Os cálculos para o acesso

POR GERSON NOGUEIRA

Imperatriz x Remo: onde assistir ao vivo, horário, escalação e as últimas  notícias | Goal.com

Na véspera da estreia paraense na segunda fase da Série C, os cálculos para o acesso dividem opiniões e aumentam a expectativa da torcida. Há quem atribua a contagem mínima de 11 pontos como segura para a obtenção do acesso, mas o Chance de Gol, um dos mais respeitados sites no segmento, crava 13 como a pontuação ideal para chegar à Série B.

Com projeções diferentes para os dois grupos, o Chance de Gol afirma que com 11 pontos um time estará praticamente classificado (99,5% de chances), com 10 tem 95% de probabilidades e com 9 pontos o percentual cai para 80%. Abaixo disso, com 8 pontos, as chances são de 50%.

Apesar de o site não mostrar um cálculo referente a 12 pontos, fica óbvio que é expressiva a chance de acesso para quem alcançar essa pontuação.

Quanto à caminhada dos quatro times, o site elege Leão e Papão como os mais cotados da chave D, contrariando as desconfianças de boa parte da torcida por conta da presença de ambos no mesmo agrupamento.

O Chance de Gol diz que o Papão tem 68,8% de chances de acesso e 39,7% de chegar à final do campeonato. O Leão vem logo a seguir, com 56,9% de subir e 27,9% de ser um dos finalistas.

A vantagem dada ao PSC sobre o Remo, mesmo com pontuação menor na etapa classificatória, se explica pelos critérios de ranking e participação recentes em competições nacionais.

Do outro lado, no Grupo C, o Santa Cruz é apontado como favorito para o acesso, com 69,5%, e cotado para a final, com 40,4%. O Ituano vem logo atrás com 64,2% para subir e 34,2% de ser finalista.

Os cálculos incluem também a primeira rodada da segunda fase, que começa amanhã com o jogo Londrina x Remo, no estádio do Café, em Londrina (PR). O Leão está bem na foto: é apontado com ligeira vantagem (32,7%), o empate tem o maior percentual (36,1%) e a vitória do Londrina tem 31,1% de probabilidade de acontecer.

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Para domingo, quando o PSC recebe o Ypiranga, em Belém, as projeções são ainda mais generosas com o representante paraense. O site dá 53,4% de chances de vitória bicolor, empate e vitória do time gaúcho têm o mesmo percentual (23,3%).

Em comparação com o outro grupo, o favoritismo do Papão é o maior de todos nesta primeira rodada. Aliás, fica patente que o grupo C é considerado o mais equilibrado para efeito de cálculos.

O êxito dos times paraenses dependerá em grande parte dos clássicos. O risco está na possibilidade de dois empates, o que dificultaria bastante a classificação. Vitórias para um e outro permitem esperanças. Duas vitórias de um dos rivais certamente aplainará o caminho para o acesso. Uma vitória e um empate também podem ajudar.

O PSC desfruta de um “turno” menos cansativo, pois vai fazer seus primeiros três jogos em Belém. Tem a possibilidade de fechar a primeira metade com 9 pontos, desde que vença Ypiranga, Remo e Londrina, ou 7 pontos, com vitórias sobre os visitantes e um empate no Re-Pa.

O Remo tem rota inicial diferente. Joga fora de casa, amanhã, depois encara o clássico e recebe o Ypiranga, em Belém. A impressão geral é de que pode embalar na competição caso vença o Londrina logo na estreia.

De toda sorte, para conquistar o acesso é preciso fazer o dever de casa (9 pontos) e pelo menos dois empates ou uma vitória como visitante. Campanha exclusivamente caseira não garante a classificação. Pela necessidade de pontuar fora, o desempenho de atacantes como Tcharlles e Marlon será absolutamente decisivo nesta etapa.

Leão reelege Bentes em clima de congraçamento

Com chapa única para o Codir, encabeçada pelo presidente, Fábio Bentes, o Remo realiza hoje uma das mais tranquilas e pacíficas eleições de sua história recente. É um momento de aclamação ao presidente que resgatou a credibilidade pública do clube, estabilizou as finanças e recolocou o futebol em nível competitivo. Se houvesse uma pesquisa de avaliação, sua gestão estaria muito perto da unanimidade.

Dentre seus feitos, destaque para a recuperação do estádio Evandro Almeida, que está perto de receber a nova iluminação.  

O Conselho Deliberativo elegerá 100 conselheiros de uma lista de 111 candidatos. Na Assembleia Geral, a escolha será entre Daniel Lavareda e Luís Cunha. A volta de alguns azulinos à vida do clube, depois de anos de afastamento, também é saudada como reflexo da boa administração. Ricardo Sefer (procurador geral do Estado) é um exemplo.

Simpatia do Bambino aplacou as mágoas de 82

A morte de Paolo Rossi reavivou memórias desagradáveis para quem vivenciou as angústias da Copa de 1982. Trabalhava na redação de O Liberal à época, editando o caderno de esportes com os saudosos Imar Nunes e Julio Lynch. Naquele fatídico dia tínhamos a convicção de que o time brasileiro iria atropelar a Azzurra, no estádio Sarriá.

Nossos problemas naquele dia atendiam por um nome: Rossi, que iludia com aquela falsa fragilidade da magreza do corpo. Surgia como um demônio entre os zagueiros, aproveitando os mínimos deslizes (de Cerezo e Junior), com o auxílio luxuoso do excelente Cabrini.

Engraçado é que mesmo quando o jogo estava 2 a 1 para os italianos, quase todo mundo acreditava em empate e virada. Mas, no terceiro gol, comecei a encarar os fatos. O dia era de Rossi. Se o Brasil igualasse de novo – e quase conseguiu –, ele iria certamente fazer o quarto.

Nos anos seguintes, em entrevistas, Rossi desconstruiu com simplicidade e carinho a imagem de exterminador do timaço de Telê Santana. O fato é que, com sua morte, a gente descobre que fizemos as pazes com nosso carrasco. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 11)

Biden-Harris, Personalidade do Ano da revista Time

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Joe Biden e Kamala Harris são a “Personalidade do Ano” de 2020 da Time.

Mestre Janio: “O Brasil não tem governo”

Em artigo, colunista da Folha de São Paulo fala sobre a chave que o presidente deu ao eleitor – e que pode jogar sua ambição eleitoral no lixo da história.

Jair Bolsonaro ofereceu ao eleitor a chave ideal para o eleitor inseguro sobre o destino de seu voto: ver o que foi feito durante a pandemia, se o eleitor concorda ou não com o que foi feito, e se foi feito ou não aquilo que foi necessário. Abre-se a possibilidade de colocar Bolsonaro e sua ambição pela reeleição na lixeira da história, como explica Janio de Freitas em sua coluna no jornal Folha de São Paulo.

“É a resposta necessária para compensar, ao menos no plano individual, o escapismo acovardado e vendilhão dos apelidados de autoridades institucionais. As figuras minúsculas incumbidas de resguardar a população, e seu país, da sanha louca que não os quer sob a proteção nem de incertas vacinas”, pontua o articulista, ressaltando que o nome do país tem sido colocado ao lado de diversas ditaduras contra os direitos das mulheres e vendo reservas como a Amazônia e o Pantanal em chamas, sem fazer muita coisa (ou nada) a respeito.

“O Brasil não tem governo. E é difícil saber o que lhe resta, inclusive vergonha”, ressalta Freitas. “Ao eleitor, é só não esquecer a ideia de Bolsonaro para escolher o voto. Mas é humilhante que o Brasil continue suportando, apenas para proveito do raso segmento de influentes, a vergonheira que se passa nos seus Poderes”.

Por Jornal GGN

O Remo e o fator Gedoz

POR GERSON NOGUEIRA

Após perder pênalti em estreia, Felipe Gedoz diz: "É das críticas que a  gente aprende" | Remo 100%

Pelas palavras sempre ponderadas do técnico Paulo Bonamigo, o Remo vai disputar em alto nível o quadrangular de definição do acesso à Série B. Terá que ser assim mesmo, pois as exigências técnicas da disputa aumentaram bastante após a fase de classificação. Estão reunidos, para jogos de ida e volta, os melhores times da competição.

Um ponto importante ainda deve despertar inquietações no próprio Bonamigo: o espaço a ser ocupado pelo meia Felipe Gedoz no esquema montado para as batalhas contra Ypiranga, PSC e Londrina.

Até o leãozinho de pedra lá do Evandro Almeida sabe que Gedoz ainda é um estranho no ninho remista. Não lhe tem faltado disposição, esforço e persistência para acertar o passo, mas é justo dizer que ainda não conseguiu alcançar o ponto mínimo de rendimento esperado quando foi contratado.

Jogador de destaque em vários clubes, dono de bom passe e sempre rondando aquela região do campo que permite disparos em direção ao gol, Gedoz não entregou ainda um futebol capaz de agradar a torcida e satisfazer o comandante.

A estreia parecia ter sido escolhida a dedo, contra os reservas do Santa Cruz em Belém. Saiu tudo ao contrário do previsto. Os visitantes jogaram com extrema disciplina e vontade de pontuar que intimidaram as ações iniciais do Remo.

Mesmo produzindo várias oportunidades para marcar, o Leão acabou derrotado, muito em função de uma penalidade desperdiçada por Gedoz quando o placar era de 1 a 0 para o Santa. Na mesma cobrança, o meia desperdiçou ainda dois rebotes.

Relembro esse episódio porque ele expressa a situação de desconforto que segue acompanhando o jogador, cotado como principal reforço do Remo para a competição. Deveria ser o líder técnico do time em campo, a cereja do bolo. Não foi esse jogador nas quatro partidas que disputou.

O Re-Pa entre amigos não conta, mas contra Botafogo-PB e Manaus sua participação foi discreta. Mesmo na grande performance do Remo na Arena da Amazônia, o papel desempenhado por Gedoz foi muito mais de aplicação tática do que de protagonista.

Teve uma chance preciosa de marcar, já no 2º tempo, e bateu descalibrado. Não parece dispor da confiança para executar as jogadas, evita as jogadas individuais e até os lançamentos são curtos, econômicos.

A situação tende a ficar tensa quando um jogador incorpora, de maneira negativa, a responsabilidade de mostrar serviço e provar a que veio. Atender expectativas é tarefa difícil em qualquer ramo de atividade. Pior ainda no futebol competitivo da Série C e sob as exigências de uma torcida que sonha há cinco anos com o acesso à Série B.

Não creio que Bonamigo seja um técnico permeável a pressões por escalação de jogador. Nunca permitiu isso ao longo da carreira, mas ele próprio deve em algum momento entender que Gedoz, pelo custo que gera ao clube, precisa estar em ação.

Até quando o reforço continuará merecendo titularidade, com produção abaixo das expectativas, é a pergunta que todos se fazem, dentro e fora dos muros do Baenão. Porque, convenhamos, Gedoz não foi contratado para tocar bola para os lados e dar combate na zona de marcação.  

Para executar tarefas prosaicas, de bloqueio e vigilância, Bonamigo tem muita gente à disposição no elenco. O que lhe falta é um meia inspirado, capaz de desequilibrar jogos. Gedoz deve ser esse homem.

Exemplos de engajamento que Neymar pode seguir

O firme posicionamento antirracista dos jogadores do PSG e do Istanbul surpreendeu, em muitos aspectos, pela resoluta participação de Neymar na decisão de se solidarizar com os atletas do time turco, que optaram por abandonar o campo na partida de terça-feira.

Neymar é um exemplo de alienação e desinformação política entre os grandes astros do futebol mundial. Não tem opinião sobre nada, não se engaja em nenhuma causa e costuma usar suas poderosas redes sociais para divulgar produtos e marcas ao invés de se manifestar sobre temas relevantes.

Símbolo da alienação dos boleiros brasileiros, que em sua imensa maioria passam ao largo de assuntos tidos como espinhosos, o camisa 10 do PSG não faz muita questão de parecer diferente.

Não parece se incomodar nem mesmo quando vê desportistas como Lewis Hamilton e LeBron James assumindo posições de vanguarda contra a intolerância e as injustiças sociais.

Por isso mesmo, a decisão de liderar os jogadores do PSG no apoio aos atletas do Istanbul, repudiando o ato racista praticado pelo quarto árbitro, deve ser saudada como um divisor de águas no comportamento do craque brasileiro. Que continue nessa trilha.  

Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que o Brasil já teve alguns exemplos de jogadores desassombrados. Há poucos dias, citei o aniversário da morte de Dr. Sócrates, ídolo corintiano e voz sempre pronta a questionar mazelas e desvios de conduta da cartolagem e dos governantes brasileiros.

Antes dele, Afonsinho no Botafogo e Reinaldo no Atlético-MG também tiveram destacada participação nas lutas para dar à profissão um mínimo de orgulho e dignidade. Reinaldo, de estilo muito calcado nas atitudes dos míticos Panteras Negras americanos, costumava usar o punho direito erguido para festejar seus gols.

Isso tudo em plena ditadura militar, quando até um assobio descuidado podia causar sérios problemas com a repressão. Reinaldo, que a massa atleticana chamava de “Rei”, era um cara que fazia muitos gols, o que permitia que sua singular manifestação de protesto fosse repetida na TV e disseminada nas fotos dos jornais.  

Quis o destino, porém, que o centroavante lépido e habilidoso não pudesse mostrar todo o seu talento em Copas do Mundo. Era o preferido de Telê Santana, mas só conseguiu participar da Copa de 1978 na Argentina, de maneira bastante limitada.  

Achei oportuno mencionar Reinaldo porque a galeria de craques politizados é tão reduzida que se faz necessário destacar e fazer justiça aos expoentes. Paulo César Caju também teve seus momentos de rebeldia, sem a mesma contundência política no discurso. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 10)

A despedida de Paolo Rossi, o Bambino D’Oro

Paolo Rossi na Copa do Mundo de 1982 — Foto: Getty Images

Eternamente associado à história da seleção brasileira por ter feito os três gols que eliminaram o Brasil da Copa de 82, o ex-atacante italiano Paolo Rossi morreu nesta quarta-feira, aos 64 anos, segundo informa a imprensa italiana. Ainda não há informações sobre as circunstâncias da morte.

A notícia da morte do Bambino D’Oro foi divulgada inicialmente pelo jornalista Enrico Varriale, da emissora de TV RAI, e posteriormente no site do jornal “Gazetta dello Sport” e outros veículos de imprensa do país. Rossi deixa a mulher Federica Cappelletti, com quem era casado desde 2010, e três filhos: Sofia Elena, Maria Vittoria e Alessandro.

O ex-jogador da Juventus foi campeão e artilheiro do Mundial da Espanha-1982, com seis gols. Até a segunda fase, ainda não tinha marcado nenhum, mas desencantou na vitória da Itália por 3 a 2 sobre a seleção dirigida por Telê Santana, que marcou época com craques como Zico, Falcão, Júnior e Sócrates.

Depois, Rossi marcou os dois gols da vitória por 2 a 0 sobre a Polônia, na semifinal, e fez o primeiro da Itália no 3 a 1 sobre a Alemanha na decisão.

Paolo Rossi, ex-jogador da seleção italiana - David Cannon/Allsport

ESCÂNDALO

Paolo Rossi nasceu na cidade de Prato, em Florença. Começou a jogar na Juventus, clube onde viveu os melhores momentos da carreira. Pelo clube de Turim, conquistou duas vezes o Campeonato Italiano (1981/82 e 1983/84), a Copa Europeia (atual Liga dos Campeões da Uefa), em 1984/85, a Supercopa da Uefa em 1984, a extinta Recopa Europeia, em 1983/84, e a Copa da Itália, em 1982/83. Também foi campeão da Série B italiana em 1976/77 pelo Vicenza.

Já um promissor artilheiro da seleção italiana e um dos principais jogadores do país, Paolo Rossi foi suspenso por três anos em 1980, quando atuava pelo Perugia, acusado de envolvimento em um escândalo de manipulação de resultados conhecido como “Totonero”. Posteriormente, sua pena foi reduzida a dois anos, o que permitiu sua convocação para a Copa da Espanha.

Rossi jogou somente em clubes italianos, com passagens também por Como, Vicenza, Milan e Hellas Verona, onde encerrou a carreira, em 1987. Em 2002, o ex-atacante lançou um livro sobre sua trajetória nos campos, com inegável destaque para o marcante jogo contra a seleção brasileira em 1982, possivelmente o mais importante da sua carreira: “Ho fatto piangere il Brasile” (Eu fiz chorar o Brasil, em português). Rossi também trabalhou como comentarista em emissoras de TV italianas, como RAI e Mediaset. (Do GE)

Resposta firme ao racismo

POR GERSON NOGUEIRA

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O jogo entre PSG e Istanbul Basaksehir pela Liga dos Campeões da Europa registrou um incidente que pode marcar uma guinada na luta contra o racismo no futebol. Tudo porque, pela primeira vez, numa competição de primeira linha, os jogadores se solidarizaram a um colega alvo de discriminação e saíram de campo, suspendendo o jogo.

Devido ao uso de uma expressão racista, o quarto árbitro, o romeno Sebastien Coltescu, foi o pivô de um tumulto que interrompeu a partida em Paris aos 16 minutos do primeiro tempo. Ele se referiu ao camaronês Pierre Webó, membro da comissão técnica do Istanbul, como “este negro”, de forma pejorativa.

A confusão se estabeleceu, o árbitro Ovidiu Hategan chegou a exibir um cartão vermelho, mas logo se viu vencido pela decisão dos 22 jogadores. Os turcos se recusaram a reiniciar o jogo, liderados pelo senegalês Demba Ba, e apoiados pelos atletas do PSG, com Neymar e Mbappé à frente.

Uma história de discriminação e intolerância, que atravessa séculos, tem vivido capítulos de resistência nas últimas décadas. O ano de 2020 tem sido marcante quanto a isso, desde que o negro George Floyd foi morto por policiais brancos nos Estados Unidos, desencadeando uma onda mundial de protestos unificados sob a bandeira “Vidas negras importam”.

Não quer dizer que o adiamento de um confronto pela Liga dos Campeões (que deve se realizar hoje, no mesmo horário) vai decretar a vitória absoluta sobre a prática do racismo no futebol. A luta é incessante, na forma de estágios que se complementam. São avanços no sentido de fazer valer a lei universal da igualdade de direitos.

O tema do racismo e suas derivações, inclusive o infame racismo estrutural tão comum na sociedade brasileira, é de interesse de todos que se preocupam com uma sociedade mais justa e plena de direitos. A coluna sempre abordou e valorizou a causa, mesmo quando não estava em evidência o combate direto a práticas de intolerância e exclusão.

Há sinais positivos de mudança. O episódio de ontem em Paris é exemplar. Ao contrário de tantos outros incidentes, quando um ou mais jogadores são alvejados por cânticos e gritos racistas vindos das arquibancadas, sem que possam reagir ou ganhar apoio, os jogadores de PSG e Istanbul assumiram o protagonismo no enfrentamento de um fato que a muitos parece menor, mas que não deve ser tolerado na convivência humana.

Esporte representativo das camadas mais humildes da população mundial, o futebol é uma vitrine poderosa, que muitas vezes foi blindada contra protestos. Fifa e Uefa sempre relativizaram o problema, até o começo da década de 2000. As coisas começaram a ser revistas nos últimos anos, chegando finalmente à ocorrência de ontem.

Foi emblemático e revolucionário o comportamento dos dois craques do PSG, que não se permitiram abraçar neutralidade e saíram em defesa do companheiro de trabalho. “Diga não ao racismo. M. Webo, nós estamos com você”, escreveu Mbappé. Neymar escreveu: “Vidas negras importam”.

Em campo, foram decisivos no protesto que suspendeu o jogo. “Não vamos jogar, se ele não for expulso não vamos jogar”, disse Mbappé, referindo-se ao quarto árbitro romeno. Um gesto firme diante do ineditismo absurdo de um árbitro ter a petulância de proferir palavras racistas.

Sabella, o professor que quase deu o tri à Argentina

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Responsável direto pelo melhor resultado obtido pela Argentina em Copas do Mundo nos últimos 30 anos, Alejandro Sabella morreu ontem, aos 66 anos, de complicações cardíacas. Era um técnico respeitado, de estilo contido, quase um professor.

Filho de mãe professora e pai amante do futebol-arte, Sabella construiu fama e amealhou respeito pela sabedoria na gestão de times e no extremo esmero em relação a detalhes. “Gosto de ensinar e de passar as ideias que aprendi. Me alegra mais que o dinheiro”, dizia sempre.

Sem glamour, chegou ao comando da seleção por méritos. Chefiou um time estrelado por Messi no Mundial de 2014, no Brasil. À beira do gramado, parecia encabulado, mas seus ensinamos conduziram a equipe a um surpreendente vice-campeonato.

Perdeu para a temível Alemanha por 1 a 0, na grande final realizada no Maracanã. Seu time teve as melhores oportunidades do jogo, mas acabou traído por um erro de cobertura na defesa.

Antes de montar times, Sabella foi um jogador de razoável sucesso, com as camisas de River Plate, Leeds United, Estudiantes de La Plata e Grêmio.

O ataque gratuito da Globo a uma instituição do futebol

A zombeteira chamada que a emissora pôs no ar a respeito do jogo São Paulo x Botafogo, que será realizado hoje à noite, é uma deslavada afronta a um grande clube brasileiro. Agremiação que está na história gloriosa do futebol no país pela legião de craques que revelou e cedeu à Seleção em todas as Copas. E a ofensa é tristemente irônica por parte de uma emissora que há décadas vive de lucros sugados dos próprios clubes.

O tom de exagerado deboche, personificado no uso de imagem comparativa entre a cobertura (S. Paulo) e o porão (Botafogo), deixa no ar a desconfiança de que a emissora possa ter tomado as dores do Flamengo, seu parceiro mais longevo, que se abespinhou com uma faixa estendida nas arquibancadas do estádio Nilton Santos, pregando amor à vida, como se tal princípio tenha se tornado algo ofensivo ou proibido.

Sejam quais forem os motivos da destrambelhada e mal calibrada peça de ataque ao Botafogo, o fato é que a Globo inaugurou nesta semana a temporada de desaforos aos times com os quais mantém contrato. Talvez sirva de lição, para o próprio Alvinegro, há tempos prejudicado em campo e na partilha de verbas de patrocínio.

Quem sabe não seja o gatilho para um posicionamento mais desassombrado e digno, mesmo em temporada tecnicamente terrível para o time. Clubes, mesmo aqueles assolados por gestões desastrosas, são instituições eternas. Redes de TV, como qualquer empreendimento de natureza comercial, nem sempre podem se entender invencíveis e acima do bem e do mal.  

(Coluna publicada na edição do Bola desta quarta-feira, 9)