Um clássico meia-boca

POR GERSON NOGUEIRA

O Re-Pa, essa eterna vaca leiteira, já serviu a vários propósitos. Alguns pouco honrosos, como torneios chinfrins inventados pela Prefeitura de Belém. A última extravagância envolvendo os dois mais tradicionais clubes do Norte atende pelo nome de Copa da Amazônia de Futebol, nome pomposo e inadequado (o Bahia também participa) para tentar atrair a sempre fanática massa torcedora paraense.

Pode até funcionar como caça-níquel – embora a venda de ingressos até ontem fosse inteiramente pífia –, mas é um desserviço ao Campeonato Paraense, que tem início marcado para o dia 1º de fevereiro. Vai tirar muito da expectativa que se tinha em relação aos dois novos elencos dos velhos rivais.

unnamed (54)De pires na mão, angustiados com os meses de faturamento zero, Leão e Papão submeteram-se à proposta de uma empresa acostumada a grandes torneios internacionais, mas que conhece bem pouco dos costumes e da cultura futebolística local.

Caso tivessem se dado ao trabalho de fazer uma pesquisa informal, os promotores da tal Copa terão sido avisados sobre a conhecida aversão do torcedor em relação a torneios amistosos, que não valem título ou acesso.

Há quem compare com aquele Goiás x Corinthians de novembro passado, quando 22 mil torcedores compareceram ao Mangueirão também numa quarta-feira à noite, pagando R$ 50,00 pela arquibancada. A singela diferença é que o jogo valia três pontos na reta final da Série A.

Papão e Leão estão em pleno andamento de seus preparativos para o campeonato estadual, treinando e procurando condicionar jogadores recém-chegados. Não por acaso, os dois técnicos se mostraram contrários ao torneio. Qualquer profissional teria a mesma posição.

Não é impossível que os times façam um jogo agradável e até interessante. Afinal, o Re-Pa tem dessas coisas. É claro que tudo vai depender da atuação individual e do fôlego de jogadores como Eduardo Ramos, Pikachu, Roni e Bruno Veiga. No aspecto coletivo, muito pouco se pode esperar.

Caso não chova, a torcida talvez até resolva ir, por curiosidade e aproveitando a liquidação dos ingressos (que baixaram de R$ 50,00 para R$ 25,00), depois que o torneio esteve a pique de ser cancelado.

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Bom Senso ganha status junto ao governo

Com a saudável novidade da presença de representantes do Bom Senso F. C., o governo lançou hoje um grupo de trabalho para formular, em 15 dias, o texto de uma Medida Provisória para normatizar a repactuação da dívida dos clubes com o setor público brasileiro. A inclusão da entidade dos jogadores profissionais é uma conquista democrática, avalizada pela presidente Dilma Rousseff, cumprindo promessa dada aos atletas antes da Copa do Mundo.

Na última segunda-feira, Dilma já havia vetado o artigo 141 da Medida Provisória 656, aprovado na Câmara e no Senado, que reduzia e refinanciava dívidas dos clubes com o governo federal. CBF, clubes e federações sonhavam com a sanção presidencial, desde que adotadas contrapartidas. Nova vitória do movimento Bom Senso F.C., que fez campanha pelo veto total à medida.

Malandramente, a regra havia sido incluída na MP que tratava de subsídios para a compra de aerogeradores, engenhoca que permite a captação de energia dos ventos. Esse tipo de recurso tem o apelido no Congresso como “contrabando legislativo”.

A emenda havia passado no Congresso enquanto movimento, CBF, clubes e governo discutiam o projeto de Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte (LRFE), que exige mais transparência na gestão e nas diretrizes dos clubes de futebol. As regras gerais presenteavam os clubes devedores com o parcelamento em até 340 prestações mensais em débitos tributários e não tributários com o governo, com redução de 70% das multas, de 30% dos juros e de 100% dos encargos sem nenhuma contrapartida.

Com o veto, clubes e governo retomarão o diálogo, buscando chegar a um consenso quanto ao saneamento das dívidas, mas sem maracutaias.

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Guia do Parazão: tradição que se renova

O DIÁRIO, fiel a uma tradição de quase 10 anos, lançará no próximo dia 1º de fevereiro o caderno especial Guia do Parazão, contendo todas as informações sobre o Campeonato Paraense, desde ficha técnica dos jogadores, retrospecto dos dez times participantes e o tabelão da competição.

Quem precisar saber qualquer detalhe sobre os times do torneio terá em mãos uma resenha completa, ilustrada com fotos e infográficos, além dos escudos das equipes. Em papel especial, o Guia do Parazão terá 12 páginas e circulará com a edição do dia da abertura do campeonato.

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Um craque será o novo técnico do Real

Grandes clubes não são vencedores por acaso. O Real Madri, que promove hoje as maiores gastanças do mundo da bola, já definiu o nome de seu próximo técnico. Quando Carlo Ancelotti deixar o comando, Zinedine Zidane assume o bastão. Nada mais justo, meritório e inteligente.

Zidane foi um dos maiores meio-campistas da história do futebol e é um nome hoje profundamente identificado com o clube merengue. Tem acompanhado de perto, como um auxiliar de luxo, o trabalho dos últimos treinadores, absorvendo tudo o que pode para abraçar a nova profissão.

Alguém tem dúvida de que será um vencedor também fora das quatro linhas? Eu não.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 21) 

O vazio que entristece e empobrece

No amistoso contra o Shandong Luneng, realizado no último final-de-semana no Allianz Parque, o público foi de aproximadamente 27 mil pessoas, que proporcionaram uma renda de mais de R$ 1,5 milhão aos cofres do Palmeiras. Nada mal para um coletivão que tinha como maiores objetivos dar ritmo de jogo aos atletas e colocar na vitrine algumas peças que Oswaldo de Oliveira não deve aproveitar na temporada.

Mas repetiu-se o fenômeno que vemos em estádios brasileiros nos últimos tempos, sobretudo nas novas ditas “arenas”: áreas atrás dos gols lotadas e as laterais do campo às moscas, num contraste tão grande que é impossível não ter a certeza que há algo errado.

A razão, claro, é o valor praticado pelos clubes para os setores de visão mais privilegiada. A lógica é simples: por lugares melhores, cobra-se mais caro. É justo. Mas o acréscimo no valor dos bilhetes pelas melhores cadeiras tem que ser proporcional ao valor percebido pelos torcedores de forma a ocupá-los. Cobrar R$ 250 pelo valor cheio da cadeira central, contra R$ 40 da ferradura, é irreal. E não sou eu quem está dizendo isso, são os clarões nas cadeiras.

Não gosto do argumento populista para defender a diminuição do valor dos ingressos que se inicia com “futebol é o esporte do povo, este povo sofrido do nosso país que precisa extravasar a tensão do dia-a-dia”, seguido por todas aquelas frases sentimentais que acompanham esse tipo de preâmbulo. O futebol se inseriu num contexto mercantil e quem quiser se destacar precisa se adequar às novas necessidades. Nenhum dirigente tem o direito de fazer caridade com o preço dos ingressos e assim dilapidar o patrimônio do clube, que precisa maximizar o uso de seus recursos para montar times fortes e brigar por títulos.

De forma análoga, o processo de precificação deve ter como objetivo a combinação ideal entre estádio cheio e renda generosa, para obter ganhos técnicos e financeiros. Para isso, é necessário desenvolver um modelo econométrico baseado em séries históricas sólidas. Além do preço praticado, há que se levar em conta variáveis como o nível técnico do time e do adversário, importância do jogo, clima, últimos resultados, fator motivante (uma estreia ou uma polêmica), fase do campeonato, entre tantos outros.

De bate-pronto, parece óbvio que a diferença entre o ingresso mais caro e o mais barato precisa diminuir – e quem sabe, ao fazer isso, mesmo cobrando menos nas cadeiras centrais, a renda final não seja maior, com um estádio mais cheio? De qualquer forma, a solução deve ser encontrada usando um modelo científico. Atualmente, a precificação é feita no “feeling”.

Que é possível, é. No último final de semana, tivemos o estádio Riazor, em La Coruña, com 70% de ocupação para ver o confronto do Deportivo contra o Barcelona. Em Milão, o Milan foi derrotado pela Atalanta num estádio com pouco mais de 30% da capacidade tomada. A ocupação das cadeiras centrais nos dois prélios, no entanto, parecia equilibrada com os outros setores das arquibancadas. Cabe às diretorias dos clubes brasileiros resolver mais esta bizarrice. Se futebol não comporta mais preços de caridade para se manter competitivo, precisa profissionalizar todos os processos que o envolvem. Não há mais espaço para “feeling”.