POR DANIEL MALCHER
Com a sucessão de rebaixamentos de clubes de futebol tradicionais do país ano após ano – o premiado com a desdita agora e mais uma vez é o Botafogo de Futebol e Regatas – acho mesmo é que a terminação “time grande” precisa ser rediscutida no Brasil. A extrema relevância dos estaduais até os anos 1980 e a importância considerável que possuíam até meados de 2004 e a consequente polarização de títulos dessa natureza entre os clubes das capitais dos estados da federação alimentou por anos a fio a ideia de que no país há muitos “times grandes”, “como em nenhum país do mundo do futebol de primeira linha”.
Somado a isso o fato de que os campeonatos nacionais com calendário menor do que os estaduais e com fórmulas mistas (pontos corridos na primeira fase, eliminatórias na segunda fase) e regulamentos esdrúxulos até 2002 abriam margem para o “imponderável”: times menos fortes seguirem e vencerem os campeonatos ou chegarem às finais.
O caótico planejamento administrativo do futebol dos clubes era sempre para o amanhã dos “6 meses” (estaduais de janeiro a julho + Copa do Brasil + Libertadores / Série A de agosto a dezembro). Quando a CBF estendeu o calendário das competições nacionais em 2003 com a Série A e em 2016 com a Copa do Brasil e a Conmebol em 2017 estendeu o calendário das competições continentais o planejamento precisou ser pensado para o ano todo, inaugurando-se no país a ideia da temporada.
Clubes que até então levavam na barriga a Série A não suportaram mais levar todas as competições de forma quase que simultânea o ano inteiro, condição essa agravada a partir de 2016. E olha que no Brasil tudo no futebol ainda engatinha em termos de profissionalismo extremo. Não é à toa que muitos clubes outrora grandes sucumbiram aos rebaixamentos na era dos pontos corridos. Quando se exigiu o mínimo de organização, profissionalismo e competitividade na Série A a partir de 2003 não aguentaram o tranco.
O Brasil então não se diferencia dos demais países que adotam o modelo. O amadorismo administrativo histórico dos clubes entrou em parafusos pois não se encaixa às novas exigências inauguradas lá no quase longínquo início do século com as mudanças no calendário e fórmula de disputa na Série A. Não é à toa também que até há um certo tempo muitos dos outrora grandes clubes queriam a volta das fases eliminatórias e finais.
A justificativa da “volta da emoção” (?) e do aumento da arrecadação nas bilheterias era mera desculpa. Hoje, com muita boa vontade, temos 6 clubes realmente grandes no Brasil. E olhe lá. Somos como aqueles que um dia ousamos dizer que dos quais éramos diferentes.