
POR ROGÉRIO MAESTRI
Tem vezes que os brasileiros tanto os de esquerda como atualmente os de direita olham com desprezo a política norte-americana como um jogo de cartas marcadas em que só há lugar para dois partidos os Democratas e Republicanos. Além disto, criticamos a influência do dinheiro nas campanhas norte-americanas que são bilionárias e muitas vezes mais custosas que as brasileiras. Também criticamos a falta de diferenciação ideológica entre os partidos e candidatos, e a imprensa brasileira, como sempre informando mal, dá mais ênfase a campanha de Donald Trump do que qualquer coisa.
Pois o velho senador norte-americano, durante décadas o único político declaradamente socialista está dando uma lição que deveríamos olhar com todo o cuidado, pois ele está por própria vontade modificando a forma do financiamento das campanhas e os seus discursos também.
Bernie, como ele gosta de ser chamado, optou por limitar voluntariamente as doações a sua campanha a pessoas físicas e a um valor máximo de US$100,00 por cidadão. Os outros candidatos chegam a ter dez vezes mais dinheiro do que ele, porém de uma miragem que se via no horizonte as grandes empresas de comunicação (para variar, contra ele) já começam a fazer as contas sobre a sua possibilidade de atingir a indicação do Partido Democrata.
Qual o motivo deste verdadeiro furacão que passa sobre os Estados Unidos? Uma coisa muito simples, o seu programa político. Quais as mirabolantes propostas deste candidato? Também simples que qualquer brasileiro poderia entender.
Pois as propostas são: limitação das doações para não ficar escravo do grande capital, estender um SUS Norte-Americano para toda a população, aumentar o salário mínimo nacional, regulamentar rigidamente os bancos e instituições financeiras, partindo do princípio se elas são muito grandes para falir elas são grandes demais para existir, ele propõe uma reforma no judiciário para eliminar a quantidade de pobres na cadeia, por fim, educação superior pública e de bom nível gratuita.
Da onde sairá o dinheiro? Simplesmente recompondo o imposto de renda aos níveis do passado, diminuindo os gastos com intervenções militares no exterior (diga-se de passagem, Bernie no senado foi o ÚNICO senador que votou contra a invasão do Iraque).
Muitos perguntam como Bernie Sanders governará sem base parlamentar, para isto ele coloca a ideia da revolução política, ou seja, ele contará com a mobilização permanente de seu eleitorado para passar o seu programa, em resumo, não tem medo de sua militância.
Então qual é o ensinamento que podemos apreender com este velho senhor, que se não ganhar as eleições, colocará em pauta na política norte-americana todas estas pautas reais. Simples, a ação da esquerda deve ter uma coerência com o seu discurso, e não deve procurar achar aliados que não sigam estas propostas. É melhor perder uma eleição com honra colocando a prática junto ao discurso, para vir mais adiante com mais força e mais votos.
Ganhando ou não, este único senador socialista dará uma lição às dezenas de partidos socialistas, comunistas ou trabalhistas que existem no Brasil e tem medo de colocar em prática integralmente o seu discurso.