Rock na madrugada – Alabama Shakes, Always Alright

https://www.youtube.com/watch?v=aame895RBG0

Morre Otavinho Frias, diretor de redação da Folha de SP

O diretor de redação do jornal Folha de S. Paulo, Otavio Frias Filho, morreu nesta terça-feira no Hospital Sírio-Libanês em São Paulo, vítima de um câncer originado no pâncreas, aos 61 anos. Frias Filho havia sido diagnosticado há um ano e meio e lutava contra a doença desde 2017.

friasfilho

Formado em direito pela USP, o jornalista assumiu o comando do jornal em 1984, cargo que jamais deixaria de ocupar. Inspirado pelos jornais norte-americanos, o filho do então dono do grupo de mídia, Otavio Frias de Oliveira (1912-2007), implementou mudanças editoriais e gráficas para reformular a Folha: texto direto, a conduta dos jornalistas e a criação de uma seção para admitir falhas, o “Erramos”.

Em anos recentes, o jornal vinha sendo criticado por se alinhar como oposição contra os governos do PT. Outra controvérsia aconteceu em um editorial de 2009, no qual a Folha classificou de “ditabranda” o regime militar brasileiro, em comparação às ditaduras vizinhas. O texto provocou inúmeros protestos, tido com uma relativização dos crimes e violações de direitos humanos do período.

Ainda em relação aos governos do PT, outro episódio envolve a presidenta Dilma Rousseff. Em abril de 2009, o jornal publicou uma suposta ficha criminal de Dilma, com acusações de diversos crimes, entre eles terrorismo e planejamento de assassinato. Na edição de 25 de abril daquele ano, o jornal fez uma errata, admitindo que a autenticidade do documento não era comprovada.

Otávio Frias Filho também disparou uma de suas provocações contra o presidente Lula: em almoço oferecido ao então presidenciável pelo PT em 2002, Otavinho perguntou ao ex-metalúrgico “como ele pretendia ser presidente da República sem saber falar inglês”. Ricardo Kotscho, então assessor de imprensa de Lula, relembra que o petista engoliu em seco e apesar da incredulidade, “deu uma resposta até tranquila diante daquela situação constrangedora”.

Kotscho recorda que o tom das perguntas seguiu hostil em relação ao convidado. Alguém perguntou a Lula como seria se aliar a Maluf – no entanto, não havia aliança entre o PP e o PT para o governo do estado de São Paulo. Foi a gota d´água. Lula não respondeu; levantou-se, dirigiu-se a “seu” Frias e comunicou: “O senhor me desculpe, mas eu não posso mais ficar aqui. Vou embora. Não posso aceitar isso em nome da minha dignidade”.

Frias levantou-se também. Antes de sair, Lula ainda disse a Otavinho, o único que permaneceu na sala: “Eu não tenho culpa se você está nervoso porque o teu candidato vai mal nas pesquisas”. Para ele, a Folha estava apoiando José Serra. Pegando no braço do candidato, “seu” Frias o acompanhou até o elevador e depois até o carro, no estacionamento: “Nunca tinha acontecido isso antes na nossa casa”, lamentou o diretor do jornal”, conforme relembra Kotscho.

Nos anos 90, a Folha se viu com um adversário no Planalto: Fernando Collor de Mello foi o primeiro Presidente a processar um órgão de imprensa durante o mandato.  Collor processou três jornalistas, além do próprio Otávio por uma nota publicada no Painel Econômico. Acusava-os de calúnia.

Meses antes, em episódio patético, a Receita e a Polícia Federal foram à redação da Folha supostamente fiscalizar se o jornal estava emitindo suas faturas na nova moeda, o cruzeiro. Sem se intimidar, Otávio respondeu a Collor em carta na primeira página do jornal: disse que o processo na Justiça era apenas “a ponta visível de um iceberg de ataques, discriminações, ameaças e violência contra [o] jornal” e que o Presidente havia mobilizado “todo o aparelho do Estado” contra a Folha.

Deixa Fernanda Diamant, editora da revista literária Quatro Cinco Um, com quem teve as filhas Miranda e Emilia, e os irmãos Maria Helena, médica, Luiz, presidente do Grupo Folha, e Maria Cristina, editora da coluna Mercado Aberto. O jornal deverá ser dirigido por sua irmã, Maria Cristina Frias. (Da Revista Forum)

De jovem impetuoso a bilionário reacionário

otavio-frias-filho-morte-arquivo-age20180821004-nilton-fukuda-estadao-conteudo-600x399

Por Mauro Lopes

Na redação da Folha, tratávamos Otavio Frias Filho de três maneiras: nas conversas entre nós, jornalistas, ele era “Otavinho”; por escrito, especialmente nos textos de circulação interna que podiam ser lidos por ele, “OFF”; uma maneira que se considerava elegante e esperta de se referir ao dono de um jornal, ainda mais um jornal revolucionário, não no sentido político, mas editorial – off the records é uma expressão do jargão jornalístico que designa a informação apurada e publicada sem que se revele a fonte; no diálogo direto com ele, Otavio e, para os que não gozavam de uma relação mais íntima, sempre um diálogo formal, com um clima de tensão que Otavinho sempre criava ao redor.

Cheguei ao jornal numa data que não dá para esquecer, 24 de dezembro de 1986 – e trabalhei sem parar e sem folga até o início de 1987. Fiquei no jornal até maio de 1991, numa trajetória inesperada. De redator (uma função que sequer existe mais e era o “peão” da redação) a secretário de redação da sucursal de Brasília em 1988, integrante do time que cobriu as eleições de 1989 e, por fim, editor do Painel.

Convivi com “seu Frias” e o filho com alguma intensidade, especialmente como editor do Painel, por ser uma coluna de notas políticas sensíveis e exclusivas, e como responsável pela agenda dos famosos “almoços de sexta”, quando a redação reunia-se ao redor dos donos do jornal e um convidado ou convidada, desde presidente da República a ministros, parlamentares, intelectuais, gente “importante”.

No fim de 1986 o período culminante da revolução modernizadora que Otavinho havia liderado com seu Projeto Folha já havia passado. Era o tempo do império das normas erigidas no processo, condensadas no Manual de Redação. Mas ainda havia brasas do período mais incendiário, marcado sobretudo pela campanha das Diretas.

A redação era composta por algumas dezenas de ex-militantes do movimento estudantil da virada dos anos 1970/80, gente politizada e articulada, verdadeiros quadros que Otavinho (ou OFF) soube aproveitar. Tínhamos a sensação nítida de estarmos fazendo algo de muito importante, de estarmos “fazendo história”. Não era propriamente um “trabalho”; era mais uma “jornada”. A mesma sensação que temos hoje no 247.

Aos poucos a brasa apagou-se, o jornal acomodou-se, tornou-se mais e mais conservador, sem qualquer ambição de chacoalhar o ambiente do jornalismo.

A lógica do “business” impôs-se.

Otavio fez um percurso similar ao dos tucanos, por quem, mesmo com sua personalidade sisuda e pouco dado a expressões de emoção ou preferências, nutria simpatia e alguma identidade intelectual. Assim como FHC, Serra e outros que eram referências suas, Otavinho foi cada vez mais para a direita.

O jornal, que havia apoiado o golpe de 1964 e depois migrara até as Diretas já e à renovação do jornalismo brasileiro, apoiou decididamente o golpe de 2016 e tornou-se um dos líderes da campanha de ódio a Lula e ao PT.

Aos poucos, o jornalismo da revolução foi substituído por uma agenda ideológica. Na redação, a “jornada” virou fumaça e a Folha virou um emprego qualquer.

Nos últimos tempos, nem a Folha ou o UOL eram mais o importava para o grupo dos irmãos Frias. O negócio realmente relevante tornou-se a maquininha de fazer dinheiro, o PagSeguro, com o qual o grupo levantou bilhões de dólares em duas ofertas de ações na Bolsa de Nova York em 2018.

Jovem impetuoso dos anos 1970/80, aos poucos, Otavio tornou-se um bilionário reacionário.