Por Nélio Palheta (*)
O Pará não será o mesmo depois do plebiscito deste dia 11. Da votação restarão cicatrizes. Citando a Faixa de Gaza, no Oriente Médio, o governador Simão Jatene, lembrou numa entrevista que o mundo está cheio de exemplos ruins de movimentos separatistas. Não chegaremos a tanto! A preocupação dele é com o dia seguinte, seja SIM ou NÃO o resultado do pleito. Quem não se preocuparia? A campanha ganhou um tom acima dos aspectos socioeconômicos e desenhou contornos apenas políticos. A criação do Tapajós é demanda antiga. No sudeste, o separatismo é recentíssimo, fruto da migração iniciada com a abertura da Belém-Brasília. A rodovia suscitou um pico de desenvolvimento duradouro enquanto a floresta suportou o avanço do desmatamento. Sem os atavismos históricos e culturais paraenses, a população estabelecida na região não consegue galgar novos degraus na escala do desenvolvimento humano, agravado pelo distanciamento com a capital. Ou foi Belém a dar as costas? Ambas as regiões reclamam da ausência do Estado.
O Pará vive o paradoxo de ser rico em bens naturais com uma população pobre. Historicamente, suas riquezas não geram bens suficientes para reverter a pobreza. Bandeira elementar do separatismo, a pobreza haveria também de ser tema de um debate nacional sobre o modelo de desenvolvimento da Amazônia, cuja realidade paraense reflete gravemente as consequências. Com o fim da borracha, Belém e Manaus praticamente faliram no início do século 20. Hoje, a sobra da floresta continua sendo atacada no sudeste. No oeste, o avanço nos ativos florestais é fato inexorável, embora registre-se queda do desmatamento. Agora, os imigrantes – com a mesma ilusão do eldorado amazônico na bagagem – são atraídos pelo minério.
Grande “almoxarifado” de produtos naturais, e com novos projetos minerais e energéticos, o Pará atrai mais e mais gente, sem ter recursos para atender todas as necessidades dessa população adicional, sempre crescente. O Estado aufere quase nada com riqueza que produz. A tal Lei Kandir nos maltrata como se fôssemos o filho sem direito ao prato principal do Planalto. Essa discussão poderia receber mais luz neste momento, na esperança de se mudar o eixo da história. Entretanto, o plebiscito jogou essa oportunidade nas trevas dos interesses políticos. Não falta motivação política para os do SIM: dois novos estados são mais espaços para parlamentares, milhares de cargos burocráticos em eventuais novas estruturas administrativas. Mais poder. E do lado do NÃO? Ora, quem quer dividir poder? Não é aceitável a pobreza como justificativa da divisão. Ela não é uma deliberação coletiva, afinal o niilismo anula não só nossas crenças e tradições, mas a própria utilidade da existência. Seria uma doença coletiva aceitar de moto próprio o sofrimento da pobreza. Quem a domina em passo de mágica política?
Por trás de tudo consolida-se a política avessa às razões do povo, mantendo velhos interesses das oligarquias. E o marketing reduz tudo a um discurso fácil: Contra ou a favor? É seu papel! De um lado e de outro, não se aprofundou uma discussão contextualizada capaz de considerar o homem – com suas necessidades, aspirações e vontades – como ser essencial da realidade. A pobreza transformada em cortina de fumaça dos interesses. Os discursos empanam a compreensão dos problemas revelados por indicadores. O plebiscito deveria ser oportunidade para os paraenses (por que não todos os brasileiros?) discutirem as causas da pobreza como circunstância da realidade e não de sentimentos separatistas contaminados por interesses políticos. Discussão não do retalhamento, mas de uma unidade transformadora do Pará.
Sobra uma conclusão: se uma unidade federativa não tem espaço suficiente para todos os interesses, criem-se tantos quantos novos Estados forem necessários para abriga-los. Seria perigoso axioma. Se o plebiscito paraense aprovar a divisão do Pará, vão proliferar novos projetos separatistas. Há um estoque de projetos no Congresso. A população será consultada, antes de os políticos lançarem-se nesse afã, Brasil afora? O Pará servirá de exemplo? Os grupos sociais deveriam ser autônomos para suprir suas próprias necessidades, preconizava Aristóteles: na ausência da iniciativa dos indivíduos, postos acima de agremiações partidárias e das oligarquias, a tirania apodera-se do Estado. Aqui cabe remeter a Caritas in veritate, na qual o Papa argumenta que tanto as causas do subdesenvolvimento quanto do desenvolvimento não são de ordem exclusivamente material, econômica e financeira; nos dois cenários está em jogo a liberdade humana permeada de conhecimento, ações, virtudes (por exemplo, a ética, tão rara no meio político): “O desenvolvimento é impossível sem homens retos, sem operadores econômicos e homens políticos que vivam fortemente em suas consciências o apelo ao bem comum” – diz a Encíclica.
Essa leitura está longe de ser feita por políticos exacerbadamente pragmáticos e cada vez mais personalistas e patrimonialistas. Isso pode ser chamado de subsidiariedade, força determinante de um cenário de diversidade e múltiplas opiniões onde a sociedade edifica aspirações individuais e coletivas, tendo-se o Estado como instrumento para gerir a igualdade de oportunidades. Enfim, a subsidiariedade é pensamento e atitude de justiça. Se isso fosse considerado, talvez a sociedade fosse outra. O Pará fosse outro. Não é uma utopia, mas um princípio a reger a atitude de quem se arvora representante da sociedade sem esquecer a humanidade plena como razão do desenvolvimento integral do homem.
Sem isso, o poder político não só advoga, mas se autoproclama ao direito de gerir tudo, suprimindo os cidadãos. Os políticos são indispensáveis à plena democracia. Infelizmente, descartam a humanidade das pessoas ao alijá-las dos processos. Funcionam como déspotas ao pretenderem conduzir a sociedade ao sabor de interesses privados. Com os apelos da propaganda, isso se torna mais grave e a sociedade mais longe de determinar seus destinos. A política deve ser assim? Não é crível!
No calor do plebiscito, perde-se oportunidade excelente de discutir o presente e o futuro, pressupondo-se aprendizado com o passado. Pior, se o Congresso Nacional e a presidente Dilma decidirem que, apesar do voto favorável ao SIM, numa hipótese, Carajás e Tapajós não devam ser criados, tudo foi em vão. E o Pará continuará sendo, como diz seu hino, “terra de rios gigantes”. Mas, doravante, com uma ferida incurável chamada separatismo.
(*) Nélio Palheta é jornalista. Artigo transcrito do DIÁRIO DO PARÁ.
sobre a vitória do Não é resultado de uma ida”como muita sede ao pote” como diz o comercial da Nilza Maria. Sem um planejamento, sem uma notificação à população a questão saiu dos grotões dos interessados pela separação para a midia assim, de supetão e com aquele inexplicável mapa onde, como se fosse numa casa, os filhos chegassem e dissessem ao pai: o senhor e incompetente, a partir de hoje nos vamos tomar conta de tudo e o senhor ficará naquela casinha da fundos do quintal. Assim, na marra, sem uma explicação convincente sobre aquele tamaninho. A gente se sente roubado! por isso é que o não vai dar uma lavada.
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O Não ganhará e todos se separarão. O Pará continuará unido, o seu povo não. Grande vantagem.
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Nunca esperei tanto por uma eleição.
Nunca tive tanta convicção do meu voto.
Portanato domingo às 16 horas estarei me deslocando para a Escola Fernado Ferrari e dizer um NÃO pra que o meu Pará velho de guerra não seja retalhado.
Te quero grande
Meu Pará querido
55 é dizer Sim p/ o que é bom e dizer NÃO para os aproveitadores.
Não e Não! 55 já!
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Pouco me importa o que vão ou não sentir os magoados pela separação ou não.
Para se fazer um omelete é preciso quebrar alguns ovos!
Nesse caso, os ovos seriam a união dos paraenses.
Os magoados não querem a união?? …. Paciência….!
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Quem for podre que se quebre..!!
55 neles!!!
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e isso ai..os incomodados que se mudem…viva o Pará
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Uma coisa e certa conseguiram mexer com o brio do povo paraense, isso estava adormecido a algum tempo estavamos esquecendo de valorizar a nossa terra e o que e nosso. Foi bom tudo isso acontecer, pois agora estamos olhando nosso estado com outros olhos, com outra visao, ate nossos politicos com certeza estao refletindo sobre tudo isso, acredito que apartir da vitoria do NAO no domingo dias melhores virao para todo o estado, estaremos mais fortes para cobrar de nossos governantes o que realmente e de interesse da populacao. 55 Neles! Nossa Estrela nunca se apagara. Viva o Para.
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