Para corações fortes

POR GERSON NOGUEIRA

Remo 3×0 Manaus-AM (Neto Pessoa, Erick Flores e Thiago Ennes)

Fazia tempo que uma decisão não mexia tanto com o emocional da torcida remista. O Fenômeno Azul passou a semana inteira preocupado com o jogo deste domingo contra o Confiança, no Baenão. A ansiedade não arrefece nem mesmo com a vantagem de poder jogar sem precisar de combinações de outros resultados.

O CRB derrotou o Vitória, na segunda-feira (22), deixando o caminho livre para o Remo resolver sua situação na Série B com uma vitória simples hoje sobre o alviceleste sergipano. É um trunfo importante, que Londrina e Vitória não têm.

Apesar das circunstâncias que favorecem os sonhos de permanência, há no imaginário do torcedor o justificado receio de uma recaída técnica, sentimento motivado pela fase cambaleante do time nas últimas 10 rodadas. Foram sete derrotas, apenas uma vitória e dois empates.

O time se tornou inconfiável a partir da insistência do técnico Felipe Conceição, que se manteve agarrado a um modelo de jogo que não tinha as peças necessárias para funcionar. A teimosia se estendeu a nomes que atravessavam fase técnica insatisfatória. Artur é o exemplo mais óbvio.

Felipe caiu acreditando na proposta de jogar com um meio-campo aberto, propondo jogadas e controlando a posse de bola. Nessas rodadas que causaram a queda vertiginosa do time raras vezes a proposta se mostrou exequível. Em alguns momentos, como diante do Brusque, lampejos deram a falsa impressão de uma recuperação.

A vitória contra o Cruzeiro, importantíssima por permitir superar a faixa dos 40 pontos, não teve a sequência esperada. Na rodada seguinte, o time afundou em casa contra o Londrina, um adversário direto. Resquícios desse descompasso se estenderam à estreia de Eduardo Baptista contra o Goiás. Outro erro individual comprometeu a atuação.

Como a partida de hoje representa a chance de permanência, tudo o que ocorreu no período recente fica em segundo plano. A parte psicológica, que tanto influiu no rendimento oscilante da equipe, parece estar sob controle. Os nervos funcionam bem desde que o time titular bateu o Manaus, com autoridade, pela Copa Verde na quarta-feira.

Com o Baenão cheio, tudo o que o Remo precisa é de alma para responder aos anseios da torcida e sangue frio para definir o jogo. Nesse aspecto, o papel dos líderes do elenco – Erick Flores, Felipe Gedoz, Lucas Siqueira e Vinícius – torna-se crucial para conquistar o resultado tão esperado.

Despedida de Galvão fecha ciclo no Águia

Em vídeo divulgado na quinta-feira (25), João Galvão comunicou que está se afastando de suas funções no Águia de Marabá. Deixa o comando técnico e a função de diretor de futebol. Cumpriu o prometido à família em conversas que vinham ocorrendo nos últimos anos.

São mais de 14 anos ininterruptos cuidando do futebol do Águia, como quem cuida de um filho. Na verdade, Galvão tem ainda mais tempo acumulado de dedicação ao clube. Chegou em 1999 ainda como atleta.

Depois de tanto tempo de casa, chegou a hora de bater em retirada. Não deve ter sido uma decisão fácil. Galvão se identifica tanto com a história do clube que, em muitos momentos, era praticamente impossível lembrar o nome do presidente, pois a figura do técnico prevalecia.

O desgaste natural da gestão contribuiu para o desenlace. O Águia passa por mudanças e Galvão tem a humildade de reconhecer que o processo passa necessariamente pelo comando técnico, que ele sempre exerceu com absoluta autonomia.

Os próximos passos irão dizer se o Águia consegue mesmo caminhar bem sem a presença de seu maior entusiasta e obreiro.

Bola na Torre

Guilherme Guerreiro apresenta o programa, a partir das 19h15, na RBATV, com a participação de Giuseppe Tommaso e deste escriba baionense. Em pauta, a rodada final da Série B e a expectativa para o clássico Re-Pa nas semifinais da Copa Verde. A edição é de Lourdes Cézar.

Grêmio prova que dinheiro não compra felicidade

Clube brasileiro com o maior superávit financeiro nos últimos dois anos, o Grêmio atravessa hoje um verdadeiro calvário na Série A, ameaçadíssimo de rebaixamento após uma campanha pífia – perdeu 19 jogos até agora, um recorde na competição.  

Os milhões da receita do clube têm a ver com uma gestão segura e controlada, que não sofre – como várias outras agremiações – abalos nem mesmo quando há alternância de poder. Por essa razão, o Grêmio não tem dívidas descontroladas e hoje ostenta balancetes mais lucrativos do que Flamengo, Palmeiras e Atlético-MG, por exemplo.

Em relação aos rivais que mais se destacam no cenário nacional, tem a vantagem de basear sua solidez econômica em recursos próprios, turbinados por transferências lucrativas e parcerias poderosas. Mais que os outros grandes, o Grêmio sabe a origem do dinheiro que entra.

Nada disso, porém, impediu que o elenco milionário, com direito a estrelas de nível internacional – Rafinha, Douglas Costa –, entrasse em parafuso e desabasse no campeonato, situação agravada com a saída do técnico Renato Gaúcho.

Em antepenúltimo lugar, o Grêmio vive a situação esdrúxula do time que tem recursos, mas não consegue dar liga em campo. O cenário é tão inusitado que fica difícil explicar a derrocada, pois a maioria dos times caem em função de problemas técnicos aliados a graves aperreios financeiros. 

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 28)

Mídia tem a responsabilidade de uma eleição limpa ou responderá por desastre inimaginável

Por Janio de Freitas, na Folha de S. Paulo

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A viagem de Lula à Europa proporcionou, pelo avesso, o mais desalentador prenúncio da disputa eleitoral do próximo ano. Foi preciso que leitores e espectadores esbravejassem com suspeições, para que o noticiário dos principais diários e emissoras incluísse o assunto de inegável relevância política e jornalística.

Era passada já uma semana desde o início, dia 11, da viagem a convite da Fundação Friedrich Ebert e do SPD, partido do futuro primeiro-ministro da Alemanha.

Componente não menos sugestivo no silêncio veio a ser o seu encerramento também coincidente, na data, entre as diferentes vias de noticiário.

Quase uma informação involuntária de coincidências em tudo combinadas. Sobretudo tendo em vista os tantos grupos de influência, os de sempre e vários recentes, já ativos para a decisão eleitoral (a estabilização temporária de Bolsonaro liberou-os do trabalho de sustentá-lo).

O histórico da chamada mídia brasileira a iguala aos militares na adoção funcional de um papel político, de dirigismo suprainstitucional e supraconstitucional.

A modernização técnica do jornalismo reduziu, mas não conseguiu extirpar, a função político-ideológica que originou a velha imprensa.

Não se trata da definição por linha política ou por candidatura, que podem ser legítimas se transparentes e éticas, mas de práticas manipuladoras da consciência e da conduta dos cidadãos. Nesse atraso, empresários do meio são a força impositiva, mas são jornalistas os seus operadores.

Como em relação aos militares, e dados os antecedentes numerosos, uma razão de estranhamento na mídia mexe com as expectativas e acende os temores.

O boicote recente não teve maior consequência, porque o noticiário restabeleceu o básico do omitido e apesar de algumas torções inconformadas.

A exemplo da atribuição à hostilidade mútua de Macron e Bolsonaro a recepção especial a Lula na França.

Ou restringir o aplauso de um plenário amplamente em pé, no Parlamento Europeu, aos deputados da esquerda.

O mundo nunca abandonou suas reservas ao escândalo acusatório produzido pela associação de Lava Jato e imprensa/TV.

Mesmo nos Estados Unidos, onde Sergio Moro e Deltan Dallagnol tinham ou têm ligações, o noticiário foi cauteloso em referência a Lula — não quanto à Petrobras e às empreiteiras.

Americanos, e europeus atuais em menores doses, sempre são parte do que se passa e como se passa na América Latina.

Atuam mais por seus interesses do que os nossos países o fazem pelos próprios.

Com Bolsonaro e Moro, coadjuvados por Ciro Gomes, a disputa pelo voto não será política. Será bélica, entre os três e deles contra os demais.

Para pesar do jornalismo, a mal denominada mídia é a mais eficaz arma nesse gênero de guerra.

Quando quer sê-lo.

O pós-ditadura já sofreu várias dessas transfigurações antidemocracia, com fins não só eleitorais, praticadas tanto pelo conjunto, como por um ou poucos componentes da comunicação social.

Seu êxito, em todas as suas ocorrências, levando a péssimos resultados para a vida institucional, política e econômica do país.

Razão de alguns pedidos tardios de desculpas e de promessas ainda em suspenso.

O ocorrido nos últimos dias contém um prenúncio pesado e também este indicativo promissor.

O erro foi reconhecido e encerrado.

Conduta rara, senão única.

E, curioso, a Folha e O Globo tiveram a correção de publicar cartas, uma em cada um, de leitores indignados com o boicote percebido.

Não parece, mas, na imprensa tão soberba, foi um fato histórico.

Jornais e tevês, e seus proprietários, dirigentes e jornalistas, estão diante da responsabilidade por uma eleição presidencial limpa.

Ou o serão por um desastre institucional e social sem mais possibilidade, desta vez, de recuperação em tempo imaginável.


O tri da Libertadores palmeirense na bola e no coração

Por Juca Kfouri, no UOL

6 minutos no Estádio Centenário mais rubro-negro que alviverde. O Palmeiras parece mais nervoso e o Flamengo mais ofensivo. Então, Gustavo Gómez estica a bola para Mayke que vai ao fundo para cruzar e Raphael Veiga aproveitar e fazer 1 a 0, por baixo de Diego Alves.

Abel Ferreira teve a coragem de escalar Gustavo Scarpa e deixar Felipe Melo no banco.

O Palmeiras se defendia muito bem e atacava com mais perigo que o Flamengo, incapaz de levar perigo ao gol de Weverton. Filipe Luís se machucou e Renê entrou, aos 30′. O Verdão era senhor do jogo como determinação e imposição física.

Só aos 42′ o Flamengo teve chance real de empatar, quando Weverton evitou o gol de Arrascaeta. A sensação era a de que os paulistas foram a Montevidéu a trabalho e os cariocas a passeio.

Como Breno Lopes, na final passada, o improvável Mayke era decisivo ao dar o passe para o gol. O rubro-negro otimista confiava na virada como em 2019 contra o River Plate. E em Michael.

O alviverde realista acreditava na capacidade da defesa que ninguém passa e na bola que Danilo estava jogando, por ele e por Felipe Melo. Em dois minutos iniciais do segundo tempo, por duas vezes, Gabigol teve a chance do empate. Mas Michael seguia no banco.

O Flamengo parecia ter acordado. Rony respondeu em seguida para bela defesa de Diego Alves. Aos 55′ foi a vez de Weverton tirar o doce dos pés de David Luiz.

O jogo era digno da decisão. Muito bom mesmo! Aos 59′, Bruno Henrique, tirou lasca da trave, de cabeça. Aos 62′, Michael no lugar de Everton Ribeiro. O baiano Danilo, 20 anos, um gigante, teve de sair aos 68′, trocado por Patrick de Paula, 22.

Então, Arrascaeta, outro gigante, trocou passe com Gabigol e o artilheiro empatou 1 a 1, aos 72′, ao bater rente à trave e Weverton não conseguiu defender.

Pelo segundo tempo era justo, porque o Palmeiras aceitou demais o domínio flamenguista. Imediatamente Wesley entrou em lugar de Dudu, para surpresa geral, e Matheuzinho substituiu Isla, para surpresa de ninguém.

O Flamengo não poderia trocar mais ninguém e Daniel Barbosa entrou no lugar de Zé Rafael, esgotado Se houver prorrogação será difícil que 22 jogadores a terminem.

Aos 85′, o inacreditável: Arrascaeta descobriu Michael na área e deu a virada de presente, mas ele a jogou para fora, no primeiro gol verdadeiramente perdido da decisão. Com o que, veio a prorrogação. Era quase desumano e era inteiramente sobre-humano.

Deyverson e Kenedy nos lugares de Raphael Veiga e Bruno Henrique, nos dois ataques.

E aos 94′, Andreas Pereira resolveu presentear Deyverson e o palmeirense agradeceu para fazer 2 a 1. Coisa de louco. Andreas tropicou na grama, perdeu o tempo de uma bola dominada e permitiu o desarme de maneira estarrecedora.

Ninguém merecia errar desse jeito, mas é a vida. Gabigol teve a possibilidade de empatar em seguida, mas mandou por cima. E vieram os 15 minutos finais da prorrogação.

Com eles vieram, de cara, Gabriel Menino, no lugar de Mayke e, depois, aos 110′, Vitinho e Pedro, nos lugares de Arrascaeta e Andreas Pereira. Felipe Melo, para cumprir a palavra de Abel Ferreira, foi para o jogo, aos 112′, no lugar de Piquerez, de maca.

No 10° jogo da escrita, o Palmeiras derrotava o Flamengo no jogo mais importante da série para ser tricampeão da Libertadores.

E sem contestação.