Remo entre a cruz e a espada

Por Gerson Nogueira

Só há uma alternativa: vencer por três gols de diferença para seguir na busca pelo acesso à Série C. Caso não consiga, o Remo vai encerrar prematuramente suas atividades na temporada, arcando com os prejuízos decorrentes disso. O adversário, apesar da vitória no primeiro jogo, é bem menos relevante do que as próprias limitações que o time paraense apresentou durante toda a competição.

Apesar de boa produção ofensiva (20 gols marcados), a equipe foi um primor de instabilidade, com fragilidades gritantes na defesa – sofreu 18 gols. Com o elenco inchado, jamais repetiu a mesma formação desde a estreia desastrada diante do Vilhena. Ao todo, o clube contratou mais de 20 jogadores só para a Série D.

Experimenta seu terceiro técnico, Marcelo Veiga, que substituiu Edson Gaúcho, que havia entrado no lugar de Flávio Lopes. São nove jogos até aqui. Média assustadora: um técnico a cada três partidas. O futebol prova que nenhum time pode ser construído em meio a tantas mudanças de planos.

Para piorar, cada técnico trouxe seu próprio quinhão de recomendados, ajudando a dividir o elenco em nichos e a dificultar a formação do necessário espírito vitorioso. Com Veiga, de perfil conciliador, a situação começou a entrar nos eixos. Justo quando não há mais espaço para erros. A tabela do campeonato é implacável. Todos os jogos a partir de agora são decisivos.

Para a batalha deste domingo, Veiga mexe outra vez no time, atitude sempre arriscada na véspera de uma refrega. Com um dado positivo: abandonou o 3-5-2 e abraçou o 4-4-2. Explicou que dessa forma o Remo será mais ofensivo, confirmando minhas cismas quanto ao sistema de três zagueiros à brasileira. Na maioria dos casos, é apenas retranca disfarçada.

Barrou os garotos Jhonnatan e Reis, tirando juventude e velocidade do time. Atenua as perdas usando Tiago Cametá quase como ala e lançando o veloz Cassiano no ataque. Mas, ao prestigiar Ávalos e Alceu, velhos conhecidos seus, aposta no risco. Como é um jogo, talvez dê certo – se o Remo usar mais rapidez do que pressa, jeito mais do que força.

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Acompanhar jogo da Seleção Brasileira virou, definitivamente, programa de índio. Quando alguém menciona amistoso do escrete, a reação das pessoas em geral é de enfado. Todo mundo hoje acha um porre ver o Brasil jogar. Algo impensável naqueles anos dourados do nosso futebol, quando um simples amistoso ganhava contornos de grande atração.

Muitos são os responsáveis por esse desamor. Cada um dos últimos técnicos (de Emerson Leão a Parreira, de Dunga a Mano Menezes) tem parcela considerável de culpa. Os dirigentes da CBF, porém, são imbatíveis nesse departamento, principalmente pela quantidade insuportável de amistosos ridículos com seleções sem pedigree.

No feriado de sexta-feira, diante de 51 mil pessoas, em São Paulo, a equipe de Marin, Mano, Neymar e Huck sofreu o diabo para vencer, com requintes de indigência técnica, a modestíssima seleção sul-africana por 1 a 0. Vaias pontuaram a apresentação.

Além da queda, o coice. Depois de noventa minutos de sofrível exibição, o técnico Mano Menezes achou desculpa risível para explicar a desaprovação. A torcida seria majoritariamente são-paulina, por isso hostil a um ex-corintiano como ele. Bobagem. Todas as torcidas brasileiras, até mesmo a corintiana, têm razões de sobra para vaiar o timeco nacional.

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Na tarde de sexta-feira, o técnico Givanildo Oliveira usou de toda a elegância para criticar a desconsideração da diretoria, que não o avisou sobre a iminente cessão do lateral-direito Pikachu à Ponte Preta. Com leve ironia, disse que soube pelos jornais da transação que envolve o melhor jogador do atual elenco do Paissandu.

Pouco depois, Givanildo quase teve motivos para jogar a toalha. Um grupo de jogadores planejava não se concentrar para o jogo contra o Guarani de Sobral, programado para sábado. Motivo: insatisfação com o atraso de salários. O técnico teria conversado com os mais experientes, debelando o princípio de incêndio que já se alastrava pelo elenco.

Exigente e organizado, o veterano treinador há muito que merece melhores condições de trabalho no futebol paraense. Da última vez que esteve aqui atravessou período difícil no Remo. Jurou que só aceitaria voltar quando o convidassem para começar um trabalho. Quebrou a jura e topou comandar de novo o Paissandu, onde agora parece haver gente empenhada em abreviar sua permanência.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 09)