A lição do Japão

Por Flávio Gomes

O futebol brasileiro hoje levou uma sova no Japão. E o único que percebeu isso, pelo que pude ler e ouvir por aí, foi o topetudo Neymar. “Hoje a gente aprendeu a jogar futebol”, ele disse. Não sei se exatamente com essas palavras. Mas falou em “aula”, em “lição”. Sacou, acredito, que nada mais será como antes. Ao menos para ele. Foi precisamente isso, uma aula, uma lição. Mas não apenas porque o Barça enfiou quatro e poderia ter feito mais. Só quem não vê o Barça jogar (e passa toda semana nos canais ESPN) pode ter ficado surpreso com o jogo preciso, bonito, às vezes até chato de tão perfeitinho que é. Não foi a goleada, a lição. Foi muito mais.

Foi a vitória sobre a soberba brasileira. Brasileira do Brasil que se acha melhor que os outros e que não reconhece a superioridade estrangeira. Estou falando de esporte, só, e por enquanto. A vitória sobre a soberba dessa gente que ganha muito mais do que merece, que vende um peixe que não tem, que se autopromove o tempo todo e que conta com a colaboração dos veículos de comunicação de massa para iludir o público, aliados e sócios que são.

O que se viu hoje foi um choque de realidade. Não que todos os times europeus sejam melhores que os brasileiros. Claro que não é disso que estou falando. Mas uma demonstração de como é, de verdade, ter filosofia, princípios, linha de pensamento, conduta, projeto. Jogar o jogo, jogar bonito. “Joga bonito”, aliás, me parece ser algo que a Nike escreve nas camisas da seleção brasileira. Que não joga bonito faz 30 anos. Puro marketing. É isso o que está acontecendo com o esporte no Brasil: está virando puro marketing, produto para vender cota de TV.

O presidente do Santos faz aquela pirotecnia toda para não vender o Neymar e o resto do time é uma merda. Marketing. O tal de Ganso parece um dândi aborrecido, mas é tratado como uma espécie de Zico dos novos tempos. Marketing. O Corinthians contrata um gordo descompromissado como Adriano, o cara nem joga, mas vende camisa. Marketing. O São Paulo traz de volta o centroavante bichado, coloca 40 mil pessoas no Morumbi e ele só joga seis meses depois. Marketing. O Flamengo paga (ou não paga, sei lá) os tubos para ter o dentuço, o dentuço não joga nada, mas se comporta como se fosse algum tipo de deus sobrenatural. Marketing.

Neymar, coitado, ótimo jogador, virou marketing puro. Tem fila de empresas querendo patrociná-lo, para alegria das agências de publicidade. Virou, em definitivo, uma celebridade nacional, um sex-symbol, aparece em “Caras”, no “Fantástico”, nas “Altas Horas”, nos programas da Angélica e da Ana Maria Braga, no CQC, na Gabi, sei lá onde mais. Normalmente, não tem quase nada de relevante a dizer. Retorno, é tudo que querem. Retorno.

Enquanto isso, se for possível, que o futebol não atrapalhe muito. Só que uma hora atrapalha. Como hoje, quando foi preciso jogar futebol, e foi uma humilhação danada, um time do tamanho e da história do Santos olhando o Barça jogar e brincar de roda, deu até dó. O primeiro tempo, então, beirou o ridículo. Massacre da serra elétrica. Aí acaba o jogo e vem o Muricy, cara de quem eu gosto, admiro mesmo, falar a seguinte merda: ”O sistema que eles usaram, no Brasil, seria considerado um absurdo. Eles jogaram em um 3-7-0, porque perderam (os atacantes) Sánchez e Villa e entraram com mais um meio-campista (Thiago Alcântara). Se você faz isso no Brasil, é caso de polícia, mandam prender”.

Quem manda prender? A torcida? A imprensa? O dirigente? Cadê a coragem, os colhões? (É “colhões” ou “culhões”?) Cadê a personalidade, a confiança no taco? Qual técnico no Brasil é capaz de fazer um time jogar como o Barça? Dá um trabalho danado. Tem de treinar, treinar, treinar. Olhar para a molecada da base, dar chances a garotos, estimular a criatividade, a graça, a molecagem. E treinar, treinar, treinar. E não ter medo.

O futebol brasileiro, salvo a raríssima exceção de uns caras lá no Canindé (digam o que quiserem, caguei para todos vocês que vão falar as merdas de sempre sobre a Série B etc; vi a Portuguesa jogar neste ano e vocês não viram, e se for assim o resto da vida, jogando para a frente, com alegria e sem se importar com vitórias ou derrotas, para mim está bom), é feito de gente medrosa, em toda sua hierarquia. Só tem cagão de merda, como diria o sábio Dunga.

Eu, pessoalmente, nem acho o tipo de espetáculo produzido pelos impecáveis catalães o mais agradável de todos. É belo, não se nega, mas por vezes entendiante e pouco emocionante. Quase sempre sabe-se o resultado, não há sobressaltos. Mas aí é questão de gosto. Não se nega, também, que é um time que joga bola, e que joga para fazer gols, e que seus jogadores se divertem. E não fazem faltas, não desprezam ninguém, fazem aquilo que aprenderam a fazer desde moleques, lá no terrão deles que deve ter uma grama legal e, especialmente, professores decentes. Professor, ao contrário do que acham os brasileiros, não é o picareta que sai cagando regra para seus jogadores e para a imprensa, 4-3-2-1, coloquei fulano para ocupar aquele setor, para dar mais qualidade ao meio-campo, para contra-atacar com mais velocidade pelos lados. Professor é quem pega um menino de 8, 9, 10 anos, e ensina. Ensina a brincar com a bola, a respeitar o adversário, a dar um passe, a buscar o gol, a se divertir. Ensina a ser gente, enfim.

O futebol brasileiro é dirigido e frequentado por pessoas da pior espécie, a começar do topo da pirâmide, o presidente da CBF. Não são, em sua maioria, pessoas respeitáveis — de novo, em toda a hierarquia. Os poucos que são sucumbem. É um ambiente retrógrado, reacionário, conservador, promíscuo.

O Barça é tudo isso ao contrário. Essa é a grande lição deste domingo e que deveria ser aprendida por aqui. Mesmo num mundo cada vez mais idiota, e aí não estou falando mais só de esporte, é preciso alguma pureza de propósitos e gente de bem disposta a defendê-los. Quando se tem, dá até para ganhar jogos e campeonatos, afrontar o sistema, dar um tapa na mediocridade. E o futebol, este vilipendiado, talvez seja a única coisa capaz de fazer as pessoas perceberem isso, de vez em quando.

A frase do dia

“É o melhor time do mundo. Hoje aprendemos a jogar futebol. O Barcelona foi superior, tem jogadores fantásticos. O que vivemos nesse jogo vamos tomar como lição e levar para o Brasil. O Barcelona ensinou como se joga futebol”.

De Neymar, humilde, reconhecendo os méritos do campeão.

Barça campeão com futebol de outro planeta

Por Juca Kfouri

O santista pode sim se orgulhar por ter visto seu time na final no Japão, protagonista da bela cerimônia que antecedeu a decisão com o Barcelona, mostrada para o mundo inteiro. No jogo, é verdade, foi coadjuvante, como se temia, e apenas viu o rival jogar. Porque o Santos é deste planeta e o Barcelona não é. O primeiro gol até que demorou a sair, aos 16, com Messi encobrindo Rafael sutilmente depois de uma matada escandalosamente bela de Xavi, de chaleira.

Daí em diante foi ficando cada vez mais fácil, com o próprio Xavi ampliando aos 23, com  Fàbregas mandando primeiro na trave, aos 28 e, depois, aos 44, marcando o terceiro gol, assim naturalmente. Para piorar, aos 30, o Santos tinha trocado Danilo, machucado, por Elano. Se o Al-Sadd tomou de 4, sem forçar, time, aliás, que superou o Kashiwa nos pênaltis na disputa pelo terceiro lugar, no intervalo já estava 3 contra o campeão da América. E ainda sem forçar.

Em menos de 10 minutos no segundo tempo o time catalão já criara mais três chances claras de gol, contra um contra-ataque perigoso brasileiro. Era o Santos tratado como se fosse um Bétis qualquer, apenas para lembrar os que desdenham da facilidade do Campeonato Espanhol. Aos 10, o Barça começou a poupar e trocou Piqué pelo ex-corintiano Mascherano e Xavi, de tanto brincar, entregou um gol para Neymar, que Valdes impediu.

Borges deu lugar a Alan Kardec e Thiago e Pedro, aos 33. Pareceu que a ordem de Pep Guardiola no segundo tempo foi a de que só valia gol bonito, e o Barça foi perdendo gols por puro preciosismo. Até que, aos 37, Messi fez o quarto, em jogada com Daniel Alves, num corta-luz belíssimo e uma finta minimalista sobre o goleiro Rafael: 4 a 0! Sim, o Barcelona é chato.

Porque só ele quer jogar. E só ele joga. Aquela coisa de ser o dono da bola e querer mandar em tudo. O pior é que manda. 68.166 torcedores no estádio de Yokohama se divertiram com tal chatice, até mesmo os santistas que, conformados, não pararam de gritar o nome dos campeões da Terra, com direito ainda ver Daniel Alves mandar mais uma bola na trave, aos 34.

Na verdade ficou barato, porque 7 a 1 seria o placar mais verdadeiro. Ao cabo, Neymar matou a pau: “Tomamos uma aula de futebol do melhor time do mundo”.

A melhor final possível

Por Gerson Nogueira

Raros são os times que sabem reter a bola e protegê-la com engenho e arte da ambição dos adversários. O estilo consagrado pelo Barcelona desde os anos 80, quando Johan Cruyff andou por lá disseminando essa obsessão pelo domínio absoluto, se traduz em índices de até 70% de posse da bola. Há mais de três anos o Barça não se deixa dominar. Mesmo nas poucas derrotas, consegue ficar mais tempo com a bola.   
A lógica das coisas dá ao Barcelona as maiores chances na decisão deste domingo no Japão. Tem os jogadores mais decisivos, além de ostentar aquela confiança própria dos times iluminados. Nada de empáfia, apenas a plena consciência de suas forças.
Característica essencial de todos os grandes esquadrões de futebol ao longo dos tempos, o esmero no passe garante a superioridade em campo. Manda no jogo quem conhece os segredos de prender a bola e sabe o que fazer com ela.
Cabe notar que a habilidade de envolver o oponente só vale a pena se as manobras ofensivas resultam em lances agudos de gol. Essa objetividade, que diferencia os times realmente poderosos, é marca do sistema implantado por Guardiola.
Ex-volante aplicado e técnico, que sempre admirou times de alta técnica, como aquele de Pelé-Coutinho-Pepe, Guardiola mantém antiga amizade com o grande Pepe, ponteiro do Santos bicampeão mundial e um dos maiores chutadores de todos os tempos.
Através de Pepe, o jovem técnico ficou sabendo do potencial de Neymar e Ganso quando ambos ainda eram apenas garotos promissores na Vila. Que ninguém pense, portanto, que a dupla santista terá vida fácil. O espetacular Barça não subestima ninguém e certamente vai policiar nossos jovens craques.
Será uma final mais nervosa do que o habitual, por envolver dois times que gostam do drible e dos passes curtos. Será mais difícil para o Santos, que é o franco-atirador e precisará vencer a ansiedade natural de quem enfrenta os catalães. Tem craques como Neymar e Ganso, mas precisará acertar a marcação contra um formidável sistema de meio-campo/ataque.
Mesmo que consiga conter Iniesta ou Xavi, Muricy não terá a garantia de travar por completo a criação do Barcelona. Os demais jogadores – Messi, Daniel Alves e Fábregas – também criam e fazem tabelinhas endiabradas em velocidade. E Messi é o melhor do mundo, afinal. Tostão o compara ao estilo de Pelé. Acho mais parecido com Maradona, pelo truque de colar a bola ao pé e a facilidade para disparar chutes inesperados. 
É certo que o mundo verá um jogaço, o melhor possível a essa altura do pagode. O Barcelona é superior, mas não invencível. E o grande desafio do Santos é conseguir fazer seu jogo normalmente agressivo sem se expor na defesa – e entendo que a hipótese de um trio de beques é meio assustadora. Muricy deve ter queimado as pestanas arquitetando um plano infalível para anular os trunfos do inimigo. Parada duríssima. 
 
 
Uma feira goiana se instalou no Baenão. Jamilton, Pedro Balu, Juan Sosa, Felipe Baiano, Juliano e Rodrigo Aires, além de três jogadores saídos da base: Betinho, Allan Peterson e Joãozinho. E tem ainda o técnico Sinomar Naves. Todos são representados pela empresa L2 Sports, de Goiás, que também agencia o lateral-esquerdo Rodrigo Cardoso, do Paissandu. (A dica é do repórter Sandro Galtran, do DOL).
 
 
Vandick Lima, ídolo da Fiel e herói da Copa dos Campeões 2002, é o convidado do Bola na Torre (RBATV, 21h) deste domingo. Vem falar dos planos de seu grupo para fazer o Paissandu retomar seus dias de glória.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 18)

Chegada da Fox Sports agita mercado de TV paga

Estreia em fevereiro o Fox Sports, sexto canal esportivo da TV paga no país. Propriedade da NewsCorp, do megamilionário Rupert Murdoch, a marca desembarca com um investimento estimado em US$ 200 milhões para os próximos dois anos e tem a exclusividade de transmissão das copas Libertadores e Sul-Americana 2012, na TV por assinatura. O canal estreia na primeira semana de fevereiro e já avisou aos concorrentes que exercerá direitos de exclusividade dessas competições. Exibirá 126 jogos da Libertadores (9 por semana), a partir de 8 de fevereiro, quando começa a chamada “fase dos grupos”. Foi por isso que a Globosat informou melancolicamente ao mercado, na última terça-feira, que seus canais estavam fora da Libertadores a partir do ano que vem. No entanto, a Fox vai continuar cedendo à Globo (aberta) o direito a um jogo da competição por semana.

Trata-se de um dos maiores investimentos já feitos por um único canal na TV paga brasileira. Com sede no Rio, terá uma equipe de 150 pessoas, entre repórteres, apresentadores, comercial, site e área técnica. Um dos primeiros contratados é Eduardo Elias, que hoje apresenta o “MTV Rock Gol”. A Fox está assediando e fazendo várias propostas a jornalistas esportivos e pode anunciar em breve a contratação de Nivaldo Prieto, hoje na Band. Para Hernan Lopez, CEO da Fox International Channels, o momento é “mágico” para a estreia de um canal esportivo que detém os direitos da Libertadores. “Temos muita sorte de estrear com Corinthians, Flamengo, Santos, Fluminense, Vasco e Internacional. Muita sorte ter tantos times populares”, diz. (Com informações da Folha SP)