Mês: junho 2010
Portugueses à espera de um duelo épico
Fifa: repórter inglês denuncia esquema de propinas
Por Paolo Manso/CartaCapital
Andrews Jennings não é um jornalista esportivo, e sim um repórter investigativo. Um dos melhores da Inglaterra, isso é testemunhado por décadas de colaboração com os principais jornais britânicos e a BBC. Mas principalmente é o pesadelo de Sepp Blatter e da Fifa, aos quais dedicou um livro, “Foul! The Secret World of FIFA: Bribes, Vote-rigging and Ticket Scandals” (em livre tradução, “Falta! Subornos, Compra de Votos e Escândalos com Ingressos”), publicado em 2006.
Por que o senhor é o único jornalista do mundo com acesso proibido nas entrevistas à imprensa com Blatter ?
Porque há anos procuro em vão ter respostas do chefe da Fifa sobre corrupção e propinas, baseado em muitos documentos “confidenciais”. Com muita probabilidade cansou-se de não responder e preferiu condenar-me ao ostracismo, o que de certa forma me deixa orgulhoso. Quer dizer que mister Blatter tem medo das minhas perguntas.
Em quanto importa, segundo seu parecer, a quantia das propinas pagas pela Fifa nos últimos 20 anos ?
Segundo estimativa do Tribunal de Zug, na Suíça, o valor, limitado apenas aos anos 90, é estimado em aproximadamente 100 milhões de dólares. Todo esse dinheiro acabou nos bolsos dos funcionários esportivos que estavam sob contrato, quase todos eles com a Fifa.
Quando o senhor começou a recolher as primeiras provas de corrupção?
Trabalhei durante anos sobre o tema corrupção na Fifa, juntamente com um colega alemão. As nossas suspeitas eram fortíssimas, mas não tínhamos provas porque a ISL, a sociedade que geria antes o marketing e em seguida os direitos de tevê da Fifa, era uma companhia fechada. Impossível receber informações transparentes sobre suas operações de balanço. Todavia, quando faliu de forma fraudulenta, seus livros contábeis foram colocados à disposição dos curadores falimentares, bem como dos tribunais. E foi justamente nos tribunais que tivemos a confirmação, com provas, daquilo que suspeitávamos, mesmo se a realidade superava nossa imaginação.
A corrupção na Fifa como e quando começou ?
Em 1976, o então presidente da entidade, o britânico Sir Stanley Rous, foi deposto. Ninguém podia corromper Stanley. Em seu lugar entrou o brasileiro João Havelange, que era muito corrupto. Foi ele que inaugurou o “sistema”, recebendo propinas via ISL.
Sua afirmação é grave. Ela se baseia em que ?
Em testemunhos que recolhi de ex-integrantes da Fifa, altos dirigentes. E em documentos.
Havelange chega e traz Ricardo Teixeira. Com qual resultado ?
Um “boom” de corrupção! A imprensa suíça escreveu que Havelange e Teixeira embolsaram a maior parte das propinas. No decorrer da transmissão do programa Panorama, da BBC, perguntei em três ocasiões a Sepp Blatter o que ele sabia sobre as propinas embolsadas por Havelange e ele sempre ficou calado. Pedi também informações de uma específica propina, mas também neste caso Blatter fez cena muda.
De qual propina se tratava ?
De 1 milhão de francos suíços que deveriam acabar nos bolsos de Havelange. Por um erro foram depositados numa conta da Fifa, provocando o pânico entre os dirigentes honestos da organização. Posso garantir que havia três pessoas numa sala da Fifa quando chegou aquele pagamento: Sepp Blatter e outros dois dirigentes. Falei com este que me confirmaram que o destinatário da propina era Havelange. Um dos dois entregou uma declaração oficial e assinada aos advogados da BBC, na qual afirmava que, em caso de processo por parte da Fifa contra mim e a BBC, ele compareceria no tribunal para confirmar que o pagamento era para Havelange. O mesmo, porém, pediu para não ser citado na reportagem que foi divulgada pela BBC, e que qualquer um pode apreciar na internet.
O pagamento teria sido por quem ?
Pela ISL, no início de 1998.
E o que há em relação a Teixeira ?
Bastaria olhar os documentos da acusação criminal depositados à margem do processo de Zug. Em relação aos depósitos feitos pela ISL, há um para a RENFORD INVESTIMENT LTD., sociedade controlada por Havelange e Teixeira.
Kaká em campanha contra prostituição
Extra elimina Brasil da Copa do Mundo
Dia chato na agência, todo mundo doido pra terminar o trabalho e ir pra gandaia. Aí alguém esquece de revisar a peça antes de enviar para o jornal e manda o anúncio errado. Daí para o desastre é só um passo. Deve ter sido este o caminho percorrido pela desastrada peça publicitária do supermercado Extra, publicada hoje no jornal Folha de S. Paulo, dando tchau ao Brasil na Copa. No título, é usada ma expressão zulu que significa Seleção, explicando que o escrete saiu do Mundial mas “Não do coração da gente”. Embaixo, arremata: “Valeu, Brasil. Nos vemos em 2014”. É a chamada propaganda além do seu tempo. E olha que o Extra é um dos patrocinadores da Seleção.
Imprensa se rende ao futebol da Seleção
Torcida africana agora fecha com Gana
Holanda convive com guerra de egos
Uma crise se desenrola no elenco da Holanda, que se prepara para enfrentar o Brasil na sexta-feira. Dois de seus principais jogadores estão no olho do furacão, além do treinador. Substituído aos 35 minutos do segundo tempo contra a Eslováquia, o atacante Van Persie discutiu com o treinador Bert van Marwijk ao sair do gramado em Durban. O alvo das reclamações, o meia Wesley Sneijder. As imagens da partida de segunda-feira deixam claro o descontentamento de Van Persie ao deixar o gramado. Mas o que o jogador disse ao técnico foi ainda pior do que o dedo em riste. “Você tem que tirar o Sneijder, e não eu”, disse Van Persie, apontando com o polegar sobre as costas para o campo, onde o companheiro estava. A frase de Sneijder foi captada por leitura labial feita pelo Instituto Holandês de Deficientes Auditivos, a pedido do site SportWereld.
Na zona mista, após a partida, Van Persie negou que tenha havido qualquer indisposição com o treinador, contrariando as imagens da transmissão de TV, bem como as centenas de fotografias da discussão. Nesta terça-feira, contudo, o treinador Bert van Marwijk foi em direção oposta. O comandante da seleção revelou que, no vôo entre Durban e Johanesburgo, conversou separadamente com Van Persie e Sneijder. Depois, no hotel, chamou os dois jogadores para ume reunião.
“Conversei com os dois no hotel. Foi uma reunião unilateral: eu falei e eles ouviram. Eu disse a eles que nada pode atrapalhar nossa caminhada rumo ao título mundial”, disse Van Marwijk. O treinador esquivou-se, contudo, ao ser questionado sobre a reclamação de Van Persie. “Eu não consegui ouvir o que ele disse. Havia muitas vuvuzelas no estádio e estava impossivel ouvir qualquer coisa”. Na Holanda, cogita-se a possibilidade de o treinador punir Van Persie com a reserva no jogo contra o Brasil. Assim, o atacante Klass Jan Huntelaar, do Milan, assumiria a posição no comando de ataque. (Da ESPN)
Capa do DIÁRIO, edição de terça-feira, 29
Conexão África (22)
Enfim, o futebol do Brasil deu as caras
Foi, de longe, o melhor jogo do Brasil na Copa. Não apenas pelo placar folgado e a importância da vitória, mas pela forma categórica usada pela Seleção para se impor perante um adversário aguerrido e que inicialmente tentou dar o bote. A maneira como o time brasileiro se lançou ao ataque, com técnica e velocidade, deu desde o começo a impressão de a vitória viria naturalmente. Com a disposição tática empregada, usando três jogadores leves (Ramires, Daniel Alves e Kaká) no meio-campo, o jogo ofensivo fluiu e empurrou o Chile para seu campo de defesa. Aos poucos, os espaços foram aparecendo, mesmo com a ostensiva marcação do adversário, que até sofrer o primeiro gol mantinha seis jogadores atrás da linha da bola.
Quando partia com a bola dominada, pelos pés de Kaká e Alves, distribuindo o jogo para Robinho e Luís Fabiano, a Seleção criava situações de grande perigo, pois obrigava a defesa chilena a se distribuir entre três e até quatro atacantes. O panorama era tão favorável que até nos rebotes, ao contrário de outras jornadas, o Brasil levava vantagem. Ramires e Gilberto Silva, também com atuação destacada, se aproximavam dos meios e preenchiam um vácuo crônico na meia cancha do time. Os laterais tinham dificuldades, cenário que deve se repetir contra todos os adversários, principalmente em relação a Maicon, que chegou a ser combatido por até dois jogadores.
Sem poder contar plenamente com os laterais, Kaká e Robinho abriam o jogo pelas pontas e o expediente funcionou bem, principalmente depois
que Juan abriu o placar, escorando cobrança de escanteio. Com os chilenos mais soltos do meio para a frente, a Seleção teve condições de variar jogadas e usar a habilidade para manter o controle da bola, sem precisar cair nas jogadinhas laterais improdutivas. Com domínio das ações, a bola podia ser encaminhada aos vários lados do campo, sem tomar conhecimento dos bloqueios montados por Bielsa. O segundo gol resultou dessa imposição de categoria. Kaká deu o toque final, entre três zagueiros, para Luís Fabiano driblar o goleiro e finalizar.
A vantagem no marcador tornou o jogo ainda mais corrido, sob feição para a exploração de contragolpes. Por pouco, o Brasil não marcou o terceiro ainda no primeiro tempo, tantos eram os buracos criados na defensiva chilena. Há quem possa dizer que o Chile facilitou as coisas, ao falhar na cobertura defensiva. Ora, os erros foram motivados pelos acertos brasileiros. Ninguém pode tirar os méritos da atuação da equipe, que foi alavancado por grandes participações de jogadores fundamentais. Lúcio e Juan estiveram impecáveis lá atrás. O quadrado de meio-campo funcionou afinadamente, com destaque para Ramires, Gilberto Silva e Kaká, que jogou como nos velhos tempos, inclusive quanto às arrancadas.
Depois do intervalo, com o Chile previsivelmente mais empenhado em diminuir o prejuízo, o Brasil se assentou e ficou à espera dos contra-ataques, que acabaram não sendo explorados na dose certa. O gol de Robinho foi apenas uma das várias chances criadas. De todo modo, um triunfo com a marca do verdadeiro futebol brasileiro, com dribles e muitos gols. Mais que isso: com obstinação pelo ataque. Sempre que age assim, historicamente, a Seleção leva vantagem.
Dunga e a sorte nas escolhas
Nelson Rodrigues já dizia que, até para atravessar rua, é preciso ter sorte. Dunga, reconhecidamente um sortudo no comando da Seleção, teve o trabalho de escalação facilitado pelo destino. Sem Elano, lançou mão de Daniel Alves, que distribuiu o jogo e auxiliou Kaká a abastecer o ataque. Sem Felipe Melo e sua truculência habitual, apostou em Ramires. Foi a melhor das escolhas. Com velocidade e bom posicionamento, o volante do Benfica se adaptou perfeitamente ao quadrado montado para o jogo. Para o próximo compromisso, contra a Holanda, Ramires não poderá ser mantido, pois recebeu o segundo cartão amarelo. Uma pena, pois Felipe Melo é um freio à velocidade nos passes. Com ele, a Seleção fica mais lenta e exposta a infiltrações pelo meio da defesa. Por sorte, Elano deverá estar apto a voltar e pode ser uma opção para manter a fluidez no meio-campo.
O renascimento do craque Kaká
Kaká teve sua melhor atuação na Copa e a mais expressiva na Seleção desde o ano passado. E a explicação para isso é bem simples: depois de muito tempo, ele teve espaço para transitar até o ataque. Usou toda sua categoria para envolver os marcadores e descobrir espaços para os atacantes. A continuidade de seu futebol depende basicamente dessa liberdade e da companhia de bons jogadores. Precisará disso para manter o nível pelas próximas partidas.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta terça-feira, 29)
Capa do Bola, edição de terça-feira, 29
No ataque, Brasil faz melhor jogo e avança
arcelo Bielsa prometeu colocar a equipe chilena para atacar o Brasil. Seu time cumpriu o prometido e a resposta natural da equipe de Dunga também foi jogar do jeito que melhor sabe: contra-atacando. E o resultado foi parecido com aquele das últimas vezes em que as equipes se enfrentaram nas eliminatórias sul-americanas: partida aberta, bonita e com vitória confortável da Seleção. Os brasileiros alcançaram as quartas de final da Copa do Mundo da Fifa pela quinta edição consecutiva nesta segunda-feira com uma apresentação segura e um bocado de lances rápidos em contra-ataques que arrancaram aplausos do estádio Ellis Park, em Johanesburgo. Juan, Luís Fabiano e Robinho marcaram os gols da vitória por 3 a 0 que definiu Brasil x Holanda como a terceira partida das quartas de final da África do Sul 2010.
Os brasileiros e os holandeses – que superaram a Eslováquia por 2 a 1 nesta segunda-feira – voltam a campo na próximo sexta-feira, dia 2 de julho, às 16h locais (11h de Brasília, 15h de Lisboa), em Nelson Mandela Bay/Port Elizabeth, para disputar uma vaga na semifinal. Mais uma vez, por conta de problemas físicos, Dunga teve que alterar a formação do meio-campo brasileiro, com Ramires na vaga de Felipe Melo e Daniel Alves na de Elano. Isso, além do retorno de Kaká, suspenso no emapte sem gols contra Portugal, e Robinho, poupado daquele jogo.
Os chilenos de Marcelo “El Loco” Bielsa, por sua vez, seguiram fiéis a seu estilo ofensivo, com Jean Beausejour, Mark González, Alexis Sánchez e o centroavante Humberto Suazo dividindo as funções ofensivas. E, de fato, os primeiros minutos de jogo mostraram um Chile disposto a partir para cima e, com isso, ceder espaços à Seleção – algo de que o time de Dunga vinha precisando neste Mundial.
A partir dos 25 minutos, quando diminuíram o ritmo da partida e aos poucos passaram a controlar as ações, a impressão de que a vantagem era questão de tempo ficava mais e mais clara. Aos 34 minutos, Maicon bateu escanteio no segundo pau e Juan subiu para cabecear no canto alto direito, sem chance para Claudio Bravo. Aos 38, quando Robinho recebeu pela esquerda, avançou e encontrou Kaká na meia-lua. O camisa 10 deu um passe genial, de primeira, que deixou Luís Fabiano cara a cara com Bravo. O artilheiro driblou o goleiro e amplicou a vantagem.
Quando as duas equipes voltaram a campo, sabia-se que o Chile iria se soltar mais e concederia mais espaços para os contragolpes. Para isso, a presença de Ramires no lugar de Felipe Melo acabou sendo ideal. O meio-campista do Benfica, um dos destaques do jogo, engatou uma arrancada rápida aos 14 minutos e, na entrada da área, serviu Robinho. O camisa 11 tocou de primeira no canto esquerdo e marcou seu primeiro gol na Copa. Depois disso, o Brasil fez alterações, substituindo Kaká e Robinho, e acabou perdendo Ramires (recebeu o segundo cartão amarelo) para o jogo de sexta-feira.
A Holanda classificou-se às quartas de final no primeiro jogo da rodada, derrotando a Eslováquia por 2 a 1, sob o comando de Robben, que marcou um belo gol e abriu caminho para a vitória.









