No futebol brasileiro, tão refratário a inovações de gerenciamento e administração, algumas ideias primitivas surpreendentemente ganham fôlego através de jovens treinadores. A Seleção Brasileira, desde que Dunga convidou o amigo Jorginho (lateral campeão do mundo em 1994) para auxiliar, adquiriu um perfil de “igrejinha”, literalmente. Alguns jogadores, que preferem não se identificar, comentam que os chamados “atletas de Cristo” têm mais chances no escrete do que os não-evangélicos. Dunga não é propriamente um beato, mas Jorginho leva as convicções religiosas às últimas consequencias.
Com a anuência de Dunga, o ex-lateral do Flamengo chegou a propor (e conseguiu) ter um conselheiro espiritual, ligado à sua igreja, acompanhando a Seleção. Promove frequentes reuniões e cultos na concentração. Na Copa das Confederações, participavam desses encontros 11 jogadores, ficando os demais atletas um tanto deslocados e temerosos de retaliações. Lúcio, Luizão, Kaká, Felipe Melo e Daniel Alves são identificados como expoentes do grupo religioso dentro da Seleção. Robinho, Luiz Fabiano e Julio Cezar são os mais arredios, mas já há um movimento no sentido de cooptar principalmente Robinho, visto como um “irmão a ser salvo”.
No momento das comemorações, um gesto comum identifica os jogadores engajados: as duas mãos erguidas em direção ao céu, com o olhar para o alto, acompanhado de prece em agradecimento a Deus. E quando o Brasil finalmente conquistou o título foi necessário um aviso oficial da CBF, ainda dentro do gramado, para que os jogadores continuassem vestindo o uniforme oficial da Seleção. A maioria já havia tirado a amarelinha e estava com a camiseta usada por baixo, com saudações evangélicas.
A Fifa chegou a emitir um comunicado oficial, motivado pelas explícitas manifestações religiosas dos brasileiros, normatizando a conduta de atletas em jogos oficiais. É proibida a realização de mini-cultos no campo de jogo e a retirada das camisas oficiais, como forma de resguardar o direito à imagem que todo patrocinador tem. Pelo visto, apesar do claro objetivo da entidade, os jogadores da Seleção continuam a insistir nas mensagens, que buscam ressaltar e propagar suas crenças. Nas entrevistas, são comuns as citações “ao Senhor” como agradecimento por vitórias e conquistas. Muitos ignoram até a análise técnica das partidas, preferindo enaltecer o dedo de Deus nos resultados positivos.
Nos torneios realizados no Brasil a religiosidade também vem aumentando. Desde que os Atletas de Cristo surgiram como entidade, capitaneados por Silas e Müller no São Paulo de Cilinho, nos anos 80, a fé só fez aumentar no ambiente do nobre esporte bretão. E é através do próprio Silas que o fervor evangélico vem se manifestando, a partir da bela campanha do Avaí no recente Campeonato Brasileiro. Dirigentes do clube catarinense revelam agora que vários jogadores não-evangélicos teriam sido discriminados pela comissão técnica. O treinador nega, alegando – com razão – que durante a competição ninguém criticou esse procedimento.
O certo é que um guru espiritual, Johnny Monteiro (ex-capelão das divisões de base da Seleção nos tempos de Renê Simões), acompanhou a delegação em tempo integral, orientando e aconselhando os boleiros. Suas pregações levam tanto tempo quanto as preleções do técnico Silas. A ascensão técnica do Avaí na competição é atribuída, em grande parte, à disciplina religiosa. Com a transferência para o Grêmio, a primeira figura anunciada na comissão técnica foi justamente a do orientador religioso. Resta saber como será a receptividade ao futebol missionário no ambiente dos pampas, conhecido por suas fortes tradições e rivalidade acentuada entre Inter e Grêmio.