Na onda da contratação de Honda, o Botafogo alcança a marca de 30 mil sócios torcedores após maciça campanha nas redes sociais. A meta agora é atingir 40 mil sócios.
Mês: fevereiro 2020
Pará entre os 10 Estados que mais investem
Matéria especial de O Globo, edição deste domingo, aponta o Pará entre os 10 Estados que mais investem, com avanço rápido e contínuo, abrangendo a mais importantes áreas de atividade. O Estado, administrado pelo governador Helder Barbalho, é o sexto colocado, atrás de Ceará, Alagoas, Mato Grosso do Sul, Bahia e Maranhão. Fica à frente de Piauí, Espírto Santo, Amazonas e Pará. O Nordeste tem cinco Estados no ranking e Norte, dois.
Como chegamos a isso?
POR GERSON NOGUEIRA

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Há tempos, desde que comecei a procurar entender a engrenagem do futebol, não apenas o que se passava ali dentro do tabuleiro, vivo a me perguntar por que o Pará de tantos bons jogadores revelados – Rony (foto), Pikachu, Geovani, Artur, Charles, Manuel Maria, Rosemiro, Bira, Assis, Oliveira – não consegue sair da mesmice e subverter essa sina de Estado de quinta categoria no futebol do país?
O que conduziu a esse destino que, há 50 anos, não parecia ser o nosso? Pelo menos, não tem sido nada do que se projetava naquela época, final dos anos 60 e alvorecer a década de 1970, com times montados na base da coragem – e da cara-dura, como aquele Remo que importou o falastrão João “71” Avelino e um punhado de bons jogadores.
Um pouco antes aportaram por aqui Castilho, Amoroso, Alemão, Bené, Rubilota. E o que dizer dos técnicos escolhidos? Danilo Alvim, Paulo Amaral, Gentil Cardoso, Paulo Emílio, Juan Alvarez, Antoninho. Gente da mais fina estirpe. O fato de preparadores tão capazes optarem por vir treinar times do Pará é sintomático do prestígio que tínhamos.
Depois, já com um pé nos anos 1980, o PSC estruturou grandes equipes, mesclando jogadores formados em casa – Lupercínio, Evandro, Charles, Careca, Aldo – com reforços que funcionavam e agitavam, como Chico Espina, Dadá Maravilha, Fio Maravilha, Ivair.
Nesse período, o Remo tinha Alcino, Roberto Diabo Louro, Mesquita, Dico, Cuca. Depois viriam Aderson, Mego, Rui Azevedo, Edson Cimento. Os técnicos continuavam de primeiríssimo nível – Joubert Meira, Paulinho de Almeida, César Moraes, Carlinhos, Gerson dos Santos.
Depois, já no começo da década de 1990, mais investimentos certeiros, com o Remo indo buscar Biro-Biro, Alberto, Agnaldo, João Santos e Romeu, todos ainda em grande forma, capazes de dar retorno e fazer a alegria do torcedor.
Hoje, o trabalho de formação de jogadores quase não existe, embora seja menos danoso aos clubes que a importação em massa, que sempre resulta em prejuízo de médio e longo curso. Os jogadores não emplacam e depois ainda cobram caro nos tribunais pelo nada que fizeram em campo.
Nesse exercício de reminiscências cabe destacar os títulos da Segunda Divisão nacional do PSC em 1991 e 2001, e os da Tuna na Taça de Prata 1985 e na Série C 1992.
O futebol do Pará ainda festejaria o êxito de 2002/2003, com timaços do PSC que garantiram o título mais importante do futebol nortista (Copa dos Campeões) e brilhante participação na Libertadores, tendo Givanildo Oliveira e Darío Pereyra como técnicos.
Dois anos depois, o Remo ganharia o título brasileiro da Série C 2005, com Roberval Davino no comando. Alguns bons técnicos ainda estiveram entre nós – Valdemar Carabina, Carlos Alberto Torres, Pepe, Paulo Bonamigo -, mas nunca mais tivemos motivos para comemorações.
Pelo contrário, sovas humilhantes se tornaram corriqueiras até contra times de baixa expressão (Paulista de Jundiaí, Brusque). Fracassos seguidos nas tentativas de permanecer e/ou voltar à Série B engrossam o rol de insucessos. Série A, como se vê, nem pensar.
O futebol passou por transformações importantes, principalmente quanto à profissionalização. O Pará não encontrou abrigo e foi ficando pelo caminho, sem mais contar com mecenas e colaboradores endinheirados que faziam toda a diferença na era romântica.
A menção a esses tempos de glória, meio imprecisa quanto a datas e períodos históricos, exige estudo mais apurado e focado nas causas do que perdemos ao longo dos anos e, principalmente, do que deixamos de ganhar. É sempre possível aprender com erros e acertos do passado.
Bola na Torre
Guilherme Guerreiro comanda a folia, a partir das 22h, na RBATV, com participações de Saulo Zaire e deste escriba baionense.
Duas cartas que exprimem a essência do futebol

Quando um filho lhe perguntar, aflito, o que fazer para estancar as derrotas do time de coração, tire da cartola a resposta carinhosa de Jurgen Klopp a um jovem adepto do Mancheter United, que pediu em carta que ele faça o rival Liverpool perder mais jogos.
A angústia é justificada. Os Reds lideram há 26 rodadas o Campeonato Inglês, de forma invicta e impecável.
“O Liverpool está ganhando muitos jogos. (…) Como torcedor do United, isso é muito triste. Na próxima vez que o Liverpool jogar, por favor, faça com que ele perca. Você apenas precisa deixar o outro time marcar. Espero tê-lo convencido a não vencer a Premier League ou qualquer outro jogo de novo”. Assim escreveu Daragh, 10 anos, em carta enviada no dia 24 de janeiro ao técnico do Liverpool. Os termos da mensagem mexeram com Klopp, que deu resposta ainda mais cativante. Vale a pena ler:
“Querido Daragh. Infelizmente, nesta ocasião, não posso concordar com o seu pedido, pelo menos não de propósito. Por mais que você queira que o Liverpool perca, é meu trabalho fazer tudo que for possível para ajudar o Liverpool a vencer porque há milhões de pessoas ao redor do mundo que querem que isso aconteça, então eu realmente não quero decepcioná-las.
Felizmente para você, perdemos jogos no passado e perderemos jogos no futuro porque assim é o futebol. O problema é que, quando se tem 10 anos, você pensa que as coisas sempre serão como elas são agora, mas se tem algo que posso lhe dizer, aos 52 anos, é que isso definitivamente não é verdade. Lendo sua carta, no entanto, posso dizer com segurança que uma coisa que não mudará é sua paixão por futebol e pelo seu clube. O Manchester United tem sorte de tê-lo.
Eu espero que, se tivermos sorte suficiente para ganhar mais alguns jogos e talvez ganhar mais alguns troféus, você não fique muito decepcionado porque, embora nossos clubes sejam grandes rivais, também compartilhamos muito respeito um pelo outro. Isso, para mim, é o que o futebol significa. Cuide-se e boa sorte. Jurgen Klopp”.
Um texto impecável. Coisa de craque – e cidadão.
(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 23)
Ofensiva de Bolsonaro contra o Inmetro visa facilitar a falsificação de combustíveis
Por Luis Nassif
Não interprete a ofensiva de Jair Bolsnaro contra o Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia) como apenas uma demonstração a mais de ignorância sólida. Há um objetivo disfarçado em todos esses movimentos, que é abrir espaço para a ampliação do crime organizado.

Foi assim nos episódios em que tentou tirar fiscais da Receita do porto de Itaguai, depois de recordes de apreensão de contrabando, pois é a porta de entrada no país não apenas de contrabando comum, mas de armas.
Foi assim também no decreto que facilitou a vida das vaquejadas, campo preferencial de lavagem de dinheiro das milícias.
E foi assim com o Inmetro.
Não foi apenas uma demonstração a mais de imbecilidade a afirmação de Bolsonaro que ‘implodiu’ o Inmetro e mandou ‘todo mundo embora’.
Só um completo imbecil para não entender a importância de um órgão de metrologia nas economias modernas. Mas um imbecil com objetivo, que não foi o de aliviar a vida dos caminhoneiros, ante as novas exigências do órgão.
O busílis da questão está no seguinte trecho da reportagem de O Globo:
Bolsonaro ainda criticou um plano do órgão para determinar a instalação de chips em todas as bombas de combustíveis no país para coibir fraudes.
Esse é o ponto.
Há um conjunto de atividades clandestinas utilizadas por organizações criminosas ou pelo chamado lúmpem do empresariado. São os que exploram nichos como bingo, manicômios, clínicas psiquiátricas, escolas para deficientes e, no caso das milícias, transporte público, construções irregulares em áreas de preservação, venda de gatos e de gás, venda de proteção privada, adulteração de combustíveis e de cigarros.
Aqui, um vídeo de agosto de 2019 mostrando como avançava o fortalecimento do crime organizado através da desmontagem dos instrumentos de regulação da economia
A falsificação de combustíveis é mais forte de todas as atividades criminosas.
Vá para a home de O Globo. No mesmo espaço em que Bolsonaro fala sobre o Inmetro, há o banner principal, do patrocinador oficial do carnaval carioca, a Refit, antiga Refinaria de Manguinhos, envolvida até o pescoço com Eduardo Cunha. Trata-se de uma refinaria sem nenhuma indicação que continue refinando petróleo. Há anos é suspeita de ser o polo central de venda de sonegação de combustíveis, e atuando impávida, graças a uma blindagem ampla e irrestrita inclusive do Judiciário.
Meses atrás um desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro me condenou a R$ 20 mil de multas por “difamar” Eduardo Cunha. A matéria em questão falava justamente do envolvimento dele com a refinaria.
Se há um objetivo claro nos arroubos de Bolsonaro, qual o motivo de taxar de idiota sua atitude de tentar acabar com o Inmetro? É pela supina ignorância de não entender a relevância do Inmetro para a economia brasileira.
O Inmetro é essencial para todas as exportações brasileiras, de industrializados ao agronegócio. Cabe a ele fiscalizar todos os laboratórios de certificação. E a certificação é peça essencial nas exportações. É através da certificação que o exportador sabe quais as especificações técnicas e legais de cada país para onde pretende exportar. É o certificado do Inmetro que assegurará sua entrada em economias avançadas, sem risco de barreiras técnicas no caminho. É a certificação que permite o fortalecimento das pequenas e médias empresas, para produzir componentes adequados para empresas maiores.
No caso do agronegócio, é a certificação de origem que dá ao comprador a garantia de produtos isento de doenças ou de crimes ambientais, ou mesmo produtos de marca da região.
É o Inmetro que define padrões de instalações elétricas, de carros, de instrumentos de saúde.
Por tudo isso, Bolsonaro, o imbecil, terá que recuar mais uma vez de sua imbecilidade. Mas deixa a marca da ação pertinaz em favor da economia do crime.
Pergunto: até quando permitirão esse desmonte da economia e todos esses passos para fortalecimento do crime organizado?
A coisa está ficando muito séria.
Telas & pincéis
Jan van Os (1744/1808), pintor holandês
Mestre Janio alerta: país se aproxima de situação-limite
“Nos últimos dias houve outra mudança de tipificação e de grau nas tensões disseminadas por Jair Bolsonaro e sua tropa de choque. As palavras impeachment, queda, saída, providências das instituições, e mais variantes há mais de ano caídas em conformado silêncio, voltaram com força a tema de conversas e mesmo da imprensa”, escreve Janio de Freitas.
“Aproxima-se uma situação-limite. A inclusão de generais em torno de Bolsonaro tem a ver com a ditadura, claro, mas também com um motivo prático e imediato: formar uma guarda pretoriana, a partir da ideia de que nenhuma instituição ou movimento público confrontaria essa representação do Exército com a tentativa de um impeachment, que também a alcançaria”.
“Esses generais, como o capitão que os comanda, são todos formados pela ditadura”.
Rock na madrugada – Pearl Jam, Present Tense
Festival Facada Fest reage à tentativa de intimidação e censura
Em manifesto divulgado ontem, os músicos e produtores do Festival Facada Fest reagiram com indignação à intimação da Polícia Federal para prestarem esclarecimentos acerca de suposto crime contra a honra do presidente da República. Cabe lembrar que o festival de 2019 nem chegou a se realizar em função da repressão policial, que alegou irregularidades no pedido de licença para realização do evento, em Belém.
Abaixo, na íntegra, a nota emitida pelos responsáveis pelo festival:
NÃO NOS CALARÃO
O Facada Fest surgiu da união de bandas autorais de rock de Belém e
região metropolitana, além de alguns coletivos de produtores e
produtoras culturais independentes. O nome do evento e toda a
programação trata de questões nacionais a partir da sátira e do humor,
linguagens presentes na música, literatura e arte como um todo desde
sempre. O nosso direito é garantido pela Constituição de 1988, a
Constituição Cidadã, que assegura a todo brasileiro e brasileira o
direito à liberdade de expressão. Seja através do discurso político,
do debate público ou da arte em suas mais diversas expressões.
Por isso causa-nos surpresa e indignação saber que organização do
evento foi intimada a prestar esclarecimentos à Polícia Federal por
suposto crime contra a honra do presidente da república Jair Bolsonaro
(o qual vive arrotando ofensas a jornalistas, à classe artística, e a
opositores), em despacho assinado pelo ministro da Justiça Sergio
Moro; pelo Procurador Geral da República Augusto Aras, pela AGU e pelo
Ministério Público Federal do Pará, tudo a partir de uma representação
de um grupo de extrema direita que atua em nosso País.

Historicamente, a sátira a políticos, independentemente de sua posição
ideológica, é uma tradição na vida social brasileira. Das charges de
“O Malho” e dos textos do Barão de Itararé, ainda no início do século
XX, às caricaturas dos irmãos Caruso nos principais jornais do país –
passando por artistas como Juca Chaves, Ary Toledo, Angeli, Jô Soares,
Chico Anysio e Laerte, O jornal “O PASQUIM, e o jornal “Resistência”
aqui no Estado do Pará, retratam figuras públicas de maneira
humorística ou iconoclasta. Esse cultura se consolidou não apenas como
forma de protesto, mas também como um dos mais saudáveis exercícios de
democracia: a liberdade de criação artística e de opinião.
Criminalizar um cartaz e um festival de música, levando os seus
organizadores a prestar depoimento na Polícia Federal, não é só uma
postura antidemocrática, mas também um grave ataque à liberdade
artística. Um ato de censura. Uma retaliação intransigente que busca
não só calar as vozes contrárias ao atual governo, mas também
intimidar futuras e possíveis manifestações artísticas que ousem se
levantar como vozes discordantes no cenário político e social
brasileiros.
Nos perguntamos qual o real objetivo por trás deste evidente ato de
intimidação contra um festival pacífico, que não registrou nenhuma
ocorrência policial e que repercutiu positivamente em toda a capital
paraense e no Brasil como um dos eventos culturais mais importantes do
ano de 2019. E cujo objetivo principal da arte do seu cartaz era
retratar, de maneira satírica, na melhor tradição da charge
brasileira, o triunfo da educação sobre o obscurantismo, o combate à
idéias fascistas, homofóbicas e racistas. Ora, em um país de riqueza
cultural imensa como o Brasil, controlar a produção artística através
de censura, judicialização e intimidação, é uma clara ameaça à nossa
democracia. E também à uma rica tradição de sátira e humor que remonta
a mais de cem anos de história brasileira. Uma legado que não pode,
jamais, sucumbir às aspirações antidemocráticas de quem se arroga a
censurar quem transforma em arte seus questionamentos e insatisfações
em relação aos rumos da política em nosso país.
Felizmente já existe um conjunto de advogados e advogadas, ligados
a cultura e à defesa dos direitos humanos, que voluntariamente estão
assumindo a defesa da organização do Facada Fest. Diversas entidades,
movimentos sociais, culturais, do rock paraense e nacional estão se
mobilizando em defesa da liberdade e expressão e contra tais
violações.
Não nos calarão. O direito ao protesto democrático e ao Rock resistirão.
Belém-PA 22 de fevereiro de 2020
PCdoB denuncia assassinato de líder sindical de Ourilândia
“Neste sábado (22), o PCdoB Pará recebeu a triste notícia do assassinato cruel e covarde do camarada Paulino, grande liderança rural de Ourilândia do Norte, Sul do Pará. Trabalhador Rural, líder sindical e ex-vereador de Ourilândia pelo Partido dos Trabalhadores, Raimundo Paulino da Silva Filho, o Paulino, atualmente somava a sua experiência militante aos quadros do Partido Comunista do Brasil.
Deixamos a nossa consternação com mais este crime bárbaro acontecido no campo e exigimos que as autoridades competentes apurem com rigor e descubram quem foram os executores e seus possíveis mandantes para que possam ser punidos com a aplicação justa da lei.
Nos solidarizamos com familiares, amigos (as) e apoiadores políticos de Paulino neste momento triste e difícil para todos nós.
Partido Comunista do Brasil – Pará”
O sambinha do pó
Caos no Ceará é sintoma da bolsonarização das polícias

Por Murilo Cleto (*)
O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, ainda não condenaram a paralisação de policiais por reajuste salarial no Ceará. Como se sabe, o movimento já é nascido inconstitucional, dado o caráter militar da corporação.
Nas redes sociais, o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), filho do presidente, defendeu o motim e chamou de “legítima defesa” o disparo que atingiu Cid Gomes, senador pedetista que, no auge da crise, tentou furar o bloqueio policial com uma retroescavadeira e foi ali mesmo alvejado por dois tiros.
Além de Flávio, os outros dois filhos do presidente, juntamente ao ministro Onyx Lorenzoni – este último em live nesta quinta (20) ao lado de Bolsonaro – , também justificaram os disparos.
O que o episódio escancara, na verdade, é um grave processo de bolsonarização das polícias no Brasil. Essa afirmação pode soar surpreendente para alguns, mas é um erro considerar que a eleição de Bolsonaro, em 2018, tenha significado simplesmente a ascensão dos militares ao poder.
As PMs brasileiras evidentemente têm muitos problemas, mas, especialmente num Estado Democrático de Direito, estão submetidas a órgãos de controle social que podem, ainda que minimamente, fiscalizar suas ações e coibir abusos.
Em 1997, o horripilante caso da favela Naval, em Diadema, na Grande São Paulo, mostrou que, com liberdade de imprensa, instituições independentes e órgãos do Poder Executivo sob o escrutínio da opinião pública, é possível tirar das ruas policiais que estão a serviço de outra coisa que não a garantia da lei.
Trata-se de uma excepcionalidade, claro – afinal é difícil que se registrem em áudio e vídeo todas as abordagens –, mas é possível. E é possível também melhorar. Em última instância, os comandantes das polícias estão subordinados a chefes de Estado, que, por sua vez, são chancelados pelo voto.
Mas o bolsonarismo é outra coisa. Jair Bolsonaro começou a carreira política justamente depois de se insurgir contra o exército. Seus heróis não são exatamente os grandes ditadores da direita, mas torturadores – aqueles que agiam nas sombras para adulá-los.
Numa elaboração muito precisa para pensar a estrutura de funcionamento do bolsonarismo, o jornalista Bruno Torturra recorreu sabiamente ao termo “capanguismo” para caracterizar esse organismo que está sempre à procura de um líder para seguir; indisposto a cumprir normas básicas sociais; e desafeito às mediações promovidas pela política institucional. É isso, diz Torturra, que o distingue de um fascista convencional. Nesse sentido, a relação umbilical da família Bolsonaro com as milícias é emblemática.
As milícias são basicamente uma fase dos grupos de extermínio que surgiram no fim dos anos 1960 no Rio, ainda na esteira do golpe militar, com o apoio da ditadura e o financiamento de empresários locais, oferecendo os serviços de matadores de aluguel. Hoje, elas protegem negócios, empresários e propriedades, mas também extorquem moradores, grilam imóveis e traficam drogas. Amigo, empregador e homenageador de milicianos, Bolsonaro é a antítese do que significam – ou deveriam significar – as corporações militares.
O bolsonarismo não sabe o que é uma ouvidoria. Aliás, até sabe, mas rejeita. E rejeita porque quer ver na atividade policial um espelho do que tanto admira no jagunço. Até agora, a principal proposta de Bolsonaro para a segurança pública é dar carta branca para a polícia matar. Não tem outra, pode procurar.
Como mostra no Estadão o jornalista Marcelo Godoy, essa ideologia tem invadido os quartéis. Godoy usa como baliza o caso real de um manifestante que protestava contra a presença do presidente Bolsonaro num evento com um exemplar da Constituição na mão e, ameaçado pelos fãs do político que estavam no local, acabou detido.
Esses PMs, diz o jornalista baseado no depoimento de um oficial prestes a se aposentar, “veem em Bolsonaro o vingador de décadas de ‘infâmias’ que lhes foram lançadas por estudiosos de universidades, pela imprensa, por liberais e pela esquerda”. Distantes do que ensina a maioria dos manuais de formação, se inspiram em exemplos como o do sargento Fahur e do coronel Tadeu para ofender adversários, pessoalmente e nas redes sociais, e defender abertamente o extermínio de grupos marginalizados.
Números recentes têm revelado que esse processo está longe de ser apenas retórica para angariar votos e seguidores. A letalidade das polícias aumentou e em algumas regiões periféricas já é maior do que a marginal. Nem seria preciso dizer que essa lógica, algo próximo de um western trágico e sem nenhuma graça, também multiplica a produção de cadáveres fardados. Fora os demagogos de terno, ninguém ganha.
Nessa segunda (20) o repórter Rafael Soares revelou ao Extra que, antes de matar um PM na semana passada, um traficante foi libertado depois de sofrer extorsão de policiais do Bope – que não o levaram para delegacia – numa praia deserta na região dos Lagos, no Arraial do Cabo….
Do Ceará, cenas aterrorizantes chegam ao país de policiais encapuzados dando toque de recolher e exibindo armas em tom ameaçador. Elas lembram – e muito – o Rio de Janeiro durante algumas de suas mais graves crises. E não é muito simples distinguir nelas um oficial de um traficante qualquer. Segundo o jornal O Povo, um dos amotinados colocou fogo no carro de uma mulher porque ela criticou o movimento na internet.
Surpreendente mesmo seria se nessa crise o bolsonarismo se colocasse em defesa da institucionalidade. Bolsonaro não condena o motim porque esse é justamente o projeto. Em todas as oportunidades que teve, ele endossou movimentos similares, mesmo sabendo – e talvez sobretudo por saber – da sua flagrante ilegalidade.
Foi assim no Espírito Santo em 2017; tem sido assim agora; e vai ser assim até alguém perceber que na próxima pode ser tarde demais. Se quiser sobreviver enquanto instituição, não parece haver alternativa: ou as polícias se desbolsonarizam, ou simplesmente perdem a razão de ser.
- Murilo Cleto é historiador, especialista em História Cultural, mestre em Ciências Humanas: Cultura e Sociedade e pesquisador das novas direitas no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná.
Governador aceita convite do PSC para um rachão
Ao responder, no Twitter, comentário de um usuário citando o repasse de verbas destinadas aos clubes paraenses, que neste ano chegou a R$ 4,6 milhões, o governador Helder Barbalho ganhou elogios do Paissandu. Torcedor do rival, Helder não se recusou a aceitar um convite inusitado.
O internauta Thiago Ferrador postou no Twitter o seguinte comentário:
“Estou a mais de 20 anos em Belém, acho que esse é o pior momento do futebol paraense. Nosso governador deveria ajudar aos clubes, futebol é um grande negócio”.
A resposta do governador não tardou. “Estamos repassando aos clubes paraenses R$ 4,6 milhões só em 2020, o maior valor já ocorrido na história do Estado. Mais do que isto só se eu for jogar”, escreveu Helder.
O perfil oficial do PSC entrou na conversa comentando: “Que o menino Helder tá voando no governo, isso todo mundo sabe! São investimentos em todas as áreas, como no esporte, com o maior repasse da história do Parazão. Somos gratos! Seu apoio é fundamental! Mas e aí, @helderbarbalho? Que papo é esse de entrar em campo, gov?”.
Sem perder tempo, o PSC aproveitou a oportunidade para lançar um desafio para Helder: convidá-lo para um rachão. Bem humorado, o governador respondeu: “Combinado”.