De desacreditado a campeão, a trajetória do Fogão na Série B mais difícil da história

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Era 21h35 de 20 de julho de 2021. Sem técnico há dois jogos, tendo acabado de perder para o Goiás por 2 a 0 e na 14ª colocação com um jogo a menos, o Botafogo resolve anunciar nas redes sociais que Enderson Moreira seria o novo técnico do clube. A imensa maioria das reações na página é de desaprovação com o nome escolhido pela diretoria para colocar o time de volta no caminho para a Série A.

Enquanto você lia o primeiro parágrafo já sabia o que tinha acontecido com o time que estava mais perto da zona de rebaixamento do que do G-4. A esperança da torcida parecia pouca, mas Enderson Moreira mudou o jeito do Botafogo gradativamente. Se não apresentava o futebol mais vistoso, os resultados eram mais do que suficientes para inflar a combalida moral alvinegra que vinha em baixa desde a temporada anterior.

Botafogo comemoração título Série B

Mas a Série B do Botafogo não começa com a chegada de Enderson Moreira. A caminhada na competição tem início assim que a diretoria anuncia a contratação de outro treinador: Marcelo Chamusca. Respaldado nas campanhas anteriores que fez com que subisse em todas as divisões nacionais, o ex-técnico acumulava mais esperança na torcida alvinegra.

A má campanha no Campeonato Carioca e a eliminação precoce na Copa do Brasil quase fizeram com que o treinador nem começasse a Série B no Botafogo. A diretoria deu um voto de confiança e Chamusca iniciou a competição à frente da equipe, mas a esperança que gerou na contratação já não era a mesma antes do torneio. Pouco antes do início da segunda divisão, o ge fez o Guia da Série B, em que dava notas em seis quesitos. Com peso maior para “elenco”, “momento” e “finanças”, a equipe tinha a nona maior pontuação, mas ainda era considerado candidato ao acesso.

Eis que começa a competição

No primeiro jogo, Botafogo e Vila Nova empataram em 1 a 1 em Goiânia com gol de Rafael Navarro e assistência de Chay. O camisa 14 – contratado depois do Estadual – entrou no segundo tempo para melhorar o time alvinegro que jogava com um a mais. Daquele time que começou jogando, só quatro foram titulares na partida contra o Brasil de Pelotas: Warley (que jogou de lateral), Kanu, Marco Antônio e Rafael Navarro.

Já na terceira rodada, o Botafogo teve que se mudar. Com o Nilton Santos cedido para a realização da Copa América, o time atuou como mandante duas vezes em Volta Redonda e só voltou para casa diante do Cruzeiro. Para efeito de comparação, foram realizados cinco jogos como visitante, em que teve de ir para Londrina, Recife, São Luís, Florianópolis e Maceió. Além das viagens de avião, ainda tinha o deslocamento para a cidade que mandou suas partidas no período, e os treinos na Saferj, em Guaratiba, Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Ao fim da quinta rodada, com derrota para o então líder Náutico, o Botafogo ocupava a quarta posição, com oito pontos.

O desgaste cobrou seu preço. Dos sete jogos que fez nesse vai e vem, o Botafogo venceu dois (ambos no Raulino de Oliveira), empatou outros dois e perdeu três. A situação ficou extremamente delicada para Marcelo Chamusca. Com um jogo a menos e 12 pontos na tabela, o time parecia não encaixar na mêcanica desejada pelo treinador e começava a se aproximar perigosamente da zona de rebaixamento.

Apesar da fase não ser boa, havia um ponto positivo: Chay surpreendia e tomava conta do meio de campo alvinegro. Cada vez mais importante no time, o camisa 14 criava um protagonismo inesperado para parte da torcida, que estava ressabiada com o meia de 30 anos que chegara ao Botafogo após ótimo Carioca pela Portuguesa-RJ.

Chay comemora um dos gols que fez na Série B - Vitor Silva/Botafogo

Ao mesmo tempo que buscava se entender dentro de campo, o Botafogo ainda precisava se manter viável financeiramente. Para isso, emprestou Sousa ao Cercle Brugge, da Bélgica, e vendeu PV para o Internacional, em uma transação criticada pelo baixo valor, mas que a diretoria afirmou ser necessária para atingir metas orçamentárias.

E então veio o jogo contra o Cruzeiro. Chay brilhou, fez três gols e só não viu o Botafogo sair do Nilton Santos com a vitória porque o adversário também marcou três vezes. O jogo ruim foi a gota d’água para a torcida, que não aguentava mais externar a revolta com o time apenas nas redes sociais.

Naquele momento, o Botafogo estava em oitavo lugar, com 15 pontos.

Com Marcelo Chamusca pressionado, membros de torcidas organizadas foram ao Nilton Santos para cobrar a demissão do técnico. A diretoria ficou em silêncio durante todo o dia, até que recebeu alguns torcedores dentro do estádio e uma parte foi conversar com os manifestantes. Por fim, no dia seguinte veio a demissão do treinador.

Porém, a crise não terminara. O Botafogo tinha o plano A muito bem definido com Lisca, mas a diretoria não esperava a recusa do treinador. Em silêncio e sem dar qualquer satisfação para o torcedor por uma semana, o Botafogo divulgou a contratação de Enderson Moreira. Nesse meio tempo, duas derrotas para Brusque e Goiás deixaram o time mais próximo da zona de rebaixamento do que do G-4.

Se nos quatro jogos anteriores à chegada do atual treinador o Botafogo tinha três derrotas, Enderson conseguiu mudar muita coisa no time e, desde que assumiu, tem o mesmo número de reveses, mas num universo de 25 jogos.

A estreia de Enderson foi em Aracaju, contra o Confiança, então lanterna da competição. O Botafogo penou para vencer por 1 a 0 e talvez esse nem fosse o resultado mais justo da partida, já que o adversário teve o triplo de finalizações defendidas. Valeu o “saber sofrer” da equipe, que achou num chute de Romildo fora da área uma das vitórias mais difíceis da competição. A partida ainda contou com a expulsão do técnico que desrespeitou o quarto árbitro logo na estreia.

Depois dessa vitória o Botafogo engrenou. O time foi bem contra o CSA em partida atrasada pela sexta rodada e um jogador em específico chamou a atenção. Depois do 2 a 0 em cima do time alagoano, Rafael Navarro se tornou o jogador com mais participação em gols pelo Botafogo na temporada. Em meio ao imbróglio com a diretoria sobre renovação, cada partida bem jogada pelo atacante fazia o custo pela permanência aumentar um pouco mais.

Após o CSA, foi a vez do Vasco de Lisca ser a vítima. O time de Enderson Moreira, que voltara à beira do campo após cumprir suspensão, ganhou de 2 a 0, ouviu os alto-falantes do Nilton Santos tocarem “Vou Festejar” e viu a torcida rival dizer que era quase um crime o Botafogo ficar na frente.

Rafael Navarro foi o principal jogador da campanha do título do Botafogo - André Durão/ge

A boa fase fez com que o time chegasse pela primeira vez na temporada a ter três vitórias seguidas. Após mais um triunfo em casa, diante da Ponte Preta, o Botafogo tropeçou diante do Operário-PR. Mas logo o time se ajustou e ficou sete partidas seguidas invicto, tendo empatado apenas uma delas. Foi no início dessa segunda série invicta de Enderson Moreira que o Bota viu ressurgir um pilar defensivo: Joel Carli.

O “capitán” atuou como titular pela primeira vez diante do Brasil de Pelotas no penúltimo jogo do primeiro turno. Diante da equipe gaúcha o argentino marcou o gol da vitória para garantir o 1 a 0 no Nilton Santos contra o lanterna da competição. O Botafogo viu que o experiente zagueiro poderia ser útil no restante da temporada e com ele em campo a quantidade de gols sofridos foi bem menor.

O Botafogo iniciou o returno com vitória sobre o Vila Nova, que o deixou em sexto lugar, com 32 pontos.

Carli foi um dos jogadores mais importantes da temporada - Vitor Silva/Botafogo

Três partidas depois, diante do Coritiba no Couto Pereira, o Botafogo entrava no G-4 pela primeira vez desde a chegada de Enderson. O 1 a 0 diante dos líderes da competição, na casa deles, fez com que o técnico visse que o time subiria para a primeira divisão, como disse em entrevista coletiva após o título no último domingo.

– Tive muita confiança que a gente ia conseguir o acesso – e falei isso no vestiário – no jogo contra o Coritiba. Estávamos enfrentando o líder do campeonato, nos seus domínios, e acho que tivemos uma atuação muito boa. Conseguimos controlar o jogo, impor dificuldades e dar poucas oportunidades de gol para o Corotiba. Fico feliz porque acho que aquele momento foi importante para todos. Eu relatei isso na conversa após o jogo. Fiquei muito feliz pelo resultado e falei que a gente estava caminhando muito bem.

Mesmo após a vitória que colocou o time no G-4, o Botafogo continuou reforçando o elenco para a disputa da Série B. No fim de agosto, o clube anunciava a contratação de Carlinhos e Luiz Henrique, emprestados do Fortaleza, e começava a negociar com o lateral-direito Rafael.

O ex-jogador do Manchester United foi a principal contratação do clube na temporada. Mesmo com pouco tempo em campo, o lateral teve importância interna, no dia a dia do elenco, e também na divulgação do Sócio-Torcedor do clube. A chegada do camisa 7 fez com que o Botafogo procurasse acordo com os jogadores que não vinham sendo utilizados para abrir espaço na folha salarial e assim chegar ao elenco que tem hoje.

“Torcedor dentro de campo”, como diz que seria, Rafael estreou com a camisa alvinegra justamente na primeira partida que teve a torcida presente no Nilton Santos. O duelo contra o Sampaio Corrêa marcou o retorno dos botafoguenses ao estádio desde o início da pandemia e só não foi melhor porque o lateral não deixou o dele, mas o Botafogo venceu mesmo assim.

Naquele momento, o time já era o vice-líder, com 48 pontos.

Mas o segundo encontro em casa não foi bom. O Botafogo perdeu para o Avaí, com direito a Enderson Moreira discutindo com os torcedores enquanto a bola rolava. O mal entendido ficou para trás e desde aquele 2 de outubro o time não foi mais derrotado na Série B.

Até o acesso foram mais três empates e cinco vitórias – a mais emblemática antes da confirmação da subida foi a goleada por 4 a 0 em cima do Vasco e novamente uma provocação ao rival do Rio de Janeiro lembrando aquela marchinha de Carnaval “Ei, você aí…”.

Ao fim da 34ª rodada, o Botafogo assumiu pela primeira vez a liderança da Série B, com 62 pontos.

O jogo que confirmou a volta para a primeira divisão, no Nilton Santos lotado, não poderia ser sem emoção. A vitória de virada em cima do Operário foi para nenhum roteirista de documentário botar defeito. Fora de casa, contra o lanterna Brasil, o time foi além de qualquer expectativa e levantou a taça da Série B em Pelotas. Agora, a esperança é de um público ainda maior no próximo domingo, contra o Guarani, para celebrar o título da competição que o Botafogo espera nunca mais participar.

Botafogo conquistou o acesso da Série B no Nilton Santos - Vitor Silva/Botafogo

Goleiro do Goiás é o destaque da Série B 2022

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O milagreiro Tadeu, também chamado pela torcida do Goiás de “Tadeus”, é o melhor jogador do Brasileiro da Série B 2022. No jogo do acesso, diante do Guarani, na segunda-feira (22) em Campinas, ele novamente foi o destaque em campo, com pelo menos quatro defesas primorosas.

Os números dele são indiscutíveis:

◉ 37 jogos

◉ 74 defesas simples

◉ 35 defesas difíceis

◉ 29 gols sofridos

◉ 16/37 jogos sem sofrer gols

◉ 491 no Índice Footstats

Justiça pune Cruzeiro por insultos racistas da torcida ao atacante Jefferson, do Remo

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Por ato de injúria racial de uma pessoa na arquibancada no jogo contra o atacante Jefferson, do Remo, Cruzeiro foi punido pelo STJD. A punição estabelecida pelo tribunal foi multa de R$ 50 mil mais perda do mando de campo de um jogo da Série B do próximo ano. O tribunal acatou a denúncia apresentada pelo Leão logo após o jogo realizado em Belo Horizonte. O Remo venceu a partida por 3 a 1. (Foto: Samara Miranda/Ascom Remo)

Agora basta uma vitória

POR GERSON NOGUEIRA

Lucas Siqueira — Foto: Samara Miranda/Ascom Remo

O Remo teve a melhor notícia da semana ontem à noite com o triunfo do CRB sobre o Vitória, por 3 a 1, valendo pela 37ª rodada do Brasileiro da Série B. O resultado deixa o time paraense à frente de Londrina e Vitória na classificação. No domingo, contra o Confiança, a vitória garante a permanência na competição, sem depender de outros resultados.

A partida teve um começo preocupante para os azulinos. O CRB marcou logo a um minuto, mas cedeu o empate ainda no 1º tempo para um Vitória ofensivo e determinado, que chutou muito mais a gol e rondou o tempo todo a área regateana. Na etapa final, o CRB melhorou e fechou o placar em 3 a 1, para alívio do Fenômeno Azul.

Cabe lembrar que todo esse desassossego poderia ter sido evitado. O Remo entrou no segundo turno da Série B em condições de atingir a meta da permanência sem maiores atropelos. Ocorre que um conjunto de fatores contribuiu para a queda técnica vertiginosa da equipe.

Uma série impressionante de lesões se abateu sobre o elenco. Jogadores titulares ficaram ausentes de vários jogos, quebrando o entrosamento e travando a evolução da equipe. Erick Flores, Romércio, Wellington, Uchoa, Igor, Lucas Siqueira, Jefferson, Vinícius, Pingo e Tocantins foram alguns dos que desfalcaram o Remo em momentos cruciais da competição.

Esse problema gerou outro. O técnico Felipe Conceição, que havia conseguido recolocar o time na disputa após a saída de Paulo Bonamigo, viu-se obrigado a improvisar ou fazer apostas que não funcionavam a contento. O meio-de-campo acabou refletindo muito essa oscilação.

Com Erick Flores, o time tinha recomposição e transição bem executadas. Sem ele, o setor passou a depender de Artur e Lucas Siqueira se alternando no papel de apoio aos laterais e aproximação com o ataque. Não deu certo. Pior que isso: o mau funcionamento do setor não foi sanado por Conceição, que seguiu teimosamente com as mesmas peças.

No ataque, o uso de Gedoz como falso 9 foi um artifício para esconder uma fragilidade: a falta de um centroavante definidor. Renan Gorne não teve sequência e o camisa 10 passou a ser utilizado como o jogador de chegada pelo centro, situação que poucas vezes funcionou de verdade.

Com Eduardo Baptista, mesmo em curtíssimo tempo de trabalho, o Remo ganhou outra feição. Saiu de cena a obsessão pela posse de bola e entrou em pauta a objetividade. Para isso, contribui a volta de Erick Flores, justamente a maior baixa do elenco, que ficou 80 dias em recuperação.

O melhor momento do novo Remo foi o jogo com o Vasco no Rio, quando o time esteve muito perto de voltar a vencer, com grande produção ofensiva no primeiro tempo. É esse modelo que deve ser aperfeiçoado nos treinos da semana para a decisão do ano, domingo, diante do Confiança.

Antes, porém, o Leão tem o Manaus como obstáculo na Copa Verde. O time será alternativo e as dificuldades se mantêm, mas o ânimo geral no Baenão foi renovado graças ao resultado obtido pelo CRB ontem. (Foto: Samara Miranda/Ascom Remo)

A primeira conquista de um clube que tem causas

O Amazônia Independente, clube caçula na disputa da Série B do Campeonato Paraense, obteve no último domingo (20) o acesso à primeira divisão do futebol paraense. Derrotou o Pedreira por 2 a 0 na semifinal da competição, garantindo automaticamente presença no Parazão 2022.

É um feito e tanto. A disputa é cada vez mais equilibrada e difícil no torneio de acesso. O Amazônia Independente foi fundado pelo técnico Walter Lima, profissional respeitado pelo bom trabalho realizado em vários clubes paraenses, incluindo Remo, São Raimundo e Desportiva.

Não é um clube qualquer. Tem princípios, causas e objetivos bem definidos. Defende a sustentabilidade e a independência dos povos nativos da floresta amazônica. Essas bandeiras estão expostas no próprio uniforme do Amazônia, no qual o verde das matas é a cor predominante.  

O time é dirigido por Mateus Lima, filho do presidente e fundador Waltinho, legítimo seguidor de sua filosofia singular e pouco comum no universo do futebol profissional.  

Esta é a primeira participação do Amazônia em uma competição oficial. Com sede em Santarém, o time faz seus jogos no CT da Desportiva, em Marituba. Em 10 partidas, foram sete vitórias, dois empates e uma derrota.

Com o acesso assegurado, o Amazônia sonha agora em levantar a primeira taça. Na decisão do título da Série B, o adversário sairá da disputa entre Caeté e Parauapebas ou São Raimundo.

A definição do outro semifinalista acontece hoje, no Tribunal de Justiça Desportiva, em julgamento de recurso do São Raimundo contra o Parauapebas, que escalou um jogador que deveria cumprir suspensão.

Papão tem motivo para festejar acesso do Goiás

O Goiás fez a festa do acesso ontem em Campinas e o PSC tem motivos para comemorar também. O empréstimo do atacante Nicolas ao time goiano prevê bonificação de R$ 800 mil em caso de classificação à Série A. O valor, somado a parcelas já pagas, ultrapassa R$ 1 milhão.

Nicolas foi cedido ao Goiás no começo do ano. A preferência de compra é do alviverde com prazo até dezembro de 2022, quando também se encerra o vínculo do jogador com o PSC. Ontem, diante do Guarani, Nicolas deixou sua marca marcando de cabeça o segundo gol do Goiás. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 23)

O passado é uma parada

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Parte do elenco de “O Reencontro” e o diretor Lawrence Kasdan (de barba): Tom Berenger, Jeff Goldblum, Kevin Kline e William Hurt, em 1983.

Remo veste a camisa do CRB

POR GERSON NOGUEIRA

Eduardo Baptista, técnico do Remo — Foto: Samara Miranda/Ascom Remo

As atenções da torcida remista estão voltadas hoje para o estádio Rei Pelé, em Maceió, onde CRB e Vitória se enfrentam a partir das 18h. O jogo vale muito para as pretensões do Remo. Para chegar em situação favorável à última rodada, sem depender de outros resultados para permanecer na Série B, tem que torcer para uma vitória do CRB ou um empate. Com isso, o rubro-negro baiano permaneceria atrás do Leão na pontuação.

Atento ao desfecho da 37ª rodada, o Remo inicia os preparativos para o confronto de domingo contra o Confiança, no Baenão. Para vencer, terá que dispor de seus melhores jogadores. Erick Flores, decisivo diante do Vasco, com duas assistências que resultaram em gols, está confirmado, apesar de ter sido substituído demonstrando certo incômodo físico.

É possível que o meia Felipe Gedoz também esteja de volta, embora o time tenha funcionado bem sem ele no primeiro tempo em São Januário. Como referência no setor de criação, porém, sua presença pode dar ao Remo mais qualidade nas ações de ataque.

Já rebaixado, o Confiança vem para cumprir tabela, embora ninguém possa subestimar os efeitos da tradicional “mala branca”, que costuma transitar pelos céus do Brasil em rodadas decisivas de campeonato. Londrina e o próprio Vitória têm interesse direto na partida e o time sergipano pode ser incentivado a lutar para impedir uma vitória leonina.

Ao Remo cabe se organizar para não deixar escapar a chance de salvar a temporada. Depois de uma campanha cheia de oscilações, o time chegou à fase final em visível queda livre. Perdeu cinco jogos e empatou um nas seis últimas rodadas, um desempenho sofrível e que pintou em cores vivas o risco de rebaixamento.

Graças à gordura acumulada ao longo da era Felipe Conceição, o Remo conseguiu permanecer fora do Z4, embora um ponto apenas à frente do 17º colocado, Londrina, e dois pontos em relação ao Vitória, 18º.

Além da recuperação de atletas e dos treinos para a grande decisão de domingo, o técnico Eduardo Baptista terá que montar um time alternativo para outro confronto eliminatório: a disputa com o Manaus pela vaga na semifinal da Copa Verde. Não é a maior prioridade do Remo no momento, mas avançar no torneio é missão obrigatória.

Botafogo volta a soltar o grito de campeão

A Primeira Divisão não é a mesma sem a presença do Botafogo. Inserido eternamente na história do futebol brasileiro, com maior número de atletas cedidos à Seleção para a disputa das Copas do Mundo e uma galeria de craques imortais, a Estrela Solitária se confunde com as passagens mais gloriosas do Brasil bom de bola.

Ontem, para um estádio quase sem torcida, em Pelotas (RS), o Botafogo carimbou a volta ao seu lugar de origem. Venceu por 1 a 0, gol de Diego Gonçalves, garantindo a conquista do título do Brasileiro da Série B, situação oportunizada pela derrota do vice-líder Coritiba.

O feito adquire maior relevância porque o Botafogo teve que remontar um elenco, enfrentando sérias dificuldades financeiras e a descrença generalizada quanto ao acesso. O início foi ruim, mas a mudança operada a partir da chegada de Enderson Moreira fez o time se superar.

A vitória sobre o Brasil confirmou uma trajetória de muita luta, bravura e comprometimento. O grupo de atletas não chega a ser brilhante, mas é perfeito para as necessidades da Série B. Domingo, no estádio Nilton Santos, a festa será com pompa e circunstância no jogo contra o Guarani.

Combater a discriminação é luta de todos

O gesto marcante dos braços erguidos e punho cerrado, característico das manifestações dos Panteras Negros nos anos 1960 e dos protestos pela morte de George Floyd nos Estados Unidos, voltou à cena no futebol brasileiro neste fim de semana. Antes do clássico disputado em São Paulo, ontem, jogadores de Corinthians e Santos se posicionaram ajoelhados antes de a bola rolar para o protesto coletivo pelo Dia da Consciência Negra.

Por tabela, a cena fez referência à vergonhosa absolvição pelo STJD de um dirigente do Brusque que fez ofensas racistas ao meia Celsinho, do Londrina. O interessante é que o trio de arbitragem aderiu à manifestação, que para alguns hipócritas não deveria se misturar com as coisas do futebol, como se o futebol não fosse uma manifestação social por excelência.

Foi bonito ver que, não obstante algumas diferenças de pensamento, todos sabem o quanto é importante lutar pelas liberdades e pela inclusão social, combatendo todas as formas de discriminação. Isso ganha um valor ainda maior no Brasil de hoje, marcado por tanto ódio e intolerância.

Um campeão paraense no surfe em água doce

Nayson Costa, 23 anos, natural de Salinas, conquistou o bicampeonato brasileiro de surfe em água doce, disputado ontem na praia do Marahú, em Mosqueiro. Favorito na competição, Nayson ganhou a disputa e adquiriu mais confiança para o desafio do Brasileiro de Surfe Profissional, que será realizado em dezembro, na Bahia.

Coordenado pela Agência Distrital de Mosqueiro, o evento atraiu surfistas de todo o Brasil. No total, foram 94 inscritos para a disputa em três categorias: open, master e local. No torneio nativo, o pódio foi formado por Márcio Correia, campeão; Luciano André, 2º lugar; e Fabrício Manduca, 3º lugar, todos mosqueirenses.

(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 22)

Fala de Moro reafirma um discípulo da política anti-indígena de Bolsonaro

Por Rubens Valente, no UOL

5.fev.2020 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em reunião com o então ministro da Justiça, Sergio Moro, e secretários - Marcos Corrêa/PR

O ex-juiz federal Sergio Moro (Podemos) faz um esforço para se distanciar do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na sua pretensão de ocupar a Presidência. O problema é conseguir esconder as suas afinidades, que são inúmeras. No tema da política indígena, por exemplo, não há dissonância. A fala de Moro é quase uma cópia da de Bolsonaro. É o que se vê no final da conversa com Pedro Bial em seu programa na TV Globo na última quarta-feira (16). No pinga-fogo, o apresentador quis saber do ex-juiz: “Mineração e exploração econômica de terras indígenas, a favor ou contra?”.

Na introdução à resposta, Moro afirmou que a Funai (Fundação Nacional do Índio) “acabou indo” para o Ministério da Agricultura e “foi trazida de volta” para o Ministério da Justiça, pasta que comandava na ocasião. “Acabou indo” sugere que a Funai é um prédio com capacidade de locomoção. O que Moro não explicou, nem foi indagado, é que no governo Bolsonaro a Funai foi despejada, pela primeira vez desde a redemocratização, do guarda-chuva do Ministério da Justiça e esquartejada em duas.

A parte que tratava das demarcações de terras indígenas foi jogada pelo governo direto nos braços dos ruralistas anti-indígenas que comandavam e comandam a pasta da Agricultura. A outra parte ficou com o ministério da pastora evangélica Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), uma neófita em política indígena. Tudo isso ocorreu por ordem direta de Bolsonaro (já nos primeiros decretos do seu governo, em janeiro de 2019) com o total beneplácito e a cega obediência de Sergio Moro.

Sua pasta foi esvaziada e criaram-se ameaças evidentes aos direitos indígenas, como estabelecer um conflito insuperável de interesses entre demarcações e ruralistas da Agricultura. Mas Moro, o ministro responsável pelo tema, não viu nenhum problema nisso. Pelo contrário, achou muito bom. Para que não reste dúvida sobre a posição do ex-juiz nesse ponto, veja-se o que ele disse em público durante um evento no STJ (Superior Tribunal de Justiça) em maio de 2019: “Eu não tenho interesse em ficar com a Funai”.

Eis o desprezo de Moro sobre a proteção dos direitos indígenas, a tarefa precípua da Funai, que por tabela tem relação direta com a preservação da Amazônia e do cerrado, já que as terras indígenas têm se confirmado, ao longo dos anos, verdadeiras barreiras à destruição da natureza. Na sexta-feira, 19, Moro escreveu no Twitter que é “preocupante” o desmatamento na Amazônia. Quando podia ao menos contê-lo, como veremos adiante, o então ministro se recusou a demarcar ou tentar demarcar terras indígenas.

A Funai retornou ao Ministério da Justiça em maio de 2019 após decisão do Congresso Nacional. Em seguida Bolsonaro tentou dar um drible no Legislativo, ao assinar uma nova Medida Provisória (nº 886/2019) para manter as demarcações na Agricultura. Em junho e agosto de 2019, o STF (Supremo Tribunal Federal) teve que intervir, primeiro em liminar do ministro Luís Barroso, depois em decisão de mérito, e determinou o retorno das demarcações para a alçada do Ministério da Justiça. Vencida a distorção histórica do “acabou indo” de Moro, vamos ao argumento central do ex-juiz no seu bate-papo na TV sobre o tema “mineração e exploração econômica em terras indígenas”.

“Nós temos povos indígenas, brasileiros como nós, em diferentes situações e com diferentes aspirações. Nós temos tanto povos indígenas isolados, que merecem, que precisam de um tipo de política pública, como nós temos povos indígenas que desejam ter alguma espécie de atividade econômica de exploração. O que nós precisamos acima de tudo garantir é autonomia dos povos indígenas para decidir o seu próprio destino. Eles não precisam, e não devem, ser encarados como, vamos dizer assim, dependentes, ou submetidos a políticas que os tornem sempre dependentes do Estado, como uma espécie de assistencialismo. Eles têm que ter amparo, eles têm que ter proteção do governo, mas precisam ter soluções específicas para cada uma das situações.”.

A resposta não indica nada auspicioso para os povos indígenas. “Atividade econômica de exploração” é exatamente o que Bolsonaro e seus mais fiéis colaboradores vêm pregando e realizando nos últimos três anos. Foi o mesmo discurso que ajudou a aprofundar a destruição da floresta amazônica pela expansão de garimpos, roubo de madeira, desmatamento e ocupação ilegal das terras da União. O pulo do gato está aqui: “Garantir autonomia dos povos indígenas para decidir o seu próprio destino”, segundo Moro. Mas quem são os indígenas que podem decidir sobre o destino do seu povo?

A Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), de 1989, prevê a consulta livre, prévia e informada. Ela deve ser feita por instituições representativas dos indígenas e por meio de diversos procedimentos adequados e previamente ajustados pelos próprios indígenas. As conversas devem ser alimentadas por estudos de impacto social e ambiental previamente realizados. Há experiência acumulada no Brasil, com mais de 60 protocolos de consulta estabelecidos pelos próprios indígenas.

O governo Bolsonaro não estimulou nada disso. Passou a desrespeitar a Convenção, da qual o Brasil é signatário, ao criar canais de diálogo com determinados grupos de indígenas vinculados à mineração e ao agronegócio. O propósito foi atropelar as lideranças tradicionais e dar um verniz democrático e legal a atividades ilegais, como o arrendamento de terras indígenas vedado pela Constituição. Assim, se perguntarem a Bolsonaro se ele “garantiu a autonomia” dos povos indígenas sobre “decidir o seu próprio destino”, ele responderá que sim – exatamente como disse Sergio Moro.

A estratégia tem provocado a divisão interna dos indígenas e o aumento de ameaças e ataques a lideranças tradicionais contrárias às atividades destrutivas do meio ambiente.

Em Santa Catarina, no Pará, em Mato Grosso, para todo lado pipocam ataques do gênero, com casas de lideranças incendiadas e depredadas e até assassinatos. Simbólica dessa iniciativa do governo foi a decisão de Bolsonaro ao levar a anônima Ysani Kalapalo à Assembleia das Nações Unidas em 2019. No mesmo dia, atacou em discurso o líder indígena Raoni. Por meio da Funai, o governo acionou Polícia Federal e Abin (Agência Brasileira de Inteligência) contra lideranças e entidades indígenas como a APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil).

Numa segunda frente, o governo Bolsonaro interrompeu todas as demarcações de terras indígenas, cumprindo a ameaça de campanha do capitão reformado de que não demarcaria mais nenhum centímetro.

Ao longo de todo esse processo, na condição de ministro, Moro silenciou, decidiu contra demarcações e apoiou a desqualificação do movimento indígena. Basta ver que, ao longo de toda a sua gestão, não recebeu nenhuma liderança indígena contrária ao garimpo e ao agronegócio. Em março de 2020, Moro autorizou o uso da Força Nacional em Brasília no momento em que duas delegações de indígenas tinham agendas na Funai e no ministério.

Quando deixou a pasta, em abril de 2020, Moro foi considerado por lideranças indígenas um dos piores ministros da Justiça da história para os povos indígenas.

Os indígenas o descreveram como “anti-indígena, irrelevante, omisso, alheio à temática, executor fiel da ordem anti-demarcação de terras do presidente Jair Bolsonaro e que ajudou a fragilizar a já combalida Funai”. Sobre as demarcações, marcante foi a decisão de Moro de devolver 17 processos pendentes de algum tipo de ação dele e do governo. Em vez de tocar adiante os processos ou finalizá-los, mesmo que Bolsonaro não desse a assinatura final, ele preferiu se antecipar ao seu líder político e matar os processos o quanto antes, o mais rápido que podia.

Todos esses processos de demarcação começaram pela mobilização dos indígenas. Há pouco menos de dois anos, por tudo que demonstrou e fez, Moro tinha outro conceito sobre “autonomia dos povos indígenas”.

(No final da sua resposta no bate-papo com Pedro Bial, Moro disse que “as terras indígenas pertencem aos indígenas, evidentemente”. A afirmação é tecnicamente errada. As terras indígenas são sempre registradas nos cartórios de imóveis em nome da União, ou seja, a propriedade oficialmente “pertence” a ela. Conforme o artigo 231 da Constituição, aos indígenas cabe “o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos” das terras demarcadas, nas quais manterão “sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições”).

A frase do dia

“’Não dá para flertar com o autoritarismo’, diz o ex-juiz que prendeu ilegalmente Lula e depois foi ser ministro do presidente de extrema-direita. E de lá só saiu depois de humilhado e expurgado. Juiz politiqueiro e parcial não tem autoridade moral para falar em democracia”.

Flávio Dino, governador do Maranhão