Por Toquinho
“Ele me ensinou a cumprir horários, a observar compromissos, a respeitar as pessoas.” Quando comecei a trabalhar com Vinicius, em junho de 1970, ele ainda evitava viajar de avião. Então fomos para a Argentina de navio. Eu sentia uma sensação estranha, não sabia direito o que é que eu ia fazer lá. De repente, estava a bordo de um navio junto com Vinicius de Moraes, um ser humano grandioso de quem eu só conhecia o que ele tinha escrito e cantado por aí.
Houve uma adaptação perfeita entre a gente, porque tudo que Vinicius gostava de fazer eu também gostava: tocar violão, curtir os temas que iam saindo, comer bem, viver a noite ao lado de amigos e mulheres bonitas. Voltei da Argentina com aquela sensação gostosa de ter trabalhado com Vinicius. Ainda não tinha saído nenhuma música nessa primeira viagem. Já no navio eu tinha mostrado a ele um tema que eu estava desenvolvendo. Ele gostou da ideia, ficou curtindo, mas não colocou letra. Isso aconteceria quase dois meses depois. Vinicius estava casado com a baiana Gesse, que arrumou para fazermos três shows no Teatro Castro Alves, em Salvador, nos dias 6, 7 e 8 de setembro.
Esse era o Vinicius. Segundo ele, nossa relação era como um casamento sem sexo. O resto tinha tudo, ciúme e inclusive algumas brigas, claro. No fundo, e o mais importante, um grande amigo que a vida escolheu para morrer quase em meus braços. Sentindo-me, de início, um objeto da blasfêmia da vida, eu admitiria depois como um privilégio ter sido o escolhido para vivenciar as últimas horas do poeta.”
