Por Gerson Nogueira
Desde meus tempos de moleque lá em Baião atinei para o fato de que existia uma hierarquia do futebol muito bem desenhada no Brasil, quiçá no mundo. Esse quadro incluía algumas poucas instituições reconhecidamente importantes naqueles tempos, o glorioso final dos anos 60, de bom futebol e rock melhor ainda.
Além dos óbvios Santos e Botafogo, havia o Cruzeiro e o Palmeiras. Dos alvinegros que encabeçavam a lista não é preciso dizer muito, pois a própria história se encarrega de falar por eles. Lembro perfeitamente de uma velha capa da revista Cruzeiro, ainda digna da fama, com o Cruzeiro de Raul, Dirceu Lopes, Natal e Tostão. Camisa belíssima, com estrelas flamejantes a vesti-la.
Nesse mesmo período, meu pai José falava o tempo todo da Academia. Cheguei inicialmente a pensar que era alusão à universidade ou algo do gênero. Não, era um time de futebol. Um baita time que ganhava quase tudo, embora prejudicado em São Paulo pela glória do Santos de Pelé.
Com dois homens iluminados atuando no meio-campo, segundo as palavras do meu velho, com o devido reforço das narrações entusiasmadas do nobre Fiori Gigliotti. E havia ainda o suporte dos acordes luxuosos do hino palestrino, cujo início fala do “alviverde imponente”.
Alguns anos depois, já estudando em Belém, revendo jogos daquele Palmeiras sensacional, entendi que ele se referia à dupla Ademir da Guia e Dudu. Ou o contrário, como manda a etiqueta futebolística. Dudu & Ademir estão para a história palmeirense como Lennon & McCartney para a música ou o Gordo e o Magro para a comédia.
É, portanto, baseada em dois artífices da bola, a minha memória do Palmeiras vitorioso dos anos 60/70. Que teve ainda Valdir, Eurico, Rosemiro, Valdemar Carabina, Leão, Leivinha, Luís Pereira, Edu, César Maluco. E depois contou com Veloso, Marcos, Evair, César Sampaio, Djalminha, Zinho, Edmundo.
Sempre me impressionou a força que o Palmeiras tinha em São Paulo, quase sem repercussão maior no resto do Brasil. Ao contrário do que se pensava aqui de fora, o clube não se restringia aos amores da colônia italiana. Era (e continua a ser) uma instituição paulista por excelência. A ausência de grandes títulos depois de seus timaços montados na era Parmalat coincidiu com a explosão do futebol televisionado para todo o país e com a ascensão do rival São Paulo, logo secundada pelos êxitos do arquirrival Corinthians.
A penúria pós-Parmalat levou a duas quedas seguidas para a Segunda Divisão, fatos que tornaram o torcedor palmeirense ainda mais apaixonado, como é próprio da tradição do futebol. E não nos iludamos: é esse amor incondicional que está sendo comemorado nesta semana, pois só o amor de uma legião de adeptos é que faz um clube ser realmente grande.
Parabéns, Palmeiras!
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Mais um estranho negócio da bola
O lateral Douglas do São Paulo foi anunciado oficialmente ontem como negociado com o Barcelona. A transação despertou espanto geral quando foi revelada, pois estamos falando de um jogador desconhecido e sem maior brilho, além de ostentar um histórico sem grandes atuações. Há dois anos no Tricolor paulista, oriundo do futebol goiano e nada mais, nunca foi craque da rodada, não há lembrança de crônicas saudando seu futebol.
Estranho que o Barcelona venha lá de longe pagar quase R$ 11 milhões por esse lateral quase anônimo. Mais estranho é que ninguém questione neste Brasil que já foi bom de bola.
Só não é surpreendente se levarmos em conta que Daniel Alves teve um caminho mais ou menos parecido com o de Douglas e até hoje é reconhecido, pelo menos até a última Copa, como grande jogador.
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Paraenses que brilharam no Botafogo
Recebo do amigo alvinegro Ronaldo Passarinho um oportuno e esclarecedor recadinho: “Caro Gerson, paraenses que atuaram no Fogão além dos citados na coluna de hoje: Mimi Sodré (Almirante Benjamin Sodré), Nilo Braga (pai da atriz Rosamaria Murtinho), Otávio de Moraes (filho de Eneida), Quarentinha (o maior artilheiro do Glorioso). O detalhe interessante é que todos foram atacantes. Como é bom torcer pelo Botafogo”.
Como é bom ter leitores bem informados.
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Só o pênalti faz o bom goleiro
Em entrevista na TV, ontem, o ex-goleiro Marcos fez uma observação curiosa, mas pertinente. Segundo ele, a fórmula de disputa do Campeonato Brasileiro, sem mata-mata ou decisões extras, dificulta a formação de grandes goleiros no país. Faz sentido.
Lembrou seu próprio exemplo. Marcão foi um goleiro que se notabilizou pela facilidade para defender penalidades, pois era muito testado no Palmeiras em competições que incluíam decisões nos penais. Por essa qualidade acabou chegando à Seleção, onde se consagrou em 2002.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 27)
Engraçado, nunca achei Dudu craque, mas mediano em um time de craques. Já a era parmalat foi fácil, por causa do dinheiro que jorrava. Deu no que deu, a empresa faliu. Sobre Marcos, discordo totalmente. Prova disso é que o melhor pegador de pênaltis da Holanda era o terceiro goleiro. Leão, pra não sair do pirco, era um grande arqueiro e não pegava penais. Marcos, Tafarel e Dida foram exceções e não a regra. E se asim fosse, Neuer não seria o melhor arqueiro, porque o campeonato germânico é de pontos corridos. E tem mais, os melhores goleiros seriam os da copa do Brasil. Tese furada.
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Pra corroborar o erro de Marcos, acabo de ver na espn a última penalidade da Libertadores 99. Zapata chutou pra fora.
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O Palestra Itália teve seus melhores momentos na Era Parmalat onde tudo certo, já nas décadas de 60 e 70, contava com bons jogadores.
Também acredito na teoria do Marcos errada; é ultrapassada. E ainda se perguntam porque nossa seleção CBF tomou de 7.
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O Marcos está 50% certo, pois jogos decisivos (de mata-mata) podem sim coroar um goleiro e no caso do dele, considero sua maior atuação, aquela pelas semifinais da Libertadores de 1999, contra o River Plate no Monumental de Nunes, em que Palmeiras perdeu de 1×0 e reverteu o resultado com um 3×0 na volta. Agora, quanto aos penais, acho que eles proporcionam mais fama do que boa formação ao goleiro, por exemplo, o Taffarel ficou famoso pelos penais mal batidos que defendeu em copas, mas teve uma carreira fraca nos times em que passou, chegou a amargar reserva em times pequenos da Itália e ficou quase um ano desempregado após a conquista do tetra.
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O Palmeiras saiu da B, mais a B não saiu do Palmeiras.
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