Como chegamos a isso?

POR GERSON NOGUEIRA

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Há tempos, desde que comecei a procurar entender a engrenagem do futebol, não apenas o que se passava ali dentro do tabuleiro, vivo a me perguntar por que o Pará de tantos bons jogadores revelados – Rony (foto), Pikachu, Geovani, Artur, Charles, Manuel Maria, Rosemiro, Bira, Assis, Oliveira – não consegue sair da mesmice e subverter essa sina de Estado de quinta categoria no futebol do país?

O que conduziu a esse destino que, há 50 anos, não parecia ser o nosso? Pelo menos, não tem sido nada do que se projetava naquela época, final dos anos 60 e alvorecer a década de 1970, com times montados na base da coragem – e da cara-dura, como aquele Remo que importou o falastrão João “71” Avelino e um punhado de bons jogadores.

Um pouco antes aportaram por aqui Castilho, Amoroso, Alemão, Bené, Rubilota. E o que dizer dos técnicos escolhidos? Danilo Alvim, Paulo Amaral, Gentil Cardoso, Paulo Emílio, Juan Alvarez, Antoninho. Gente da mais fina estirpe. O fato de preparadores tão capazes optarem por vir treinar times do Pará é sintomático do prestígio que tínhamos.

Depois, já com um pé nos anos 1980, o PSC estruturou grandes equipes, mesclando jogadores formados em casa – Lupercínio, Evandro, Charles, Careca, Aldo – com reforços que funcionavam e agitavam, como Chico Espina, Dadá Maravilha, Fio Maravilha, Ivair.

Nesse período, o Remo tinha Alcino, Roberto Diabo Louro, Mesquita, Dico, Cuca. Depois viriam Aderson, Mego, Rui Azevedo, Edson Cimento. Os técnicos continuavam de primeiríssimo nível – Joubert Meira, Paulinho de Almeida, César Moraes, Carlinhos, Gerson dos Santos.

Depois, já no começo da década de 1990, mais investimentos certeiros, com o Remo indo buscar Biro-Biro, Alberto, Agnaldo, João Santos e Romeu, todos ainda em grande forma, capazes de dar retorno e fazer a alegria do torcedor.

Hoje, o trabalho de formação de jogadores quase não existe, embora seja menos danoso aos clubes que a importação em massa, que sempre resulta em prejuízo de médio e longo curso. Os jogadores não emplacam e depois ainda cobram caro nos tribunais pelo nada que fizeram em campo.

Nesse exercício de reminiscências cabe destacar os títulos da Segunda Divisão nacional do PSC em 1991 e 2001, e os da Tuna na Taça de Prata 1985 e na Série C 1992.

O futebol do Pará ainda festejaria o êxito de 2002/2003, com timaços do PSC que garantiram o título mais importante do futebol nortista (Copa dos Campeões) e brilhante participação na Libertadores, tendo Givanildo Oliveira e Darío Pereyra como técnicos.

Dois anos depois, o Remo ganharia o título brasileiro da Série C 2005, com Roberval Davino no comando. Alguns bons técnicos ainda estiveram entre nós – Valdemar Carabina, Carlos Alberto Torres, Pepe, Paulo Bonamigo -, mas nunca mais tivemos motivos para comemorações.

Pelo contrário, sovas humilhantes se tornaram corriqueiras até contra times de baixa expressão (Paulista de Jundiaí, Brusque). Fracassos seguidos nas tentativas de permanecer e/ou voltar à Série B engrossam o rol de insucessos. Série A, como se vê, nem pensar.

O futebol passou por transformações importantes, principalmente quanto à profissionalização. O Pará não encontrou abrigo e foi ficando pelo caminho, sem mais contar com mecenas e colaboradores endinheirados que faziam toda a diferença na era romântica.

A menção a esses tempos de glória, meio imprecisa quanto a datas e períodos históricos, exige estudo mais apurado e focado nas causas do que perdemos ao longo dos anos e, principalmente, do que deixamos de ganhar. É sempre possível aprender com erros e acertos do passado.

Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda a folia, a partir das 22h, na RBATV, com participações de Saulo Zaire e deste escriba baionense.

Duas cartas que exprimem a essência do futebol

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Quando um filho lhe perguntar, aflito, o que fazer para estancar as derrotas do time de coração, tire da cartola a resposta carinhosa de Jurgen Klopp a um jovem adepto do Mancheter United, que pediu em carta que ele faça o rival Liverpool perder mais jogos.

A angústia é justificada. Os Reds lideram há 26 rodadas o Campeonato Inglês, de forma invicta e impecável.

“O Liverpool está ganhando muitos jogos. (…) Como torcedor do United, isso é muito triste. Na próxima vez que o Liverpool jogar, por favor, faça com que ele perca. Você apenas precisa deixar o outro time marcar. Espero tê-lo convencido a não vencer a Premier League ou qualquer outro jogo de novo”. Assim escreveu Daragh, 10 anos, em carta enviada no dia 24 de janeiro ao técnico do Liverpool. Os termos da mensagem mexeram com Klopp, que deu resposta ainda mais cativante. Vale a pena ler:

“Querido Daragh. Infelizmente, nesta ocasião, não posso concordar com o seu pedido, pelo menos não de propósito. Por mais que você queira que o Liverpool perca, é meu trabalho fazer tudo que for possível para ajudar o Liverpool a vencer porque há milhões de pessoas ao redor do mundo que querem que isso aconteça, então eu realmente não quero decepcioná-las.

Felizmente para você, perdemos jogos no passado e perderemos jogos no futuro porque assim é o futebol. O problema é que, quando se tem 10 anos, você pensa que as coisas sempre serão como elas são agora, mas se tem algo que posso lhe dizer, aos 52 anos, é que isso definitivamente não é verdade. Lendo sua carta, no entanto, posso dizer com segurança que uma coisa que não mudará é sua paixão por futebol e pelo seu clube. O Manchester United tem sorte de tê-lo.

Eu espero que, se tivermos sorte suficiente para ganhar mais alguns jogos e talvez ganhar mais alguns troféus, você não fique muito decepcionado porque, embora nossos clubes sejam grandes rivais, também compartilhamos muito respeito um pelo outro. Isso, para mim, é o que o futebol significa. Cuide-se e boa sorte. Jurgen Klopp”.

Um texto impecável. Coisa de craque – e cidadão.

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 23)

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