A despedida de Paolo Rossi, o Bambino D’Oro

Paolo Rossi na Copa do Mundo de 1982 — Foto: Getty Images

Eternamente associado à história da seleção brasileira por ter feito os três gols que eliminaram o Brasil da Copa de 82, o ex-atacante italiano Paolo Rossi morreu nesta quarta-feira, aos 64 anos, segundo informa a imprensa italiana. Ainda não há informações sobre as circunstâncias da morte.

A notícia da morte do Bambino D’Oro foi divulgada inicialmente pelo jornalista Enrico Varriale, da emissora de TV RAI, e posteriormente no site do jornal “Gazetta dello Sport” e outros veículos de imprensa do país. Rossi deixa a mulher Federica Cappelletti, com quem era casado desde 2010, e três filhos: Sofia Elena, Maria Vittoria e Alessandro.

O ex-jogador da Juventus foi campeão e artilheiro do Mundial da Espanha-1982, com seis gols. Até a segunda fase, ainda não tinha marcado nenhum, mas desencantou na vitória da Itália por 3 a 2 sobre a seleção dirigida por Telê Santana, que marcou época com craques como Zico, Falcão, Júnior e Sócrates.

Depois, Rossi marcou os dois gols da vitória por 2 a 0 sobre a Polônia, na semifinal, e fez o primeiro da Itália no 3 a 1 sobre a Alemanha na decisão.

Paolo Rossi, ex-jogador da seleção italiana - David Cannon/Allsport

ESCÂNDALO

Paolo Rossi nasceu na cidade de Prato, em Florença. Começou a jogar na Juventus, clube onde viveu os melhores momentos da carreira. Pelo clube de Turim, conquistou duas vezes o Campeonato Italiano (1981/82 e 1983/84), a Copa Europeia (atual Liga dos Campeões da Uefa), em 1984/85, a Supercopa da Uefa em 1984, a extinta Recopa Europeia, em 1983/84, e a Copa da Itália, em 1982/83. Também foi campeão da Série B italiana em 1976/77 pelo Vicenza.

Já um promissor artilheiro da seleção italiana e um dos principais jogadores do país, Paolo Rossi foi suspenso por três anos em 1980, quando atuava pelo Perugia, acusado de envolvimento em um escândalo de manipulação de resultados conhecido como “Totonero”. Posteriormente, sua pena foi reduzida a dois anos, o que permitiu sua convocação para a Copa da Espanha.

Rossi jogou somente em clubes italianos, com passagens também por Como, Vicenza, Milan e Hellas Verona, onde encerrou a carreira, em 1987. Em 2002, o ex-atacante lançou um livro sobre sua trajetória nos campos, com inegável destaque para o marcante jogo contra a seleção brasileira em 1982, possivelmente o mais importante da sua carreira: “Ho fatto piangere il Brasile” (Eu fiz chorar o Brasil, em português). Rossi também trabalhou como comentarista em emissoras de TV italianas, como RAI e Mediaset. (Do GE)

Resposta firme ao racismo

POR GERSON NOGUEIRA

Imagem

O jogo entre PSG e Istanbul Basaksehir pela Liga dos Campeões da Europa registrou um incidente que pode marcar uma guinada na luta contra o racismo no futebol. Tudo porque, pela primeira vez, numa competição de primeira linha, os jogadores se solidarizaram a um colega alvo de discriminação e saíram de campo, suspendendo o jogo.

Devido ao uso de uma expressão racista, o quarto árbitro, o romeno Sebastien Coltescu, foi o pivô de um tumulto que interrompeu a partida em Paris aos 16 minutos do primeiro tempo. Ele se referiu ao camaronês Pierre Webó, membro da comissão técnica do Istanbul, como “este negro”, de forma pejorativa.

A confusão se estabeleceu, o árbitro Ovidiu Hategan chegou a exibir um cartão vermelho, mas logo se viu vencido pela decisão dos 22 jogadores. Os turcos se recusaram a reiniciar o jogo, liderados pelo senegalês Demba Ba, e apoiados pelos atletas do PSG, com Neymar e Mbappé à frente.

Uma história de discriminação e intolerância, que atravessa séculos, tem vivido capítulos de resistência nas últimas décadas. O ano de 2020 tem sido marcante quanto a isso, desde que o negro George Floyd foi morto por policiais brancos nos Estados Unidos, desencadeando uma onda mundial de protestos unificados sob a bandeira “Vidas negras importam”.

Não quer dizer que o adiamento de um confronto pela Liga dos Campeões (que deve se realizar hoje, no mesmo horário) vai decretar a vitória absoluta sobre a prática do racismo no futebol. A luta é incessante, na forma de estágios que se complementam. São avanços no sentido de fazer valer a lei universal da igualdade de direitos.

O tema do racismo e suas derivações, inclusive o infame racismo estrutural tão comum na sociedade brasileira, é de interesse de todos que se preocupam com uma sociedade mais justa e plena de direitos. A coluna sempre abordou e valorizou a causa, mesmo quando não estava em evidência o combate direto a práticas de intolerância e exclusão.

Há sinais positivos de mudança. O episódio de ontem em Paris é exemplar. Ao contrário de tantos outros incidentes, quando um ou mais jogadores são alvejados por cânticos e gritos racistas vindos das arquibancadas, sem que possam reagir ou ganhar apoio, os jogadores de PSG e Istanbul assumiram o protagonismo no enfrentamento de um fato que a muitos parece menor, mas que não deve ser tolerado na convivência humana.

Esporte representativo das camadas mais humildes da população mundial, o futebol é uma vitrine poderosa, que muitas vezes foi blindada contra protestos. Fifa e Uefa sempre relativizaram o problema, até o começo da década de 2000. As coisas começaram a ser revistas nos últimos anos, chegando finalmente à ocorrência de ontem.

Foi emblemático e revolucionário o comportamento dos dois craques do PSG, que não se permitiram abraçar neutralidade e saíram em defesa do companheiro de trabalho. “Diga não ao racismo. M. Webo, nós estamos com você”, escreveu Mbappé. Neymar escreveu: “Vidas negras importam”.

Em campo, foram decisivos no protesto que suspendeu o jogo. “Não vamos jogar, se ele não for expulso não vamos jogar”, disse Mbappé, referindo-se ao quarto árbitro romeno. Um gesto firme diante do ineditismo absurdo de um árbitro ter a petulância de proferir palavras racistas.

Sabella, o professor que quase deu o tri à Argentina

Imagem

Responsável direto pelo melhor resultado obtido pela Argentina em Copas do Mundo nos últimos 30 anos, Alejandro Sabella morreu ontem, aos 66 anos, de complicações cardíacas. Era um técnico respeitado, de estilo contido, quase um professor.

Filho de mãe professora e pai amante do futebol-arte, Sabella construiu fama e amealhou respeito pela sabedoria na gestão de times e no extremo esmero em relação a detalhes. “Gosto de ensinar e de passar as ideias que aprendi. Me alegra mais que o dinheiro”, dizia sempre.

Sem glamour, chegou ao comando da seleção por méritos. Chefiou um time estrelado por Messi no Mundial de 2014, no Brasil. À beira do gramado, parecia encabulado, mas seus ensinamos conduziram a equipe a um surpreendente vice-campeonato.

Perdeu para a temível Alemanha por 1 a 0, na grande final realizada no Maracanã. Seu time teve as melhores oportunidades do jogo, mas acabou traído por um erro de cobertura na defesa.

Antes de montar times, Sabella foi um jogador de razoável sucesso, com as camisas de River Plate, Leeds United, Estudiantes de La Plata e Grêmio.

O ataque gratuito da Globo a uma instituição do futebol

A zombeteira chamada que a emissora pôs no ar a respeito do jogo São Paulo x Botafogo, que será realizado hoje à noite, é uma deslavada afronta a um grande clube brasileiro. Agremiação que está na história gloriosa do futebol no país pela legião de craques que revelou e cedeu à Seleção em todas as Copas. E a ofensa é tristemente irônica por parte de uma emissora que há décadas vive de lucros sugados dos próprios clubes.

O tom de exagerado deboche, personificado no uso de imagem comparativa entre a cobertura (S. Paulo) e o porão (Botafogo), deixa no ar a desconfiança de que a emissora possa ter tomado as dores do Flamengo, seu parceiro mais longevo, que se abespinhou com uma faixa estendida nas arquibancadas do estádio Nilton Santos, pregando amor à vida, como se tal princípio tenha se tornado algo ofensivo ou proibido.

Sejam quais forem os motivos da destrambelhada e mal calibrada peça de ataque ao Botafogo, o fato é que a Globo inaugurou nesta semana a temporada de desaforos aos times com os quais mantém contrato. Talvez sirva de lição, para o próprio Alvinegro, há tempos prejudicado em campo e na partilha de verbas de patrocínio.

Quem sabe não seja o gatilho para um posicionamento mais desassombrado e digno, mesmo em temporada tecnicamente terrível para o time. Clubes, mesmo aqueles assolados por gestões desastrosas, são instituições eternas. Redes de TV, como qualquer empreendimento de natureza comercial, nem sempre podem se entender invencíveis e acima do bem e do mal.  

(Coluna publicada na edição do Bola desta quarta-feira, 9)

Para representante da ONU, papel do governo brasileiro na pandemia é “devastador”

Michelle Bachelet, alta comissária da ONU para Direitos Humanos, critica a gestão da pandemia no Brasil, ataca o comportamento do governo em temas de proteção ambiental e alerta que autoridades precisam reconhecer a existência do racismo no país. Para ela, a atitude das autoridades de minimizar a gravidade da pandemia teve um impacto negativo na resposta do estado à crise. Numa alocução, ela ainda condenou a politização da pandemia e questionou líderes que, mesmo hoje, insistem em minimizar a doença. Para Bachelet, tal atitude é “irresponsável”.

6.mar.2019 - Chefe de direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), Michelle Bachelet - Denis Balibouse/Reuters

A chefe de direitos humanos da ONU concedeu uma entrevista coletiva nesta quarta-feira, às vésperas do dia internacional dos direitos humanos. Em resposta a uma pergunta da coluna sobre a pandemia no Brasil, ela não mediu palavras para alertar sobre a situação brasileira. Sobre a pandemia, Bachelet alertou sobre a dimensão da crise sanitária no Brasil. “A covid-19 teve um impacto devastador no Brasil”, disse. Ela admite que a situação não foi positiva em grande parte da América Latina, com repercussões econômicas e sanitárias profundas.

“Mas no Brasil, em especial, vimos um impacto desproporcional em grupos em situação vulnerável, como pessoas vivendo na pobreza, afro-descendentes, indígenas, LGBTI, pessoas privadas de sua liberdade e pessoas vivendo em locais informais”, disse. “É fundamental garantir comunicação institucional confiável sobre o vírus e seu impacto”, defendeu Bachelet. Ela criticou “declarações de líderes subestimando o impacto do vírus”. Segundo a chilena, isso teve um “impacto negativo na resposta institucional à pandemia”.

“Espero que líderes no Brasil deem exemplo para o povo. Isso é muito importante”, afirmou. Segundo ela, as pessoas precisam estar envolvidas nas decisões e entender. “Elas precisam de confiança nas instituições. Espero que no Brasil líderes possam ser mais abertos ao que a ciência nos diz”, completou.

Canalhice em figura de gente

De Victor Farias no Globo

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quarta-feira que “se comportou muito bem” durante a pandemia do novo coronavírus. A declaração foi dada durante almoço com oficiais-generais das Forças Armadas, no Clube da Aeronáutica. O Brasil tem 178 mil mortes provocadas pela doença.

— O Brasil olha para nós. Tem um presidente e um vice que são militares. Buscam com lupa possíveis defeitos. Buscam de todas as maneiras até mesmo desacreditar. E passamos neste ano um momento dificílimo com a pandemia. Juntamente com os nossos colegas, ministros civis, nos comportamos muito bem. Não só na questão da economia, bem como na busca de diminuir o sofrimento de nossos irmãos — afirmou.

Desde o começo da pandemia, o presidente minimizou os impactos da doença. Ele criticou medidas de isolamento social, aconselhada pela Organização Mundial da Saúde e por autoridades da área da Saúde, e defendia isolamento vertical — apenas para as pessoas de grupo de risco. Além disso, sugeriu o uso de medicamentos que não tem comprovação científica contra a Covid-19 para tratar a doença.