Conexão África (12)

Alemanha tropeça, mas não está morta

Na Copa do futebol tímido e nivelado por baixo, o sábado trouxe outra decepção. A Alemanha, que havia encantado com um futebol de objetividade e organização tática na vitória sobre a Austrália, caiudiante da pouco badalada Sérvia. Foi 1 a 0, mas podia ter sido até um placar maior, diante das oportunidades desperdiçadas pelo ataque sérvio depois que Podolski perdeu um pênalti no segundo tempo. Os alemães até se esmeraram, procurando caprichar nos passes e nas jogadas trabalhadas, mas como é próprio do futebol germânico as jogadas exigem um grau de esforço maior. Para fazer uma tabelinha, fica-se com a impressão de que os jogadores se empregam além do necessário, como se o lance simples estivesse acima de seus próprios
limites.
Os sérvios, ao contrário, são naturalmente mais habilidosos e gostam de tentar um drible aqui, outro ali, fato que torna seu jogo bem mais simpático para nós, brasileiros. Confesso que comecei a ver o jogo sem grande entusiasmo, pois os alemães retinham a posse da bola, trocando passes no meio-campo e de vez em quando indo ao ataque. Como tem o projeto pessoal de superar Ronaldo como maior artilheiro em Copas, Klose tenta transformar em lance de gol toda e qualquer jogada. Sempre achei improdutivo para uma equipe ter um jogador mais dedicado a uma meta particular. Klose acabaria expulso, mas o time continuou dispersivo no ataque. Podolski, que é ídolo na Alemanha, joga um pouco menos do que ele próprio acredita e assim acrescenta um novo rol de problemas para o time de Joachim Low. Ozil, que havia sido brilhante na partida de estreia, só mostrou alguma eficiência no primeiro tempo. Na etapa final, entrou no desespero geral, tentando resolver as coisas com chutes longos, mas sem êxito. A juventude da equipe é outro fator a considerar num torneio que exige estrada e malandragem. Os mais experientes são Lahm e Klose, mas em certos momentos baixa uma certa confusão em campo, natural num grupo cuja média de idade está pouco acima de 24 anos. Se sobra vigor físico, falta malícia e equilíbrio.
O insucesso de ontem, porém, não pode ser visto com a mesma lente de aumento usada para aferir a goleada sobre os australianos. Do mesmo jeito que a Austrália não pode servir de referência para o futebol de ninguém, a derrota para a Sérvia não transforma o time alemão em medíocre. Que ninguém se engane: continua a ser uma equipe respeitável, com volume de jogo e poder de fogo para ir bem longe no torneio.

Dois jogos em tempos diferentes

Participei da transmissão para a Rádio Clube do confronto entre norte-americanos e eslovenos. Fiquei bem impressionado com os 45 minutos iniciais da Eslovênia, que imprimiu velocidade no passe e agressividade ofensiva que eu só havia visto antes na Argentina e no Chile. Foi uma bonita exibição, liderada pelo excelente meia Birsa, cérebro e motor da equipe. Distribuía lançamentos precisos e arriscava chutes perigosos de média distância. Pouco marcado pelos jogadores de Bob Bradley, que certamente não o conheciam, Birsa foi se agigantando, até disparar um tiro de 40 metros que pegou o goleiro Howard adiantado. A vantagem assustou os EUA e tornou a Eslovênia ainda mais insistente no ataque. Insistiu tanto que chegou ao segundo gol, em contra-ataque perfeito. No fim do primeiro tempo, o árbitro de Mali ainda atrapalhou um outro contragolpe igualmente forte dos europeus.
Tudo seria perfeito para a Eslovênia se o jogo acabasse ali. Mas havia o segundo tempo e as coisas mudaram por completo. Em primeiro lugar, houve o fator sorte. Os EUA conseguiram fazer um gol logo aos 2 minutos, estabelecendo novas condições para o duelo. Para tornar tudo mais favorável, o técnico Bradley conseguiu marcar os passos de Birsa, que sumiu em campo. Depois, a Eslovênia ainda teve que enfrentar um inimigo natural: o cansaço físico. De tanto correr na primeira parte, o time parecia travado no segundo tempo, aceitando passivamente a pressão americana. Donovan, o craque do time, passou a ditar as ações e passou a lançar o centroavante Altidore, que lutava contra dois zagueiros e conseguia levar vantagem. O gol de empate surgiu de um cruzamento do primeiro, escorado pelo segundo e finalizado por Michael Bradley, filho do treinador. E ainda haveria um terceiro gol, de Edu, confusamente anulado pela arbitragem.

O trabalho silencioso de Bielsa

Quem primeiro chamou atenção para o novo Chile foi o ex-atacante Ivan Bambam Zamorano. Com conhecimento de causa, o ídolo do Real Madri e da
seleção chilena disse que Marcelo Bielsa estava operando uma pequena revolução no futebol do país, que não conseguiu se reaprumar desde o episódio de Rojas no Maracanã. Com persistência e mão de ferro, El Louco Bielsa usou todos os seus conhecimentos para reconstruir a seleção. Apostou em jovens valores e os resultados começam a aparecer, a começar pela retomada da confiança interna. Nesta Copa, sem estar bem cotado, a seleção estreou muito bem, derrotando Honduras por 1 a 0 e criando condições para um resultado bem elástico. Vi o jogo e gostei muito da rapidez com que o time sai para o ataque e a busca permanente do gol. Não há embromação no meio-de-campo, há insistência e luta. Desconfio que Bielsa vai levar o Chile a um bom lugar neste mundial.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste sábado, 19)

6 comentários em “Conexão África (12)

  1. Infelizmente, Gerson, futebol bonito nao e sinonimo de vitorias. Mas pelo menos sabemos que os jogos de Argentina e Chile serao os mais divertidos e fogem da mesmice do ‘gol e um detalhe’.

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  2. Gerson

    O que é lamentável é a FIFA colocar árbitros de qualidade, no mínimo, duvidosa para apitar em copa do mundo. O árbitro de Mali interferiu diretamente no resultado do jogo ao anular o terceiro gol dos norte americanos marcando uma falta que só ele viu. Alguém já ouviu falar o nome de um time de futebol de Mali?

    Mauro Lima

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  3. Referente a Alemanha, não diria um tropeço, mas um descuido que não passará de um susto banido na próxima rodada. O EUA apesar de prejudicado, também, deverá seguir em frente. Quanto ao Chile é uma promessa. Arbitro errrou, como humano que é, azar do EUA.

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  4. Berlli

    Concordo que o árbitro é humano e passível de orrar e é exatamente por isso que defendo que se levem os melhores árbitros parta a principal competição de futebol e assim possamos diminuir a ocorrência de erros como o visto neste gol mal anulado dos EUA.

    Mauro Lima

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  5. E o Dunga está feliz da vida, porque soube copiar o futebol europeu. Égua.. a gente merece. Eu só estou assistindo jogos da Argentina. Até os africanos copiaram, mas estão se dando mal. Força é para MMA. Tá louco.

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