Sobre o fechamento de escolas em S. Paulo

POR ANDRÉ FORASTIERI, no R7.com

Eu quero pedir uma coisa ao governador. Mas antes preciso explicar umas coisinhas sobre São Paulo e sobre Geraldo Alckmin. Para quem mora no estado e para quem não mora. O que acontecer agora com as escolas paulistas interessa a todos os brasileiros. Em 2018 teremos nova eleição para presidente da república. Alckmin é pré-candidato. Tem boas chances. Especialmente se seu opositor for do PT.
Geraldo Alckmin está no poder no estado de São Paulo desde 1994, e na política desde os anos 70. É do interior, Pindamonhangaba, onde foi vereador e prefeito. Foi um dos fundadores do PSDB, em 1988.
Foi vice-governador de Mário Covas duas vezes. Nesse período, foi também responsável pelo programa de privatização do Estado. Está no quarto mandato como governador.
Esteve fora do poder brevemente, quando saiu do governo para se candidatar a prefeito de São Paulo. Perdeu mas logo foi realojado como secretário de desenvolvimento do estado, no governo de José Serra.
Alckmin tem forte apoio dos grandes do estado, na indústria, agricultura, mercado financeiro, comunicação. Seu discurso é sempre pelo trabalho, pelo progresso, pela ordem. Alckmin tem muitos eleitores mas não tem fãs. Representa melhor que qualquer outro tucano o antipetismo do paulista (e principalmente do paulista do interior). É afável no trato, mas não na hora de escalar seus auxiliares, frequentemente duros na hora de lidar com interesses contrários na sociedade.
São Paulo é disparado o estado mais rico do Brasil. Tem 3% do território nacional e 22% da população do país. Somos 44 milhões de paulistas. Se fosse um país independente, seria uma das 20 maiores economias do mundo.
Vive-se melhor aqui do que em outros lugares do Brasil. Aqui tem muita riqueza, e muita, muita pobreza, e uma classe média gigante. Do plano Real até hoje, o Brasil teve vento a favor nuns 80% do tempo. A economia paulista cresceu muito nesses anos. O governo estadual fez pouco nessas décadas? Não, fez muito. Mas fez pouco, se você se guiar  pelos índices. Objetivamente, o crime só piorou, a saúde é ruim, o transporte segue terrível. Os números estão aí.
Mas não há escândalo maior do que a deficiência de São Paulo em educação. Sim, São Paulo tem uma educação público melhor que os outros estados.  Não, isso não é grande vantagem. E pelo contrário, escamoteia o que deveria ser escancarado.
Que é: pela riqueza do estado de São Paulo, nossas crianças e jovens deveriam ser bem educadas, do maternal ao doutorado. Nossas escolas deveriam ser bem equipadas. Nossos professores deveriam ser bem remunerados. Hoje não é assim. E muito pelo contrário.
Tanto que estão aí as escolas sendo fechadas, sem explicação, sem diálogo com pais, professores, alunos. E vá perguntar para os professores das universidades paulistas como vai o ensino superior…
Na frase clássica de propaganda, “Educação é dever do estado e direito de todos”. Mas direito nunca é uma coisa que te dão. É exclusivamente o que você conquista e consegue defender. É o que tentam fazer, à maneira deles, os alunos que ocupam quase 200 escolas em todo o estado: defender seu direito à educação.
Estão certíssimos. Não se trata de discutir se as escolas deveriam ser fechadas ou não, se seria melhor ter escolas só com fundamental, outra só com médio etc. Se trata de deixar claro para o governador que ele não tem poder de decretar o fechamento de escolas sem discutir essa questão com a sociedade. Não pode fazer isso na base da canetada não. Ponto final e acabou o assunto.
Os paulistas e os brasileiros em geral precisam aprender que democracia não acontece a cada quatro anos, na hora do voto. Acontece todo dia. E democracia não se faz com bons modos e “sem baderna”. Democracia é diálogo, é debate, é conflito. É às vezes ocupação, sim. Sem poder de pressão não há possibilidade de negociação. O governo tem poder. Agora os alunos também têm – se os apoiarmos. Irrestritamente.
Ganhar a eleição não é receber um cheque em branco da população. É conquistar um voto de confiança. E é sua responsabilidade, Geraldo (vamos conversar agora de igual para igual, pode ser?) demonstrar a cada novo dia que é digno da confiança que a maioria dos paulistas depositou em você.
Olha, sejamos pragmáticos. Você tem só 63 anos, uma longa carreira política pela frente. Suas chances em 2018 e em outras eleições serão melhores se você não tiver que explicar aos eleitores da nação porque fechou todas essas escolas em São Paulo. Então considere o meu pedido, que que é o de muitos outros paulistas, os que votaram você e os que não votaram. Pelos pais, pelos alunos, pelos professores, e pelos seus próprios interesses e currículo, Geraldo, cancela essa barbaridade de fechar escola. Demite esse secretário de educação, que já demonstrou não ter o menor jeito pra lidar democraticamente com a discordância. E vamos mudar de assunto.
Aliás, que tal falarmos da falta de água? Aqui em casa continuo com as torneiras secas, Geraldo…

Um comentário em “Sobre o fechamento de escolas em S. Paulo

  1. Até o momento em que se dirigiu direta e pessoalmente ao governador e com legítima autoridade de cidadão o chamou para uma conversa, o articulista traçou um excelente desenho da situação político-econômico-social do caso específico de São Paulo, mas que tem perfeito cabimento generalizante para a situação do Brasil, inclusive, e, principalmente, naquele aspecto em que diz que “Ganhar a eleição não é receber um cheque em branco da população. É conquistar um voto de confiança”. E que é ‘responsabilidade do governante demonstrar a cada novo dia que é digno da confiança que a maioria dos eleitores depositou nele’.

    Curtir

Deixe uma resposta