Perigo real e imediato

Por Gerson Nogueira

Parte da torcida exigia a cabeça do técnico, mas o Remo decidiu manter Sinomar Naves. Foi a saída mais pragmática. Não que o trabalho seja satisfatório, muito longe disso. Ocorre que a diretoria avaliou que mudar agora, a 72 horas de um jogo decisivo, seria uma manobra temerária. O exemplo de Givanildo Oliveira no ano passado, chamado no desespero, quando a vaca já estava indo pro brejo, ainda martela a cabeça dos dirigentes.
É fato que o time vem mal e que o planejamento de sete meses foi atirado na cesta de lixo com as contratações de importados de origem duvidosa (Tocantins, Mato Grosso, Goiás) e nível questionável.
Sinomar foi contratado para executar o projeto de reconstrução do time, com ênfase nos jogadores das divisões de base. Enquanto prevaleciam os amistosos pelos campinhos de várzea, os garotos foram prestigiados. Com a aproximação do Campeonato Paraense começaram a pipocar os “reforços”, todos indicados ou avalizados por Sinomar. Os equívocos do Remo no Parazão decorrem todos dessa opção radical pelos jogadores de fora.
Desde a estréia contra o Águia, no Baenão, os importados predominam entre os titulares enquanto Jaime, Reis, Tiago Cametá, Igor João, Alex Juan e Alan Peterson são preteridos. O mais grave é que os atacantes Jaime e Reis, com boa participação na recente Copa São Paulo, não figuram sequer entre as primeiras opções do técnico entre os reservas.
No clássico do último domingo, o meio-de-campo do Remo foi engolido pelo entusiasmo e disposição de um Paissandu que se valeu da juventude de seus jogadores para impor ritmo alucinante ao jogo. Foi um constrangimento. A velocidade dos bicolores contrastou com a letargia dos azulinos, com o resultado final que todos conhecem.
É verdade que futebol não é só correria, mas ninguém discute que é cada vez mais um esporte dos jovens. O Parazão evidencia isso. Os melhores da competição até agora são Lineker, Bartola, Perema e Pikachu, todos com 17 anos. O Remo de Sinomar segue na contramão, rejeita suas próprias crias e amarga os efeitos das escolhas de seu comandante.       
Depois de analisar riscos e variáveis, a direção do clube preferiu evitar mais turbulências. A tal multa rescisória que gira em torno de R$ 100 mil não foi o maior empecilho para o afastamento do treinador. O que pesou mesmo foi a preocupação em não desestabilizar ainda mais o ambiente interno.
A equipe não convence desde a estréia, mas ganhou os primeiros jogos. Nas últimas três rodadas, nem isso. O confronto com o já eliminado São Francisco reúne todos os ingredientes para virar uma batalha tensa e dramática no Barbalhão. Diante disso, falou mais alto o bom senso.  Sinomar fica. Pelo menos até domingo.  
 
 
 
Papão, 98 anos de glória!
 
O aniversário foi ontem, mas o Paissandu merece homenagens diárias. Por isso, reproduzo o texto abaixo em homenagem ao clube de Suíço, escrito pelo azulino Cássio de Andrade:
“A história do PSC tem como marca sua rápida aceitação pelas classes populares. Nascido num cenário próximo à crise da economia gumífera na capital paraense, o clube foi consolidando ao longo do tempo uma alternativa esportiva e de lazer cada vez mais aproximada das classes subalternas, considerando a elitização histórica do Clube do Remo.
A marcha carnavalesca, seu símbolo monocórdio, simples e popularesca, foi incorporada à condição ontológica de ‘ser paissandu’, e tornou-se a síntese desse sentimento amalgamado entre a paixão e o orgulho, marcas que forjaram ao clube um devir histórico, um sentimento que se expressa na sagração celebrada entre cantos entoados e irradiados nos arrabaldes, naquilo que Ferreira Gullar representaria na alegoria insuspeita das massas, entre o ‘cantar dos galos e dos marrecos’, ‘nas bibocas e nos quintais’… Esse é o Paissandu em espírito na alegoria imagética da sinestesia platina, como a chamar atenção das batalhas simbólicas da memória da Guerra do Paraguai, no bairro onde fez morada.
Correspondendo ao imaginário da época – sem que nos atrevamos a julgar os méritos dessa representação –, evoca o PSC a condição do triunfo e da vontade heróica do mito. A guerra, por mais contraditório que possa parecer, representou a imagética da vitória e da paz, no azul e branco de sua sinestesia. Em síntese, um clube que incorpora a anti-Bela Época pela possibilidade de resistir ao fracasso e à decadência em trajetória triunfante e grandiosa.”

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 03)

2 comentários em “Perigo real e imediato

  1. A conversa nunca muda…sempre que Remo ou Paissandu se dão mal no brasileiro, os dirigentes dizem que vão valorizar a prata da casa, o paissandu, parece, que dessa vez vai mesmo valorizar, o remo, pra variar já começou a trazer “reforços “, e o que me espanta mais é que são indicados leo Sinomar, que na teoria, deveriaaproveitar os jogadores formados no clube. Pra mim tem tramoia nesse contexto, e pobre do futebol remista que já começa, de novo a ficar na agonia. Esse Sinomar não é técnico nem de time de botão.

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