Cunha recebeu R$ 52 milhões em 36 parcelas de propina, diz empreiteiro

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Em meados de junho e julho de 2011, o pai do empresário Raul Pernambuco Júnior, da Carioca Engenharia, e um executivo da empresa reuniram-se com Léo Pinheiro, da OAS, e Benedicto Junior, da Odebrecht, no Hotel Sofitel, em Copacabana. Naquele dia, definiram detalhes de como iriam repassar a propina de R$ 52 milhões – o estimado de 1,5% do total da aquisição dos Cepac’s, pelo Fundo de Investimento do FGTS – a Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
Decidiram fazer em 36 parcelas mensais, cada uma das empresas – OAS, Odebrecht e Carioca Engenharia – devendo transferir a sua parte diretamente ao hoje presidente da Câmara.
Os Cepac’s são os Certificados de Potencial de Área Construtiva para as obras do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro. Todas as empresas do consórcio tinham um “compromisso” de pagar a Cunha o valor superfaturado. Raul Pernambuco levou aos investigadores da Operação Lava Jato no Supremo o seu depoimento com detalhes dos encontros de negociatas e tabelas com dados de depósitos ao parlamentar. Somente a sua empresa (Carioca Engenharia) foi responsável pela transferência de R$ 13 milhões.
Em uma das tabelas, são descritos 22 depósitos somando 4.680.297,05 dólares em propinas transferidas entre 10 de agosto de 2011 e 19 de setembro de 2014. Na primeira parte, os depósitos que somam um montante de US$ 3.984.297,05 são garantidos Eduardo Cunha como remetente: o delator afirmou “ter certeza”. A segunda parte, que agregam mais 696 mil dólares é de “altíssima probabilidade de que também eram valores destinados a contas indicadas por Eduardo Cunha”, disse o empresário: “em especial porque não fizeram pagamentos deste tipo a outras pessoas e, também, pelo valor das transferências”, afirmou.
As contas estão no banco Delta Trust e UBS. Cunha já é investigado pela Procuradoria-Geral da República de quatro contas que manteve na Suíça. O empresário Raul Pernambuco apontou outras nove contas que o parlamentar mantinha em países como os Estados Unidos e Israel.
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O delator contou que “em nenhum momento Eduardo Cunha lhe disse que as contas eram de titularidade dele, mas tem certeza de que todas estas contas foram indicadas pelo deputado Eduardo Cunha; que tampouco o depoente chegou a perguntar a Eduardo Cunha sobre o titular das referidas contas”.
O primeiro pagamento pela Carioca Engenharia foi realizado no Israel Discount Bank, em 10 de agosto de 2011, no valor de US$ 220.777. Relatou, também, que a empresa não tinha contato com Eduardo Cunha, à época e que o empreiteiro e seu pai foram apenas “comunicados” pelas outras empreiteiras do consórcio sobre o “compromisso”.
A partir daí, Raul Pernambuco Júnior encontrou-se diretamente com Cunha. Detalhando como era o local do encontro, que ocorreu no início de agosto de 2011, disse não se lembrar se era no escritório político no Rio ou no gabinete da Câmara, em Brasília, e trouxe detalhes sobre a decoração do espaço:
“Respondeu que se trata de um escritório com decoração mais antiga, que tem uma antessala, com uma recepcionista; que, além disso, havia dois sofás, em seguida um corredor, com duas salas; que nestas salas havia uma secretária mais alta e um assessor do deputado; que este assessor era uma pessoa mais velha, com cerca de 60 anos, acreditando que fosse um pouco calvo, possuindo cabelo lateral; que nunca conversou, porém, nenhum assunto com tais pessoas; que mais à esquerda tinha a sala do deputado Eduardo Cunha, com uma mesa antiga, de madeira maciça, com muitos papeis em cima; que acredita que o escritório fique no 32° andar”.
Naquele dia, Cunha o perguntou “sobre o ‘compromisso’ estabelecido” e, inclusive, sobre o valor de R$ 13 milhões, que “foi confirmado por Eduardo Cunha”. O empresário da Carioca disse que eles não queriam que o dinheiro “passasse por dentro da empresa”, e que gostariam de ser “o mais reservado possível” e questionou ao peemedebista se a transferência não poderia ser feita em contas no exterior.
“Eduardo Cunha disse que não haveria problema nenhum e, neste momento, ele indicou a primeira conta em que deveria ser efetivado o pagamento”, contou o empresário. “Eduardo Cunha passou a conta em um papel, com os dados já digitados; que se lembra bem deste primeiro pagamento, porque o Banco indicado por Eduardo Cunha era denominado Israel Discount Bank; que não sabia se este banco era realmente em Israel; que já ficou estabelecido, inclusive, o valor do primeiro pagamento; que, dividindo o valor total devido pelo número de parcelas, o valor de cada parcela era de cerca de R$ 360 mil”, continuou.
Nessa primeira reunião, que durou cerca de 30 minutos, Pernambuco disse que “até então não se conheciam” e que foi a “oportunidade em que se conheceram melhor”.
Em outra reunião, alguns dias depois, Raul perguntou a Cunha “se haveria a possibilidade de mudar o banco e indicar uma conta na própria Suíça” e que “Eduardo Cunha concordou e disse não haver problemas”, indicando “no mesmo ato” a conta Esteban Garcia, no Merryl Lynch Bank, na Suíça. “A partir daí todos os depósitos para Eduardo Cunha foram na Suíça”, disse o delator. (Do Jornal GGN) 

Para Mujica, impeachment é “jogo irresponsável”

O ex-presidente do Uruguai José Mujica classificou o processo de impeachment que corre na Câmara dos Deputados contra a presidente Dilma Rousseff como “jogo irresponsável” em um vídeo publicado nesta sexta-feira (15) pelo Palácio do Planalto. A crise no país, diz Mujica, tem paralisado o Brasil e as nações vizinhas.

Segundo o uruguaio, as pessoas que pedem o afastamento da presidenta não perceberam o problema a que estão expondo o Brasil e toda a América Latina. “Que estejam conscientes do mal em que está metido o Brasil e das consequências não só para o Brasil, mas para todos os latino-americanos”, afirmou. “Parecem que não se dão contam de esse é um jogo, um jogo irresponsável que paralisa o Brasil e paralisa todos os vizinhos, porque o Brasil é muito importante no continente”. (Do UOL) 

A ilusão

Um governo para os pobres, mais do que um incômodo político para o conservadorismo, era um mau exemplo, uma ameaça inadmissível para a fortaleza do poder real

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POR LUIS FERNANDO VERISSIMO

Gosto de imaginar a História como uma velha e pachorrenta senhora que tem o que nenhum de nós tem: tempo para pensar nas coisas e para julgar o que aconteceu com a sabedoria — bem, com a sabedoria das velhas senhoras. Nós vivemos atrás de um contexto maior que explique tudo mas estamos sempre esbarrando nos limites da nossa compreensão, nos perdendo nas paixões do momento presente. Nos falta a distância do momento. Nos falta a virtude madura da isenção. Enfim, nos falta tudo o que a História tem de sobra.

Uma das vantagens de pensar na História como uma pessoa é que podemos ampliar a fantasia e imaginá-la como uma interlocutora, misteriosamente acessível para um papo.

— Vamos fazer de conta que eu viajei no tempo e a encontrei nesta mesa de bar.

— A História não tem faz de conta, meu filho. A História é sempre real, doa a quem doer.

— Mas a gente vive ouvindo falar de revisões históricas…

— As revisões são a História se repensando, não se desmentindo. O que você quer?

— Eu queria falara com a senhora sobre o Brasil de 2016.

— Brasil, Brasil…

— PT. Lula. Impeachment.

— Ah, sim. Me lembrei agora. Faz tanto tempo…

— O que significou tudo aquilo?

— Foi o fim de uma ilusão. Pelo menos foi assim que eu cataloguei.

— Foi o fim da ilusão petista de mudar o Brasil?

— Mais, mais. Foi o fim da ilusão que qualquer governo com pretensões sociais poderia conviver, em qualquer lugar do mundo, com os donos do dinheiro e uma plutocracia conservadora, sem que cedo ou tarde houvesse um conflito, e uma tentativa de aniquilamento da discrepância. Um governo para os pobres, mais do que um incômodo político para o conservadorismo dominante, era um mau exemplo, uma ameaça inadmissível para a fortaleza do poder real. Era preciso acabar com a ameaça e jogar sal em cima. Era isso que estava acontecendo.

Um pouco surpreso com a eloquência da História, pensei em perguntar qual seria o resultado do impeachment. Me contive. Também não ousei pedir que ela consultasse seus arquivo e me dissesse se o Eduardo Cunha seria presidente do Brasil.

Eu não queria ouvir a resposta.

(*) Luis Fernando Verissimo é escritor 

Jornal francês vê papel desestabilizador da grande mídia contra Dilma

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A direita tem pressa em empurrar Dilma para fora do governo, observa o jornal de esquerda. Nessa nova reportagem sobre a crise política, Libération questiona se “a imprensa conservadora do país, nas mãos de um punhado de famílias da elite, foi um fator de desestabilização do governo, conforme acusa o Partido dos Trabalhadores (PT)”.

O cientista político João Feres Jr., coordenador do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (Lemep), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), ouvido pela reportagem do jornal francês, acredita que sim. Ele afirma que a cobertura da crise foi “militante e tendenciosa”. “Grandes grupos de mídia − Globo, Abril e grupo Folha, por exemplo − sempre defenderam seus interesses econômicos, supostamente ameaçados pela esquerda”, afirma o especialista à reportagem.

Imprensa conservadora, polemista e sensacionalista

Libération relata que a revista Veja − descrita como uma publicação “polemista de direita, adepta de capas sensacionalistas” − elegeu o ex-presidente Lula “como o homem a ser eliminado”. A concorrente Istoé combate ferozmente a presidente Dilma, acrescenta o diário, evocando a matéria na qual Dilma teria destruído móveis no Palácio do Planalto num ataque de raiva.

Citando a Folha de S.Paulo, Libération observa que os grandes jornais cotidianos desfrutam de maior prestígio e são menos exaltados, mas também publicam editoriais sulfurosos contra o governo e o PT. Incontestavelmente, é a Rede Globo que cristaliza o ódio dos defensores do PT, diz o Libération, lembrando que a emissora conseguiu, em 1989, impedir a vitória de Lula contra Collor, e recentemente soube, antes do restante da imprensa, da operação policial deflagrada para prender Lula em seu apartamento.

O editorialista Eugênio Bucci, ex-diretor da Radiobras no governo Lula, também entrevistado pelo Libération, reconhece que existe preconceito da mídia contra Lula e parcialidade da imprensa − “favorável ao rival Aécio Neves (PSDB)” −, mas relativiza a perseguição ao PT. Na opinião de Bucci, “o PT não compreende o papel da imprensa e erra ao se colocar em posição de vítima, quando deveria prestar contas dos seus atos em 13 anos de governo”.

Tendência é de aprovação do impeachment, diz Les Echos

O jornal Les Echos registra a debandada na base aliada do governo e a possível aprovação do impeachment pelo plenário da Câmara dos Deputados, no domingo. Diário de tendência liberal e especializado em economia, Les Echos observa que enquanto a crise política chega ao ápice, no Brasil, o Fundo Monetário Internacional (FMI) lança uma grave advertência ao país sobre a degradação das contas públicas, com uma perspectiva de dívida pública em torno de 90% do PIB em 2021. (Transcrito de RFI)

O cerco do tempo aos moleques de Brasília

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POR LUIS COSTA PINTO – via Facebook

Houve um tempo, e ele se passou em Brasília, em que se conspirava à noite a favor da mãe de todas as teses populares: o voto, seu significado, seu peso. E quando raiava o dia deputados e senadores, servos respeitáveis da Constituição que haviam ajudado a escrever, assumindo suas imperfeições e orgulhando-se de seus avanços, eram capazes de virar leões nos plenários e nos corredores do Congresso a fim de velar pelo exercício do poder em nome do povo. Como deve ser.
Já não há mais tempo, em Brasília, para lançar um olhar nostálgico sobre o passado não tão remoto. A conspiração, que se faz à noite e de dia também, é para cassar do povo o poder do voto. É para golpear a Constituição brincando de impedir o prosseguimento de um mandato popular – imperfeito, eivado de erros, permeado de equívocos; mas egresso da vontade popular, saído das urnas com a legitimidade divina – urdindo teses mal costuradas para fazer reinar um grupo sem compromisso popular. Sem legitimidade. Sem voto.

Duas grandes batalhas

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POR GERSON NOGUEIRA

A dupla Re-Pa vai outra vez disputar a semifinal da Copa Verde. O Pará está garantido na final da competição pela terceira vez consecutiva, mas o baixo nível técnico da maioria dos times disputantes não permite nem foguetório das torcidas. A classificação dos velhos rivais não é mais do que obrigação.

Desta vez, a presença na final não pode mais se resumir a fazer figuração. Em futebol não existe certezas antecipadas, mas a cobrança é permitida. O representante local, seja qual for, tem a responsabilidade de conquistar a taça do torneio que foi idealizado há três anos para levantar a bola do futebol paraense.

Por pura incompetência, Leão e Papão deixaram o troféu escapar nas duas edições passadas. Em 2014, os bicolores foram derrotados pelo Brasília em decisão que saiu nas cobranças de tiros livres da marca do pênalti. No ano seguinte, os azulinos entregaram o ouro para o Cuiabá, levando uma sova histórica de 5 a 1 depois de terem vencido em Belém por 4 a 0.

As expectativas se renovam, embora os times não apresentem motivos reais para entusiasmo. O Papão suplantou sem dificuldades os limitados Fast e Rio Branco, mas vem acusando problemas de organização tática e falhas primárias de marcação. Já o Remo, que passou pelo Nacional-AM para chegar à semifinal, ainda tenta encontrar a batida perfeita e conta com a rodagem do técnico Marcelo Veiga para tentar evoluir.

O jogo de quarta-feira contra o Vasco – o quarto de Veiga no comando – deu ao torcedor remista motivos para nutrir esperanças. Mesmo com improvisações nas laterais (Ítalo pela esquerda e Yuri na direita), a equipe atuou ofensivamente e criou oportunidades que poderiam ter levado a um resultado positivo.

Perdeu com um gol aos 40 minutos do segundo tempo, nascido de uma jogada perfeita de linha de fundo executada pelo lateral Henrique e finalizada pelo centroavante Thales. A derrota, sacramentada perto do apito final, frustrou a torcida presente, mas não impediu que o time deixasse o campo aplaudido.

A reação comprova o reconhecimento das arquibancadas pelo esforço geral do time em busca da vitória. Mesmo descontando o fato de que adversários famosos despertam mais motivação, é justo avaliar que o Remo vem evoluindo. Não com a rapidez necessária, mas dentro das condições possíveis.

Marcelo Veiga tem um elenco limitado, castigado por lesões e carente em posições fundamentais, como as laterais e o centro do ataque. Até ver seus pedidos atendidos, terá que se valer do grupo atual. Nesse aspecto, tem conseguido algumas pequenas façanhas. Sob sua direção, já é possível observar mais segurança no setor defensivo e consistência no meio-campo.

Contra o Vasco, a entrada em cena do novato Lucas Farias foi providencial para garantir ao setor de marcação um tom de dinamismo e antecipação que não existia no Campeonato Paraense. Lucas veio recomendado por Veiga e encaixou bem ao lado de Chicão e Yuri. A má notícia para o técnico é que Lucas não pode disputar a Copa Verde.

Para os dois confrontos com o Papão nas semifinais, a meia-cancha terá que ser composta pelos mesmos jogadores que disputaram o Parazão. É inegável, porém, que Veiga já deu outra cara ao Remo.

No Papão, Dado Cavalcanti enfrenta momento de instabilidade no Parazão, com sequência irregular de partidas e atuações que intranquilizam a torcida. Na Copa Verde, o cenário é inteiramente diverso.

Depois de passar sem sustos pelo Fast, o Papão foi ao Acre ontem e experimentou um verdadeiro passeio na Arena da Floresta. Aplicou uma goleada no confuso e quase ingênuo do Rio Branco, nem sombra daquele time encardido de outros tempos.

Sem tomar conhecimento das eventuais limitações do dono da casa, o Papão se impôs desde o começo, bem ao contrário da atuação discreta na Curuzu, quando venceu por 1 a 0. Fabinho Alves fez 1 a 0 logo aos 8 minutos, aproveitando belo cruzamento de Roniery.

Depois, sem pressa, foi abrindo espaços no setor de defesa do Rio Branco e ampliou o placar dez minutos depois, através de Ricardo Capanema – segundo gol dele com a camisa alviceleste. Jogo fácil em função da boa movimentação executada por jogadores como Roniery e Fabinho.

Sem outra opção, o Rio Branco ensaiou reagir na etapa final, mas só escancarou mais seus próprios pecados. Com autoridade, mesmo sem maior brilho, o Papão chegou ao terceiro gol aos 26 minutos, cedeu um penal aos 29, mas retomou a marcha vitoriosa com Bruno Veiga (também de pênalti) aos 32 e com Fabinho, de novo, aos 33. O time acreano ainda diminuiu, com Romarinho, aos 40.

A ausência de Celsinho nem chegou a ser notada na partida da Arena da Floresta, mas seu papel de condutor do meio-campo não pode ser minimizado para o confronto das semifinais. A goleada serviu para reassentar as coisas na Curuzu, acalmar os espíritos e preparar o time para as duas batalhas contra o maior rival, nos próximos dias 20 e 23.

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Remo volta a olhar para os nativos

A diretoria do Remo finalmente parece disposta a ouvir os clamores da própria torcida e direciona seu olhar para os jogadores que se destacaram nos clubes interioranos ao longo do Campeonato Paraense. O oriximinaense Flamel, camisa 10 do Águia, foi sondado, mas a multa rescisória (R$ 100 mil) travou o negócio. Seria uma grande aquisição para a campanha da Série C, pois Flamel teria condições de jogar ao lado de Eduardo Ramos no meio e colocar a serviço do Remo sua impressionante habilidade nas bolas paradas.

Sem se abalar, a direção remista procurou então o atacante Magno, que foi um dos pontos altos do time do Parauapebas pela segunda temporada seguida. Contra o próprio Remo, ele apareceu bem e marcou gol. O acerto está praticamente formalizado. Da lista dos melhores do Parazão, a diretoria ainda pode ir atrás do zagueiro Ezequias, do centroavante Monga e dos laterais Léo Rosa e Jaquinha. Jogam em posições que o Remo precisa preencher e não são caros.

(Coluna publicada no Bola desta sexta-feira, 15)

Dilma, a esperança e a repactuação

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POR LUIS NASSIF

A entrevista coletiva começou às 11 horas da manhã, no Palácio do Planalto. Em torno da mesa redonda, 14 pessoas, entre jornalistas de diversos órgãos, alguns assessores e a presidente Dilma Rousseff. Foi pontilhada de respostas, causos e tiradas de humor. No final, uma pergunta sobre a esperança: por que acreditar que, derrubado o impeachment, tudo será diferente?

Dilma explicou com um “causo” dolorido, dos tempos da repressão.

– Um belo dia estava eu na Operação Bandeirantes; Daqui a duas horas você espera que vai ser interrogado. Depois, ia para o DOPS. Ficava torcendo para Fleury ir para o carnaval, porque aí não interrogava. Passava um tempo, ía para o Presídio Tiradentes. Você ia pensar o que? Não tem saída, é assim para sempre? Não é assim que se encara. Encara se tiver esperança, se souber que a vida é um pouquinho mais complicada.

Ela se lembrou de uma conversa com Franklin Martins:

– Sabe porque não temos mágoa dos torturadores? Porque nós ganhamos e eles não. Mas levamos 25 anos. Na pior situação, você sempre sabia que as coisas não são estáticas, são dinâmicas, os agentes sociais agem. Enquanto tem tudo isso, eu vejo uma manifestação democrática fantástica. E tenho certeza de que independentemente de mim, isso continuará, o país continuará avançando e a democracia se consolidando.

Foi o fecho para a entrevista, na qual a presidente passou por todos os temas propostos.

Sobre a crise e sua responsabilidade

Diante de situação, não há como negar a interação entre instabilidade política profunda que afeta o país há 15 meses, e a crise econômica, intensificado pela crise política. Nossa capacidade de recuperação se mostrou limitada pela crise política.

A crise econômica é cíclica, primeiro atingiu os desenvolvidos e, depois, os países em desenvolvimento. E não só o Brasil. Não dá para subestimar o efeito da crise das commodities sobre a economia.

No caso do Brasil, não acredito que nossas mazelas econômicas se devam fundamentalmente à política anticíclica de 2009. Adiamos os efeitos de uma crise que se aprofunda.

Ao fazer a política cíclica derrubamos bastante a arrecadação do país. Tivemos um nível elevado de redução de impostos. Agora, pergunto: teríamos segurado o emprego na proporção que seguramos se não tivéssemos feito o financiamento através do PSI (Programa de Sustentação ao Investimento), com juros real de 2,5%; se não tivéssemos reduzido o imposto sobre bens de capital de 30% para 4%, se não tivéssemos desonerado o tanto quanto desoneramos a folha?

No meu período, de 2011 a 2014 criamos um pouco mais de 5,2 milhões de empregos. Se for olhar o saldo, mesmo com um ano e quinze meses de profunda crise, perdemos 2,6 milhões de empregos, e mantivemos saldo de 2,6 milhões.

Nossa política anticíclica segurou.

Daqui para frente

Agora temos de enfrentar várias questões. Ninguém saiu do processo de crise sem enfrentar. No caso do Brasil, temos agora uma situação mais favorável, com US$ 40 bilhões de superávit na balança comercial, segundo projeção do MDIC para este ano. Saímos em 2014 com US$ 4 BI de déficit.

Outra característica é a queda da inflação. Subestima-se o efeito de preços controlados. Não controlamos o clima e de 2011 a início de 2016 tivemos uma das maiores secas da história. Em 2015, neste mesmo dia, o nível dos reservatórios das dez maiores usinas estava em 22%. Agora, se pegar Furnas já estamos em 76,5%.

Enfrentamos todo o período com quase nada de água e sem racionamento, porque despachamos todas as térmicas. Não deriva de decisão governamental, mas de um sistema hidrotérmico.

Tivemos um ajuste brutal de tarifas ao botar todas as térmicas funcionando. Faz parte da estrutura do sistema. Um dos fatores que pesou na inflação, tanto para cima como para baixo.

Quando se explica porque a inflação está caindo, explica porque subiu.

As reformas e as pautas-bombas

Na queda no ciclo econômico, aparecem todos os defeitos. O Brasil tem várias disfunções que precisam ser ultrapassadas. Vamos ter que olhar e fazer reformas. Para tanto, há que se ter unidade.

Uma das disfunções são as pautas-bombas.

Pauta-bomba é aquela que o conjunto acredita que é possível sair de uma situação difícil botando fogo em todo o restante. No ano passado tivemos cinco pautas-bomba, no total de R$ 140 bilhões.

O PDL (Projeto de Decreto Legislativo) do juro simples veio da Câmara, do deputado Espiridião Amin (projeto que muda a fórmula de cálculo das dívidas estaduais com a União de juros compostos para simples).

São R$ 300 bilhões de diferença. E a paralisia que provocará e a perda de energia de termos de ir sistematicamente no Congresso para impedir.

Primeira reforma seria o fim das pautas-bombas, o fim do uso de expedientes políticos para paralisar o governo. Tivemos esse processo durante 15 meses e o principal personagem foi o presidente da Câmara..

Sobre o modelo político

Nós temos um sistema político com algumas características.

No passado, governava-se com 3 partidos. FHC governou assim. Lula governou com menos partidos que no meu período.

No início do meu segundo mandato, havia 28 partidos dentro do Congresso.

O nível de unidade dos partidos é diferenciado, com várias tendências, determinações por adoção de frentes, de interesses regionais.

Supor que é possível estruturar uma política sem reforma política profunda será muito difícil.

Vocês adoram que eu faça autocrítica, mas não posso fazer só para contentar porque não muda uma vírgula da realidade. 

A base não esfacelou. Não adianta analisar visão tradicional de partido. Não é assim que o Brasil funciona, a não ser que se tenha visão absolutamente idealista de partido político.

Não estou falando de mazelas, mas de diferenças partidárias. Não são partidos ideológicos, na qual se faz um acordo parlamentar. Um pouco disso (desses problemas) está existindo nos Estados Unidos, uma certa divisão pronunciado dentro do Partido Republicano.

Obama teve que negociar com minorias no último ano. Ele largou de mão. Fez acordo com Irã, Cuba, levou dois mandatos para aprovar Obama Care. Ou percebemos que há um processo bem complexo na relação do presidencialismo com o Congresso, ou vamos acreditar em contos de fada.

Impeachment, pacto e legitimidade

Acredito que é possível tecer um pacto. Mas alguns pré-requisitos são fundamentais. Não é possível sem a legitimidade do voto, tentando transformar o impeachment em eleição indireta de quem não tem voto. Uma eleição indireta perigosíssima  porque não resolve os problemas do país.

Primeira coisa, voto popular.  De qualquer jeito consegue transformar se tiver voto popular.

O impeachment é previsto na Constituição. Os órgãos de imprensa esquecem-se de que o impeachment previsto na Constituição tem que ter base legal. Não dá para fazer salto no escuro de impeachment fraudulento sem base legal. Não estou dizendo que terá consequências imediatas. Mas que marcará indelevelmente a história do presidencialismo no Brasil.

Não estou dizendo que vai haver. Estou explicitando o que os órgãos grandes de imprensa relutam em falar: é golpe. Estou fazendo uma denúncia: tem um estado de golpe sendo conspirado no Brasil. Tanto aqueles que agem abertamente a favor, como os que agem ocultamente e os que se omitem: todos serão responsáveis. Não se pode supor que determinados atos políticos são feitos sem consequências.

Depois, não pode ter vencidos nem vencedores. Chamaremos todos os partidos, setores econômicos e sociais para montar o próximo plano de governo.

Sobre o jogo político da Lava Jato

Vazamentos para si mesmo, nunca vi antes. O vazamento para si mesmo é algo fantástico. Vocês não são ingênuos e sabem que (a fala de Temer) não foi vazamento, mas uma manifestação deliberada, nunca vista antes, quando processo em curso e alguém tenta, sem olhar resultado, fazer o discurso do posse. Chamei-o de chefe de golpe. Só não sei quem é o chefe é o vice-chefe, Acho que (Temer e Cunha) são associados. Um não age sem o outro. Uma parte do golpe depende diretamente do presidente da Câmara.

Sobre o estado mínimo

Nós não achamos que Estado tem que tratar só de educação, saúde e segurança. Fizemos um programa, o MCMV (Minha Casa Minha Vida),e hoje, de cada 8 brasileiros, um foi beneficiado com uma moradia. Tenho clareza do tamanho desse programa e de sua importância. No dia de hoje temos 4,3 milhões de moradias contratadas e 2,4 milhões entregues. E lançamos agora a segunda parte.

É importante do ponto de vista social e econômico. Não cria bolha imobiliária, assegura casa própria para população de baixa renda, tira um monte de gente de moradias de alto risco, transforma famílias em famílias mais estáveis. Não é fundamental programa de segurança hídrica? Subestima-se a integração do São Francisco mas está quase pronta.

Na saúde, acabou a discussão sobre o Mais Médicos. Há 18 mil médicos atendendo 63 milhões de pessoas hoje. Tem 1,2 milhão cisternas distribuídas no Nordeste. Estado mínimo é compatível com países desenvolvidos e, mesmo assim, alguns não fazem isso, como a Dinamarca, a Escandinávia toda.

Achar que resolve problemas do país ignorando a quantidade de atraso, de herança maldita de ano e anos em que parte da população foi retirada dos mecanismos da riqueza, é ter uma proposta totalmente dissonante em relação à realidade. Outra coisa é achar que Estado precisa fazer coisas de que não precisa. Não tem que gastar dinheiro com o que a iniciativa privada faz melhor, mais rápido e mais eficiente.

E existem experiência bem sucedida nos aeroportos, em concessões e acho que as empresas brasileiras construtoras têm que ser encaradas como agentes de desenvolvimento e não como agentes de corrupção. Tem que impedir que se demonizem empresas, porque precisamos de empresas que constroem.

Investigue quem tiver que investigar, mas não destrua as empresas. A grande competência dos EUA é a convicção da importância de suas empresas. Por esse método não sobraria um banco norte-americano depois da crise. Multaram, penalizaram, alguns fecharam.

Sobre a tensão pré-impeachment

Fico curiosa quando leio nos jornais preocupações de ministros do meu governo com a votação do impeachment. É o Jornalismo mediúnico, vocês falam o que eu penso. Aí eu olho no espelho e digo: não falei. Nessa reta final vamos sofrer uma guerra psicológica: eu tenho os votos, aquele não tem. O processo que tem um objetivo, de construir situação de efeito dominó.

É muito difícil neste momento chegar e dizer: um partido desembarcou do governo. Tem situações das mais variadas, de partidos que saem e as pessoas ficam. Tem variações, não tem relação linear entre líderes e liderados, característica do sistema político no Brasil, que torna extremamente complexa a análise da realidade e complexo o jogo político.

Relação com os poderes

Apesar de jovem democracia, há razoável independência dos poderes. Em relação ao STF, bastante clara. Em relação à estrutura do Judiciário federal, idem. A autonomia dos ministros, a independência dos poderes e a soberania do STF é inconteste.

Não acredito que tenhamos no Brasil uma fragilidade no que se refere às demais instituições, porque ganharam ao longo do tempo sua própria autonomia. No caso do MPF, a base é a Constituição de 1988, garantindo a cada procurador a Autonoma para investigar.  A Polícia Federal também tem atribuição de autonomia.

O interessante é avaliar não os poderes mas a imprensa, diante da continuidade do meu governo. A espetacularização da investigação vai continuar? Uma coisa é investigar, outra é a espetacularização da investigação.

Vaza prova nos EUA, o que acontece? Se a prova não está em condições de ser vazada, anula. Aqui se grava o presidente da República sem autorização do STF, depois se vaza.

Nos últimos dias ficou claro que o que vazamento (dos diálogos com Lula)  diz respeito a mim, eu fui investigada, virada dos avessos, é evidência que não acharam outro motivo para tentar forçar meu impedimento. Então o jogo é muito difícil, a espetacularização significa vazamento dirigido, sem base legal e a gente sabe disso.

Sobre a repactuação

Temos que olhar todos os lados, mas respeitando todas as conquistas. Pacto não é só com oposição, mas com forças econômicas e movimentos sociais. Coisa que Luis Nassif  falou e tem razão: nos últimos dias há uma reorganização das forças políticas de forma intensa, e se dando em torno de uma questão fundamental, que é a questão democrática.

É processo crescente. Temos tido demonstrações de pessoas que não estão apoiando o governo. O que estão defendendo é um processo democrático. A última manifestação dos artistas é mito significativa. Também tenho recebido relatos de manifestações extremas de ódio. A mais grave é da médica que abriu mão de cuidar de uma criança recém nascida.