A punição pelo desperdício

Fredson deixou o Remo na frente no primeiro tempo

POR GERSON NOGUEIRA

O Brasiliense foi heroico, disciplinado e focado. Sustentou o resultado que lhe interessava tendo um homem a menos no segundo tempo. Na série extra de tiros livres, levou a melhor, após o chute torto de Wellington Silva. A conquista é justa pelo esforço da equipe candanga, mas ficou a clara sensação de que o Remo foi melhor nos 180 minutos, embora extremamente incompetente e errático para transformar em gols a superioridade técnica.

Já na partida de ida a movimentação do Remo desnorteou o Brasiliense em parte acentuada do confronto. A derrota ocorreu em lance fortuito, com erro de marcação em cobrança de escanteio no primeiro pau. Ainda assim, o Remo teve chances para empatar e até virar o marcador.

No Mangueirão, ontem, as coisas até começaram bem para o Leão. O primeiro tempo foi inteiramente favorável. Além do gol, o time criou pelo menos três grandes chances, sendo a maior delas nos pés de Augusto, que desperdiçou o que seria o segundo gol batendo em cima do goleiro.

A tomada de iniciativa era sempre dos azulinos. Uma testada firme de Fredson para o fundo das redes, aos 26 minutos, após cruzamento de Marlon, deu ainda mais tranquilidade para a troca de passes e até jogadas de efeito. O jogo era dinâmico e fluía bem. Por seu turno, cauteloso, o Brasiliense não saía de seu campo.

Hélio se destacava pela velocidade no lado direito e estabelecia ampla vantagem sobre o lateral Balotelli, o que acabaria provocando a expulsão do lateral. Apesar da intensidade do setor ofensivo, Augusto e Wallace não rendiam no mesmo nível de outros jogos.

Brasiliense conquistou o título da Copa Verde 2020 no Mangueirão

Quando veio o 2º tempo, o Remo deu uma desligada e o Brasiliense se aproveitou. Logo aos 5 minutos, a bola foi cruzada da direita, Rafael Jansen não cortou e Zé Love aproveitou para testar no canto direito de Vinícius. O empate não abalou os azulinos, que continuavam envolvendo o adversário.

Veio então a expulsão de Balotelli por sarrafada em Hélio, aos 15′. Na cobrança da falta, Gedoz cruzou, Lucas Siqueira deu uma raspadinha e Jansen fechou no segundo pau para desempatar o jogo. Era cedo, o Remo teria 35 minutos pela frente para tentar ampliar a vantagem que lhe daria o título.

Aí o cenário repentinamente mudou para pior. Mesmo com a posse de bola, as boas ideias foram rareando. Dioguinho substituiu Pingo para reforçar o ataque. Entrou na direita, com Hélio passando para o lado esquerdo. Ambos rendiam bem, mas faltava uma referência na área.

Tiago Miranda e Laílson entraram para revitalizar a equipe, mas Wallace sumiu em campo. Gedoz cansou e os lançamentos verticais raramente iam na direção certa. Ainda assim, Lailson perdeu duas oportunidades e Dioguinho mandou um tiro forte na trave de Sucuri.

O filósofo rabugento Muricy Ramalho cunhou a célebre frase: a bola pune. Poucas vezes essa verdade foi tão óbvia. O Remo abusou da sorte e do direito de desperdiçar gols. O castigo veio nas penalidades.

Pode-se até criticar algumas substituições promovidas por Bonamigo, mas é injusto imputar a ele responsabilidade pelo revés. Se é verdade que ignorou sistematicamente o arisco e agudo Ronald, melhor jogador de lado do elenco, deve-se reconhecer que o técnico arrancou um rendimento coletivo surpreendentemente bom, mesmo sem peças à altura.

Esforçados e intensos, os garotos foram úteis na campanha, apesar de óbvias carências de fundamentos, principalmente nas finalizações. O lado positivo é que enfrentaram o peso da cobrança, inerente ao ofício. Só assim é possível evoluir e amadurecer. Mesmo sem a cobiçada taça, o Remo deve valorizar o que tem: uma juventude promissora. (Fotos: Samara Miranda/Remo e Diogo Puget/TV Brasil)

Faltou acreditar mais: o título inédito era possível

O tri-vice na temporada 2020, com derrotas nas decisões do Parazão, da Série C e agora da Copa Verde, está maltratando a torcida azulina, mas não pode servir para ignorar erros e atropelos cometidos no torneio decidido ontem. O Remo chegou com méritos à decisão e tinha plenas condições de levantar o caneco inédito, mas é justo dizer que custou a acreditar que isso fosse possível.

A vida é de quem acredita nela, já disse um poeta. O futebol, como espelho das imperfeições humanas, também se deixa reger por esse mandamento.

A frustração pela perda da CV é tanto maior porque inclui um ganho substancial a menos: a bonificação de R$ 2 milhões, dada ao campeão, que entra direto na terceira etapa da Copa Brasil.  

Quando encarou o Independente, nas quartas de final, o Remo quase foi eliminado. Atuou muito mal em Tucuruí e se classificou na bacia das almas, vencendo nas penalidades – as mesmas que o castigaram agora.

Todo mundo sabe que remontar um elenco nem sempre é tarefa simples. A diretoria liberou 16 jogadores depois da Série C e o grupo foi completado com os meninos da base. Paulo Bonamigo voltou a tempo de arrumar a casa e o Remo se aprumou a tempo de atropelar o Manaus nas semifinais, já tomado pela crença de que era possível chegar.

Na decisão, contra um adversário que eliminou concorrentes bem cotados, o comportamento da equipe foi satisfatório. Foi clara a evolução desde que Bonamigo reassumiu, a ponto de o Leão ser amplamente superior, praticamente sobrando no confronto com o Brasiliense.

Só não se pode negligenciar o fato de que uma decisão não permite erros fortuitos, como o segundo gol sofrido no Mané Garrincha e a desatenção na bola que permitiu o gol de Zé Love ontem.

Sei que alguns comentários pós-jogo se assemelham àquelas opiniões de engenheiros de obra pronta, mas é necessário dizer que o Remo talvez tivesse quebrado o jejum se desde o começo botasse fé na empreitada – a coluna abordou esse tema umas duas vezes.

Fica a lição. Andar com fé porque a fé não costuma falhar, ensinou Gil.

(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 25)

Leão vence jogo, mas cai nas penalidades: Brasiliense é bicampeão da Copa Verde

O Brasiliense fez a festa no gramado do Mangueirão na tarde desta quarta-feira após conquistar o bicampeonato da Copa Verde batendo o Remo nas penalidades (5 a 4) após uma vitória azulina no jogo, por 2 a 1. Superior ao longo da partida, o Leão ficou com um homem a mais por quase todo o 2º tempo (Balotelli foi expulso), mas não teve tranquilidade e competência para fazer mais um gol, que garantiria o título inédito. Fredson e Rafael Jansen marcaram os gols remistas.

Com o revés, a equipe paraense chegou ao terceiro vice-campeonato na temporada 2020 – Campeonato Estadual, Série C e Copa Verde.

A virada que vale um título

POR GERSON NOGUEIRA

Brasiliense-DF 2×1 Remo (Fredson e Felipe Gedoz)

O Remo tem nova chance de levantar um título referente a 2020. Decide a Copa Verde jogando contra o Brasiliense, hoje à tarde, no estádio Jornalista Edgar Proença. Como na decisão anterior, pela Série C, diante do Vila Nova, o time precisa reverter uma situação adversa. A diferença desta vez é que o placar a ser superado é, digamos, mais normal.

Na final da Série C, com o time desfalcado de metade dos titulares e sem banco de reservas à altura, o Remo foi goleado na ida e não conseguiu devolver o resultado na volta – perdeu por 3 a 2. A desigualdade resultante dos efeitos do surto de covid no elenco atrapalhou a luta azulina pelo título brasileiro, frustrando expectativas no clube.

Desta vez, a situação segue a exigir uma virada, mas o resultado a ser revertido é de apenas um gol – o Brasiliense ganhou por 2 a 1, domingo (21). Ao Leão cabe agora partir para um jogo de pressão e ofensividade para fazer dois gols de diferença ou vencer por um gol e provocar disputa em tiros livres da marca do pênalti.

A tarefa pode ser menos indigesta que a da Série C, mas implica em grandes dificuldades, pois o Brasiliense já se mostrou capaz de façanhas fora de casa, derrotando times até mais badalados, como Atlético-GO e Vila Nova dentro de seus domínios.

Dirigido por Vilson Tadei, reúne uma legião de veteranos, jogadores que sabem controlar bem uma partida e sustentar uma vantagem. Não há dúvida que o cascudo Brasiliense virá a Belém pronto a utilizar seu sistema reativo, com contra-ataques bem armados.

Ao Remo caberá manter a linha evolutiva das últimas partidas, com ênfase nos jogos contra o Manaus. Será preciso mostrar intensidade, força e concentração. O time terá que fazer gols, pelo menos dois, para garantir o título tão sonhado, mas não poderá descuidar do setor defensivo.

Aliás, a zaga é o compartimento mais questionado da equipe. O gol sofrido na reta final do primeiro jogo com o Brasiliense é sintoma desse desajuste. O escanteio no primeiro pau encontrou o atacante adversário livre e à vontade para cabecear, observado por quatro defensores azulinos.

Não é um problema exclusivo da dupla Rafael Jansen/Fredson, que teve lá seus momentos de instabilidade. Ocorre que os zagueiros dependem diretamente da cobertura dos volantes e do apoio dos laterais. Para um jogo que não permite vacilos, a arrumação defensiva deve ser tão eficiente quanto a organização ofensiva.

Quanto à linha de frente, o trio Hélio-Augusto-Wallace ganha confiança à medida que os jogos se repetem. O ápice foi contra o Manaus, explorando bem as brechas permitidas e a lentidão dos zagueiros. O Brasiliense não sairá tanto quanto o time baré, mas sua defesa também oscila muito.

Com Felipe Gedoz mais avançado, o Remo terá mais chances de alcançar seu objetivo se aliar rapidez e capacidade de definição. Não é uma tarefa fácil, mas é plenamente possível.

Heyder: craque da bola, cidadão de fino trato

“Heyder, teu nome é luz. Vai, irmão, leva teu brilho ao firmamento. Descansa em paz ao lado de Deus”. A frase, encharcada de emoção, é de Valdo Souza, um grande amigo do ponta-direita rápido e driblador, apelidado de Flecha Azul pela torcida do Cruzeiro.

Heyder nos deixou ontem, aos 61 anos, vítima da nefasta covid, que alguns ainda insistem em negligenciar e ignorar. Valdão conviveu com ele ao longo de toda a carreira e o conhecia bem. “Preparava um pão de alho no churrasco como ninguém. E levava com ele sempre um pandeiro e uma tuba. Animava mesmo”, conta, saudoso.

Guilherme Guerreiro, que viu Heyder explodir no Papão e depois conquistar o Brasil, descreve uma faceta que nem todos conheciam. “Homem de sorriso aberto e fino trato. Uma carreira rica, jogando sempre em clubes de massa. Um craque em simplicidade e humildade”.

E relembra a participação especial de Heyder na Rádio Clube por ocasião do Mundial de Clubes 2019: “Na final entre Flamengo x Liverpool resenhou durante três horas conosco sobre o futebol dentro e fora de campo. Muito conhecimento e simpatia. Que Deus o receba na sua glória”.

Cita também o trabalho que Heyder, junto com Zaire Filho, fez junto à criançada da Assembleia Paraense na Copa Fraldinha & Chupetinha.

Outra recordação carinhosa vem de Paulo Fernando: “Assim que vou lembrar deste craque de bola. Era garoto e todo domingo ele marcava presença nos gols do Fantástico”.

Para reverenciar o ponta, Cláudio Guimarães foi buscar na memória um jogo de 1988, entre Inter e Bahia pela decisão do Brasileiro, no Beira Rio. “Heyder marcado por outro paraense, o Paulo Robson. Era tanta rádio que transmiti esse jogo da beira do gramado com mais 28 outros locutores. Bahia foi campeão no 0 x 0, pois havia vencido de 2 x 1 em Salvador”.

Citei os companheiros de Rádio Clube pela reação emocionada de todos diante da precoce partida de um futebolista do nível de Heyder, cuja educação e fineza eram qualidades que o distinguiam.

Vi Heyder jogar (bem) pelo PSC e acompanhei à distância sua bela carreira nacional. Pessoalmente, estive com ele em duas ocasiões, na TV Cultura e na própria Clube. Conversamos pouco, mas o suficiente para perceber a humildade que se misturava à timidez. Grande sujeito, simples e bom, por isso tão querido.

A sentença eterna

“Subdesenvolvimento não se improvisa. É obra de séculos”.

Nelson Rodrigues, sempre certeiro

(Coluna publicada na edição do Bola desta quarta-feira, 24)