Olho vivo: quem vai dar o golpe no Brasil?

Por Miguel do Rosário, no blog O Cafezinho:

Agora vocês entendem porque eu ataco tão violentamente a tese de que é possível governar sem base legislativa, sem força política? Essa é uma tese perigosíssima, sobretudo para a esquerda, que não tem apoio da mídia, e que apenas conta com apoio do empresariado enquanto a economia for bem. Há um setor do empresariado progressista, ligado à produção, mas há também um setor financeiro reacionário, corrupto, profundamente insatisfeito, por exemplo, com a concorrência dos bancos públicos e a determinação do governo de reduzir spread e juros.
Um país de economia diversificada como o Brasil, e com tantos recursos naturais, encontrará financiadores para qualquer aventura golpista, sendo que a estratégia pós-moderna é o golpe branco, por dentro da lei, baseado na manipulação da informação.
A guerra do Iraque, por exemplo, foi um golpe branco, um conluio entre a indústria bélica, mídia e setores do governo, para arrancar do contribuinte americano alguns trilhões de dólares. Conseguiram. A guerra pode ter sido um fiasco, e a mídia depois confessou que mentiu, mas o dinheiro foi embolsado pelos barões das armas. Do ponto-de-vista financeiro, portanto, a guerra foi um sucesso absoluto. Recentemente, testemunhamos na América Latina dois golpes brancos: em Honduras e no Paraguai.
O do Paraguai, mais recente, chocou a opinião pública brasileira, mas contou com apoio da mídia (a nossa, e a deles também, claro) e de setores da direita (a nossa e a deles).
E agora vemos o Supremo Tribunal Federal realizando um julgamento não ortodoxo do mensalão, condenando sem provas, encarnando um estarrecedor tribunal de exceção. Confiram a entrevista com Wanderley Guilherme dos Santos para a Carta Capital.
No que toca à mídia, não faltará disposição. Esta é a razão do título do post, que é uma citação de um livro publicado por Wanderley em 1962, no qual ele analisa a situação política e prevê o que irá acontecer. Não quero acreditar em golpe no Brasil. Acho que não chegaremos a tanto, mas golpe é golpe justamente por ser uma surpresa. Ninguém contava com o golpe de 64, assim como não contavam em Honduras ou Paraguai. Um pouco de paranóia, se dosada com bom senso, não faz mal a ninguém.
A Veja desta semana traz uma reportagem bombástica de capa. Depois do julgamento sem provas, dos grampos sem áudio, agora temos uma entrevista sem entrevistado. A revista traz revelações dadas por Marcos Valério que não foram ditas por Marcos Valério, mas colhidas em depoimentos de parentes, amigos e associados. Ou seja, a velha e boa fofoca ganhou status de entrevista e matéria jornalística. PS: Marcos Valério não apenas não deu a entrevista como não confirmou as informações nela contida.
Sabe o que é pior? As pessoas acreditam. Lembro que uma vez eu li uma matéria sobre uma pesquisa de cientistas ingleses, que descobriram que as pessoas tendem a acreditar mais em fofocas do que em seus desmentidos. A reportagem ataca, obviamente, Lula, que é uma espécie de vilão-mor da Veja. Ela ocorre na mesma edição em que se publica uma resenha do último livro do blogueiro da revista, Reinaldo Azevedo, intitulada, muito criativamente, País dos Petralhas II.
O objetivo da matéria é criar um fato bombástico para repercutir nas primeiras páginas dos jornais de domingo, constará do Fantástico, e pautará os grandes órgãos de imprensa, aliados nessa estratégia. Faltando pouco mais de 20 dias para a eleição municipal, a Veja tenta levar Serra, candidato à prefeitura de São Paulo, para o segundo turno.
Não se trata de considerar Lula um intocável. Mas não se pode pautar a agenda política de um país com base em fofocas. Se Marcos Valério tem alguma coisa a dizer, que o diga de sua própria boca, e prove. Nesse momento em que a direita se vê cada vez mais enfraquecida, não podemos baixar a guarda, porque o bicho se torna mais feroz quando está acuado. A esquerda tem de se fortalecer, ampliar sua base legislativa, fortalecer as instituições, e construir, paulatinamente, um sistema de comunicação mais democrático. O Brasil se tornou grande demais para ficar à mercê de meia dúzia de barões da mídia.
Para isso, o governo tem de fazer um PAC da Internet, investindo o que for necessário, urgentemente, para elevar a banda em todo país, porque somente a internet pode libertar o país do risco de um golpe branco midiático. Este PAC deveria conter os seguintes pontos:
– Consolidar, de uma vez por todas, uma banda larga de alta potência em todo país, ao custo menor possível.
– Incentivar a criação de canais de TV exclusivos de internet.
– Incentivar a criação de websites, blogs e portais jornalísticos e culturais, que sejam independentes de corporações. Sei que já existem milhares de websites e blogs independentes, mas quase nenhum é profissional. Para isso, entrará o investimento do poder público. Temos de fazer leis que obriguem municípios, estados e União a patrocinarem a mídia independente – a partir de critérios republicanos, evidentemente.
O Leviatã midiático está mais desesperado – e por isso perigoso – do que nunca. O novo lance da Veja deve nos preparar para o que virá em 2014. Em 2010, sofremos na pele o risco de um retrocesso brutal por conta da aliança entre grande mídia e oposição conservadora. Essa é a razão pela qual eu não acredito em aventureiros solitários. A guerra política não é para adolescentes mimados. Governos de esquerda, ou aliados à esquerda, tem de ser fortes, com base legislativa sólida e confiável, ancorado em processos consolidados de articulação política entre partidos, sindicatos, movimentos sociais, empresariado e sociedade civil. Se não for assim, se não agirmos com inteligência e coesão, estaremos expondo nosso povo a um risco que ele não merece correr.
Lula foi um grande estadista, mas o importante não é o indivíduo. É o projeto político. Esse projeto deve ser assegurado, porque a democracia, em si, não muda muita coisa, o que muda é a luta política no interior da democracia. A luta para assegurar crescimento econômico, empregos, juros baixos, mais investimentos em infra-estrutura, e aprimoramento constante dos serviços de educação e saúde oferecidos pelo poder público.

5 comentários em “Olho vivo: quem vai dar o golpe no Brasil?

  1. Fui eleitor do Lula , mas não sou petista ,muito menos filiado a partidos politicos.Não posso em sã consciencia achar que uma corrupção desse quilate possa passar em brancas nuvens.Assim como sou torcedor do Papão e não de dirigentes que enterram nosso clubes paraenses, também não estou ,como contribuinte ,disposto a “engolir” tanta corrupção nesses últimos governos.Acho que Lula não é culpado ,mas deveria ter tomado providências.Como um chefe não sabe o que se passa em seu departamento?Lula deveria ter sido rápido e eficiente.Não foi.
    Agora temos aí tantas “justiças” sendo feitas por quem não ruboriza porque usa venda nos olhos.

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  2. Não concordo com alguns pontos da análise de Miguel do Rosário. Entendo que a base política partidária está até consolidada. O PT tornou-se um partido que preza pela governabilidade justamente por ter costurado um leque de alianças que lhe permite um certo trânsito no líderes do setor produtivo, nas hostes da economia especulativa e até mesmo nos veículos da grande mídia (embora esta seja raivosa e acintosa para com o partido e suas eminências). A FIESP e a FEBRABAN que eram (e ainda são, em certa medida) as mecas dos reacionarismo político e econômico brasileiro hoje estão um tanto quanto abertas às influências e medidas econômicas adotadas pelo governo petista nos últimos 10 anos. Isso foi favorecido pelo devir da economia no último decênio? Pode ser que sim, a classe empresarial e os banqueiros continuam a extorquir milhões de nossa economia e da riqueza produzida pelo nosso povo, mas talvez estejam acalmados, razoavelmente “domesticados” justamente pelo amplitude do leque de alianças costuradas nos últimos anos e que atendem tanto o interesse do partido pelo poder (leia-se, “governabilidade”) como os interesses históricos e por que não dizer arcaicos de tais setores. O governo, engessado, teve sua agenda política pautada por itens que jamais um dia se pensou serem defendidos pelo Partido dos Trabalhadores por conta de alianças e conchavos espúrios. Quais as mudanças estruturais e as rupturas factíveis com modelos antes combatidos foram realizadas e ensejadas nos últimos anos? Por outro lado, o agronegócio campeia no país (ameaçando inclusive nossa soberania alimentar e provocado oscilações em itens básicos de nossa alimentação diária, como o arroz e o feijão), os bancos têm lucros estratosféricos e mesmo perante o incentivo ao microcrédito e ao consumo, bem como o aumento considerável nos salários e rendimentos da classe trabalhadora, jamais se deveu tanto.
    Assim, a principal base de apoio do partido de Lula e Dilma e que um dia já representou a esperança de milhões de brasileiros, perdeu a sua base de apoio legítima e histórica na medida em que forjou sua fundação: as classes populares, operárias e trabalhadoras. O partido, na sua sanha por governar se distanciou de sua base, paralisou certos movimentos sociais e cooptou sindicatos que agora, de certo, são identificados pelos mais atentos como defensores do chapa-branquismo. Que o digam os funcionários públicos federais, tratados com certa truculência ao passo que a Alvorada está sempre com os umbrais abertos a quem por lá faz apenas joguetes.
    Balança comercial favorável? Inflação controlada? Corrupção político-administrativa? O governo não atacou de forma sistemática o principal aleijão do país, que é a desigualdade social. A corrupção, como sabemos, é mais efeito do que causa dos problemas nacionais. Quanto ao “golpe” vislumbrado pelo blogueiro, ele pode vir mesmo a acontecer e capitaneado pelos atores por ele muito bem descritos. Aliás, são useiros e vezeiros de tal expediente política. Mas para evitá-lo o governo, a presidenta ou o partido precisam de uma base de apoio político sólida, que por ironia dos destino não é a aquela que agora se abanca no poder – como o PMDB, por exemplo -, mas sim aquela a qual o partido virou as cotas e que eram – embora representasse amplos setores das classes trabalhadoras e mesmo estudantis – simplesmente chamados de “militantes”. Sem esses, o PT está fadado a chorar e a reproduzir o mantra dos nostálgicos, de que “nada será como antes”. Ou o partido desce do salto governista e pisa na lama para trazer as camadas populares para seu lado ou amargará um possível golpeamento com a infeliz indiferença das massas, tal como em 64.

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  3. Quando o Lula esteve na presidência da República deveria de ter ocorrido o seu impeachment, assim como ocorreu com o Collor em 1992. O esquema de corrupção Collor/PC Farias não foi um 1/3 comparando esse mensalão do PT…

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  4. Quem, até agora, foi condenado sem provas no mensalão???
    Mesmo que o mensalão não reste provado, da forma como foi denunciado, a forma como foram garantidos os apoios políticos, admitido de viva voz pelo próprio advogado do Delúbio, mostra a debilidade da base política formada pelo PT e o perigo que representam para o partido os aliados que foram conseguidos. Quanto à situação geral do Brasil e dos brasileiros na gestão petista, a realidade em que todos vivemos(de caos na saúde, segurança e da própria educação) já se encarrega de mostrar a frustração que foi a gestão petista. Aliás, neste particular a postagem do Malcher deu uma significativa ideia da situação.

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