Virada, superação e liderança

POR GERSON NOGUEIRA

Delegação do Remo comemora a vitória no vestiário do Mangueirão

O jogo foi sofrível, principalmente no 1º tempo, por culpa exclusiva do Remo. Depois de um começo até animador, com boas tentativas de Hélio pela direita, o time foi murchando e abrindo mão das ações ofensivas. Com o recuo, o Ypiranga cresceu e esteve perto de abrir o marcador. Na etapa final, os azulinos começaram errando nas tentativas, mas a superação prevaleceu, levando a uma virada empolgante, na raça, por 2 a 1.

Velhos problemas se repetiram ontem. A excessiva troca de passes laterais, que acentuam a vocação de jogo horizontal. Os erros de posicionamento. Os passes defeituosos. E o mais grave de todos (que tem a ver com todos os demais): a falta de transição elaborada do meio para o ataque.

O Remo ia bem até a linha central, tocando a bola ou dando combate quando é atacado, mas se dispersava quando saía em direção ao campo inimigo. A verticalização raramente é buscada, há receio ou incapacidade de romper as linhas de marcação.

No fim da primeira etapa, o time se apequenou tanto que permitiu ao Ypiranga ficar pressionando a zaga seguidamente. A defesa resistiu bem, mas o meio-campo era completamente anulado. Tanto que Felipe Gedoz, inoperante na armação, quase pôs tudo a perder ao dar o bote errado dentro da área.

Só quando o Remo sofreu o gol foi que começaram a surgir jogadas mais agressivas. Aos 15 minutos, Tarik fez o gol do Ypiranga, aproveitando o rebote de um chute na trave. Aí o espírito de superação brotou e o time se transformou por completo, partindo para o ataque.

Atordoados com a desvantagem, os azulinos se espertaram. Bonamigo fez trocas que melhoraram a movimentação ofensiva. Tirou Gedoz e Tcharlles, lançando Eduardo Ramos e Augusto. Ficou claro que o meio-campo precisa mesmo de alguém com autoridade para transitar por ali.

Em poucos minutos, mesmo abaixo do ritmo ideal, Ramos liderou a equipe, participando do lance do primeiro gol ao tocar a bola em frente à área gaúcha. Salatiel recebeu o passe e desviou para as redes, aos 23’.

Aos 31’, como consequência da intensidade ofensiva, veio o segundo gol. O escanteio cobrado por Charles foi cabeceado por Salatiel no canto direito. A virada se materializava. Méritos da ação coletiva após a mudança de peças. Capacidade de superação reafirmada, mas ficou a impressão de que a equipe poderia ter alcançado o triunfo sem passar por tanto aperreio.

Remo x Ypiranga-RS

Bonamigo, que comanda com serenidade a excelente campanha, vez por outra parece se conformar com o rendimento anêmico do ataque, como ocorreu na maior parte da etapa inicial, que terminou sob um cenário angustiante de quase predomínio do Ypiranga.

Outro ponto questionável é a opção técnica de descartar Hélio na metade da partida. Justamente ele, que é o atacante mais agudo e participativo. Desta vez, pelo menos, Ermel não foi escolhido para substituir o jovem ponta, mas seguiu como ameaça no banco, enquanto Ronald segue ignorado.

As vitórias, mesmo no sufoco, têm o dom de apagar falhas e críticas, mas é visível que o Remo tem condições de jogar com mais força de ataque do que normalmente mostra. A três ou quatro pontos do acesso, erros bobos não podem comprometer a brilhante trajetória. (Fotos: Samara Miranda/Ascom Remo)

De bem com os deuses, Papão mata na hora

Reza a lenda que João Tavares costumava ser letal nos instantes finais de um jogo. Era o cara que “matava na hora”, sem dar chance de reação aos adversários. Foi precisamente o que se viu, sábado, no estádio Jornalista Edgar Proença. O PSC, que não fez um grande jogo, cumpriu um roteiro digno dos filmes de suspense para sair triunfante de um duelo empedernido com o Londrina. Mateus Anderson encarnou o espírito de João.

O gol dele, o herói improvável da jornada, veio aos 49 minutos do 2º tempo, quando todo mundo já se conformava com o placar de 2 a 2, frustrante para os bicolores. Uma sucessão de erros defensivos do Londrina, culminando com o passe de cabeça que o zagueiro Marcondes deu a Mateus, levou ao triunfo alviceleste.

Grandes vitórias nascem muitas vezes de uma fagulha. Mateus pegou aquele rebote, gingou em frente aos zagueiros e optou pela finalização, mesmo estando fora da área. Não é preciso invadir a cabeça do jogador para saber que ele agiu movido pela urgência do tempo. O jogo estava acabando, não havia espaço para hesitação.

O chute, visto por trás do gol de Dalton, saiu em curva, tirando dos zagueiros e também do goleiro, que saltou quando a bola já estava a caminho do cantinho direito da trave. Belíssima jogada de Mateus, que transformou usou de perícia e fundamento para dar o único aproveitamento possível para a jogada.

A narrativa do jogo até aquele momento apontava para um outro herói bicolor. Nicolas marcou no final do 1º tempo e logo no início do 2º, sempre de cabeça, embora com construções diferentes.

A bola cruzada por Alex Maranhão no segundo pau foi testada lá do alto, com uso da excepcional impulsão do artilheiro. Já no escanteio Nicolas praticamente não saiu do chão, girando para desviar a bola para as redes. Repertório variado do melhor jogador em ação nos campos do Pará.

Ironicamente, antes de sofrer os gols, o Londrina foi senhor das ações. Perdeu um gol logo no início, reclamou (com razão) de falta na área cometida por Bruno Collaço, o mais faltoso do PSC. Botou bola na trave de Paulo Ricardo e ainda criou duas situações de perigo na área paraense.

Com 2 a 0 no placar, o Papão inverteu as perspectivas. Passou a ter o contra-ataque em seu favor. Vítor Feijão podia ter feito o terceiro antes dos 20 minutos do 2º tempo. No entanto, aos 22’, Victor Daniel entortou Tony pela esquerda do ataque e cruzou rasteiro para Carlos Henrique marcar. Animado, o Londrina insistiu mais ainda e Celsinho sofreu penal cometido por PH. O próprio meio cobrou e empatou, aos 33’.

O visitante teve chances de virar, pois o PSC recuou muito e permitiu que o adversário se estabelecesse em seu campo. Os deuses, porém, haviam decidido que o desfecho seria inteiramente bicolor. Mateus fez o gol da vitória e deixou o gramado como herói da noite.

(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 28)

Mulher-Maravilha 1984

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Por Pablo Villaça

Dirigido por Patty Jenkins. Roteiro de Patty Jenkins, Geoff Johns e Dave Callaham. Com: Gal Gadot, Chris Pine, Kristen Wiig, Pedro Pascal, Robin Wright, Connie Nielsen, Lilly Aspell, Amr Waked, Kristoffer Polaha, Natasha Rothwell, Ravi Patel, Lucian Perez, Stuart Milligan, Oliver Cotton.

Quando a Mulher-Maravilha ganhou sua primeira versão cinematográfica depois de seis décadas de existência, o timing pareceu perfeito ao originar uma franquia protagonizada por uma mulher justamente em meio ao crescimento do movimento #MeToo, que expôs poderosos abusadores em série que pareciam imunes à lei e fortaleceu termos como “empoderamento” e “sororidade” ao mesmo tempo em que escancarava a necessidade de mais oportunidades para mulheres atrás e diante das câmeras. Dirigido por Patty Jenkins, que 14 anos antes havia comandado o intenso Monster – Desejo Assassino apenas para ser marginalizada por Hollywood por algum motivo insondável (cof-sexismo-cof), Mulher-Maravilhav foi um sucesso de crítica e bilheteria, destacando-se em meio ao mediano universo de super-heróis da DC que vinha sendo coordenado por Zack Snyder ao combinar forma e mensagem de modo eficaz e envolvente, usando bem a ação e a fantasia para enfatizar seu subtexto político e social.

Infelizmente, esta continuação demonstra que Jenkins e sua estrela (e agora produtora) Gal Gadot extraíram as lições erradas do sucesso do filme anterior ao acreditarem que trazer o subtexto para a superfície, com a própria personagem passando a se enxergar como modelo de empoderamento (com direito a múltiplas piscadinhas para garotinhas – e para a câmera), seria o suficiente para evocar a força da mensagem. Se antes ela apenas era um símbolo, agora a Mulher-Maravilha faz questão de nos lembrar disso a cada vinte minutos, julgando que se apresentar como um ícone feminista a torna uma heroína, e não o contrário.

Com um roteiro frágil escrito a seis mãos pela diretora, por Geoff Johns e Dave Callaham, Mulher-Maravilha 1984 traz Diana Prince (Gadot) quase setenta anos depois dos eventos narrados no primeiro filme e ainda solitária por não conseguir se libertar da perda de Steve Trevor (Pine). Assim, quando um artefato misterioso chega ao museu em que trabalha para ser avaliado pela tímida e insegura Barbara Minerva (Wiig) e uma inscrição o identifica como capaz de realizar um único desejo de quem o segurar, Diana não contém o impulso de sonhar com o retorno do amado – que, claro, logo ressurge no corpo de um desconhecido. Enquanto isso, Barbara, impressionada com a segurança e a beleza da nova amiga, pede para ser como esta, tornando-se poderosa como a personagem-título, ao passo que o trambiqueiro Maxwell Lord (Pascal) faz o desejo de se tornar o objeto, passando a ser capaz de atender aos pedidos de qualquer um, mas sempre obtendo algo em troca – o que aos poucos traz caos e devastação para o planeta.

A esta altura, depois de ler o parágrafo anterior, qualquer pessoa com o mínimo de discernimento deve estar empacada em um detalhe: como assim Steve “ressurge no corpo de um desconhecido”? A princípio, o recurso pode parecer aceitável ao permitir que um ator carismático retorne à série, já que, mesmo que o personagem esteja em outro corpo, ele surge na tela com o rosto de Chris Pine – um detalhe que o roteiro explica casualmente quando Diana diz “Ele (o outro homem) é ótimo, mas tudo que vejo é você”. No entanto, assim que pensamos na lógica do artifício, a coisa logo se torna repulsiva ao pedir que ignoremos o fato de Diana, esta heroína cheia de princípios, jamais se questionar o que aconteceu com o original (a princípio, presumi que ele tivesse, sei lá, morrido um milésimo de segundo antes de Steve assumir seu lugar, mas… não, tratou-se mesmo de um roubo seguido por estupro – o que, se Mulher-Maravilha 2 fosse um filme melhor, poderia até ser interpretado como um comentário sobre a objetificação feminina e a violência de gênero em vez de ser o que é: uma decisão estúpida, inexplicável e atroz de roteiro).

Para piorar, o longa aproveita a ambientação na década de 80 para criar uma série de piadas óbvias sobre o espanto de Steve diante de escadas rolantes e do futuro esteticamente absurdo daquele período, caprichando nos cabelos armados, mullets, ombreiras, roupas de ginástica hilárias e estilo multicolorido de calças, camisas e sapatos (com direito até a – juro – a velha montagem que traz o sujeito experimentando vários modelos que são sumariamente reprovados por sua companheira). Como não poderia deixar de ser, as gags envolvem também o breakdance, a cultura punk rock e as artes plásticas de modo geral (sim, com direito ao inevitável momento em que Steve confunde uma lata de lixo com uma escultura).

Mais inesperado, considerando o conservadorismo político de certos elementos temáticos que discutirei adiante, é a crítica clara ao reaganismo – tanto em seu louvor ao consumismo quanto em sua obsessão pelo poder econômico e pela hegemonia nuclear. Além disso, vários aspectos do vilão interpretado por Pedro Pascal soam curiosamente familiares, com Max Lord sendo apresentado como um trapaceiro que insiste em se identificar como milionário embora esteja falido e que exibe um cabelo que remete a uma volumosa peruca, demonstrando também fascinação por ouro e uma repulsa patológica pela ideia de ser chamado de “perdedor”. Ah, sim: além de ser visto como uma “personalidade da tevê”. Aliás, as similaridades só são interrompidas graças ao carisma de Pascal, que busca imprimir ao personagem uma dimensão emocional e capacidade afetiva que obviamente faltam a Donald Trump. Da mesma forma, Kristen Wiig incorpora bem o arco de Barbara, da figura insegura e intimidada do primeiro ato à criatura determinada a não renunciar à força que ganhou ao longo da narrativa – uma trajetória que só é prejudicada pela necessidade de justificar sua transformação física no clímax da história para fazer jus ao nome “Mulher-Leopardo” e que os roteiristas falham em vender de maneira convincente. Para completar, ainda que Pine e Gadot recuperem a velha química em determinadas passagens, o filme jamais oferece oportunidades similares às do original para que realmente apreciemos o retorno do personagem (e a protagonista continua a demonstrar carisma e intensidade mesmo demonstrando ser uma atriz medíocre que tropeça sempre que é obrigada a recitar seus diálogos – que, para tornar seu trabalho ainda mais difícil, são geralmente péssimos, indo de “Eu jamais amarei de novo” a “Você só pode ter a verdade e a verdade é bela”).

Ainda assim, Patty Jenkins, sejamos justos, cria algumas sequências memoráveis – como a perseguição em uma estrada isolada no Egito e aquela que traz o casal principal admirando as cores de fogos de artifício através das nuvens (mesmo que demonstre não compreender como radares funcionam ao usar certos poderes da heroína para “disfarçar” o avião). Já o instante em que a personagem-título “descobre” um novo poder acaba se tornando ridículo quando notamos que a atriz parece estar testando várias posições para executá-lo, como se os realizadores não tivessem conseguido determinar qual seria a pose do cartaz e decidissem empregar todas.

Todos os problemas que discuti até agora, contudo, empalidecem diante da resolução ridícula criada por Jenkins e seus co-roteiristas e, principalmente, pela feiura de certo elemento temático da trama. (E sugiro que só leia o restante deste texto quem tiver assistido ao filme, posto que discutirei detalhes que envolvem spoilers.) Como justificar, para começo de conversa, que depois de longos 151 minutos de projeção o roteiro não ofereça consequências reais para nada que acontece durante a projeção? Ninguém é punido de fato por seus maus feitos, toda a destruição provocada pelas ações de Max e Bárbara é revertida com a mesma facilidade com que foi causada (até mesmo com a ressurreição de quem havia perdido a vida no processo) e, no fim das contas, a situação é “resolvida” quando a heroína convence o vilão a se arrepender, o que é no mínimo insatisfatório de um ponto de vista dramático. Além disso, se há algo que aprendemos com as ações egoístas e inconsequentes demonstradas por milhões de pessoas ao longo da pandemia de 2020 é que a ideia de que o mundo poderia ser salvo se todos voluntariamente renunciassem aos seus interesses particulares é mais fantasiosa do que o conceito de uma amazona imortal e indestrutível que depois de décadas de ação descobre subitamente ser capaz de voar. Posso até aceitar que Barbara assuma a forma de uma figurante de Cats, mas acreditar que bilhões de indivíduos seriam unanimemente convencidos a agir em prol do bem comum… não, não dá.

O que nos traz ao detalhe que há pouco classifiquei como “feio”, mas que é infinitamente mais repugnante do que isso: a subtrama envolvendo um personagem árabe que, abordado pelo vilão, faz o desejo de que sua terra se veja livre dos “invasores” – um pedido que imediatamente resulta em caos, destruição e é visto como os primeiros passos rumo ao apocalipse global.

E aqui talvez seja o momento ideal para lembrar que Gal Gadot é israelense, serviu as Forças Armadas do país e é pró-ocupação da Palestina, o que já levou, inclusive, à decisão da jornalista muçulmana Amani Al-Khatahtbeh de recusar um prêmio por seu ativismo ao descobrir que este seria entregue pela atriz.

Maravilha? Não em meu dicionário.

Observação: há uma cena adicional durante os créditos finais que traz uma ponta mais memorável do que as duas horas e meia anteriores.

26 de Dezembro de 2020

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Edmilson anuncia ativista indígena para a Ouvidoria Municipal

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Márcia Kambeba é a primeira indígena a fazer parte do primeiro escalão da Prefeitura de Belém. Seu nome foi anunciado pelo prefeito eleito, Edmilson Rodrigues, para o cargo de Ouvidora Geral do Município. Márcia é mestre em Geografia e foi candidata a vereadora de Belém nas últimas eleições pelo PSOL. Aos 41 anos, defende o diálogo multicultural e interdisciplinar como forma de entendimento entre os povos.

“Os povos indígenas têm o olhar do bem viver. Tudo é partilhado, visando o todo. Não fragmentado”.
É professora convidada da Universidade do Estado do Pará (Uepa) da disciplina “Território e Territorialidade” e trabalha a prática de campos em diversas áreas indígenas. Ativista da questão indígena, compositora, poeta, fotógrafa e atriz, é também palestrante nacional e internacional e autora de três livros. 

Márcia vê o trabalho na equipe de Edmilson como oportunidade para dar visibilidade à causa indígena: “As Prefeituras e as Câmaras Municipais precisam ser plurais para que a gente entenda o olhar do outro”, resume.

Nomes já divulgados dos titulares de pastas da gestão Edmilson Rodrigues:

Semad- Jurandir Novaes
Sefin- Káritas Rodrigues
Segep- Cláudio Puty
Semec- Márcia Bittencourt
Sesma- Maurício Bezerra
Sejel- Carolina Quemel
PGM- Alberto Vasconcelos
Fumbel- Michel Pinho
GMB- Joel Ribeiro
Ouvidoria- Márcia Kambeba

MST do Sul do Brasil doa mais de 850 toneladas de alimentos em 2020

Por Setor de Comunicação do MST da Grande Região Sul
Da Página do MST

O ano de 2020 foi marcado pela solidariedade entre a classe trabalhadora. As ações se intensificaram em meio a pandemia da Covid-19. Nesse período, mesmo com a pandemia, políticas de seguridade social foram desmontadas no âmbito da política nacional.  Mais de 300 novos agrotóxicos foram aprovados na flexibilização das leis. O sistema de saúde entrou em colapso com o aumento das infecções pelo novo coronavírus. Houve, mais uma vez, recordes de desmatamento e queimadas nos biomas brasileiros, com a fumaça se espalhando pelo Brasil. Um ambiente de insegurança e incerteza se instaurou no dia-a-dia do brasileiro médio, que ficou desempregado, vendo os custos da cesta básica aumentarem e a fome bater à porta.

Como se apresentou em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em setembro deste ano, a fome, insegurança alimentar grave, afetou entre 2017 e 2018 cerca de 4,6% da população do país. Naquela época, eram mais de 10 milhões de brasileiros com acesso menor do que o necessário para suprir as demandas nutricionais. Números preocupantes, que ainda não consideram os impactos da pandemia da Covid-19 e que se agravam rapidamente com os desmontes da política de segurança alimentar.

Diante das ameaças, atos de despejo, aumento da intolerância e violência, o povo periférico, campesino e Sem Terra, resiste. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) da região Sul do país foi responsável por grandes ações de solidariedade entre o campo e a cidade. Muitas, realizadas em parcerias com outros movimentos da Via Campesina, movimentos populares, partidos de esquerda, mandatos, pastorais sociais, organizações de juventude e Periferia Viva. Foram doados no sul do país cerca de 856,4 toneladas de alimentos saudáveis produzidos pela Reforma Agrária. Separando os números, foram cerca de 501 toneladas no Paraná, 65,4 toneladas em Santa Catarina e 290 toneladas de alimentos no Rio Grande do Sul.

As doações foram compostas por uma diversidade de alimentos agroecológicos, orgânicos e saudáveis. Para citar alguns, distribuímos arroz, feijão, mandioca, alface, acelga, couve, chuchu, abóbora, abacate, farinha de milho, ervas medicinais, beterraba, batata, couve, temperos, cenoura, moranga, repolho, melancia, cebola, laranja, pepino, pimentão, abobrinha, tomate, batata doce, mandioca, milho verde, mel, ovos, pães, doces, cucas, bolos, bolachas, leite, bebida láctea, queijo, macarrão caseiro, produtos fitoterápicos, de higiene como álcool 70%, sabão caseiro, e até móveis. A variedade de frutas, verduras, legumes, grãos e tubérculos ultrapassaram aproximadamente 100 tipos de alimentos.

As ações de solidariedade integram o projeto popular de sociedade, defendido pela Reforma Agrária Popular que inclui o plantio de árvores, distanciando-se do assistencialismo. Como observa Ceres Hadich, assentada e integrante da direção nacional do MST no Paraná, “solidariedade com um sentimento de construção de classe não é caridade. A gente não está dando nada pra ninguém. A gente está construindo possibilidades junto à classe trabalhadora”.

As ações abrangeram um grande espectro de atividades místicas e formativas, articuladas nacional e internacionalmente ao longo do ano. Podemos citar a Jornada Nacional da Alimentação Saudável e Contra a Fome, ações do Grito dos Excluídos, Jornada Internacional de Lutas Anti-Imperialista, Jornada dos Sem Terrinha, Jornada Nacional da Juventude Sem Terra, Plano Nacional Plantar Árvores e Produzir Alimentos Saudáveis, Dia Internacional de Luta ao Combate à Violência Contra as Mulheres, Novembro Negro e Jornada de Lutas Terra, Teto e Trabalho: Reforma Agrária Popular.

A produção da Reforma Agrária chegou às famílias em situação de vulnerabilidade de bairros periféricos, hospitais públicos e Santas Casas, trabalhadores e trabalhadoras da saúde, ocupações urbanas, periferias de pequenas cidades, cozinhas coletivas, terra indígena, sindicato de trabalhadoras domésticas, sindicato de trabalhadores que coletam materiais recicláveis, lares de idosos, associações de moradores, de catadores, abrigos, e pessoas em situação de rua.

Moro: a parcialidade regiamente premiada

Da Coluna de Lauro Jardim no Globo.

Semanas atrás, Sergio Moro foi a estrela de uma palestra patrocinada pela XP Investimentos para quinze clientes exclusivos. A propósito, Moro vai mesmo morar nos EUA com a família em 2021.

PS: Sérgio Moro colocou o ex-presidente Lula atrás das grades, tirando-o da eleição que ele poderia vencer Bolsonaro em 2018. Depois, tornou-se ministro da Justiça do novo governo até se desentender com o novo presidente. Foi contratado pela consultoria Alvarez e Marsal, a mesma que está cuidando da Odebrecht depois do estrago provocado pela Operação Lava Jato – que ele ajudou em sua carreira como juiz, devidamente revelado pelas mensagens da Vaza Jato. Agora ele vai morar nos Estados Unidos. Um belo prêmio pelos serviços prestados para prejudicar o Brasil, não?

(Do DCM)

Vitórias começam fora de campo

POR GERSON NOGUEIRA

Salatiel

É verdade que os tempos são outros. Há todo um protocolo nas regras de convivência e comportamento no futebol. A relação entre atleta e clube se profissionalizou tanto, envolve tantos interesses de parte a parte, que atitudes de indisciplina não costumam mais ser toleradas. Existe, porém, uma linha de bom senso que deve nortear a cobrança e o rigor para casos que atentam contra normas internas.

Refiro-me ao episódio que envolveu Felipe Gedoz, Djalma, João Diogo e Wellison, profissionais do Remo que se envolveram num evento beneficente às vésperas do Natal. A boa intenção da “pelada de fim de ano” disputada pelo quarteto colide com os cuidados que atletas devem ter para evitar lesões em meio a uma competição importante.

Imagens na internet revelaram a participação dos jogadores no evento. É claro que a diretoria precisava ser rápida e firme para coibir a indisciplina. O problema está apenas no peso aplicado às punições. Com exceção de Gedoz, todos foram afastados sumariamente.

Fica a dúvida se a situação não exigiria apuração mais criteriosa dos acontecimentos. Caberia ouvir todos os jogadores envolvidos e o posicionamento de cada um. Além disso, a exclusão de Gedoz da lista de dispensas, sofrendo somente multa (30% dos salários), representa tratamento diferenciado para um “delito” único.

Ao mesmo tempo, fica a expectativa quanto à reação do elenco em relação ao castigo aplicado. Como todo agrupamento humano, jogadores de futebol costumam ser corporativistas e sensíveis a eventuais injustiças.

Nas palavras do técnico Paulo Bonamigo, o grupo teria assimilado o desfecho da história – “principalmente os mais profissionais” – acatando a decisão da diretoria. Ficou no ar a dúvida quanto à reação dos “menos profissionais”. Teriam absorvido bem a punição?

O Remo vai a campo hoje para um confronto decisivo com o Ypiranga. Uma vitória deixará o time a três pontos do acesso, faltando três jogos por realizar. Nunca a subida à Série B esteve tão ao alcance da mão, a partir de uma campanha notável, que inclui dois triunfos sobre o maior rival.

A presença de jogadores experimentados, na faixa dos 30 anos ou até acima, como Marlon, Lucas Siqueira, Eduardo Ramos, Vinícius, Rafael Jansen e Mimica, responde pela força mental que tem sido item de destaque nos momentos mais difíceis e desafiadores.

Todo esse arcabouço emocional não pode vir a ser sabotado por uma decisão administrativa. Afinal, mais importante do que manter a casa em ordem é garantir a vitória sobre o representante gaúcho, que vem a Belém em modo desespero, após duas derrotas.

Ao Remo cabe ter tranquilidade e a consciência de que as grandes vitórias começam a ser construídas também fora do campo.

Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda o programa, na RBATV, logo depois da transmissão da NBA. Participação de Valmir Rodrigues e deste escriba de Baião. A direção é de Toninho Costa.

De como o Bahia transformou limão em limonada

“Posso dizer com um bom nível de orgulho: quis o destino que um dos clubes mais antirracistas do Brasil tivesse um atleta acusado de racismo. Primeiro, ressalto a gravidade da acusação. Nesse nível de acusação, a voz da vítima tem uma relevância muito grande. Não há motivo para inventar uma história dessa. A voz da vítima é muito significativa em um fato como esse. Mas é preciso garantir algo muito importante, que é o direito ao contraditório. É fundamental. É isso que temos feito”.

As palavras são de Guilherme Bellintani, presidente do Bahia, a respeito do episódio de injúria racial que pôs na berlinda o clube mais engajado na construção de um projeto identitário e o que mais investe na conscientização de atletas e funcionários contra a intolerância e o ódio.

Bellintani é um dirigente moderno, do tipo que dá a cara a tapa, participa de debates, busca o contraditório. O episódio envolvendo o colombiano Índio Ramirez e o rubro-negro Gerson expôs, com extrema clareza, sua visão política afiada e o preparo para lidar com um tema tão espinhoso.

Conversou demoradamente com Ramirez, que negou ter proferido qualquer ofensa de cunho racial. Por iniciativa própria, procurou Gerson para saber detalhes do ocorrido, ouvindo a confirmação da denúncia. Independentemente do desdobramento e da apuração dos fatos, solidarizou-se com o jogador em nome do Bahia.

Importante: ao contrário de Mano Menezes, que debochou de Gerson em meio à discussão no gramado, Bellintani em nenhum momento colocou em dúvida as palavras da vítima. Sereno, direto e franco, informou que Ramirez seria inicialmente afastado do elenco, até que a apuração dos fatos se completasse. Solicitou todas as imagens da cena entre os jogadores e mergulhou num processo interno de avaliação.

Na quinta-feira, 24, quando o caso já havia ganhado novos desdobramentos, Ramirez foi reincorporado ao elenco, sem que o clube fizesse qualquer menção de desmentir Gerson. Considerou apenas que não havia como comprovar a injúria.

Em entrevista ao Globo, revelou que não se restringiu a escutar jogadores e comissão técnica. “Tenho conversado com pessoas do movimento negro, de Salvador, que já trabalham com a gente no Núcleo de Ações Afirmativas. As próprias opiniões e leitura sobre o tema são diferentes. A gente tenta construir um processo, e depois uma decisão”.

Coisa de quem entende de verdade a problemática do racismo como algo estrutural e que vai muito além de episódios isolados. Guilherme Bellintani, anotem este nome.

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 27)