Resposta firme ao racismo

POR GERSON NOGUEIRA

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O jogo entre PSG e Istanbul Basaksehir pela Liga dos Campeões da Europa registrou um incidente que pode marcar uma guinada na luta contra o racismo no futebol. Tudo porque, pela primeira vez, numa competição de primeira linha, os jogadores se solidarizaram a um colega alvo de discriminação e saíram de campo, suspendendo o jogo.

Devido ao uso de uma expressão racista, o quarto árbitro, o romeno Sebastien Coltescu, foi o pivô de um tumulto que interrompeu a partida em Paris aos 16 minutos do primeiro tempo. Ele se referiu ao camaronês Pierre Webó, membro da comissão técnica do Istanbul, como “este negro”, de forma pejorativa.

A confusão se estabeleceu, o árbitro Ovidiu Hategan chegou a exibir um cartão vermelho, mas logo se viu vencido pela decisão dos 22 jogadores. Os turcos se recusaram a reiniciar o jogo, liderados pelo senegalês Demba Ba, e apoiados pelos atletas do PSG, com Neymar e Mbappé à frente.

Uma história de discriminação e intolerância, que atravessa séculos, tem vivido capítulos de resistência nas últimas décadas. O ano de 2020 tem sido marcante quanto a isso, desde que o negro George Floyd foi morto por policiais brancos nos Estados Unidos, desencadeando uma onda mundial de protestos unificados sob a bandeira “Vidas negras importam”.

Não quer dizer que o adiamento de um confronto pela Liga dos Campeões (que deve se realizar hoje, no mesmo horário) vai decretar a vitória absoluta sobre a prática do racismo no futebol. A luta é incessante, na forma de estágios que se complementam. São avanços no sentido de fazer valer a lei universal da igualdade de direitos.

O tema do racismo e suas derivações, inclusive o infame racismo estrutural tão comum na sociedade brasileira, é de interesse de todos que se preocupam com uma sociedade mais justa e plena de direitos. A coluna sempre abordou e valorizou a causa, mesmo quando não estava em evidência o combate direto a práticas de intolerância e exclusão.

Há sinais positivos de mudança. O episódio de ontem em Paris é exemplar. Ao contrário de tantos outros incidentes, quando um ou mais jogadores são alvejados por cânticos e gritos racistas vindos das arquibancadas, sem que possam reagir ou ganhar apoio, os jogadores de PSG e Istanbul assumiram o protagonismo no enfrentamento de um fato que a muitos parece menor, mas que não deve ser tolerado na convivência humana.

Esporte representativo das camadas mais humildes da população mundial, o futebol é uma vitrine poderosa, que muitas vezes foi blindada contra protestos. Fifa e Uefa sempre relativizaram o problema, até o começo da década de 2000. As coisas começaram a ser revistas nos últimos anos, chegando finalmente à ocorrência de ontem.

Foi emblemático e revolucionário o comportamento dos dois craques do PSG, que não se permitiram abraçar neutralidade e saíram em defesa do companheiro de trabalho. “Diga não ao racismo. M. Webo, nós estamos com você”, escreveu Mbappé. Neymar escreveu: “Vidas negras importam”.

Em campo, foram decisivos no protesto que suspendeu o jogo. “Não vamos jogar, se ele não for expulso não vamos jogar”, disse Mbappé, referindo-se ao quarto árbitro romeno. Um gesto firme diante do ineditismo absurdo de um árbitro ter a petulância de proferir palavras racistas.

Sabella, o professor que quase deu o tri à Argentina

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Responsável direto pelo melhor resultado obtido pela Argentina em Copas do Mundo nos últimos 30 anos, Alejandro Sabella morreu ontem, aos 66 anos, de complicações cardíacas. Era um técnico respeitado, de estilo contido, quase um professor.

Filho de mãe professora e pai amante do futebol-arte, Sabella construiu fama e amealhou respeito pela sabedoria na gestão de times e no extremo esmero em relação a detalhes. “Gosto de ensinar e de passar as ideias que aprendi. Me alegra mais que o dinheiro”, dizia sempre.

Sem glamour, chegou ao comando da seleção por méritos. Chefiou um time estrelado por Messi no Mundial de 2014, no Brasil. À beira do gramado, parecia encabulado, mas seus ensinamos conduziram a equipe a um surpreendente vice-campeonato.

Perdeu para a temível Alemanha por 1 a 0, na grande final realizada no Maracanã. Seu time teve as melhores oportunidades do jogo, mas acabou traído por um erro de cobertura na defesa.

Antes de montar times, Sabella foi um jogador de razoável sucesso, com as camisas de River Plate, Leeds United, Estudiantes de La Plata e Grêmio.

O ataque gratuito da Globo a uma instituição do futebol

A zombeteira chamada que a emissora pôs no ar a respeito do jogo São Paulo x Botafogo, que será realizado hoje à noite, é uma deslavada afronta a um grande clube brasileiro. Agremiação que está na história gloriosa do futebol no país pela legião de craques que revelou e cedeu à Seleção em todas as Copas. E a ofensa é tristemente irônica por parte de uma emissora que há décadas vive de lucros sugados dos próprios clubes.

O tom de exagerado deboche, personificado no uso de imagem comparativa entre a cobertura (S. Paulo) e o porão (Botafogo), deixa no ar a desconfiança de que a emissora possa ter tomado as dores do Flamengo, seu parceiro mais longevo, que se abespinhou com uma faixa estendida nas arquibancadas do estádio Nilton Santos, pregando amor à vida, como se tal princípio tenha se tornado algo ofensivo ou proibido.

Sejam quais forem os motivos da destrambelhada e mal calibrada peça de ataque ao Botafogo, o fato é que a Globo inaugurou nesta semana a temporada de desaforos aos times com os quais mantém contrato. Talvez sirva de lição, para o próprio Alvinegro, há tempos prejudicado em campo e na partilha de verbas de patrocínio.

Quem sabe não seja o gatilho para um posicionamento mais desassombrado e digno, mesmo em temporada tecnicamente terrível para o time. Clubes, mesmo aqueles assolados por gestões desastrosas, são instituições eternas. Redes de TV, como qualquer empreendimento de natureza comercial, nem sempre podem se entender invencíveis e acima do bem e do mal.  

(Coluna publicada na edição do Bola desta quarta-feira, 9)

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