demais?

– Há milhões de pessoas que jamais suportaram o som da minha voz, um contingente enorme de pessoas que nos valorizava como compositores, mas que sempre achou que com outro vocalista a banda teria sido melhor. Com isso, sim, você se acostuma rápido. Por isso recomendo a qualquer um que se mude para Nova York, porque lá qualquer um diz o que acha a seu respeito no primeiro minuto. Não há filtros. Muitas vezes, cruzam com você na rua, lhe dão uma cacetada e continuam andando. É muito saudável.

– Sente que lhe custou muito se fazer entender?

– Muito. Como letrista sofria, mas não só porque me parecesse difícil escrever, mas sim porque sou uma pessoa a quem custa horrores se comunicar com os outros. Sou muito tímido. Meu trabalho me obrigava a falar com as pessoas, e eu odiava. Não sou um narcisista, mas posso me virar sendo um artista sobre o palco, não sou mau. Mas sofro. E agora já não estou mais a fim de sofrer. Não haverá disco solo, embora eu não descarte voltar quando tiver 70 anos, como Leonard Cohen.

Michael Stipe se levanta sem dizer nada e agarra uma cadeira da mesa do lado. Deixa-a ao lado da sua. Pega aquela onde estava sentado, move-a delicadamente até situá-la exatamente onde se encontrava a que acaba de trazer. Coloca a nova no lugar onde ele estava sentado. Insatisfeito com o resultado da operação, repete-a com outra cadeira de outra mesa próxima. Tudo sem dizer palavra. Não fica claro se tudo isso é um sinal de que está encarando esta entrevista com comodidade, de forma natural, de que ele é simplesmente assim, ou justamente o contrário, ou seja, uma forma de impor certa distância por intermédio de uma dose da excentricidade que se supõe existir num homem que durante algum tempo subia ao palco com uma faixa azul que praticamente lhe rodeava o crânio. Mantém-se em silêncio por cinco segundos. Então diz: “Sempre vivi com ruído ao redor. As pessoas antes me diziam: ‘Isso não é uma música, isso não é pop’. Agora dizem que isso não é uma escultura. Acusavam-me: ‘Não entendo suas letras, não sei do que você está falando’; agora me comentam: ‘Não entendo por que você faz isso’. Nada disso importa. Confio no meu instinto. Se sentir que devo fazer, faço, e depois avalio se tem valor suficiente para mostrar ao mundo. Há peças nas quais trabalhei durante um ano até concluir que não são boas. Fiz coisas muito belas que não significam nada, por isso não são válidas”, comenta. Desde 2005, ele registra suas experiências fotográficos no Tumblr Futurepicenter, pratica escultura, sobretudo em bronze, apresentando desde raposas até reproduções de suas fitas cassete preferidas, ou câmaras Lomo. Já quis ser Patti Smith, hoje volta a querer ser Brancusi, porque, antes de desejar ser membro de um grupo de rock, aspirou a ser artista plástico. Aferra-se à cronologia da sua vida para explicar que não se trata de um capricho: “Comecei a escola de arte antes da banda. Tinha 13 anos quando comecei a fazer fotos, e 15 quando descobri o punk rock através do CBGB e de Patti Smith. Agora tenho 53 anos e não quero subir num palco e me comportar como se tivesse 28. Quando fazia música só encontrava soluções de vez em quando. Hoje sinto que a cada manhã me levanto encontrando soluções para algum problema. Isso é genial para começar o dia”.

– Foi muito difícil para você explicar tudo isso sem que parecesse que o R.E.M. foi simplesmente um parêntesis de três décadas em sua carreira como artista?

– Foi entendido assim? Não, não é certo. Minha vida mudou, sim. Para o bem, mas isso não quer dizer que eu tenha algo de ruim a dizer do R.E.M.. Fizemos o que fizemos, bastante bem e durante muito mais tempo de que pensávamos. Em alguns momentos fomos felizes, em outros nem tanto.

– Acha que duraram tanto porque, quando triunfaram, em vez de comprar um Porsche arranjaram um bom advogado?

– [Risos] É verdade! Fomos inteligentes, sem dúvida. Mas não fui eu, os espertos eram os outros três. Duramos muito pela paixão, não pelos advogados, que conste.

– O que teria acontecido com você se o sucesso lhe tivesse chegado aos 19 anos?

– Eu teria morrido. É preciso ser muito forte para sobreviver a isso, e eu não sou.

– Foi complicado acordar um dia e ver que a maioria das pessoas para as quais você cantava eram as mesmas que votavam no candidato que você desprezava, as mesmos que teriam batido em você no colégio, as que representavam aquilo contra o que você queria se rebelar?

– Foi horroroso. Até que descobri que sou um artista populista. Hoje estou convencido de que apresentar algo subversivo no seio da arte popular é o que melhor eu posso fazer. Agora, a verdade é que isso é algo que falo com tranquilidade hoje em dia, mas quando, depois de sete ou oito anos negociando a falta de popularidade, de repente você se vê por aí fazendo sucesso diante de milhões de seres humanos que muito provavelmente em qualquer outra conjuntura o massacrariam, a primeira coisa que você pensa é que isso vai dar errado.

A transição do rock alternativo para o rock de grandes estádios não foi fácil para Stipe. Se por um lado ele gostava de aparecer em cena batendo numa cadeira perante dezenas de milhares de pessoas, num ato inspirado na banda de pós-punk esquerdista Gang Of Four (“Ainda conservo aquela cadeira, está perfeita, e olhe que eu batia forte”), por outro sofria na imprensa o escrutínio constante a respeito da sua sexualidade. Passou a década de 1980 quase inteira convencido de que tinha Aids, mas não se atrevia a fazer os exames, porque existia uma lista pública com os nomes de quem se submetia ao teste. Até 1994 não falou abertamente sobre sua orientação sexual, aquela que durante anos o levou a achar que iria morrer cada vez que pegava um resfriado (“Deixei claro na época e não quero voltar a falar disso; só penso em dizer que desde que o mundo deixou de ser sexualmente binário eu me sinto muito mais à vontade”). Àquela altura, o R.E.M. já era a banda que servia para moldar as carreiras de todos os grupos alternativos que aspiravam a triunfar comercialmente. Sem Stipe, jamais teria existido Kurt Cobain, mas logo começou a parecer que, sem Elton John, tampouco haveria Michael Stipe. Kurt era o destino do jovem Michael (ansiedade, êxito fugaz e suicídio), e Elton John, a realidade do Stipe maduro (festas milionárias, amigos famosos e ramalhetes de flores). O homem que antes batia em cadeiras se distraía agora dividindo mesa com meia Hollywood, explicando as letras do Radiohead a Patti Smith (“‘De que porra eles estão falando? Eu deveria gostar?’, me perguntou ela na primeira vez que escutou Thom Yorke”), sendo o padrinho de Frances Bean Cobain, filha do líder do Nirvana e de Courtney Love, e percorrendo a Espanha a bordo de uma Bentley junto com Gwyneth Paltrow e o chef Mario Batali, o mesmo que desenhou a cozinha do loft nova-iorquino que ele colocou à venda no ano passado por quase 11 milhões de dólares, e que antes havia pertencido a Gus Van Sant. Estava vivendo a vida à qual aspiravam aqueles que lhe batiam no colégio, e que era desprezada pelos compradores dos seus primeiros discos. “Há vezes em que é preciso dar um passo atrás e ver que não é um sonho, que você está realmente dentro desse mundo que você antes entendia como uma pura abstração”, afirma ele, sem questionar em momento algum sua relação com a fama. “Há algumas semanas fui a um show beneficente em Nova York. Na minha mesa estavam sentados David Byrne, Laurie Anderson e Brian Eno. Percebi que, se tivesse 17 anos e me olhasse de fora, não acreditaria jamais que essa seria uma mesa em que eu seria não só aceito como inclusive recebido de braços abertos. No final, essa gente é gente. Hoje estamos em um hotel de Berlim com Kristen Stewart, e não acontece nada. Eu lhe lancei antes um olhar furtivo, e me parece incrível. Abstratamente, posso acreditar que ela mede 1,80 e que é um ser distante, uma criatura perfeita, mas, na atual conjuntura e com o que aprendi a respeito de como me relacionar com as pessoas que admiro, posso me aproximar dela, lhe dizer ‘Olá, me chamo Michael’ e lhe informar que minha amiga Patti Smith a considera maravilhosa.”

– Sente que muita gente acredita que você deixou de ser um dos nossos para se tornar em uma dessas distantes megaestrelas?

– Quais são essas megaestrelas?

– Bono, Michael Jackson…

– Poxa, não sei… Não posso lhe contradizer, se você me cita esses. Mas entendo o que você diz… Se você olha a história do rock, sempre encontra essa gente que é esquisita e inabarcável, mas vieram o punk e o hip hop, e ambos mudaram o mundo para melhor. Hoje não posso pensar em ninguém que não seja próximo. Para mim, Kristen Stewart é só uma garota, e P.J. Harvey, uma criatura estranha, poderosa, inteligente… Mas também muito próxima. O R.E.M. sempre foi um grupo de pessoas que não iriam mudar, e não mudaram. Jamais fomos uma banda cool.

– Sente falta de ser um dos nossos?

– Se eu lhe disser que voltarei para casa de metrô, isso responde à sua pergunta?

Rinha humana

Por Laurez Cerqueira (*)

Até agora a luta UFC produziu lesões corporais graves, como a fratura de Anderson Silva e de outros lutadores. O que farão as autoridades quando ocorrer um assassinato diante dos olhos da plateia e dos telespectadores? O assassino será preso em flagrante?

A Constituição Federal e o Código Penal são claros. Essa de que entra no ringue quem quer, de que as pessoas são livres, é uma hipocrisia. Quer dizer que esse mesmo princípio vale para o aborto, a eutanásia, o suicídio e o uso de drogas? A tarefa está com o Supremo Tribunal Federal, o guardião da Constituição.

Tomando como base esse princípio do livre arbítrio, esse “esporte” pode entender que deve evoluir para o uso de facas ou sabres, como no tempo dos gladiadores, tudo bem? Guardadas as devidas exceções, quem assiste quer ver sangue, mais sangue, como nos Coliseus. Isso não seria medieval, uma barbárie?

Classificaram essa luta sanguinária como esporte para regulamentar a rinha humana. Rinha de galo, de cães e de outros animais são proibidas por lei e a rinha humana não? A sociedade do espetáculo está indo por caminhos sombrios.

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Tem um culto à violência por aí que está levando gente às academias e às lojas de tatuagem para ficar cada vez mais parecida com os lutadores de UFC. Junto com isso tem uns joguinhos eletrônicos de extrema violência que ajudam a turbinar a performance. O que têm a dizer os estudiosos da Psicologia, da Sociologia, da Filosofia, da Antropologia? Não vão se pronunciar? Só depois do primeiro cadáver nas telas de TV?

É incrível! Pessoas que assistem a esse espetáculo se dizem, às vezes, ecologistas, protetoras dos animais, até apoiaram, por exemplo, ações como a da libertação de cachorrinhos da raça Beagle, dos laboratórios de pesquisa em São Paulo. Não é raro ver rapazes musculosos e tatuados com seus Poodles numa coleirinha passeando por aí, mas não perdem sequer uma luta. Esquisito, não?

Pode estar vindo nesse movimento algo de intolerância, de violência extrema, que não combina com a harmonia, a paz e a solidariedade que desejamos, particularmente, todos os finais de ano, para a sociedade dos nossos sonhos. Neste final de ano fomos “brindados”com uma fratura exposta do lutador Anderson Silva.

Ao Greenpeace, ao WWF e tantas ONGs que atuam na busca da paz, do fim das guerras, na preservação da natureza, na proteção dos animais, peço que “vão ao Ártico” e continuem nos seus propósitos, como fizeram os 26 militantes do Greenpeace, entre eles a brasileira, Ana Paula Maciel, mas não ignorem o que está acontecendo aqui. Um ser humano pode matar outro diante dos nossos olhos, nas telas de TV.

O UFC está sendo tolerado por que é movido por milhões em negócios. Não só as empresas patrocinadoras ganham; as empresas de comunicação também engordam seus caixas.

Perguntar não ofende: será que alguma ONG pacifista, ambientalista recebe contribuição de alguma dessas empresas? Aos jornalistas “investigativos” de plantão vale conferir e informar quem ganha e quanto com a rinha humana. Mas, se as empresas patrocinadoras dessa barbárie forem clientes da TV, do rádio, do jornal ou da revista, duvido que ninguém fique sabendo, por razões óbvias.

O que diriam Mahatma Gandhi, Dalai Lama, John Lennon, Nelson Mandela, os Prêmios Nobel da Paz, enfim, todos os pacifistas do mundo, sobre as rinhas humanas?

Um 2014 de paz, harmonia, solidariedade, e felicidade para toda a humanidade!

(*) Laurez Cerqueira é autor, entre outros trabalhos, de O Outro Lado do Real, Florestan Fernandes – um mestre radical; e Florestan Fernandes – vida e obra.

Entre a culpa e a suspeita

Por Mauro Ventura, do Rio

Chego de São Paulo e atravesso a passarela para pegar um táxi longe do Aeroporto Santos Dumont. Caminho distraído quando ouço uma voz:

– O senhor me pagaria duas fotos 3×4? Eles exigem para se inscrever como faxineiro.

Mal esperei a frase terminar e já respondi, sem nem olhar para o rosto:

– Não vai dar, não.

Já vi muito golpe, de gente dizendo que foi roubada e precisa de dinheiro para a passagem, e achei que fosse uma variante. Mas logo fiquei culpado: “E se for verdade?” Arrependido, fiquei observando o homem a uma distância prudente, de forma que ele não pudesse me ver. Estava com um envelope nas mãos. Podia bem conter algum documento. E eu nunca tinha ouvido falar de alguém pedir dinheiro para foto. Aproximei-me e perguntei:

– Que história é essa de foto?

Ele abriu o envelope, mostrou-me uma ficha de inscrição e disse que havia se candidatado a uma vaga de faxineiro. Mas faltavam as fotos. Tinha ido tirar no aeroporto, e viu que custavam R$ 12,50. Como não tinha dinheiro, a atendente disse que não podia fazer nada. Ele saiu em busca de ajuda. Um homem se dispôs a pagar, mas, como já estavam longe do aeroporto, foram a uma outra loja, mais perto. Só que o estabelecimento já não fazia mais o serviço, e o senhor que o acompanhava teve que ir embora. Recomendaram-lhe outro lugar, a umas quadras dali. Eu disse que iria com ele.

No caminho, conversamos. Ele explicou que tinha um ônibus pirata, que fazia a ligação entre Queimados e a Central do Brasil, mas que o veículo fora apreendido pela prefeitura e que seria preciso pagar R$ 6.800 pela liberação. Como ele não tinha esse valor, deixara para lá. Comentei que tinham feito muito bem em confiscar o ônibus, que não se podia dirigir um veículo irregular, que era arriscado e ilegal. Aos ouvidos dele, deve ter soado como um grande blá-blá-blá.

Ele disse que agora quer um trabalho honesto. Mas vinha levando várias negativas, seja porque morava muito longe, seja por ter mais de 50. Tinha 53 anos, mas se me dissessem que eram 70 eu acreditaria. Ele explicou que emagrecera e envelhecera demais nos últimos tempos. Tinha diabetes, a Santa Casa estava fechada e com isso ele não podia pegar seus remédios gratuitos. Sentia tonturas frequentes. Mostrou-me a receita do médico para provar. Enfim chegamos à papelaria.

– Não tiramos mais fotos – disse o dono.

– Tem algum outro lugar que tire? – perguntei.

– No caminho da Cinelândia tem.

Já andávamos há algum tempo pelo Centro e ainda teríamos que andar mais. O sol queimava, eu puxava uma mala e estava atrasado para o jornal. Abri a carteira, dei-lhe R$ 10 e perguntei se ele se importava de procurar a loja sozinho. Ele disse que não e contou que voltaria ao aeroporto. A distância era longa, pensei, mas pelo menos eu sabia que lá ele teria um local garantido para tirar a foto. O homem agradeceu e falou que pediria os R$ 2,50 restantes no caminho.

Disse-lhe tchau, virei as costas, parti e só aí me dei conta de algo: “Por que não dei logo os R$ 12,50, poupando-lhe de ter que ficar convencendo outra pessoa de que não era golpe?” Segui em frente pensando em como o Rio deixa a gente culpado.

Nada será como antes

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Por Tostão

Nesta semana, vi dois jogos inesquecíveis, belíssimos, de altíssima qualidade coletiva, individual e de muita competitividade, mostrados pela ESPN Brasil. O primeiro, a derrota do Brasil para a Itália, na Copa de 1982. O segundo, entre Manchester City e Liverpool, pelo atual Campeonato Inglês. São nítidas as muitas mudanças na maneira de jogar das equipes, do passado e do presente. Nada será como antes.

Hoje, há mais disciplina tática, marcação, movimentação e velocidade. Os espaços entre os setores são menores, e existe mais pressão no jogador que está com a bola.

Predomina o passe, embora ainda existam grandes dribladores. O passe representa a técnica, o jogo coletivo e solidário. O drible, a habilidade, a improvisação e o talento individual. Os dois são essenciais.

Hoje, há mais preocupação em dar o passe correto, com a parte interna do pé, de chapa, para não perder a posse de bola.

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No passado, era mais comum o passe de curva, de trivela, de rosca, fazendo a bola contornar o corpo do adversário, para cair nos pés do companheiro. Além de eficiente, era mais bonito. Os jogadores arriscavam mais o passe decisivo.

O grande passador é o que sabe o momento exato de dar o passe correto, para não perder a bola, e o momento de surpreender, de arriscar e de colocar a bola entre os defensores, para o companheiro fazer o gol.

Outra grande mudança no futebol foi nas transmissões da TV. No passado, a imagem era muito fechada. Quase só se via o lance e alguns jogadores em volta. Agora, a imagem é bem aberta. Isso é ótimo para ver o conjunto.

Se não fosse isso, teria de assistir a todos os jogos no estádio. Apenas alguns detalhes não consigo ver pela TV, como o posicionamento dos zagueiros quando o time está no ataque. Mas posso deduzir, quando a bola é perdida e o adversário contra-ataca. Os zagueiros brasileiros costumam ficar muito longe dos armadores que avançam, deixando grandes espaços para os meias e atacantes do outro time.

Por ter sido um atleta preocupado com o jogo coletivo, ter comentado durante anos jogos ao vivo, pela TV e no campo, poder ter hoje, pela televisão, uma ampla visão do conjunto, além de milhares de informações (muitas inúteis), saber a opinião do comentarista e ainda assistir às repetições por vários ângulos, tenho mais condições de fazer uma análise do jogo, em casa, do que se estivesse no estádio.

Melhor ainda do que ver o jogo pela TV ou no estádio é ver no estádio e com a TV na frente. Percebo, quando vou ao campo, que um grande número de jornalistas olha pouco para o gramado. Não dá tempo, pois não param de digitar. Precisam escrever seus textos, dar milhões de informações pela internet e ainda olhar para a tela do computador.

Assistem a outro jogo, talvez mais interessante.

Papão é 18º no Ranking da Folha de SP

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A conquista da Copa do Brasil e o vice-campeonato do Estadual do Rio fizeram o Flamengo voltar a alcançar o São Paulo na primeira colocação do Ranking Folha. A edição 2013 da lista mostra os dois clubes empatados na liderança de melhor do país, assim como em 2011. A diferença de 22 pontos que o São Paulo tinha um ano atrás foi diluída pois a equipe não levantou troféus nos últimos 12 meses. Sozinho ou em companhia do Flamengo, o clube do Morumbi lidera o ranking ininterruptamente desde 2005, quando foi campeão paulista, da Libertadores e Mundial.

Primeiro colocado antes do início da “era São Paulo”, o Palmeiras perdeu uma posição e aparece em quarto, sua pior colocação desde a implantação da lista, em 1996. O time alviverde, que passou 2013 na Série B do Brasileiro, título que não lhe rendeu pontos, foi superado pelo  arquirrival Corinthians, novo terceiro colocado. A última temporada do técnico Tite no Parque São Jorge teve cheiro de ressaca das conquistas da Libertadores e do Mundial. Mesmo assim rendeu dois troféus: o Paulista e a Recopa Sul-Americana. Apesar de serem os times que mais pontuaram no ano, os arquirrivais mineiros Atlético-MG e Cruzeiro não conseguiram subir na lista.

O primeiro, campeão inédito da Libertadores e terceiro colocado no Mundial, continua na 11ª posição, enquanto o segundo, vencedor do Brasileiro, segue em sexto e ainda distante do Santos, quinto. O Ranking Folha 2013 conta com a presença de 35 clubes. A estreante do ano é a Ponte Preta, 31ª colocada, que passa a integrar a classificação por ter sido vice-campeã da Copa Sul-Americana. A equipe de Campinas perdeu a decisão para o Lanús (ARG) e desperdiçou a oportunidade de conquistar seu primeiro título de relevância.

Para ingressar na lista, um time tem de ter no currículo ao menos um título ou vice-campeonato nacional (Brasileiro ou Copa do Brasil) ou internacional (Libertadores, Sul-Americana e Mundial, por exemplo), o que explica a ausência de equipes que são tradicionais dentro dos seus Estados, casos de América-MG, Santa Cruz e Avaí. O Ranking Folha é uma classificação histórica do desempenho dos clubes brasileiros. Ele distribui pontos aos times por títulos oficiais de esfera estadual, regional, nacional ou internacional. Torneios de divisões inferiores não são considerados. (Por Rafael Reis)

Ânderson sem fêmur

Por Hiroshi Bogéa – via Facebook

Tudo justificado pela Lei da Chinelagem: o que é bom aparece, o que aparece é bom. Síndrome do infrator de trânsito que não quer ser flagrado pelo pardal. Síndrome do motorista de camionetão brega que não quer ser atrapalhado pela bicicleta. Síndrome do conservador que não quer ser incomodado por movimentos sociais. Síndrome do bêbado que quer ter o direito de dirigir e atropelar alguém. Síndrome da era do “estupro consentido” na televisão. Ao vivo. Síndrome da lei de Gérson: sempre levar vantagem em tudo, certo?
Errado.

– Delicious, delicious!

1336351Que a perna quebrada de Anderson tenha caráter educativo dentro dos lares, para o pai ralhar o filho, toda vez que o flagrar, querendo ver UFC:

– Isso não é coisa pra homem inteligente, filho. Viu que o Spider quebrou um fêmur e ficou com o “encéfalo esponjoso”?

Anderson Silva é o Michel Teló dos novos ringues. Eterno retorno do primitivo como instinto animal. Afinal, não passamos disso. Embora sejamos mais irracionais e perigosos. É como falar em arrogância das bicicletas. Arrogância dos motoristas feridos em seus brios de donos das ruas. Ou em definições jurídicas sobre flanelinhas. Quem define o que é delito ou crime é a sociedade por meio dos seus representantes, os políticos. Tudo é cultural. Cada época com os seus crimes, seus heróis, seus reacionários.Tudo fazendo parte de um caldeirão, o caldeirão da baixaria. Teló, se não fosse tão jovem, poderia ter emplacado o melô da ditadura: “Ai se eu te pego”. Em inglês, ouvi isso, ficou a própria chinelagem globalizada : 

– “Delicious! Delicious!”

Michel Teló precisa ir para o morro descobrir a criatividade e a autenticidade do samba. Já o UFC não tem jeito mesmo. Só serve para bordões rastaqueras como esse do Galvão Malueno, “gladiadores do novo milênio”. Renovação do velho gosto por socos e pontapé na era do sofisticado “ai se eu te pego”, que é uma atualização de outras baixarias e chinelagens, como sempre tem. Chinelagem é assim: não dá nada. Faz o esqueleto balançar. Mas continua sendo chinelagem. É sintoma de alguma coisa. Por que só chinelagem e violência ganham o mundo com tanta rapidez? Chinelagem, violência… Assim troteia a humanidade. Sem complexos, com resposta para tudo e de quatro.

Quando vejo um país construindo idolatrias em torno da porrada, da selvageria e de um bagulho tão anacrônico quanto tourada ou farra do boi – como se viu na noite de sábado -, é desalentador. Os pais bem jovens fazem questão de colocar os filhos diante da TV, na manhã do dia seguinte, para verem os “melhores momentos”, como que na intenção de vasculhar a velha ´teoria´de que homem é aquele que dá porrada. Chamar um troço desses (UFC) de esporte é avacalhar o esporte. É só pancadaria mesmo. Sempre houve gosto pela pancadaria e pelo sangue, da Roma antiga ao boxe, mas em pleno século XXI, assistir a expressividade da violência pela emissora de maior audiência, é o fim da picada. A lei do mais forte, quem bate mais e mais rápido, só serve para estimular o gosto mais ainda pela violência que grassa no país. Sei, sei, “a violência com regras”, “a violência ética”, “a violência disciplinada”. Papo furado. É grotesco.

Um time em construção

Por Gerson Nogueira

O Paissandu vive uma situação curiosa neste final de temporada. Apesar da carga de expectativas que o torcedor normalmente alimenta nesses momentos, a diretoria e a comissão técnica não parecem muito apressados quanto à formação do elenco. Na apresentação de sexta-feira, o grupo era formado majoritariamente por jogadores nativos, remanescentes da Série B e garotos da base. A exceção ficou por conta dos três zagueiros contratados recentemente – João Paulo, Charles e Leandro.

unnamed (11)Quantidade insuficiente para quem vai encarar quatro competições no primeiro semestre. Pela ordem, o Papão vai disputar o Campeonato Paraense, a Copa Verde, a Copa do Brasil e as primeiras seis rodadas do Brasileiro da Série C. Além de qualidade técnica, o grupo dirigido por Mazola Junior precisará de reforços para a maratona.

Em determinados momentos, o time terá que se dividir entre três competições, com prejuízos óbvios ao condicionamento físico dos atletas. Vale lembrar também que o Parazão acontece sob um período chuvoso e é jogado em gramados de baixíssima qualidade, o que ainda agrava mais o quadro.

A velha tese de que um bom elenco se estrutura a partir de 23 jogadores (três goleiros e 20 homens de linha) cai por terra diante de tantos compromissos agendados. E nem se pode dizer que o Papão poderá priorizar uma ou outra competição. Todas são igualmente importantes.

Pelo esvaziamento crescente e o formato sempre deficitário, o certame estadual talvez pudesse até ser deixado de lado, mas há outro ponto fundamental a impedir isso: o ano do centenário. O torcedor faz questão de festejar o título e a diretoria sabe que a cobrança será maior devido ao esforço que o grande rival faz para reconquistar a competição.

São situações que exigem planejamento e capacidade de antecipação quanto à aquisição de reforços. Rebaixado para a Série C, o Paissandu tem enfrentado percalços para acertar com os indicados por Mazola. A grande quantidade de competições simultâneas no primeiro semestre inflaciona propostas.

A tendência é que o Paissandu seja obrigado a se contentar, pelo menos até março, com atletas medianos e que não estavam nos planos iniciais. Até lá, a torcida terá que se acostumar com os jogadores que se apresentaram na sexta-feira, com uma ou outra novidade.

Caso a estreia no campeonato (contra o Gavião) fosse já neste domingo, Mazola teria que escalar a seguinte equipe: Mateus; Pikachu, João Paulo, Charles e Pablo; Vânderson, Murilo, Djalma e Araújo (Lineker); Lima e Bruninho. Formação modesta para os anseios do torcedor.

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Dúvidas e expectativas no Leão

Bem mais adiantado nas contratações, o Remo aguarda os jogadores recém-contratados e parte agora para a etapa mais difícil da preparação: a busca pelo entrosamento. Com um elenco inchado, ao contrário do Paissandu, a equipe terá que definir o sistema a ser usado, baseado nas características dos jogadores disponíveis.  

Charles Guerreiro experimenta uma situação oposta à de Mazola Junior. Mais generosa quanto a opções, mas perigosamente perversa quanto a expectativas. Com um projeto que prevê disputar (bem) todas as competições do semestre (Parazão, Copa Verde e Copa do Brasil), o técnico foi atendido em todos os pedidos de contratações – e até além do que esperava.

Pelo presumível nível de pressão que o time vai sofrer ao longo do campeonato estadual, há quem advogue no Remo a opção por um técnico mais experiente e rodado. A diretoria tem sido cobrada quanto a isso, mas decidiu manter o acordo firmado com o treinador. Como é praxe no futebol paraense, tal contrato só terá futuro se o time cair no agrado da galera.

Os dirigentes avaliam que os investimentos no futebol, altos para os padrões regionais, não podem redundar em fracasso, como ocorreu neste ano. Sabem que os primeiros passos no Parazão – competição chave para os planos do Remo de voltar à Série D – serão determinantes para o êxito do ambicioso projeto de reconstrução.

Ao mesmo tempo, persiste a dúvida se Charles é o comandante ideal para um elenco recheado de recém-chegados, alguns com experiência internacional e outros marcados por currículos polêmicos. Além de formulador tático, o técnico terá que ter manha e psicologia para domar o grupo.

A conferir.

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Bola na Torre

Mazola Junior, técnico do Paissandu, será o convidado do programa deste domingo. Fará algumas revelações pitorescas, como o dia em que se viu no meio da galera bicolor, acompanhando uma vitória histórica. Guilherme Guerreiro comanda, logo depois do Pânico na Band.  

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 29)

O virtuosismo vocal estéril de The Voice

Por Kiko Alves, na DCM

O programa “The Voice” deixa como legado uma praga sinistra na música brasileira: o oversinging, a exibição de musculatura vocal e virtuosismo estéril que destrói qualquer canção. Não era uma tradição brasileira. É uma herança bastarda do gospel. É o que já fazem há algum tempo, lá fora, Christina Aguilera, Mary J. Blige, Jessica Simpson, Josh Groban, Beyoncé, a insuportável Céline Dion, entre outros. Torturam as notas até não sobrar nada delas, ignoram as letras em prol de um exibicionismo obtuso, matam a pauladas a gentileza.

SAmO ganhador do karaokê da Globo, Sam Alves, começou sua epopeia esfaqueando a delicada “Hallellujah”, de Leonard Cohen, e terminou gritando alguma outra música. É um retrocesso para o Brasil. João Gilberto e Tom Jobim — e depois seus seguidores Chico Buarque, Caetano Veloso, Gal Costa, Roberto Carlos e outros –, haviam atirado no século 18 o vozeirão de canastrões como Cauby Peixoto, Nelson Gonçalves e Ângela Maria. Perto desse pessoal do The Voice, Cauby, Ângela e Agnaldo Timóteo são silenciosos como a brisa.

Não é agradável. Não é cantar. É gritar mais ou menos no tom. Não que não tenhamos tido intérpretes exagerados. Elis Regina, para ficar num exemplo, era derramada, dramática. Mas nunca em detrimento da canção. Ela estava a serviço dela. Elis se descabela em “Atrás da Porta”, de Chico, mostrando todos os seus dotes, sem abrir mão do que a composição está falando. Você pensa em cortar os pulsos, nem que seja por dois segundos.

O oversinging virou um padrão da indústria. O nível de intoxicação é tão grande que, aparentemente, não há mais o que fazer. A moça que interpreta forró é obrigada a dar cambalhotas vocais. O que esses caras fazem com Tim Maia é uma maldade. Tim, que inventou o soul brasileiro, era econômico com seus vastos recursos vocais. No final de “Gostava Tanto de Você”, ele se solta um pouco mais. É uma aula de contenção e feeling.

A nova histeria musical nacional quer que a melodia original se dane. O que importa é colocar o máximo possível de confetes num bolo até ele perder o gosto. É a globalização da ruindade. O rapaz de Fortaleza canta exatamente como o da Nova Zelândia. E eles vêm em série. É um ciclo vicioso que entope o mercado de vocalistas que berram, sempre a um passo de imolar suas gargantas.

Se você quiser culpar alguém, culpe Whitney Houston. Foi ela quem popularizou a técnica por trás do oversinging, chamada de melisma, a capacidade de emitir várias notas numa sílaba. Aretha Franklin fazia uso disso antes dela, mas Whitney levou a coisa a um outro patamar. No início dos anos 90, ela estourou com “I Will Always Love You”, em que o “I” durava seis segundos. Fazia estrepolias com o “You”, também. Sem desafinar, faça-se justiça. Na esteira dela, vieram seus clones modernos.

Suas acrobacias eram resultado de treino árduo e, claro, dom. O piro virtuoso de Whitney e seus asseclas é uma espécie de aviso aos autores: “Ok. Vocês bolaram essa harmonia, escreveram essa letra — mas agora a coisa está comigo e eu farei o que eu quiser”. Uma espécie de apropriação indevida, muito lucrativa em alguns casos.

Por trás de cada refrão estuprado por esses Godzillas, há um autor pedindo socorro. Os mortos não têm saída. Os vivos podem achar que vão ganhar dinheiro com isso. O oversinging é uma doença estética que, graças ao The Voice, vai ganhar o país. Como dizia Agnaldo Timóteo, a plenos pulmões: “Ai, ai, mamãe, eu te lembro chinelo na mão, o avental todo sujo de ovo. Se eu pudesse, eu queria começar tudo, mamãe, tudo de novo”.