POR GERSON NOGUEIRA
O clássico mais disputado do planeta, recheado de galardões que fizeram sua fama fora dos limites do Estado, corre um sério risco. Pode ficar esvaziado com o passar do tempo, risco que toda atração corre caso não se renove ou insista em servir pratos feitos à plebe.
Esse temor de esvaziamento progressivo do Re-Pa, que hoje à tarde se realiza pela segunda vez na temporada, se acentua pelas sucessivas quedas de público nos últimos três anos.
Em 2013, a média de público pagante no clássico foi de 25.830 espectadores – no anterior a média foi de 28.463. Em 2014, os números foram assustadoramente baixos: 16.519 de média nos estádios. No ano passado, a situação melhorou um pouco, subindo para 20.492.
Não se pode dizer que o motivo maior da perda de público seja a transmissão ao vivo para Belém, embora este seja um ponto também importante na história, desde que os clubes concordaram com a imprudência de exibir jogos para a própria praça onde a partida se realiza.
Ao lado da questão da TV existem vários outros fatores que conspiram contra a tradição do choque-rei. A violência urbana – e seu sanguinário tentáculo na seara esportiva, as gangues uniformizadas – é outro aspecto a considerar.
Nos últimos anos, muitos torcedores deixaram de comparecer aos estádios com medo de assaltos, arrastões e balas perdidas, acontecimentos corriqueiros dentro e fora dos estádios, principalmente em dia de Re-Pa.
Um sintoma óbvio disso é que a própria Polícia Militar, encarregada legalmente de cuidar da segurança das pessoas em eventos públicos, tem sido insistente na busca por soluções que reduzam o seu trabalho contra os baderneiros que dominam as torcidas organizadas.
É preciso considerar também a própria situação econômica da população, brigando diretamente com o fanatismo dos adeptos dos dois maiores clubes da Amazônia. Entre ir ao estádio e economizar pelo menos R$ 100,00 (arredondando aí o valor do ingresso, do transporte e do lanche) a tendência é pela decisão mais conservadora.
O fato é que o Re-Pa depende de motivações extremas. Só os muito fanáticos e os mais abonados é que ainda se dispõem a encarar todas as agruras que cercam a promoção do clássico, com ênfase nas dificuldades de acesso – acentuadas pelas obras intermináveis do BRT na Augusto Montenegro – e nos atropelos de ordem interna no estádio Jornalista Edgar Proença, onde até o ato de estacionar o carro representa um desafio à paciência humana.
Não se pode subestimar o papel dos próprios clubes nesse enredo. A progressiva decadência dos times, sempre desmanchados ao final de cada temporada e reféns de importação em massa de boleiros, influi fortemente sobre o ânimo do torcedor. O último ano de boa colheita nas bilheterias foi 2011, quando a média de público no maior clássico da Amazônia chegou a 28.684 – já com a transmissão pela TV Cultura.
Até então, os times ainda contavam com o apelo de bons jogadores, identificados com a torcida e capazes de valorizar a mitologia em torno do dérbi paraense. Aos poucos, porém, tudo isso foi se perdendo pelo caminho. O Papão ainda se manteve em alta, chegando à Série B, mas o Remo patinou na Série D e só no ano passado conseguiu o acesso à Terceira Divisão.
Todos esses fatores se juntam para conduzir a um processo de acomodação do torcedor, que muitas vezes hesita em comprar ingresso e sair de casa receando se decepcionar com o nível do espetáculo. É mais conveniente ficar no sofá torcendo ardorosamente pelo seu time sem correr maiores riscos. No máximo, alguns se aventuram a ir ao bar da esquina, torcer ao lado de outros que também se afastaram das arquibancadas.
Por conta dessa realidade, o Pará está em vias de perder um de seus grandes orgulhos: a pujança e gigantismo de suas torcidas. Pelo Brasil e até pelo mundo, a beleza dos estádios cheios em Belém gerou a imagem de uma terra fanática por futebol.
É claro que continuamos a amar o jogo, mas é visível que a cada ano essa paixão é alimentada à distância. Se os principais interessados não fizerem alguma coisa para deter essa sangria, logo Belém confirmará no futebol a fama histórica da cidade do “já teve” – nesse caso, a nostalgia será das imagens do Mangueirão superlotado. E só restará a saudade.

————————————————-
Bola na Torre
Guilherme Guerreiro comanda a atração, que começa logo depois do Pânico, por volta de 00h20.
Giuseppe Tommaso, Valmir Rodrigues e este escriba de Baião participam como debatedores, analisando todos os detalhes do Re-Pa.
————————————————
Os nomes do jogo não entram em campo
Celsinho e Marcelo Veiga são os grandes nomes do jogo de hoje. Curiosamente, os dois não irão jogar. Até sábado, o meia-armador estava vetado pelo departamento médico do Papão por ainda estar se recuperando de uma lesão muscular.
Já Marcelo Veiga é o comandante azulino, recém-chegado ao Evandro Almeida para substituir a Leston Junior e tentar salvar a nau remista em meio aos banzeiros do returno do Parazão.
Ao contrário de Celsinho, cuja ausência é importante do lado bicolor, mas não chega a representar um drama mais sério para seu time, Veiga está com um senhor abacaxi nas mãos. Precisa vencer e vencer. Não há meio-termo.
Caso o Remo não consiga ganhar os três pontos, estará inapelavelmente eliminado do campeonato, abrindo mão do sonho do tri estadual. Veiga não tem a mínima culpa pela situação desesperadora.
O coquetel de erros em relação ao time é todo do técnico anterior, com ajuda dos dirigentes do setor de futebol, que também contribuíram para péssimas escolhas na hora de contratar.
Ocorre que o novo técnico já passou por isso antes. Em 2012, chegou também para uma missão quase impossível: classificar o Remo para a Série C com um time que havia sido montado por Edson Gaúcho. Veiga já tem pelo menos experiência nesse tipo de desafio.
(Coluna publicada no Bola deste domingo, 03)
Ainda que muitos motivos da exaustão ou evasão de público de nosso futebol tenham sido muito bem especificadas pelo escriba baionense, o motivo fundamental para tal situação na minha opinião é conjuntura atual do Brasil, a situação que vive nossa sociedade hoje, desgostosa e descrente em tudo inclusive, no futebol uma das suas maiores paixões. Hoje ninguém acredita mais nas instituições públicas e privadas, governantes e políticos. Antes ainda algumas instituições se sobressaiam e escapavam ilesas da descrença da população, mas hoje generalizou onde nem imprensa e justiça do país escapam do desgosto do povo Brasileiro. O reflexo negativo disso tudo é o pouco interesse naquilo que o povo mais venerava, como o futebol por exemplo. Só para ter uma ideia as pessoas hoje em dia tem mais facilidade para visualizar a negativo em que o positivo, ou seja, de cada 100 pessoas, 20 acreditam que o país vai bem e pode melhorar mais, 10 estão indiferentes a tudo e 70 acreditam que o Brasil não tem mais jeito.
CurtirCurtir
Sobre o excelente inventário das causas da redução das médias de público no Clássico, feito pela Coluna, gostaria de fazer apenas dois comentários.
O primeiro é no sentido de que há um outro fator que ostenta alguma relevância o cada vez mais nítido descompasso entre a impressão visual do quantitativo de torcedores presentes no Mangueirão e o quantitativo divulgado pelas fontes oficiais. Estas informam sempre um número de torcedores aquem daquele que a vista sugere que estão presentes.
O segundo diz respeito ao “fator transmissão”. Este, devido aos demais fatores inventariados na Coluna, a longo prazo, acabou ganhando importância que não tinha inicialmente.
Deveras, a dificuldade no acesso e saída do estádio, o desconforto, a violência, a proibição da cerveja, e a precariedade técnica dos times, acabaram convencendo a maioria dos torcedores que é melhor ficar assistindo de casa.
Aliás, agora, até este o Blog, com a Seção Comentários ON LINE já contribui para afastar alguns torcedores do estádio, n’algumas oportunidades.
CurtirCurtir