Pode assim?

Por Antonio Fernando Ramos

Havia chegado na cidade um sargento de conhecida família baionense das bandas do Marariá enchendo de regras a cidade. Não se podia falar alto em rodas de potocas, andar sem camisa, crianças deveriam se recolher cedo e por aí vai. Costumeiramente faltava água nas torneiras, obrigando as pessoas a apanharem o chamado precioso líquido nas bicas (tinha uma no Japão e outra na baixa do cemitério) ou então descer até o porto de refrescar-se em salutar banho na escadinha do trapichinho.

Certa feita desceu pra lá o “seu” João Reis com sua habitual calça comprida preta e camisa de mangas curtas de tecido fino. Depois de dar uma conferida “pra cima” e “pra baixo” se podia, decidiu tirar a roupa e tomar banho de cueca, já que não havia mulheres para lhes causar qualquer constrangimento, nenhuma embarcação estava escostada ao trapiche ou mesmo vinha alguém pelo meio da ladeira. Com a maré de lançante desafiando um majestoso mergulho, “seu” João não deixa por menos. Lança-se Tocantins adentro! Não se agalope pensando que foi do trapichinho, muito menos do trapichão, foi de um degrau acima do nível da enchente. Belo mergulho!

Dá uma boa nadada, certamente lembrando dos tempo de banho de rio em Joana Peres quando “tirava” castanha. Boia passando as mãos no rosto a fim de evitar água nos olhos e dá de cara com o sargento. Ele continuou dentro d’água lavando o suvaco, depois o saco, dando uma esfregada aqui e ali até decidir se ensaboar, tendo, então de retirar-se d’água e subir um degrau para apanhar um pedaço de sabão Regência. Foi, então, interpelado pelo sargento: “Não pode tomar banho de cueca aqui no porto. É proibido”.

“Seu” João Reis, pacientemente como sempre agia, nada respondeu. Subiu mais um degrau, tomou sua calça comprida, a vestiu ainda molhado, em seguida vestiu a camisa, desceu um degrau e, quase ao nível da lançante do Tocantins, pula para dentro d’água, mergulha e, ao boiar, pergunta ao sargento: “Pode assim?”

De Escobar aos Perrella

Por Walter Maierovitch

A polícia foi mais ligeira em negar a participação da família de políticos do que em achar o traficante.

Em 2 de dezembro, uma romaria de colombianos visitou, em razão do 20º aniversário de sua morte, o túmulo de Pablo Emilio Escobar Gaviria no cemitério dos Jardines Monte Sacro. Nascido em 1949, Escobar era carinhosamente chamado pelos colombianos pobres de “El Patrón”, e isso por ter, com o tráfico de cocaína operado pelo seu Cartel de Medellín, aberto 3 milhões de postos de trabalho, diretos e indiretos.

Fora isso, Escobar, considerado o maior traficante de cocaína andina de todos os tempos, realizou intensa e interesseira atividade assistencial aos carentes. Inspirado na lógica dopanem et circenses, ganhou fama de mecenas ao comprar passes de jogadores de futebol, como bem sabem os torcedores do Independiente de Medellín e do Atlético Nacional. Assim, provocava os traficantes rivais, Rodríguez Gacha, padrinho do Millonarios de Bogotá, e os irmãos Rodríguez Orejuela, donos do América de Cali. A propósito, todos eles inflacionavam o mercado da bola e dele se aproveitavam para lavar seus narcodólares.

Além de construir um presídio de luxo para uso próprio e fingir que cumpria pena reclusiva, quando sua meta era evitar a extradição para os EUA, o megatraficante Pablo Escobar montou um gigantesco e moderno centro de refino da pasta-base de coca peruana: refinava 5 mil quilos semanais da droga, como diz Luís Cañón na clássica obra: El Patrón, Vida y Muerte de Pablo Escobar.

Para os colombianos, a refinaria ficava em um lugar apelidado de Tranquilândia, pois a corrupta polícia não incomodava El Patrón. Quanto ao presídio luxuoso e de onde entrava e saía sem problemas, ganhou o significativo designativo de La Catedral, ou seja, o templo de Escobar. Com as atividades ilegais de Escobar, a Colômbia, que até então pouco contava no tráfico internacional, tomou em importância o lugar do Peru.

A marcante “jogada” de Escobar consistiu em comprar uma empresa de aviação civil, a “Servicios Aeroejecutivo de Aviación”, logo apelidada de “El Expreso de la Cocaína”. Sem nenhum helicóptero e com cerca de duas dezenas de pequenos aviões tipos Cessna e Turbo Commander, a empresa não só fazia o transporte da pasta-base do Peru, mas era eficaz, com reabastecimento nas Bahamas, no envio da cocaína em pó para os EUA, com desembarque da droga na Flórida.

Com os desmontes dos megacartéis de Medellín e Cali, a morte de Escobar, as prisões dos irmãos Orejuela e as delações premiadas nos EUA dos irmãos Ochoa, a indústria da cocaína andina sofreu mudanças. No mundo da droga, nenhum grande traficante internacional possui mais uma empresa aérea. Eles preferem terceirizar o transporte e fretar helicópteros, a exemplo do que fazem com as “mulas” humanas. No fundo, mudanças geoestratégicas, com uso maior do sistema bancário e financeiro internacional e a transformar Estados nacionais em narcodependentes, ou melhor, com o PIB a depender também do mercado das drogas proibidas.

zeze_perrella28_pablo_escobarNa Colômbia, os traficantes de cocaína andina trocaram os megacartéis pelos “cartelitos”, com estruturas enxutas, ágeis e atuação em rede planetária. Com a terceirização do transporte, as polícias encontram dificuldades na identificação dos mandantes e na prova de se ter agido com dolo no fretamento. Os donos dos helicópteros e aviões, por exemplo, repetem não saber de nada. Como regra, o piloto flagrado no transporte é poupado pelos patrões e, dessa maneira, abre-se espaço para declarar desconhecimento da mercadoria do fretamento.

O helicóptero da empresa familiar dos Perrella, pai senador e ex-presidente do Cruzeiro, e o rebento deputado estadual em Minas Gerais, transportava quase meia tonelada de cocaína. Pelo noticiado, até verba pública já serviu para abastecer esse helicóptero. A carga ilegal de cocaína restou apreendida em 24 de novembro passado, após aterrissagem do helicóptero no Espírito Santo, proveniente do Paraguai. Nesta semana, vazou a informação de as investigações policiais, em inquérito, terem concluído pela não responsabilização criminal dos dois Perrella parlamentares. A propósito, ainda não se sabe qual será a reação do representante do Ministério Público sobre essa apuração a envolver Zezé e Gustavo Perrella.

No caso, está claro ter a polícia trabalhado com mais velocidade na apuração de eventual participação criminosa dos Perrella do que na identificação do traficante, ainda um desconhecido. Pelo que se imagina, a cocaína apreendida seria vendida no Brasil. Num pano rápido, pelo menos a “culpa in vigilando” prevalece. Além do odor de cocaína nos Perrella.