Marília Mendonça, rainha da sofrência, não soube o que é o fracasso

Por Gustavo Alonso, na Folha SP

Ao narrar a vida das mulheres, cantora foi cabeça do feminejo e já era o maior nome da música sertaneja havia alguns anos

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O último post do Instagram de Marília Mendonça foi um vídeo em que ela brinca sobre a diferença entre expectativa e realidade de se fazer shows em Minas Gerais. O vídeo abre com ela se encaminhando para o avião, com mala e violão a tiracolo. Sua expectativa –pão de queijo, cachaça, queijo canastra e feijão tropeiro. Em seguida, a realidade da estrela da música nacional –a chata viagem, com malhação e alimentação insossa e dietética.

Não era possível cogitar que a realidade seria tão triste. O avião em que Marília Mendonça voava caiu na tarde desta sexta-feira em Piedade de Caratinga, em Minas Gerais. Mendonça não sobreviveu. Aos 26 anos, seu nome se une a outros da música que morreram tentando ir “aonde o povo está” –Gabriel Diniz, Mamonas Assassinas, Carlos Gardel, Ritchie Valens, Buddy Holly, Glenn Miller, Otis Redding, John Denver, Stevie Ray Vaughan.

A morte no auge aumenta a dor dos fãs. Diferentemente de Gabriel Diniz, morto em 2019, a carreira de Mendonça tinha bem mais que um grande sucesso. E, ao contrário de Cristiano Araújo, morto em trágico acidente automobilístico em 2015, a trajetória de Mendonça não estava mais em ascensão. Ela já havia atingido o topo. Mendonça era a rainha da música brasileira, a rainha da sofrência.

Marília Mendonça tinha mais seguidores no Spotify do que os Beatles. São 36 milhões o número de seguidores no Instagram, 4 milhões a mais que a poderosa ex-BBB Juliette. Mais do que números, Mendonça mudou a face da música sertaneja, hoje a grande música popular do Brasil. Honra máxima na música brasileira, Mendonça recebeu duas citações de Caetano Veloso em seu mais recente disco. Agora, na sua morte, Lula – e também Bolsonaro – publicou um post se declarando sentido pela morte da cantora.

Mendonça faz parte da corrente que se convencionou chamar de feminejo – artistas mulheres que tomaram para si o ato de cantar em primeira pessoa os dramas compostos em grande parte por elas mesmas, como Maiara e Maraísa, Simone e Simaria, Naiara Azevedo e Paula Mattos. Mas sobretudo Mendonça. Ela era incontestemente a artista mais reconhecida não só do subgênero mas de toda a música sertaneja há alguns anos.

Marília Mendonça não conheceu o fracasso. Isso é raro, especialmente entre artistas iniciantes. Roberto Carlos gravou discos sem sucesso algum antes de se tornar rei. Elis Regina gravou três discos sem qualquer repercussão de seu enorme talento. João Gilberto cantou com vozeirão sem nunca ter tido sucesso antes de se tornar um dos criadores da bossa nova. Os Beatles foram rejeitados pela gravadora Decca antes de se tornarem o mito que se tornaram. Zezé Di Camargo penou na carreira, em dupla e solo, antes de acertar com o “É o Amor”.

Mendonça foi precoce. Aos 12 anos já compunha. Aos 15, um conhecido a apresentou a Wander Oliveira, do escritório da Work Show, que se tornaria seu empresário. Oliveira gostou do que ouviu, mas achava que dava para melhorar. Contratou a jovem para fazer parte do batalhão de compositores que trabalham na lógica industrial dos escritórios sertanejos de hoje em dia. Nas palavras de Mendonça, “nos tornamos abelhas-operárias”.

Ela se tornou então proletária da canção. Além de viver a desigualdade do showbusiness na pele, conheceu a relação machista de perto. Suas músicas eram fornecidas a vários artistas homens –”Calma” foi cantada por Jorge e Mateus; Cristiano Araújo cantou “É com Ela que Eu Estou”. Wesley Safadão, Henrique e Juliano, Matheus e Kauan, João Neto e Frederico também cantaram canções suas. Segundo sua parceira Maiara, “ninguém acreditava no meio que mulher virava sucesso”.

Começou a ganhar dinheiro próprio aos 17 anos, quando pingaram em sua conta corrente os primeiros direitos autorais. Até os 18 foi só uma compositora requisitada. Desde que começou sua trajetória de cantora, arrolou uma sequência de sucessos que a tornaram um fenômeno.

Nunca foi uma excelente cantora. Seu visual também não era dos mais atraentes para o mercado da música sertaneja, então habituado com pouquíssimas mulheres de sucesso –Paula Fernandes, Cecília (da dupla com Rodolfo), Roberta Miranda, Irmãs Galvão, Inhana (da dupla com Cascatinha).

Marília Mendonça era gordinha e brigava com a balança. Mais recentemente, durante a quarentena, vinha fazendo um regime radical que tinha surpreendido a muitos. Ela se tornava também bela para o mercado. Mas definitivamente não foi isso que o Brasil viu nela.

Nascida em Goiás, Mendonça era a cara do Brasil. Mas de um Brasil que mostrava novas caras a partir de meados dos anos 2010. Ela cantou a versão da mulher traída, como o fez em seu maior sucesso, o bolerão onipresente “Infiel”. Mendonça cantou a amante em “Como Faz com Ela”, esse personagem tão discriminado numa sociedade em que o matrimônio ainda é visto como algo sagrado –”Tudo o que eu preciso/ É saber se você faz amor comigo como faz com ela/ Se quando beija morde a boca dela/ Fala besteira no ouvido, como faz comigo”.

Em “Amante Não Tem Lar”, Mendonça vestiu em primeira pessoa a renegada. Com Felipe Araújo, cantou “Amante fiel” –”Amante fiel/ Esse nosso compromisso não depende de um anel/ Somos presos por esse nosso relacionamento aberto/ Nem preciso me chamar, eu vou estar sempre por perto”.

Longe de ser convencional, Mendonça cantou também a prostituta em “Troca de Calçada”. “Se alguém passar por ela/ Fique em silêncio, não aponte o dedo/ Não julgue tão cedo/ Ela tem motivos pra estar desse jeito/ Isso é preconceito/ Pra ter o corpo quente, eu congelei meu coração/ Pra esconder a tristeza, maquiagem à prova d’água/ Hoje você me vê assim e troca de calçada/ Só que amar dói muito mais do que o nojo na sua cara.”

A prostituta já havia sido personagem abordada em diversas canções da música brasileira. Da “Geni” de Chico Buarque à “Bailarina” de João Mineiro e Marciano e à amante por quem Odair José ia largar tudo em “Eu Vou Tirar Você desse Lugar”. Mas quando alguém cantou em primeira pessoa sua voz?

Ao narrar a vida das mulheres atuais, Mendonça também aderiu ao feminismo massivo que se espalha em diversas frentes na sociedade brasileira. Em “Supera”, ela cantou afinada ao discurso de autoajuda da militância feminista atual, buscando “positivar” a mulher que deseja novos relacionamentos fortuitos. “Para de insistir, chega de se iludir/ O que você tá passando, eu já passei e eu sobrevivi/ Se ele não te quer, supera.”

Mendonça era também a cara do Brasil nas suas contradições. Afirmava a poética da autoaceitação, mas aparentemente teve que mudar sua imagem e emagrecer ao longo dos anos de showbusiness. Em 2018, ela participou brevemente do movimento #EleNão contra Bolsonaro. Sofreu uma onda de críticas de seu meio, em grande parte simpático ao então candidato de direita. Mendonça então tirou o time de campo e pediu desculpas por se pronunciar politicamente. Em live de agosto do ano passado, fez uma brincadeira maldosa com um músico de sua banda que teria saído com uma transexual. Pediu desculpas em seguida nas redes sociais.

Um dos seus maiores sucessos comerciais e de público foi o disco “Em Todos os Cantos”, gravado ao vivo. Nele, Mendonça fez aquilo que Milton Nascimento já tinha recomendado e foi aonde o povo estava. O DVD do show foi gravado nas 27 capitais brasileiras. Diversas cidades, mas o mesmo público ensandecido com a cantora que, no começo, parecia feita para ficar nos bastidores. Mas que foi além.

Sua morte teve o amargo “suco de Brasil” de 2021, época de aberrações e fake news –enrolações e disse-me-disse da assessoria da cantora (que chegou a afirmar que ela estaria viva no hospital), transmissão ao vivo em rede nacional da retirada dos corpos do avião, programas policiais de fim de tarde especulando causas sem qualquer prova concreta.

Houve até boatos negacionistas de WhatsApp dizendo que o piloto teria se vacinado contra a Covid e por isso passara mal, causando a queda da aeronave. Em sua estupidez, a morte sempre ilustra a vida que vivemos. Marília Mendonça, em sua breve vida, forjou uma nova sensibilidade para a música popular massiva brasileira, tocando milhões de corações. Todo mundo vai sofrer.

Marília Mendonça não merecia tolerar tanto sensacionalismo

Por Anna Virginia Balloussier, na Folha SP

Relembrando o caso Mamonas, como tratar assunto de interesse nacional sem carregar nas tintas?

Quando caiu o avião que levava os Mamonas Assassinas, banda de carreira meteórica no Brasil dos anos 1990, tombaram também alguns pilares éticos do jornalismo. A namorada de Dinho, o vocalista, “soltou os cachorros contra a imprensa”, como relatou Barbara Gancia, então colunista deste jornal, naquele 1996. Valéria acusou veículos como o jornal Notícias Populares, o NP, e a revista Manchete de desumanos e antiéticos por publicarem fotos dos corpos mutilados dos músicos.

O NP, que era editado pelo Grupo Folha, ainda divulgaria reportagens como “Dinho morreu no banheiro do avião” e “fã de Mamonas acha um braço na Cantareira”.

Nenhuma das publicações existe mais. Persiste, contudo, o debate sobre quão disposta a mídia está a envergar limites éticos que, também num acidente de avião, acrescenta a essa discussão a urgência das redes sociais.

O primeiro erro partiu da própria assessoria de imprensa da cantora Marília Mendonça. Na tarde desta sexta-feira, a equipe afirmou que todos os cinco presentes na aeronave estavam vivos. Pouco depois, a informação foi desmentida por imagens transmitidas em tempo real na televisão e na internet e pelo Corpo de Bombeiros —que, aliás, divulgou o nome errado de um dos quatro outros passageiros a bordo e depois consertou.

Era um assunto de comoção nacional. Logo, de evidente interesse jornalístico. Como o tratar sem carregar nas tintas sensacionalistas?

O resgate dos corpos foi exibido ao vivo pela Globo, ágil em enviar repórteres ao local do acidente (uma cachoeira). Mais imagens se espraiaram por outros canais e pelas redes, já que havia gente ao redor filmando com celular o trabalho dos bombeiros.

Até a roupa quadriculada que Marília Mendonça usava foi usada para especular se ela havia ou não morrido, durante a hora em que a informação ainda estava turva para familiares e amigos das cinco vítimas, devido à desinformação da assessoria. Antes da queda, a artista postou um vídeo em que aparece embarcando com a tal estampa, celebrando delícias regionais de Minas Gerais. Estava a caminho de um show no estado.

As imagens de um corpo sendo coberto com alumínio, com a mesma peça preta e branca, foram veiculadas em “looping” depois.

O Google Trends, ferramenta que permite medir os termos mais procurados no momento, registrou um “crescimento repentino” das pesquisas “fotos de Marília Mendonça morta” e “Marília Mendonça corpo”.

“Detetives digitais” também aumentaram buscas para “Marília fez bariátrica?”, e sites jornalísticos destacaram mudanças estéticas da sertaneja.

Canais recuperaram postagens antigas da cantora falando sobre o medo de pegar avião ou supostas previsões, como sonhos com queda d’água.

Lembra o vale-tudo por audiência no episódio dos Mamonas, quando Gugu Liberato conquistou o maior ibope da história de seu Domingo Legal com um programa sobre a morte dos membros da banda. Um dos quadros mostrou Mãe Dinah, vidente que ganhou fama justamente por prever o acidente meses antes de ele acontecer.

O próprio Gugu teve sua morte, num acidente doméstico em 2019, explorada em toda sorte de “click baits”.

A afobação dos tempos digitais corrói as divisas entre a informação válida e o caça-cliques insalubre. A morte precoce de Marília Mendonça, uma das maiores artistas da música contemporânea brasileira, escancara como parte do jornalismo aprimorou seu gosto por sensacionalismo de 1996 para cá. Marília Mendonça não merece isso.

Contra negacionismo, 21 cientistas renunciam à medalha oferecida por Bolsonaro

Vinte e um cientistas brasileiros renunciaram à medalha da Ordem Nacional do Mérito Científico, dada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em decreto assinado nessa quinta-feira (4/11). No texto, ministros do governo e diversos cientistas foram condecorados com a honraria, que reconhece contribuições científicas e técnicas para o desenvolvimento da ciência no Brasil. A recusa ocorre em repúdio ao chefe do Palácio do Planalto que, ao longo da pandemia de Covid-19, duvidou da eficácia de vacinas, induziu a tratamentos sem efeito e minimizou medidas de isolamento.

agenda presidente jair bolsonaro Evento de lançamento do Programa Nacional de Crescimento Verde no Palácio do Planalto 6

O professor do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Stevens Rehen, neurocientista especializado em pesquisas com células-tronco, foi um dos cientistas que recusaram a deferência.

“Enquanto cientistas, não compactuamos com a forma pela qual o negacionismo em geral, as perseguições a colegas cientistas e os recentes cortes nos orçamentos federais para a ciência e tecnologia têm sido utilizados como ferramentas para fazer retroceder os importantes progressos alcançados pela comunidade cientifica brasileira nas últimas décadas”, destaca trecho da carta.

O epidemiologista Cesar Victora, referência mundial em estudos sobre aleitamento materno, enviou uma carta ao ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, astronauta Marcos Pontes, dispensando a honraria.

“Embora a distinção represente um importante – e talvez o maior – reconhecimento para qualquer cientista brasileiro, ela me deixou dividido”, destaca trecho do texto.

“A homenagem oferecida por um governo federal que não apenas ignora, mas ativamente boicota as recomendações da epidemiologia e da saúde coletiva, não me parece pertinente. Como cientista e epidemiologista, tenho tornado pública, através de palestras e artigos científicos, minha completa oposição à forma como a pandemia de Covid‐19 tem sido enfrentada por este governo”, frisou.

“Enquanto cientista, não consigo compactuar com a forma pela qual o negacionismo em geral, as perseguições a colegas cientistas e em especial os recentes cortes nos orçamentos federais para a ciência têm sido utilizados como ferramentas para retroceder os importantes progressos alcançados pela comunidade científica brasileira nas últimas décadas.”

Na quinta-feira (4/11), em decreto presidencial, Bolsonaro concedeu a Ordem Nacional do Mérito Científico a quatro ministros e a mais de 30 professores e pesquisadores.

O ministro da Ciência e Tecnologia, astronauta Marcos Pontes, foi nomeado como “Chanceler”; e os ministros das Relações Exteriores, Carlos França; da Economia, Paulo Guedes; e da Educação, pastor Milton Ribeiro; como integrantes do Conselho da Ordem Nacional do Mérito Científico.

Veja a íntegra da carta e o nome dos cientistas signatários:

“Os cientistas abaixo assinados, condecorados com a Ordem Nacional do Mérito Científico, em decreto presidencial de 3 de novembro de 2021, vêm a público declarar sua indignação, protesto e repúdio pela exclusão arbitrária dos colegas Adele Schwartz Benzaken e Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda da lista de agraciados, em novo decreto presidencial na data de 5 de novembro de 2021. Tal exclusão, inaceitável sob todos os aspectos, torna-se ainda mais condenável por ter ocorrido em menos de 48 horas após a publicação inicial, em mais uma clara demonstração de perseguição a cientistas, configurando um novo passo do sistemático ataque à Ciência e Tecnologia por parte do Governo vigente.

Enquanto cientistas, não compactuamos com a forma pela qual o negacionismo em geral, as perseguições a colegas cientistas e os recentes cortes nos orçamentos federais para a ciência e tecnologia têm sido utilizados como ferramentas para fazer retroceder os importantes progressos alcançados pela comunidade cientifica brasileira nas últimas décadas.

Como bem pontuaram a Academia Brasileira de Ciências e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em notas divulgadas no dia 5/11/2021, a Ordem Nacional do Mérito Científico, fundada em 1993, é um instrumento de Estado para reconhecer contribuições científicas e técnicas de personalidades brasileiras e estrangeiras. A indicação de membros agraciados é realizada por uma Comissão, formada por três membros indicados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, três membros indicados pela Academia Brasileira de Ciências e três membros indicados pela SBPC. Nossos nomes foram honrosamente indicados por essa comissão, reunida em 2019. O mérito científico (como não poderia deixar de ser) foi o único parâmetro considerado para a inclusão de um nome na lista. Consideramos, portanto, gratificante nossa presença nessa lista, e ficamos extremamente honrados com a possibilidade de sermos agraciados com um dos maiores reconhecimentos que um cientista pode receber em nosso país. Entretanto, a homenagem oferecida por um Governo Federal que não apenas ignora a ciência, mas ativamente boicota as recomendações da epidemiologia e da saúde coletiva, não é condizente com nossas trajetórias científicas. Em solidariedade aos colegas que foram sumariamente excluídos da lista de agraciados, e condizentes com nossa postura ética, renunciamos coletivamente a essa indicação.

Outrossim, desejamos expressar nosso reconhecimento às indicações da Academia Brasileira de Ciências e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, entidades que têm respeito duradouro em defesa da Ciência, Tecnologia e Inovação na sociedade brasileira. Esse ato de renúncia, que nos entristece, expressa nossa indignação frente ao processo de destruição do sistema universitário e de Ciência e Tecnologia. Agimos conscientes no intuito de preservar as instituições universitárias e científicas brasileiras, na construção do processo civilizatório no Brasil.”

Assinam (em ordem alfabética)

Aldo Ângelo Moreira Lima (UFC)
Aldo José Gorgatti Zarbin (UFPR)
Alfredo Wagner Berno de Almeida (UEMA)
Anderson Stevens Leonidas Gomes (UFPE)
Angela De Luca Rebello Wagener (PUC-RJ)
Carlos Gustavo Tamm de Araujo Moreira (IMPA)
Cesar Gomes Victora (UFPel)
Claudio Landim (IMPA)
Fernando Garcia de Melo (UFRJ)
Fernando de Queiroz Cunha (USP)
João Candido Portinari (Projeto Portinari)
José Vicente Tavares dos Santos (UFRGS)
Luiz Antonio Martinelli (USP)
Maria Paula Cruz Schneider (UFPA)
Marília Oliveira Fonseca Goulart (UFAL)
Neusa Hamada (INPA)
Paulo Hilário Nascimento Saldiva (USP)
Paulo Sérgio Lacerda Beirão (UFMG)
Pedro Leite da Silva Dias (USP)
Regina Pekelmann Markus (USP)
Ronald Cintra Shellard (CBPF)

Leão segue em queda

POR GERSON NOGUEIRA

CSA-AL 2×0 Remo (Raimar)

Há dez jogos o Remo padece de visível esgotamento criativo. O problema voltou a entrar em campo na sexta-feira em Maceió, levando a uma nova derrota. O início da partida foi até animador. Com boa movimentação entre meio-campo e ataque, o time marcava bem e até criou duas boas chances, mas uma desatenção na defesa permitiu ao CSA chegar ao gol e passar a controlar a partida.

O cenário tem sido recorrente. O time tem lampejos durante os jogos e, na maioria das vezes, termina dominado pela superioridade do adversário ou pela própria incapacidade de se impor e reagir. Jogos como o de sexta-feira e o anterior, diante do Londrina em Belém, comprovam que o coletivo não funciona como antes e as individualidades estão devendo.

Victor Andrade, destaque do time na melhor fase da equipe no primeiro turno, sucumbiu às seguidas ausências (principalmente por suspensão) e nunca mais rendeu à altura das expectativas. Em certo sentido, a queda de rendimento tem a ver com a vigilância maior que sofre hoje a partir da visibilidade alcançada em atuações destacadas.

Raimar, que surgiu como um achado precioso após lesão sofrida por Igor Fernandes, tem sido pouco efetivo e não participa com a mesma intensidade de antes. Sua contribuição ofensiva é cada vez menor, o que ajuda a explicar os problemas do time para marcar gols. Defensivamente, suas falhas passaram a preocupar. Diante do CSA, estava nos dois lances fatais e não conseguiu marcar os atacantes.

Outras peças funcionam mal, mas o técnico insiste em escalar. Casos de Artur e Lucas Siqueira, cujos desempenhos não justificam a titularidade. Outros jogadores poderiam ser testados ali. Pingo entra no decorrer dos jogos e Paulinho Curuá não é utilizado. Contra o CSA, inexplicavelmente, Marcos Junior foi esquecido na suplência. Poderia ter contribuído com a transição pela facilidade para os passes verticais.

A entrada de Marcos Junior poderia ter funcionado como compensação pela ausência dos meias Felipe Gedoz e Mateus Oliveira. Sem um jogador capaz de funcionar como articulador, o meio-campo do Remo parou de funcionar quando o time sofreu o primeiro gol. Até melhorou no começo da segunda etapa, com a entrada de Pingo e Jefferson, mas desapareceu de vez após o segundo gol alagoano.

Depois de perder para a Ponte Preta, há quatro rodadas, Felipe revelou que iria finalmente “fechar a casinha” adotando um modelo mais pragmático de jogo, a fim de subir a pontuação. Até ensaiou isso diante do Cruzeiro e o resultado foi altamente satisfatório.

Abandonou o esquema conservador contra o Londrina e o time perdeu sem reagir. Contra o CSA, optou por três volantes, mas o modelo seguiu aberto, com três atacantes de ofício. Novo resultado insatisfatório e atuação pífia.

A essa altura, a simplicidade costuma ser boa conselheira. Optar pelo feijão-com-arroz seria a estratégia mais adequada. Todos os times que lutam para não cair – e até alguns que buscam o acesso – preferem se fechar, até por não ter recursos para propor jogo. 

Apesar do quadro de apreensão, nem tudo está perdido. O Remo depende exclusivamente de si. A salvação está em conseguir uma vitória em quatro rodadas. 

Campanha ruim no returno gera pressão sobre Felipe

Últimos oito jogos: cinco derrotas, dois empates e uma vitória. Aproveitamento de 20,83%, digno de campanha de rebaixamento. Foram 10 gols sofridos, cinco marcados. Esses números aumentam a pressão sobre Felipe Conceição, o técnico responsável pela reação que tirou o Remo da lanterna do campeonato e o colocou entre os 10 primeiros.

O problema é que o futebol, como a vida, costuma esquecer rapidamente méritos e acertos. Desde a derrota para o Londrina, o treinador tem sido criticado e é provável que a diretoria decida pela troca a essa altura.

Quando a coluna foi fechada, na sexta-feira (5) à noite, a situação permanecia inalterada, embora com muita boataria envolvendo o comando técnico azulino e especulações sobre sua saída.

A exemplo do que ocorreu no rival PSC, que resolveu trocar técnico por auxiliar em meio ao quadrangular da Série C, o Remo pode se meter num caminho sem volta. Se a situação é ruim – embora não incontornável – pode ficar muito pior com uma substituição precipitada, que mexeria radicalmente com a estrutura e a maneira de jogar do time.  

Pelo conhecimento do elenco, Felipe ainda é o mais indicado para encontrar uma saída dessa espiral de resultados ruins e encaminhar uma reta final de campeonato mais tranquila.

Direto do blog campeão

“O futebol é a nossa mais completa tradução e, como se não bastasse o 7 a 1, só tem servido metáfora ruim. O presidente diz o tempo todo jogar dentro das quatro linhas da constituição, mas tudo que faz é jogar fora delas. Flamengo e Atlético, e todo o campeonato brasileiro, também. Jogadores que ganham milhões esquecem a constituição do futebol, um simulacro da convivência, e por 90 minutos exalam masculinidade tóxica. Discutem, esquecem o passe de três dedos, tiram a máscara das boas práticas desportivas e peitam-se como machos antigos numa briga de rua. São jogos aborrecidíssimos, goleadas de um a zero, que negam a essência da brincadeira. Não, não pode isso, Arnaldo”.

Joaquim Ferreira dos Santos, craque da crônica e futeboleiro de estirpe

Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda o programa, excepcionalmente a partir das 19h30, na RBATV. Participações de Giuseppe Tommaso e deste escriba de Baião. Em pauta, os resultados dos clubes paraenses nas séries B e C. A edição é de Lourdes Cézar.

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 07)

O negacionismo chegou ao futebol

O Globo

Por Joaquim Ferreira dos Santos

Se fosse preciso resumir o Brasil num Tiktok eu filmaria esses jogadores de futebol que, minutos antes de entrar em campo, reúnem-se para gritar um Padre Nosso com entonação de ódio e, depois do “amém”, reforçam a fé no grupo com um “vâmulá, pôrra!”. Aquecem as chuteiras da alma para entrar em campo e com a ajuda d’Ele quebrar as pernas adversárias. Quem viu Flamengo e Atlético sabe disso. O negacionismo chegou ao futebol.

Reina também aqui, neste outrora tradicional canteiro da superioridade brasileira, a descrença no talento dos homens e na ciência das táticas. Aglomerações no meio de campo e bicões, eis o esquema de jogo. Klopp, Guardiola e outros professores, que têm animado o futebol a partir de seus laboratórios geniais, com times dedicados ao ataque, seriam considerados comunistas. Renato Gaúcho declarou não ter o que aprender com eles – prefere um time de zagueiros.

O Maracanã é uma civilização inaugurada com a elegância de um gol de folha seca e desde sempre cumpria sua parte na crença tão brasileira de que uma nação se faz com homens, livros e as embaixadinhas do Paulo Cesar Caju, o balãozinho do Roberto Dinamite, o elástico do Rivelino, as faltas do Zico. Foi no tempo das chuteiras pretas e do troféu Belfort Duarte, ofertado ao jogador disciplinado, sem uma expulsão em anos. O prêmio virou maldição e desapareceu.

“Zagueiro que se preze não ganha o Belfot Duarte”, disse o xerife-carniceiro Moisés, de poucos títulos e muitas pernas machucadas.

Havia entre meus ídolos um goleiro do América, Pompeia, totalmente segunda classe, jamais convocado para a seleção. Tinha o dom, qualquer que fosse a dificuldade do chute contra sua meta, de arrumar um jeito de defender com um voo espetacular. O cronista de jornal é isso. Um “segunda classe” entre jornalistas e literatos, mas sempre interessado em soar bonito – e daqui agradeço a Pompeia a busca insaciável da inspiração para que, na crônica nossa de cada dia, haja uma eterna borboleta voando entre os parágrafos.

Tudo isso foi no tempo da poesia, quando a torcida do Vasco era animada por um sujeito tocando talo de mamão, craque era “rei” e seus gols estufavam o véu da noiva, balançavam a roseira. Aos olhos do mundo, aqui já foi o país da floresta, da cultura sorridentemente sofisticada, mas eis que lá já se foram esses anéis. Do futebol, joia máxima da coroa, sobraram as tatuagens do Neymar, o cai-cai, simulador de faltas que levou essa fake news brasileira, ao vivo, para a vaia na Europa.

O futebol é a nossa mais completa tradução e, como se não bastasse o 7 a 1, só tem servido metáfora ruim. O presidente diz o tempo todo jogar dentro das quatro linhas da constituição, mas tudo que faz é jogar fora delas. Flamengo e Atlético, e todo o campeonato brasileiro, também. Jogadores que ganham milhões esquecem a constituição do futebol, um simulacro da convivência, e por 90 minutos exalam masculinidade tóxica. Discutem, esquecem o passe de três dedos, tiram a máscara das boas práticas desportivas e peitam-se como machos antigos numa briga de rua. São jogos aborrecidíssimos, goleadas de um a zero, que negam a essência da brincadeira. Não, não pode isso, Arnaldo.