Por Gerson Nogueira
Os fatos mais relevantes da semana para o nosso futebol passaram quase em brancas nuvens, mas as duas decisões, da Assembléia Legislativa e da Câmara Municipal de Belém, aprovando projetos que tornam inalienáveis os patrimônios dos clubes paraenses, têm tudo para representar a salvação das agremiações mais tradicionais do Estado.
Sujeitos a todo tipo de ataque, alguns rasteiros, outros com jeito de fogo amigo, Remo e Paissandu estiveram a pique de perder patrimônios importantes nos últimos anos. Os remistas quase ficaram sem o estádio Evandro Almeida, que iria ser “permutado” pelo então presidente, a preço aviltado, com o pretexto de pagar dívidas trabalhistas.
O Paissandu está às voltas com o leilão de sua sede social, para pagamento de pendência milionária com o ex-jogador Arinelson. Depois de cochilar durante quase quatro anos, o clube se defronta com uma dívida monstruosa e a Justiça decidiu pelo leilão do imóvel.
Os projetos que foram aprovados na AL e CMB – e que ainda dependem de sanção, respectivamente, do governador e do prefeito de Belém – significam que nunca mais dirigentes omissos e negligentes poderão causar prejuízos irreversíveis aos clubes. Nenhum bem dessas agremiações poderá ser alienado para quitação de dívidas ou moeda de troca ao sabor de gestores inescrupulosos.
Na AL, foram aprovados três projetos de lei de autoria do deputado Raimundo Santos, líder do PEN. Clube do Remo, Paissandu Sport Club e Tuna Luso Brasileira, a partir da lei sancionada pelo governador, passam à condição de Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Estado do Pará.
O autor dos projetos argumenta que os três clubes fazem parte da história de Belém e do Estado do Pará. Como prova da consciência de todos quanto à necessidade de preservação do patrimônio das três instituições, os projetos foram aprovados por unanimidade, em primeiro e segundo turnos, além de redação final, após também terem sido avalizados pela Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa.
Vale observar que a Unesco considera patrimônio imaterial “práticas, representações, expressões, conhecimentos, técnicas, além de lugares culturais associados a comunidades, grupos étnicos, reconhecidamente como integrantes do patrimônio cultural do município, estados ou países”. Os projetos estão, portanto, inteiramente adequados ao conceito universal e moderno de patrimônio cultural.
Na Câmara Municipal, o projeto do vereador Raimundo Castro impede que as associações esportivas que possuam título de Utilidade Pública Municipal (Remo, Paissandu, Tuna, Imperial, São Domingos, Sacramenta etc.) tenham seus patrimônios colocados em hasta pública por irresponsabilidade de suas diretorias.
Há quem defenda a tese de que o patrimônio não deveria se tornar inalienável, a fim de favorecer transações bancárias ou outros investimentos. Ocorre que as leis estão sendo criadas – como já ocorre em outros Estados – justamente para defender o clube dos maus dirigentes. Quando forem sancionadas, cessará a ameaça que paira hoje sobre a história e a representação física de agremiações tão tradicionais.
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Felipão: a melhor escolha
Ainda sob o impacto da escolha de Luís Felipe Scolari para comandar a Seleção Brasileira na Copa de 2014 muita gente anda fazendo exercícios mirabolantes e inúteis quanto ao nome ideal para o cargo. É inútil porque o fato está consumado. E é mirabolante porque envolve delírios, como a tese de contratação de Pep Guardiola para uma inédita experiência no escrete.
Quem acompanha o futebol brasileiro sabe que a aceitação de um técnico estrangeiro é questão de tempo, mas jamais ocorreria para um torneio que será realizado em solo nacional.
Apesar das palavras desencontradas e incoerências próprias da CBF, a escolha de Felipão foi a decisão mais lógica e lúcida. Quanto à competência, não há o que questionar. O técnico campeão de 2002 tem currículo recheado de conquistas, principalmente em torneios de tiro curto, como é a Copa.
Não vamos nos iludir. Os demais treinadores (talvez com a exceção de Vanderlei Luxemburgo) seguem a mesmíssima cartilha gaúcha de Felipão. Muricy, Tite, Abel e similares jogam com defesas fechadíssimas, marcação forte no meio-de-campo e bola aérea como principal recurso ofensivo. Acho mais vantajoso apostar no original, ao invés de prestigiar as cópias.
Vejo uma vantagem extra na volta de Felipão. Com ele no comando, cessam as convocações esquisitas, bem ao gosto de Mano Menezes (e Andrés Sanchez), para quem a Seleção havia se tornado extensão do Corinthians.
Felipão vai surpreender nas escolhas, mas é certo que irá chamar os melhores. Não esquecerá os mais cascudos (Kaká, Ronaldinho, talvez Robinho) e saberá valorizar os jovens talentos (Neymar, Oscar, Arouca e talvez Ganso).
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Novos rumos para o Paissandu
Vandick Lima venceu a eleição e, conforme preferência da maioria da torcida, vai presidir o Paissandu pelos próximos dois anos. Tem a chance de imprimir mudanças radicais no clube, corrigindo a rota tortuosa em que se encontra e recuperando sua credibilidade.
A vitória oposicionista é, obviamente, uma reprovação pública à tresloucada gestão, que atrapalhou a vida do clube nos últimos quatro anos. Que o Paissandu trilhe novos rumos, a partir de janeiro.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 02)
Sendo assim, o Remo estará condenado a jogar para sempre num chiqueiro e nunca possuir um estádio melhor? Eu estava pesquisando alguns times do Brasil e que inveja que eu senti de ABC, Juventude, Caxias, Criciúma, Ponte Preta e outros, todos com estádios infinitamente melhores que o Baenão. O Remo deveria construir um empreendimento comercial no Baenão, com isso ganharia dinheiro e construiria um estádio melhor. De que adianta ter um estádio no centro da cidade, se não tem como ampliá-lo para receber grandes jogos e consequentemente grandes públicos? Li que a dívida do Guarani é superior a 200 milhões, portanto, incomparavelmente superior a dívida do Remo que sequer consegue disputar a Série C.
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Amigo, desde quando patrimônio foi feito para ser desmanchado como desculpa para crescimento e progresso? Existem outros caminhos para um clube sair do buraco, principalmente clubes populares, como os nossos.
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Acho que deveriam criar uma lei para acabar com eleições indiretas nos clubes além de barrar candidaturas de gestores com mais de 65 anos, para essa velharada se mancar.
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Discordo de você, Gérson. Tornar inalienável o patrimônio dos clubes será uma tragédia para Remo e Paysandu! Que farão os credores agora que não podem penhorar estes patrimônios? Partirão para o bloqueio dos patrocínios e bilheterias, as fontes de recurso que restaram, talvez até se apossem dos direitos federativos de alguns atletas. O resultado – os clubes ficarão sob uma asfixia financeira ainda maior daqui para a frente. Ao mesmo tempo, ficarão condenados ao atraso, uma vez que não podem vender seus patrimônios, já ultrapassados. Esta leis infelizes os condenaram à penúria e ao atraso eternos!
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Respeito a opinião, mas trágica é a situação atual, meu camarada. Com cerca baixa, qualquer dirigente pilantra arma jogadinha trabalhista e tira sua bela comissão às custas do patrimônio de um clube. Isto já aconteceu, esteve quase por acontecer no Remo e pode rolar no Paissandu agora.
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Que os clubes vão fazer quando começarem a chegar maciçamente os bloqueios de patrocínio e de bilheterias, Gérson?
Se o dirigente é safado, ele vai continuar faturando, não mais em cima do patrimônio, mas em cima das receitas bloqueadas. Nada mudará neste ponto.
As leis protegem o corpo do doente, mas retiram-lhe o oxigênio. É o tal remédio tão forte que mata a doença e o paciente junto!
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Uma pergunta Gerson: afinal, o projeto impede que o imóvel vá a hasta pública somente ou impede qualquer outro tipo de alienação?
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O que é feito pode ser desfeito. então liminar derruba liminar e lei revoga lei.
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Gostaria de saber se essa lei obriga os clubes a restauração do patrimônio, ou prevê algum incentivo a isso, via IPHAN ou outra entidade. Dessa forma o benefício poderia valer realmente a pena.
De outra forma, será exatamente o que o César Mendes colocou, patrimônios culturais desvalorizados materialmente e cobradores à porta para asfixiar o clube de outras formas. Muda o cofre mas as dívidas continuam. E então? Será que o problema não está em outro lugar?
Sobre os dirigentes, não mudou muita coisa. Continuam aviltando o Clube do Remo.
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Engraçado q se fala q tem outros caminhos para o clube sair do buraco, ams ninguem fala. interessante este ponto. e outra: além de diretores munias, agora existe os comentariastas mumias, q não enxergam que os clubes tem q evoluir e poderiam muito bem trabalhar seus complexos, inclusive alugando os terrenos e ai cosntruir seus estadios modernos e confortaveis, se for assim, gremio nçao demoliria seu estadio, bem como fizeram guarani, abc e tants outrso q esta crescendo e nosso clubes estão ai a mingua, e ninguem tem uma ideia decente para melhorar.
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A preservação do patrimônio da dupla Re-Pa através de um porjeto de lei que dá aos mesmos a condição de patrimônios históricos e culturais do Estado pode amarrar os titãs ao imobilismo e pode impedir, inclusive, que as praças esportivas sejam reformadas, sob o risco de alterar suas linhas arquitetônicas originais, algo que é proibitivo em caso de tombamento. O que dá pra rir, dá pra chorar. Ao mesmo tempo em que salva o clube de aventureiros mal intencionados como AK, que queria se desfazer de forma nebulosa do Evandro Almeida em uma permuta onde a única coisa concreta que havia era a venda do estádio (não havia terreno e os compradores não se sabia ao certo quem eram), tornar o patrimônio dos clubes inalienáveis por outro lado impossibilita, ao meu ver, qualquer negociação futura (desde que responsável e com objetivos claros e definidos) de venda, permuta, cessão ou comodato dos estádios. Remo e Paysandu jamais devem se desfazer de seus patrimônios, no que estou de acordo, desde que os mesmos sejam aumentados, modernizados e estejam de acordo com as demandas dos novos tempos (que sirvam de forma eficiente a seus sócios e torcedores). Evandro Almeida e Leônidas de Castro são estádios pertencentes a um tempo em que Belém tinha poucos habitantes, o trânsito era bastante ameno, havia pouca habitação no entorno das praças esportivas e se ia ao estádio única e exclusivamente para torcer pelo time do coração. Apresentam condições para serem ampliados, modernizados, com serviços que garantam conforto e segurança aos torcedores?
Estas leis, embora protejam os clubes de pilhagens e ações perdulárias, pode também lançá-los numa encruzilhada: estar a salvo da dilapidação patrimonial, porém sem poder sequer enfiar um prego nas estopas de Baenão e Curuzú.
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