Pensata: Belém do Paranatinga

Por Antonio Ponte de Souza

Belém é como todas as metrópoles latinas, uma grande favela com uma cidade no meio. Até aí, Belém não é diferente de São Paulo, Rio Janeiro ou Bogotá. Então é preciso viver nela para saber de suas peculiaridades. Trata-se de uma cidade sem indústrias, e sem uma vocação econômica definida. A elite consumidora é formada por comerciantes e funcionários públicos, exatamente a mesma elite que se formou em fins do século XVIII, revelando um modelo estático de convivência social.
De fato, a condição geopolítica de Belém é a de ser a capital da Colônia. O governo do Pará, historicamente, não passa de uma engrenagem tecnoburocrática que assegura os interesses econômicos do grande capital nacional e multinacional, ao tempo em que assegura sua legitimação política através do clientelismo e do assistencialismo, práticas que remetem ao passado que resiste aos tempos e ignoram as suas consequências.
Belém, assim, comemora em seus 394 anos esse passado apagado pela memória histórica, mas que resiste politicamente indiferente aos seus resultados presentes. Entre esses resultados estão a segunda pior renda percapita metropolitana do país e um dos piores indicadores de qualidade de vida do mundo onde esses índices são calculados. Para os jovens é um terreno hostil, eis que de cada vinte garotos com mais de 17 anos, apenas um vai escapar do mercado informal, e/ou do banditismo. Situação que só encontra similar nas republiquetas do oeste africano ou da América Central.
A cidade carece de recursos urbanos para atender a demanda crescente; é a segunda capital do Brasil (só perde para o Rio de Janeiro) em casos de gravidez prematura. Meia dúzia de boas escolas forma os descendentes da elite enquanto escolas arruinadas distribuem títulos falsos para a grande parcela de demandantes que vai inchar as estatísticas do desemprego.
A não ser para os oportunistas e para os desinformados o futuro parece promissor, mas não é. A não ser pela fé, dogma dos religiosos, não existe nenhuma circunstância racional que alimente um fio de esperança. Não existem soluções racionais e nem recursos materiais. A matriz do sistema é a reprodução da sua índole. E a história mostra que isso só se reverte com a destruição do sistema. E tem mais, destruído o sistema, não há garantias de que o outro seja mais justo, eis que o tempo verbal da história é o futuro do pretérito, ou seja, o condicional.
Mas nesta cidade fantasiada de metrópole com quatro ou cinco livrarias, e dois ou três teatros e universidades de amadores, a ignorância alimenta o sonho. Tem aquele ditado que diz que “o que os olhos não veem o coração não sente”.  Por isso Belém está em festa, orgulhosa de si, eufórica de felicidade. Na Cidade Velha o carnaval já começou…
Está chovendo! Amanhã, quem pode comprar o jornal, um dos dois que circulam na metrópole, vai dizer nas colunas do leitor: “que bom que é o cheiro da chuva”. Indo para o sonho idílico de seu passado mascarado de futuro.

15 comentários em “Pensata: Belém do Paranatinga

  1. Bom dia Gerson Nogueira e amigos do Blog.
    É sempre gratificante, lermos um artigo que escancara a nossa realidade, agredindo a ignorância política e intelecual da população, sem, no entanto, ofender a moral da população local, .
    Parabéns Antonio Ponte de Souza, concordo contigo em gênero, número e grau, porém, continuamos com a responsabilidade de tentar reverter essa matriz monopolista que mantém esta região ainda dominada pela elite colonialista.
    Aguardo ler mais artigos, das mais diversas correntes do pensamento desenvolvimentista regional, esclarecedores da realidade, lúcidos, tal qual este, e também sugerindo soluções.

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    1. Caro Silas e demais amigos,
      O Antonio Ponte, como habitualmente, foi no âmago, acertou em cheio: nossa Belém é, bela pela própria natureza, mas tem a sina de uma imensa Calcutá. Oremos.

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  2. Perfeito. Não há o que tirar e nem o que acrescentar nesta análise. Aliás, há sim: talvez sejamos a única “metrópole” do mundo que apresenta apenas uma via de acesso (entrada e saída) por estrada (a BR 316), talvez sejamos a única “metrópole” do mundo cercada de águas caudalosas por quase todos os lado mas que pouco são navegadas, talvez sejamos a única “metrópole” onde rotatórias engarrafam, talvez sejamos a única “metrópole” do mundo que tenha como mandatário máximo um indivíduo que personifique a fraude, a incapacidade e o dolo na gestão pública, talvez sejamos a “única” metrópole do mundo que dependa única e exclusivamente dos ônibus para a promover a mobilidade urbana, e etc, etc, etc…

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    1. Concordo contigo Daniel Malcher, essa vda rotatória que engarrafa, é realmente ÚNICA, parabéns pela sacada, porém, quanto ao mandatário máximo que personifica a fraude, que citas, permita-me juntar a esse mesmo balaio, o PODER JUDICIÁRIO, que o mantém lá.

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      1. É verdade Silas. E os que compõem este JUDICIÁRIO ainda recebem ganhos que, pelo que fazem, devem ser considerados imorais. Se fizessem o contrário, primando pelo bom-senso, seus ganhos seriam JUSTOS.

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    1. Jorge, toda nova Unidade da Federação Brasileira, terá o seu Judiciário, portanto, divisão não é solução, no caso que estamos citando, é corrupção pura mesmo e ponto final.
      O Judiciário TAMBÉM está cheinho de corruptos, e isso é repugnante, as medidas tomadas por esses donos da Justiça, só beneficiam a bandidos e traficantes, porque no Brasil a Justiça não é cega e só é aplicada aos Célebres TRÊS P’s, como já dizia o saudoso Ulisses Guimarães.

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  3. A realidade nua e crua de nossa cidade, quem saiu sente saudades, mas volta somente por uns dias, depois retorna e olha com do’ e lagrimas a cidade do alto de um asa dura.
    Desde ha muitas decadas que os sobrenomes continuam sendo os mesmos, tudo em Belém esta dividido por dois.
    Temo que nao se possa fazer mais nada para mudar a paisagem da cidade .. n e’ questao de restaurar, mas sim de destruir tudo e iniciar do ZERO.

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  4. Todas estas verdades ditas pelo Antonio Ponte cabem perfeitamente naquela estrofe do Mosaico de Ravena: “Isso é Belém, isso é Pará, isso é Brasil”.

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  5. Nao falo do Judiciario nao. Falo em todos os sentidos. A divisao para Belem sera excelente.Sem preocupacoes com menos 36 municpios so em Carajas, fora o Tapajos. Temos o maior PIB e de lambuja tem Paragobala, Ananindeua e Barcarena. Nao precisamos dos minerios de Carajas; alias, ja e nosso e continuamos pobres. Por isso a divisao vai beneficia-los, mas muito mais a Belém,ta tudo pronto aqui e e so deslanchar. La nao tem nada.

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  6. Eu também sou a favor da divisão, com a casa menor, talvez consigamos coloca-la em ordem, quanto ao judicíario, a pouco tempo um promotor, bêbado, com o dedo em riste na cara de um policial o desafiou, e chamou de ótario, e disse que ele é que era o maioral, o que deu isso, nada, eles e os políticos, mandam e desmandam, e nós povo ficamos a chupar os dedos, sempre foi assim e sempre será. Uma beleza o artigo do amigo Gerson Nogueira, relata fielmente, os problemas do nosso estado, que é o último em tudo, vala-nos que?

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  7. Não enxergo melhoras com a divisão do estado.
    O que enxergo é a má distribuição de renda!
    Inclusive com a verdadeira composição da economia paraense!

    Aonde é a maior densidade demográfica do Pará? não é no litoral?? não é na RMB?
    Então pronto!! Os investimentos deviam vir pra Belém, esquecendo o sul-sudeste! Como já disseram acima: “Lá não tem nada!”!

    Parabéns Belém!

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  8. mais uma coisa:

    A situação caótica de Belém não é resolvida porque não queremm!!

    Se quisessem, belém no mínimo sera a quinta cidade mais rica!!

    Falta alguém com “aquilo roxo” falar : “EU QUERO QUE DESENVOLVAM BELÉM DO PARÁ!!”

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