Documentos revelam delatores do meio artístico

Do site Documentos Revelados

Durante a ditadura militar, todas as publicações e obras – livros, programas de tv e rádio, eram obrigadas a verificação de um grupo de censores. Os critérios eram subjetivos e iam desde os aspectos ideológicos e políticos, até os relacionados a costume. Os censores indicavam os trechos, e muitos casos, a obra toda que não poderia ser divulgada. Nesse contexto alguns artistas com o intuito de  estar bem com regime viraram delatores, passando informações sobre o que acontecia no meio, chegando ao ponto de caluniar colegas e serem moleques  de recado dos agentes da ditadura.

No documento em anexo emitido pelo Centro de Informações do Exército são revelados alguns desses dedo-duros, considerados como amigos, aliados do regime. Segundo o informe  certos órgãos de imprensa estariam publicando matérias denegrindo a imagem de “determinados artistas que se uniram à revolução (sic) de 1964 no combate à subversão e outros que estiveram sempre dispostos a uma efetiva colaboração com o governo”. Dentre outros, são citados Wilson Simonal, Roberto Carlos, Marcos Lázaro, Antonio Marcos, Agnaldo Timóteo, Clara Nunes, Erlon Chaves, Alcino Diniz, Wanderley Cardoso e Rosemary, além do jogador Jairzinho, o Furacão da Copa.

Clique nos links abaixo para ler os documentos, que também podem ser visualizados em imagens na extensão JPG

http://pt.scribd.com/doc/104622606 

http://pt.scribd.com/doc/104622608

Dirigentes não gostam de povo

Por Gerson Nogueira

Um amigo jornalista, parceiro dos primórdios nas redações de Belém, costumava dizer já nos idos de 1970 que nossos dirigentes não gostam de torcida por perto. E argumentava que a cartolagem faz tudo para manter o torcedor distante dos estádios, seja pelo desconforto das instalações ou pelo preço dos ingressos.

A decisão da diretoria do Remo de fixar o valor do ingresso para arquibancada em R$ 15,00, para a partida de domingo contra o Mixto, fez com que recordasse de imediato das palavras do velho dinossauro. Informes procedentes do clube indicam que a maioria da diretoria defendia o valor de R$ 10,00, como no jogo passado, contra o Vilhena.

O presidente Sérgio Cabeça, apoiado somente por outro dirigente, bateu martelo e estabeleceu o preço em R$ 15,00. O problema é que nada justifica a majoração em relação ao jogo anterior. Pelo contrário. Se é verdade que a partida tem caráter mais decisivo, é preciso levar considerar a necessidade premente de atrair público para que incentivar o time e pressionar o visitante.

Nas redes sociais, observa-se uma grande mobilização da torcida remista desde domingo à noite. Um dos pilares da campanha era justamente a manutenção do preço dos ingressos em R$ 10,00 e cobrança promocional a R$ 5,00 para quem comprasse até quarta-feira. A ideia foi inviabilizada pela tradicional lentidão dos dirigentes, que estabeleceram para quinta-feira o começo da venda de bilhetes.

Apesar disso, os torcedores não amofinam e já organizam um cortejo de carros para escoltar domingo à tarde o ônibus com a delegação remista, desde a saída do estádio Baenão até os portões do Mangueirão. Será um gesto simbólico de apoio ao time na luta pela classificação à próxima fase da Série D. Na contramão dos fatos, o Remo prioriza o faturamento e deixa de lado o comparecimento em massa do seu torcedor.

O futebol moderno mostra que clubes mais organizados antecipam em até meses a venda de ingressos. No nosso confuso futebol já seria aceitável começar a vender com uma semana de antecedência, mas as diretorias agem como se estivessem com a vida feita, com o boi na sombra. Concentram as vendas num só dia útil em semana que ainda tem um feriado importante na sexta-feira (7).

Para complicar ainda mais os planos de faturamento, o jogo terá transmissão ao vivo pela TV para todo o Estado – o mesmo vai ocorrer no sábado, com a partida Paissandu x Guarani, pela Série C. O certo é que tantas e reiteradas atitudes obtusas levam à conclusão de que não precisamos nos preocupar com inimigos externos. Os maiores inimigos estão por aqui mesmo.

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Gustavo; Diego Barros, Rafael Andrade e Alceu; Dida, André, Reis, Ratinho e Tiago Cametá; Fábio Oliveira e Cassiano (ou Marcelo Maciel). Esta é a mais provável escalação do Remo para a difícil missão de vencer o Mixto por três gols de diferença.

Marcelo Veiga não sacrifica sua crença cega no 3-5-2, mas deve ceder aos argumentos de auxiliares quanto à necessidade de usar um atacante de velocidade para furar a previsível retranca mato-grossense. O provável recuo de Ratinho para ajudar na armação pode, em determinados momentos, permitir que o time tenha três atacantes.

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Depois de boatos sobre a participação em peladas no Jurunas, o atacante Moisés se apresentou ao Paissandu e já foi encaminhado para recondicionamento físico. Givanildo Oliveira ouviu a comissão técnica e decidiu dar ao atleta pelo menos uma semana para entrar em forma.

Caso consiga reeditar as atuações inspiradas de 2010, em parceria com Tiago Potiguar, Moisés pode ser um reforço e tanto para a campanha na Série C. A dúvida é saber se aquele Moisés ainda existe.

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Adriano promoveu farra em casa, bateu o carro e foi fotografado comprando cerveja em bar. É o começo da conturbada relação do jogador com o Flamengo nesta nova fase. Em entrevista, ontem, ele pouco explicou, até pouco há para explicar.

O centroavante, segundo médicos e parentes, está doente. Como Garrincha, ele é alcoólatra. Deveria ser tratado, não paparicado. Deveria ser protegido, não exposto. Enquanto isso, o Flamengo segue acreditando que ele ainda pode jogar profissionalmente. A conferir os próximos capítulos da saga.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 05)

FHC, ex-presidente muito mimado

Por Paulo Moreira Leite (da revista Época)

Eu acho que os amigos e admiradores de Fernando Henrique Cardoso, situados no topo de nossa pirâmide social,  deveriam evitar mimos exagerados. Vão acabar estragando este político e intelectual culto e simpático, que já passou dos 80. FHC participou da luta pela democratização, fez um governo com realizações discutíveis, algumas trágicas e  outras muitos importantes. Também   deixou muitas recordações junto a tantos brasileiros. Poucos  tiveram a honra de sentar-se à mesa para debater política com Fernando Henrique Cardoso. Eu já.

Em 1975, em plena ditadura militar, FHC compareceu a um debate na USP para discutir a luta pela democratização do país. Foi um encontro de horas, animado, divertido e inesquecível. Quando me encontra, mais de 30 anos  depois, FHC não deixa de fazer brincadeiras a respeito. No Brasil de 2012, FHC é um ex-presidente mimado. Você entende a situação. A oposição não ganha uma eleição há três campanhas presidenciais.  Colocou seu principal herdeiro para disputar o pleito em São Paulo como se fosse a mãe de todas as batalhas e agora enfrenta a possibilidade de  encarar a mais dolorosa de todas as derrotas. Aquele que seria o favorito para concorrer em 2014 anda cada vez mais discreto…

Sobrou FHC e ninguém para de falar bem dele. Repare: parece que Fernando Henrique tem razão antes de começar a falar. Você conhece a situação do garoto mimado. É aquele que é dono da bola e das camisas – e sempre tem lugar garantido no time titular. A mãe nunca dá bronca e o pai sempre arruma um jeito de melhorar a mesada. As professoras o protegem na sala de aula. Melhoram as notas até quando não merece. Tem aluno que faz muito mais força e nunca recebe o mesmo elogio. Todos nós já vimos isso. Mas os pedagogos de bairro advertem: graças a esse ambiente de tolerância excessiva, o garoto mimado abusa – e todo mundo acha graça. Não precisa assumir responsabilidades pelo que faz. Sempre aponta defeitos nos outros.

Qualquer sociólogo B – como filmes B – entende o que ocorre. Os mimos vem de longe mas se acentuaram de uns tempos para cá. Há  um sentimento de culpa em relação a FHC. Abandonado na hora em que teria sido ético fazer sua defesa,  agora lhe permitem falar o que quer. Pagam a dívida em dobro, com juros  de Pedro Malan.  É  sempre elogiado, lhe passam a mão na cabeça e jamais se ouve uma critica. Faça um teste, você mesmo. Dê uma gugada e procure um adjetivo negativo, uma observação crítica ou mesmo uma ironia.  Daqui a pouco, vão dizer que a Dilma só faz um bom governo porque vez por outra trocou umas palavrinhas gentis com ele e parou de levar em conta dseu padrinho Luiz Inácio Lula da Silva.

Já perdi a conta de quantos livros saíram sobre ele, quantos balanços, quantas interpretações. Gostam tanto de FHC que o formato preferido é de livros-entrevista, onde o próprio protagonista tem a palavra final. FHC ganhou até uma antologia de fotos. Ficou bem até quando falou que era preciso legalizar a maconha, cocaína, heroína… Em teatro isso se chama fazer o coro. O personagem principal diz o que pensa e os coadjuvantes dão sustentação:  repetem, perguntam se não foi mesmo bacana, e assim por diante. Isso é o mais importante. Os universitários, como dizia Silvio Santos, precisam dar razão.

Mas: e a política? A economia? O texto? O debate? O contraponto? Sem substância, os mimos parecem hipocrisia,  não é mesmo? Os carinhos desmedidos são tantos, e tão intensos, que muitas pessoas acreditam, como se fosse um fato demonstrado cientificamente, que tudo o que aconteceu de bom no Brasil depois de 2003 é fruto da herança do governo FHC.

Tudo: do Bolsa Família ao crescimento duas vezes maior do que na década anterior, a redistribuição de renda,  a valorização do salario mínimo, o reforço nas garantias dos assalariados, a reação imediata ao colapso dos mercados. Alfredo Bosi, que dedica vários parágrafos de Dialética da Colonização a criticar FHC, admite que se trata de uma águia intelectual – consegue enxergar, muito longe, mudanças e evoluções que escapam aos observadores pedestres.

Os mimos ajudam a explicar   o último artigo de FHC,  publicado no Globo e no Estado. O texto tem o título de “Herança Pesada” e se dedica avaliar o governo Lula. Pode ser resumido nestas 21 palavras: “É pesada como chumbo a herança desse estilo bombástico de governar que esconde males morais e prejuízos materiais sensíveis para o futuro da Nação.”

Vamos combinar. Fernando Henrique entregou um país com a inflação em dois dígitos. Os impostos foram às alturas e só os bobos e acham que a carga tributária é obra de seu sucessor.  O desemprego subiu. Sua popularidade era negativa em 13 pontos. Quando foi positiva era menor que a de José Sarney do Plano Cruzado. E antes que você diga que isso é populismo, não custa lembrar que, numa democracia, a opinião popular é (ou deveria ser) muito importante. Essencial, na verdade. Todos os políticos deveriam saber disso.

E a herança de Lula é que é “pesada como chumbo?” Gerou “males morais e prejuízos materiais”? Falando sério. Em tempos de mensalão, não custa lembrar que o único caso comprovado de compra de votos por dinheiro (“compra de consciências,” como disse o PGR Roberto Gurgel) ocorreu no governo FHC, para aprovar a reeleição.

É mimo demais. Há um sujeito oculto neste debate. Ora é o sociólogo, distanciado, culto, crítico. Aqui valem as ideias. Ora é o político, engajado, direto, interessado. Aqui residem os fatos. A arte consiste em escrever como presidente para ser lido como sociólogo.