Barbosa sobre a votação: “É de chorar de vergonha”

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O ex-presidente do Supremo Tribunal Federal e hoje advogado Joaquim Barbosa utilizou nesta segunda-feira (18) seu perfil no Twitter para desabafar sobre seu descontentamento com o teor dos votos dos deputados no processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff no último domingo. O ex-ministro não se manifestou a favor nem contra o impeachment da petista.

“É de chorar de vergonha! Simplesmente patético!”, afirmou o ex-ministro, que ficou famoso pela sua atuação dura no processo do mensalão, que levou à prisão os principais nomes da cúpula do PT.

O comentário de Barbosa foi feito logo após criticar a imprensa brasileira e recomendar aos seus seguidores assistirem a entrevista de Glenn Greenwald à emissora de TV americana CNN e também lerem a matéria da revista britânica “The Economist” listando as justificativas dos deputados em seus votos pelo impeachment.

Nos votos, a maioria dos parlamentareés favoráveis ao afastamento da petista não fez nenhum comentário ou posicionamento sobre as pedaladas fiscais – manobras contábeis que embasam o pedido de impeachment – e utilizou como justificativa seus próprios familiares, “Deus”, “cristianismo”, o fim da corrupção, dentre outros motivos que surpreenderam até jornais internacionais.

“Anotem: teremos outras razões para sentir vergonha de nós mesmos em toda essa história”, seguiu Barbosa, que em nenhum momento se manifestou se era favorável ou contra o afastamento da presidente. (Do UOL)

The Guardian: impeachment é tragédia e escândalo

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THE GUARDIAN – Editorial traduzido por Luiz de Queiroz, do Jornal GGN 

Desde que Stefan Zweig escreveu, em 1941, chamando o Brasil de “a terra do futuro”, o país vem sendo repreendido por falhar em atender às expectativas que o seu tamanho, recursos e isolamento de guerras e problemas que afetam outras partes do mundo parecem criar. Houve momentos em que essa promessa pareceu estar à beira de se tornar realidade, mas tais esperanças foram novamente, repetidamente, desfeitas. O mais recente veio com a ascensão ao poder do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003. Lula e o seu Partido dos Trabalhadores (PT) trouxeram novas ideias, nova energia e um novo estilo para a política brasileira, desfigurada pela corrupção, pelo paternalismo e por uma persistente procrastinação diante dos problemas urgentes da nação.

O PT era um partido real, com uma base massificada por todo o país, uma ideologia coerente e, aparentemente, um forte senso moral – características que faltavam em outras agremiações partidárias. As políticas sociais de Lula trouxeram para e ele e para o PT uma imensa popularidade, garantiram a reeleição para um segundo mandato e ajudaram sua sucessora, Dilma Rousseff, a conquistar as vitórias de 2010 e 2014. Desde então, a história foi ficando mais sombria até que atingiu o seu ponto menos iluminado no domingo, quando a Casa menor do Congresso Nacional, a Câmara dos Deputados, votou pelo seu impedimento. E ainda pode piorar, porque o impeachment, longe de ser a solução para a polarização política e social do Brasil, já agravou esse cenário.

A parede de metal erguida ao longo da Esplanada (uma área de parques no centro de Brasília) para prevenir manifestantes favoráveis e contrários à presidente de se engajarem em confrontos físicos durante a votação do impeachment é simbólica de quanto a polarização já foi longe demais. O historiador José Murilo de Carvalho disse recentemente que a radicalização e a intolerância no país chegaram a um ponto muito perigoso.

Como as coisas deram tão errado? A resposta pode ser encontrada nas mudanças da economia global, na personalidade da presidente, no abraço do PT a um sistema corrupto de financiamento partidário, no escândalo que explodiu quando esse sistema foi exposto e no relacionamento disfuncional entre os poderes Executivo e Legislativo do Brasil. A economia entrou em um declínio quando os preços das commodities, que são as principais exportações do país, caíram vertiginosamente. O crescimento diminuiu, depois parou, e enfim se reverteu; os empregos se tornaram mais escassos; os preços subiram e os programas sociais introduzidos por Lula se tornaram mais difíceis de financiar. O próprio PT, outrora o partido menos corrupto do país, escolheu resolver seus problemas financeiros mergulhando em um pote de dinheiro desviado da Petrobras, a empresa nacional de petróleo. A coalizão, os aliados e outros partidos se juntaram a eles.

Finalmente, a Constituição brasileira – que coloca no mesmo governo uma presidente eleita popularmente e membros de um Congresso eleitos em lista aberta, por representação proporcional – é uma receita para conflito na maioria das vezes. Como resultado, um líder teoricamente poderoso é confrontado por uma força de partidos que ele ou ela precisa cortejar com cargos, ministérios e compromissos políticos se quiser montar uma base no Congresso. A consequência, geralmente, é que o executivo chefe já perde metade do seu espaço de manobra antes mesmo de começar a tentar governar. Lula era um mestre em gerenciar essas contradições. A presidente Dilma, ineficiente e inconsistente, não tem a mesma habilidade.

Quando o Ministério Público e a Polícia Federal começaram a investigar o caso da Petrobras, e quando depois o juiz Sergio Moro assumiu, eles não previram os danos que essas revelações causariam? Provavelmente não. A intenção parece ter sido de purificar a política brasileira, tomando como precedente as investigações da Operação Mãos Limpas, na Itália, nos anos 90.

Mas o desfecho real é o oposto e é um paradoxo. A presidente não foi implicada no escândalo da Petrobras. As bases para o seu impeachment são de que ela manipulou dados financeiros antes das últimas eleições – o que não representa muito mais do que uma delinquência menor pelos padrões brasileiros. No entanto, quase todos os que estão envolvidos no seu impeachment são suspeitos de corrupção, incluindo Eduardo Cunha, o presidente da Câmara dos Deputados.

Agora, muitos temem que a campanha anticorrupção vá desaparecer, com exceção de um esforço final de concentrar fogo em Lula. Michel Temer, o vice-presidente, vai enfrentar os mesmos problemas da derrotada Dilma Rousseff, e suas chances de lidar com eles de forma eficiente precisam ser classificadas como baixas. Uma oposição desacreditada vai assumir o lugar de um PT desacreditado. É difícil vislumbrar mais do que um panorama sombrio para o Brasil.

Impeachment foi fabricado pela mídia

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POR MONICA MOURÃO E HELENA MARTINS, na CartaCapital

A ausência de discussões profundas sobre a situação do país e o excesso de discursos reacionários que vimos no domingo 17 não se restringiram às falas de parlamentares na Câmara dos Deputados. Nos últimos meses, foram recorrentes também nos meios de comunicação brasileiros.
Desde o ano passado, toda uma construção de sentidos veio legitimando a aprovação da admissibilidade do pedido de impedimento da presidenta Dilma Rousseff. Assim, a “opinião pública” – em essência, a “opinião publicada” pelos órgãos de comunicação hegemônicos –, um elemento essencial deste processo, se mostrou garantida neste jogo.
Não era preciso, portanto, ir muito além neste domingo. Assim, a cobertura do dia da votação foi permeada por uma maior sutileza em relação à exposição dos posicionamentos dos grandes conglomerados midiáticos – seguindo a tendência dos últimos dias, como já tínhamos mostrado neste blog.
Exceções em tom mais agressivo ficaram a cargo de emissoras de rádio como a Jovem Pan, que transmite em cadeia nacional e manifestou sistematicamente, num discurso grosseiro e conservador, seu apoio à queda do governo.
A TV Globo anunciou que acompanharia as movimentações no Congresso Nacional a partir das 9h da manhã. Poucos minutos depois, começou a entrar com flashes do jornalismo em meio à programação de esportes e entretenimento.
A partir das 14h, com o início da sessão na Câmara, deu exclusividade à cobertura política. Durante todo o dia, o equilíbrio da reportagem foi bem maior do que no início da crise, quando a Globo atuou como agente político importante, conclamando a população a ir às ruas contra o governo.
Contudo, o equilíbrio pretendido foi apenas aparente. Uma análise atenta permite perceber as artimanhas do discurso. Até o início da votação, ele se baseou principalmente em dois pilares complementares: a defesa da legitimidade do processo de impeachment e das manifestações de rua a favor da derrubada da presidenta.
Logo em sua primeira participação, Alexandre Garcia tratou da derrubada de Fernando Collor, comparando os dois processos. Segundo o jornalista, desta vez, houve bem mais tempo entre o pedido de saída da presidenta e sua análise pela Câmara do que ocorreu com Collor, em 1992.
Garcia também afirmou que o Supremo Tribunal Federal (STF) legitimou o processo, ignorando as opiniões contrárias de dezenas de juristas que defendem não haver motivos legais para o impedimento de Dilma e o fato de o Supremo ter se debruçado sobre o rito e não sobre o mérito da questão.
Mais tarde, destacou os atos pró-impeachment, dizendo que “a cidadania está nas ruas, mostrando que não fica em casa pra ver a banda passar”. As “ruas” foram identificadas com uma parte dos manifestantes apenas, constituindo mais um argumento a favor da legitimidade da mudança no comando do país.
Ao longo das entradas ao vivo dos atos, os milhares de manifestantes que saíram às ruas em todo o país contra a medida foram caracterizados como ligados a partidos políticos, à base aliada do governo, a centrais sindicais e ao PT (representado pela cor vermelha, ignorando que o simbolismo político dela é mais amplo e anterior à existência deste partido).
Na manhã da segunda 18, a manchete na capa do portal d’O Globo era nítida: “Manifestantes contra Dilma comemoram; petistas choram”. Dessa forma, a legitimidade das “ruas” foi construída de acordo com a agenda política da emissora, que optou inclusivepor invisibilizar setores críticos ao governo, mas que protestaram em defesa da democracia.

Cobertura rasa
A estratégia do Grupo Globo, seguida por boa parte da mídia brasileira, também se manifestou na cobertura rasa dos fatos e na ausência de jornalismo de fato. Registros dos atos e de declarações de deputados foram abundantes. Não se viu, contudo, apuração, investigação, contextualização e problematização do processo em curso.

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Os argumentos que embasam o pedido de impeachment não foram apresentados, muito menos os de sua defesa. Nenhum convidado externo – nem mesmo um “especialista” alinhado ao posicionamento da Globo – foi convidado a discutir a situação do país.
Ao longo de toda a manhã, a GloboNews, principal canal jornalístico do país, se limitou a acompanhar atos favoráveis e contrários ao impeachment em diversas cidades, na cobertura comandada por Leilane Neubarth e Raquel Novaes. Uma vez mais, a escolha dos ângulos das imagens, em geral, favoreceu o primeiro grupo. Imagens muito abertas ou muito fechadas do ato em Copacabana contra o impeachment deram a entender que a quantidade de presentes era menor do que a realidade.
No Salão Verde da Câmara, após uma das entrevistas de Cristiana Lôbo com deputados, ao falarem dos parlamentares indecisos, Novaes chegou a questionar se a indecisão era porque eles não teriam chegado a uma conclusão jurídica ou se, de fato, o processo estava completamente “politizado”. A pergunta ficou sem resposta.
Apesar da crise profunda que vivemos, a política foi reduzida pelos meios de comunicação a artimanhas de bastidores e o processo do impeachment, a uma troca de ocupantes da cadeira. Assim, a suposta imparcialidade escondeu, na verdade, a escolha de não aprofundar a análise do fato e de suas implicações para o presente e o futuro do país.
A mesma abordagem tem marcado a cobertura do dia seguinte à votação. Os principais canais de TV insistem apenas em recuperar os números e movimentações que ocorreram no domingo e a descrever as próximas etapas do afastamento, agora no Senado. As críticas, uma vez mais, ficam a cargo da imprensa internacional.
O conservador La Nación, da Argentina, falou em “vergonhosa tentativa de golpe”. O Página 12 tamém destaca, na capa desta segunda, a ocorrência de um golpe, anunciado em letras garrafais na edição. A votação de domingo é definida assim: “em um virtual golpe institucional, a Câmara dos Deputados do Brasil, presidida pelo político mais denunciado por corrupção, aprovou o impeachment contra a Presidenta Dilma Rousseff”.

Cunha protegido
Se lá fora a ficha corrida de Eduardo Cunha é considerada um elemento central deste processo, por aqui ela está longe de ganhar destaque. A TV Globo, antes da votação, cuidou de contextualizar seletivamente as figuras políticas envolvidas no jogo. Enquanto o líder do governo José Guimarães (PT) mereceu uma associação ao irmão José Genoíno, condenado no processo do mensalão, o presidente da Câmara não teve sua reputação posta em xeque.
William Bonner chegou a lembrar que ele é alvo de processos, mas sem explicar quais ou informar que já há provas contundentes de corrupção praticada por Cunha, réu no Supremo Tribunal Federal e investigado pela Comissão de Ética da Câmara. Afinal, colocar dúvidas sobre quem conduz o processo de impeachment seria questionar a própria legitimidade da ação contra Dilma.
A imprensa escrita também aliviou para Cunha. Em matéria da Folha de S. Paulo que detalha biografias de participantes dos processos de Collor e de Dilma, Cunha é descrito como “presidente da Câmara dos Deputados, acolheu pedido de impeachment contra Dilma após ter perdido apoio do PT contra sua cassação”.
Já Dilma é a “acusada de ter praticado as pedaladas fiscais, entre outros” e Lindberg Farias é “senador (PT-RJ) investigado pela Operação Lava Jato, é um dos defensores de Dilma; afirma que o impeachment é ‘golpe’”.
Ao olharmos para a imprensa internacional, a diferença de abordagem fica clara. Nos últimos dias, The New York Times, The Wall Street Journal e The Washington Post, os três principais jornais americanos, destacaram as acusações que pesam contra aqueles que conduzem o processo de impeachment, especialmente Eduardo Cunha.
Nesta segunda, o britânico The Guardian, ao comentar a derrota do governo, não apenas citou corruptos como Cunha, Paulo Maluf e vários outros deputados que votaram contra Dilma quanto destacou o teor reacionário de suas falas.
“Numa noite escura, o ponto mais baixo foi quando Jair Bolsonaro, um deputado de extrema direita, dedicou o seu voto ‘sim’ à Carlos Brilhante Ustra, um coronel que chefiou a unidade de tortura do Doi-Codi contra a ditadura. Rousseff, uma ex-guerrilheira, estava entre os torturados”, escreveu o correspondente, fazendo críticas a diferentes partidos políticos brasileiros.
Depois das falas ouvidas neste domingo na Câmara, está claro que os desafios colocados são enormes. Um deles, até hoje não efetivado, embora reivindicado historicamente, é uma mudança estrutural no sistema de comunicação do país. Ou enfrentamos esse debate, mesmo em meio à crise, ou não garantiremos qualquer diversidade de vozes e opiniões na mídia, e o poder da liberdade de expressão seguirá nas mãos de poucos.
Outras vezes veremos a democracia ser atropelada pela articulação de instituições que se valem de seu poder político, econômico e simbólico para definir os rumos da vida coletiva do país. O Brasil acordou hoje mais cinza. E isso se deve também à ausência de reformas e à atuação dos meios de comunicação no jogo político.

* Helena Martins e Mônica Mourão são jornalistas e integram o Intervozes. Colaborou Iara Moura.

Espetáculo dantesco da Câmara pode matar o golpe

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POR PAULO NOGUEIRA, no DCM

Uma coisa que não estava absolutamente nos planos dos golpistas acabou se tornando a mais letal propaganda contra o golpe: a sessão da Câmara que aprovou o impeachment.

Nada poderia ser mais revelador sobre o espírito do golpe.

Deputados e deputados, nos escassos segundos em que estiveram à frente de microfones, compuseram um teatro do absurdo, da vergonha, da indecência.

Parecia uma festa no hospício, comandada por um psicopata.

Até a imprensa internacional está, nestes dias, fazendo piada dos motivos invocados na Câmara para o sim.

Pela família quadrangular, pela minha mãe Lucimar, pela minha neta, por remotas cidades Brasil afora, por Deus, por Deus, por Deus.

Isso sem contar Bolsonaro, que votou por um torturador de quem se diz que chegou a colocar ratos em vaginas de presas políticas.

Só faltou quem dissesse: “Por Eduardo Cunha! Por mim!”

Registre-se ainda o espetáculo de uma deputada que gritou aos pulos “sim, sim, sim” e citou como exemplo seu marido, prefeito de Montes Claros, preso no dia seguinte por desviar dinheiro de hospitais públicos.

Nas redes sociais, este voto saltitante viralizou.

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Foi o mais acabado retrato não só da Câmara que temos, comprada pelo dinheiro das grandes empresas via financiamento de campanhas, mas do golpe em si.

É inevitável que este espetáculo dantesco tenha efeitos imediatos na opinião pública, que já se dividira antes mesmo que os bufões declarassem seus votos ridículos abraçados a bandeiras do Brasil usadas da maneira mais baixa possível.

A grande sentença do intelectual inglês Samuel Johnson foi provada exaustivas vezes no plenário-picadeiro: “O patriotismo é o refúgio do canalha.”

Não.

Não é possível que o Brasil esteja à mercê de um grupo daquela espécie. Nas redes sociais, muitos apoiadores do impeachment confessaram seu choque ao ver quem defendia a causa deles – e como.

O desconforto dos que esperavam o sim acabaria sendo ampliado logo depois pelas informações que começaram a circular segundo as quais, fortalecido, Eduardo Cunha seria anistiado da roubalheira que promoveu.

Mesmo antipetistas convictos não contavam com essa: vestir a camisa da seleção, sair às ruas em nome do combate à corrupção, bater panelas – para depois ver como grande vencedor do movimento o maior corrupto da história da República. Não poderia haver final mais infame.

A sessão da Câmara haverá de ser um fator importante, talvez decisivo, nos próximos passos do processo de impeachment.

A mobilização pela democracia crescerá. Já está desfeita a falácia propagada pelas empresas de jornalismo de que o impeachment é uma unanimidade nacional.

Não é. É, sim, uma unanimidade entre os donos da mídia, que enxergam aí uma chance de meter a mão no dinheiro público. Temer, caso o golpe se realize, vai imediatamente satisfazer a sede de dinheiro público da Globo, da Abril, da Folha.

Isso ficou claro numa mensagem do presidente da Abril aos funcionários da casa por causa da sessão infame da Câmara. Nossa vida vai melhorar, bradou ele. Numa tradução livre e fiel, ele estava dizendo: “Os anúncios do governo vão voltar.”

Às 23 horas de domingo, quando o voto que deu a vitória ao impeachment foi anunciado, a sensação geral era que a história do golpe terminara. Hoje, vistas em detalhe as cenas da sessão, está evidente que não.

O voto de Bolsonaro e o país que não esquecemos

POR PAULO FONTELES FILHO
Bolsonaro
Na miríade das canalhices do último domingo, 17 de abril, entre traidores prosaicos, reconhecidos corruptos tipo Maluf, direitistas radicais passando por ex-esquerdistas convertidos ao Capital e os discursos burlescos de evocação da família e de deus, o que calou fundo mesmo na consciência democrática dos brasileiros foi à lembrança, infame, de um dos maiores torturadores da ditadura militar, Brilhante Ustra.
Anunciado como um ‘herói’ tupiniquim pela caratonha fascista de Jair Bolsonaro, deputado convertido à democracia cristã por puro oportunismo e eleitoralismo de cabresto, o episódio marca uma espécie de renascimento da extrema-direita brasileira, tida como fora de moda desde os fins dos anos de 1980, quando a UDR – uma organização fascista do grande latifúndio – manchava o campo brasileiro com o sangue de diversas lideranças da luta pela terra, entre advogados, religiosos, lideranças sindicais e, principalmente, de camponeses pobres.
Como um Ronaldo Caiado de trinta anos passados, Jair Bolsonaro parece ganhar os corações e as mentes dos partidários do conservadorismo brasileiro e vai costurando, entre o pensamento xiita de direita e um numeroso setor evangélico partidarizado, o PSC, uma engenharia política que irá fazê-lo concorrer à Presidência da República em 2018 ou até antes, se forem convocadas eleições gerais como antídoto e desdobramento da grave crise política em curso.
A frase atribuída ao poeta e compositor Antônio Carlos Jobim de que ‘O Brasil não é para principiantes’, no sentido de revelar a complexidade do país brasileiro exige a crença de que, aqui, os canalhas dos porões da tortura, dos assassinatos e dos desaparecimentos forçados não podem continuar zombando – numa verdadeira cruzada – da democracia e das liberdades públicas, tão caras ao povo e trabalhadores brasileiros.
O deprimente discurso do deputado fascista decorre do fato de que não concluímos, em mais de trinta anos, a nossa transição democrática e isso passa, também, pela punição exemplar dos lobos que o deputado sabe representar. A manutenção das premissas da Lei de Anistia, de 1979, faz com que a impunidade e o escárnio sejam uma prática tão corriqueira quanto às de racismo, homofobia, misoginia e xenofobia que assistimos na atualidade, impulsionada por uma grande mídia golpista e empresarial.
Se é verdade que a extrema-direita nunca teve competência política para transformar-se em força hegemônica, apesar de ter passado mais de vinte anos no poder, entre 1964/1985, é verdade também que a antiga fórmula adotada por Alexandre Inojosa, um dos principais articuladores da ultradireita brasileira na década de 1980, é bastante atual, ou seja, ‘do quanto pior, melhor’. O medo e o cinismo, irmãs siamesas, atuam nestes dias com  os mesmos métodos da Sociedade de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) em tempos passados, insuflando a violência e o anticomunismo.

Que a violação dos direitos humanos sempre começa pelo discurso do ódio e da intolerância e depois é usado como estratégia de guerra contra jovens negros das periferias, disso já sabemos. Como devemos saber que um torturador – aquele que investido de indescritível covardia é capaz de tudo para supliciar sua vítima – é o que há de pior na escala humana, o mais baixo e delinquente.

A conversão crente ao fascismo, e vice-versa, que faz recrudescer figuras do tipo Torquemada – o Grande Inquisidor do século XV – precisa ser desvendada e duramente combatida porque deus não deve estar gostando da repetição desse estelionato –  que em 64 realizou as Marchas da Família com Deus pela Liberdade – que mais uma vez reúne, como farsa, torturadores, as oligarquias e falsos profetas.
Não passarão!