Ustra, o torturador que virou ídolo dos golpistas

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POR VALDIR CRUZ

“Na tortura, a jovem Dilma Rousseff tomou um soco no rosto, que quebrou vários dos seus dentes e entortou a sua mandíbula para sempre. Ela foi eletrocutada nua com fios de alta tensão desencapados nos seios, na vagina, dentro da boca. Dilma foi pendurada, amarrada de ponta-cabeça, e levou tanto choque, que seus olhos se reviraram e a boca espumou. A barbárie foi tanta, que, pela dor intensa, fez ela desmaiar.

Um médico veio avaliar se a torturada ainda estava viva. Estava. E, depois que ela acorda, começa tudo de novo. Dilma ficou numa cela escura, com as próprias fezes e sangue por meses. Nesse interminável período de padecimento, aquela mulher forte e corajosa, ia apodrecendo, viva, e sendo mais torturada a cada dia mais e mais. O desumano torturador, facínora e sádico, tinha patente militar e nome: coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. O mesmo que foi homenageado  neste domingo (17) no Congresso Nacional pelo deputado Jair Bolsonaro.

Milhões de brasileiros, na sua ignorância (ou seria sadismo?) aplaudiram o gesto digno de um bandido da pior espécie de Bolsonaro. Lamentavelmente, somos um povo que gosta de linchamentos. Físico ou político, não importa. O que vale é ter alguém no lugar do Judas. Seja amarrado no poste ou julgado por corruptos com transmissão ao vivo na TV.

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Mico mundial: CNN detona o golpe de Cunha

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Longa reportagem da CNN denuncia o avanço do golpe no Brasil. Em matéria sobre a votação do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara, a jornalista norte-americana Christiane Amanpour fala em “meios anti-democráticos” para impedir o mandato de Dilma. O jornalista Glenn Greenwald fala sobre o caso no programa.

Confira aqui o vídeo, em inglês.

Golpe à moda paraguaia queima ainda mais a imagem do Brasil. 

Golpe foi tramado bem antes das “pedaladas”

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POR PLÍNIO BORTOLOTTI, em O POVO

Desde que se iniciou esse debate, nunca usei a palavra “golpe” para classificar o pedido de impeachment, nem nos textos que escrevi, nem nos comentários que faço no programa de rádio Revista O POVO/CBN. No entanto, desde que li reportagem publicada no Estado de S. Paulo (16/4/2016), com o título “G-8 do impeachment teve reunião durante um ano”, de autoria do jornalista Luiz Maklouf de Carvalho, questionei-me: que nome dar à coisa que foi consumada ontem, na Câmara, sob a presidência de Eduardo Cunha, réu no Supremo Tribunal Federal (STF)?

Na matéria, é descrito que desde abril do ano passado o deputado Heráclito Fortes (PSB-PI) vem reunindo em sua casa, em almoços, vários colegas de diversos partidos de oposição com o objetivo de achar uma brecha para pedir o impeachment de Dilma Rousseff. Nesse aspecto, eram orientados pelo jurista Nelson Jobim, ex-ministro e ex-presidente do STF. Um dos comensais era Danilo Forte (PSB-CE), que até pouco tempo atrás beijava a mão de Dilma.

Portanto, essa conjura acontece antes das tais “pedaladas”, autorizando a pergunta: essa prática não teria sido tornada “crime” (pois antes não era) pelo Tribunal de Consta da União (TCU) para se conformar a um pedido de impeachment adrede preparado? Ou seja, formulou-se a hipóteses do impeachment e depois criou-se um “crime” para justificá-lo.

Não se trata de uma “teoria da conspiração”, mas de observar, retroativamente, os sinais: o mandato da presidente começou a ser questionado mal ela foi eleita. O PSDB pediu “auditoria” das urnas eletrônicas, alegando que a “sociedade” estaria questionando “nas redes sociais” a “veracidade do resultado das eleições”. Mas o PSDB foi além, e requereu a cassação de Dilma ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e, pasmem, a nomeação do candidato perdedor, Aécio Neves.

Nenhuma das duas ações prosperou. Mas pelo que se vê o impeachment continuou vagando e, quem sabe, não tenha batido à porta do TCU, que resolveu abri-la?

PS. Para ver a reportagem no O Estado de S. Paulo: http://goo.gl/2dmNO8

Eliminação na Copa do Nordeste derruba Falcão

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POR MAURÍCIO BARROS, na ESPN

Paulo Roberto Falcão foi demitido do cargo de técnico do Sport. Aos 62 anos, com mais um fracasso, o Rei de Roma seguirá tentando provar que pode ser um bom treinador? Ou desiste de vez? Fico pesando se algum clube de ponta lhe daria uma nova chance e não encontro resposta. A carreira de Falcão é o oposto do que ele foi como jogador: trata-se de uma enorme decepção. Começou na seleção brasileira pelo cartaz que tinha como atleta. Vinte e cinco anos depois, vê no currículo dois títulos estaduais (um Gauchão e um Baianão) e duas outras conquistas com o América do México. Era pra ter brilhado mais, contribuído mais.

Não é só Falcão. Nenhum craque daquela seleção de 1982, o mais lindo escrete que tive o prazer de ver jogar, vingou no banco de reservas com uma carreira à altura da que teve como atleta. Os mais bem sucedidos foram Zico e Toninho Cerezo, mas ambos com sucesso em times ou seleções de segunda ou terceira linha. Lembremos de outros: Júnior durou alguns dias, Valdir Perez e Oscar desistiram, Serginho Chulapa tentou mas nunca emplacou.

Uma geração que fez tanto pela beleza do jogo deveria ter legado mais. Mas treinar é muito diferente que jogar. É preciso estudar o esporte, pensar estratégias, saber conversar, dominar a arte do relacionamento, entender os contextos, delegar. O fato de o sujeito ter sido um gênio como jogador não o credencia a ser um bom treinador. Maradona é outro exemplo.

Por isso caras como Cruyff e Beckenbauer são absolutamente especiais. Foram enormes nas duas funções. Souberam fazer a transição, ampliando sua contribuição ao esporte que tanto lhes deu. Lamento que os craques de 82 não estejam trabalhando como figuras centrais do nosso futebol. É algo que decepciona, um desperdício de legado.

FPF adia data da decisão do returno

Por falta de passagens aéreas para o próximo fim de semana, a Federação Paraense de Futebol alterou a data da decisão do returno do Parazão. O jogo entre São Francisco e Cametá (que eliminou o São Raimundo) ficou para 1º de maio, sendo que a final do campeonato foi transferida para o dia 8 de maio.

Essa tal liberdade

POR GERSON NOGUEIRA

O futebol permite, vez por outra, algumas digressões existencialistas. Grandes escritores modernos, como Albert Camus, estiveram envolvidos com a bola durante suas vidas. De certa forma, algumas partidas também podem adquirir uma simbologia que espelha o mundo real. Acompanhei na quinta-feira o jogo entre Atlético de Madri e Barcelona e ficou evidente ali que o esforço coletivo ainda pode superar as valências individuais. Graças aos céus.

Com um trio ofensivo portentoso – o argentino Messi, o uruguaio Luiz Suarez e o brasileiro Neymar –, o Barça joga como se tudo fosse fácil, a ponto de enervar seus adversários com a incessante troca de passes que termina sempre com o arremate de um dos três citados.

Chega a ser irritante até para quem vê o jogo pela TV. A explosão individual, a serviço de um esquema meticulosamente montado, faz do clube catalão um dos mais admirados do planeta. A admiração das multidões também produz uma forte rejeição.

Vi gente festejando entusiasticamente a vitória do exército Brancaleone de Diego Simeone. Não celebravam a supremacia atleticana, mas o inferno astral do quase invencível Barcelona. Coisas da bola, e da vida.

Simeone como atleta foi um dos mais nefastos volantes que já vi atuar. Mirava a canela dos adversários e fazia disso sua principal missão ao longo dos 90 minutos. Pelo empenho e perícia, devia adorar a vocação carniceira.

Como técnico não é lá muito diferente. Organiza seu time para não permitir que o adversário crie ou avance. Não por acaso, o Atlético joga muito duro, gosta do confronto físico. Contra um oponente que prefere o toque de bola, as sutilezas do passe e a alegria do drible, Simeone libera seus gladiadores para tornar o jogo uma luta incessante, privilegiando o choque.

Na quinta-feira, seu estilo triunfou, como já ocorreu ao longo da temporada passada. Marcou muito bem, anulou Messi, controlou Suarez e cercou Neymar. Não é algo que vá se repetir sempre, mas funcionou. Pragmático, o Atlético aproveitou as oportunidades criadas e não deu espaços ao Barça.

É sempre gostoso ver o mais fraco ou inferior triunfar sobre o mais poderoso. Não há como negar que o Barcelona, por tudo que se sabe, é um dos times mais fortes do futebol, daí a legítima efusão dos que preferiram o triunfo do Atlético de Simeone.

Foi um show de disciplina tática sobre o esplendor do talento individual que dá brilho ao time catalão. Acontece que, apesar das marcações táticas próprias do futebol moderno, continuo fiel ao conceito libertário tão bem executado por Luis Henrique no Barcelona.

Herdeiro legítimo de Johan Cruyff e Pep Guardiola, o técnico atual concede aos seus craques o quinhão de liberdade necessário para que façam o que lhes der na telha a partir da linha de meia-cancha. Ancorado na articulação de Iniesta, o trio MSN faz misérias quando tem a posse da bola.

Exercita à exaustão o conceito libertário de jogar bola, tão caro nos campos quanto na vida. Enquanto o time catalão tiver essa voracidade, cultuando seus craques, terá minha sincera admiração. Mesmo quando não atua bem e se deixa vencer, como aconteceu duas vezes nesta semana – ontem novamente.

O consolo é que nas próximas jornadas triunfará porque o talento é sempre invencível – e a liberdade é um bem inalienável em qualquer área de atividade, e na vida.

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O melhor técnico do campeonato

Pode ser que o São Francisco nem chegue à final do campeonato, mas não importa. Meu voto para técnico do campeonato é dele, desde já. Walter Lima. Pelo que fez ao longo da disputa, merece minha admiração e aplauso. Está à frente de um time que não tem opções no banco de reservas e, ainda assim, chega com justiça à semifinal do returno. E faz com que o São Francisco jogue bem, movimentando-se com agilidade e sem precisar recorrer ao tedioso recurso da retranca para garantir resultados.

Atrapalhou-se um pouco no sábado diante de um Paragominas que chegou a ameaçar a classificação à final do returno. O empate em 1 a 1 levou para a decisão em penais, vencida pelo São Francisco, que agora irá enfrentar o matreiro Cametá, que despachou o São Raimundo, ontem à noite, também na série de tiros livres da marca do pênalti.

É importante dizer que Waltinho vem se conduzindo de maneira exemplar há algum tempo. Desde os tempos em que apareceu nos campos de Santarém, primeiro como atleta, jogando como um meio-campista clássico. Camisa 10 de recursos que depois virou técnico.

Passou pelo Remo e montou o time que viria a ser campeão brasileiro da Série C em 2005, embora muitos esqueçam de reconhecer esse mérito. Em seguida, foi o mentor da estruturação que levou o São Raimundo ao título da Série D de 2009, o primeiro da competição.

Nos últimos anos, tem se dedicado a trabalhar com jovens atletas. Foi assim no Remo que alcançou as semifinais da Copa do Brasil sub-20 e, no ano passado, como orientador da Desportiva, que participou da Copa São Paulo de Juniores.

De estilo pouco convencional, Waltinho é uma espécie de missionário do futebol. Dedica-se a preparar e treinar jovens jogadores com a paciência que quase nenhum treinador costuma ter. Em geral, “professores” entendem que não precisam perder tempo ensinando fundamentos a seus atletas. Errado. Mestre Telê fazia isso sempre. Cilinho também.

Aqui, por sorte, temos Walter Lima, que insiste em nadar contra a corrente e ainda encontra tempo para pegar um atacante pelas mãos e ensiná-lo a correr com a bola dominada. Faz isso toda semana nos treinos do São Francisco. Só essa dedicação e visão tradicionalista do jogo explicam como o limitado elenco do Leão santareno se agigantou e chegou à fase decisiva do segundo turno, posicionando-se entre os três melhores na pontuação geral.

Continuo convencido de que o futebol precisa de mais Waltinhos.

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Recado aos navegantes

Aos combatentes da liberdade que me acompanham por aqui e me seguem nas redes sociais quero dizer que nenhuma batalha é vã ou inútil. Certos percalços podem significar uma pausa a caminho de vitórias maiores. Resistir sempre, amofinar jamais. Vida que segue.

(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 18)