À imitação de Jim Jones

O espetáculo de insensatez,

hipocrisia e prepotência

prossegue implacável.

E o drama desliza para a tragédia

Link permanente da imagem incorporada

POR MINO CARTA

Dúvidas, incógnitas, dilemas se apinham nesta nossa terra infeliz, embora destinada à felicidade, e não me refiro à importância da mandioca. Por que figuras como os presidentes das duas maiores empreiteiras do país, com endereço certo e sabido, são presos sob acusação a ser provada? E por que o Supremo não se manifesta a respeito: conivência ou covardia? Ou o ministro da Justiça, infatigável em suas omissões: covardia ou incompetência? Ah, sim, a Justiça na versão brasileira…

Vamos lá, este é só o começo. Por que Câmara e Senado são os domínios de dois sátrapas de passado largamente duvidoso? Incompetência do próprio Poder Legislativo e, também, clamorosa, do Executivo? E, na indagação, não caberia também a covardia?

Em frente. Por que setores da Polícia Federal se prestam a um jogo que desrespeita princípios básicos da Justiça e serve à casa-grande? Por ignorância, sincero reacionarismo ou ódio de classe? Ódio ao PT, portanto, na crença granítica e definitiva de seu esquerdismo?

E ainda. Por que a mídia permanece em campanha maciça contra o governo, na tentativa de justificar tanto a ideia do impeachment da presidenta quanto o envolvimento de Lula na Lava Jato? E que mudaria em relação à crise econômica e à insensatez dominante se afastadas Dilma e a ameaça de retorno de Lula em 2018? Por que, a despeito da minha aversão a teorias conspiratórias, às vezes sou assaltado por turvas suspeitas?

E por que o senador José Serra reedita o velho projeto tucano de privatização da Petrobras ao visar agora o pré-sal? Serra anos atrás declarava-se, em benefício dos meus ouvidos, mais esquerdista que Lula: estaria eu de escuta equivocada e a palavra seria entreguista? Por que o tucanato aprecia tanto as privatizações, quem sabe na esteira daquela das comunicações comandada por Fernando Henrique, a maior e mais escancarada roubalheira da história do País? Privatizar o pré-sal não configura puro entreguismo, a rendosa genuflexão do súdito?

Prossigo. Por que o noticiário das falcatruas da Fifa, de reconhecida inspiração brasileira, sumiram do noticiário das Organizações Globo, donas de um poder único na história mundial? Valeria dirigir a pergunta ao senhor Hawilla da Traffic (nome excelente, diga-se)? Será que, como Marco Polo Del Nero, os filhos do colega Roberto Marinho se abalariam a viajar ao exterior? E por que o resto da mídia não se interessa pelo assunto?

Adiante. Por que o ministro Mercadante, bom de discurso, como sublinha Lula, não sai País afora para defender o governo diuturnamente agredido? E por falar no governo, por que aumentar os juros na conjuntura dramática que atravessamos? E por que Dilma descumpre as promessas da campanha eleitoral, como diz Lula com todas as letras?

O ex-presidente, aquele cujo retorno em 2018 se tornou pesadelo da casa-grande, no último dia decidiu falar, e fez a oportuna autocrítica do PT, que seria da competência, do próprio, hesitante partido. É bom que Lula fale, porque até ontem, no vácuo do seu silêncio, a mídia tratou de colocar-lhe na boca palavras jamais pronunciadas, ou inventar situações jamais ocorridas.

Por exemplo, após a fala sobre o “volume morto” em que Dilma e ele teriam caído no momento, de verdade ouvida em um encontro do ex-presidente com religiosos. Bordou-se a partir daí, nas páginas impressas, no vídeo e pelos microfones radiofônicos, a história do dissabor da presidenta, duramente alvejada pela frase do criador. Não é que os barões midiáticos e seus sabujos primem pela imaginação. De todo modo, o enredo é outro. Foi Lula, dias atrás, quem levou a Brasília para uma conversa com Dilma uma pesquisa que mostrava a queda de ambos na preferência popular. Para comentar: “Companheira, estamos no volume morto”.

Se Lula se dispõe a dizer o que pensa, tira a bala da boca das crianças fantasiosas, desobedientes contumazes à verdade factual. Melhor inventar, ou silenciar a respeito das mazelas tucanas, e mesmo das patetices. Fernando Henrique Cardoso, diante de uma plateia que o encara como o Oráculo de Delfos, admite que também seu instituto, igual ao de Lula, recebeu doações de várias empresas, com a diferença seguinte: “Nós não fazemos política”.

E a plateia? Engole, como se não fosse político todo gesto ou palavra de FHC. Sem contar que o inefável esquece ter recebido uma doação de uma empresa pública, a Sabesp, que lida com o dinheiro de todos nós, e, isto sim, é totalmente irregular. Para dizer pouco. Mas quem se incomoda, em meio a um festival de desfaçatez e hipocrisia?

Gostaria, aliás, de ter lido, além da informação correta, também algum saboroso comentário a respeito da patética aventura venezuelana de um grupelho de senadores tucanos e democratas, mais um peemedebista, um do PPS e outro do PSD, Sérgio Petecão (mais um nome excelente). Visitavam Caracas, para apurar os atentados aos direitos humanos cometidos pela corja bolivariana, sem terem dado até hoje mostras de se preocupar com o comportamento pífio da nossa Comissão dita da Verdade e com a confirmação, tudo indica ad aeternitatem, de uma lei da anistia imposta pela ditadura.

Permaneceram em Caracas nada além de seis horas, regressaram pomposamente ao pretender terem sido barrados a caminho do centro da cidade por um engarrafamento de trânsito provocado para tanto e por uma manifestação convocada para apedrejá-los. Do ataque e das pedras falta qualquer prova, quanto ao engarrafamento, de fato houve, provocado, no entanto, pelo trânsito indiferente, infenso ao mais tênue propósito político. Em outros tempos, o episódio patético teria merecido relatos humorísticos, hoje impedidos, creio eu, pelo emburrecimento progressivo.

Refiro-me à época em que uma marchinha carnavalesca cantava tirou o seu anel de doutor/ para não dar o que falar/, a PRK-30 era um impagável programa radiofônico, Millôr Fernandes nos brindava com seu Pif Paf e Péricles com o Amigo da Onça em O Cruzeiro, Silveira Sampaio ridicularizava os graúdos sem perder a elegância e enfim chegaria Chico Anysio com seu extraordinário Show. Refiro-me apenas a alguns exemplos de refinado humor.

Nada sobrou. A quadra atual é macambúzia, a cerração tão densa que já não enxergamos o Cruzeiro do Sul e, logo abaixo, Castor e Pólux. É o breu, e nele estão claras apenas a falta de liderança, aterradora, e a insensatez e a ignorância da maioria, a repetir, multiplicado ao inverossímil, o fenômeno que redundou no suicídio coletivo liderado, décadas atrás, por certo e malfadado Jim Jones.

A lembrança da tragédia, absurda até a estupidez, sugere-me, entre tantas, mais uma pergunta: se a lei prevê um acordo de leniência, por que não aplicá-lo se preciso for, a bem do país, no caso das empreiteiras envolvidas na Lava Jato? Provadas as acusações, punam-se os culpados, está claro, e sem concessões ou resguardos. Salvem-se, porém, as empresas, que garantem trabalho e progresso. 

Que texto sensacional, que visão lúcida dos fatos e deste imenso teatro do absurdo em que se transformou o Brasil. Quando crescer quero escrever assim. 

23 comentários em “À imitação de Jim Jones

  1. Mais dúvidas:
    1. E o Supremo pode se manifestar antes de alguma solicitação formal? Mas, uma coisa é certa: solicitado formalmente a liberar um destes empresários, o Juiz hierarquicamente superior ao M o r o, negou a solicitação, dando razão a este. Vamos ver o que ocorre quando chegar ao Supremo, com raras exceções ali também tem sido dada razão ao M o r o.

    2. E o executivo tem forças pra barrar as malfeitorias dos presidentes do Senado e da Câmara? Me parece que não. Aliás, é preciso lembrar que se não tem forças pra barrar, teve muita força pra ajudar a reerguer o presidente do Senado. Criou cobra… Pena que, como deveria ser, quem sofre os efeitos do veneno não é apenas o governo.
    (…)

    A Justiça Federal negou neste sábado (27) o pedido de liberdade feito pela defesa de Marcelo Odebrecht, presidente da maior empreiteira do país. Ele foi preso preventivamente na sexta-feira (19), durante a 14º fase da Operação Lava Jato. O recurso foi analisado pelo Tribunal Federal da 4ª Região (TRF4), com sede em Porto Alegre.
    A defesa de Odebrecht havia entrado com o pedido de habeas corpus na última quinta-feira (25) alegando que não existiam indícios contra o executivo e que a decisão do juiz federal Sérgio Moro, que determinou a prisão, era “ilegal” e “vazia”.
    No entanto, o desembargador João Pedro Grebran Neto, relator dos processos da Lava Jato na segunda instância da Justiça Federal, entendeu que há fortes indícios de participação do executivo no escândalo de corrupção da Petrobras e manteve a prisão.

    Curtir

  2. (…)
    Mas, não é o próprio governo que propala aos 4 ventos que o trabalho investigativo da polícia federal é o trabalho do próprio governo?

    Ou estes questionamentos deste representante da midia chapa branca é uma grande contradição, ou a propalada ação governista contra as malfeitorias doa a quem doer é só um artifício retórico para a plateia engolir.

    Curtir

    1. Amigo, a liberdade de movimentos da PF é assegurada pela Constituição, mas sabemos que governos tem meios de frear essas ações. Foi assim nos governos de FHC, nem preciso repetir – está no noticiário de todos os jornais da época. A diferença é que hoje, de fato, temos um governo que, apesar de seus erros (e não são poucos), permite que os instrumentos democráticos funcionem. Isto ninguém, nem o mais ferrenho tucano ou reacionário aloprado, há de negar.

      Curtir

  3. (…)
    4. E, por que, até hoje, ainda não se deflagrou o processo do impedimento da presidente, se o que até já se tem de provado como ocorrido na Administração dela é muito menos do que havia contra o Collor?

    A resposta é simples: porque no planalto o que existe é só uma “presidenta” e só. Quem verdadeiramente governa o país fazendo todos os malfeitos que acham melhor são o vice presidente, o presidente da Câmara e o presidente do Senado. Contando para o sucesso desta missão com o trabalho do ministro da fazenda e da ministra da agricultura.
    (…)

    Curtir

  4. (…)
    5. E será de estranhar se a presidente a exemplo do que faz o partido rubro desde que assumiu o poder, resolver encampar mais esta ideia tucana (com outro nome, é claro) e resolver implementar um projeto de concessão do pré sal?

    Creio que não será nada estranho. Afinal, se quem governa de fato são aqueloutros referidos em 4, e se para garantir não ser impedida e resolver continuar cedendo, é questão só dos governantes de fato resolverem que o Serra tem razão.
    (…)

    Curtir

  5. (…)
    Quanto ao silêncio do grupo globo e similares acerca dos malfeitos na fifa etc, será que o mesmo também não favorece ao governo, eis que foi este quem franqueou àquela as portas tributárias e financeiras e da soberania do país para que esta viesse aqui fazer a ‘copa das copas’ em matéria de ganhos e ainda ameaçar dar chute no traseiro das autoridades brasileiras.
    (…)

    Curtir

  6. 7. E o M e r c a d a n t e ainda quererá hoje defender o governo, como quis na época em que o governo se empenhou em defender o atual presidente do senador maranhense o ex presidente da repúlica?

    Naquela época, vendo que o governo com as defesas que fazia mostrava uma face reacionária inacreditável, o M e r c a d a n t e bem que tentou defender o governo se rebelando contra a atitude, mas foi rechaçado vigorosamente, e, creio eu, temendo ter o mesmo destino da Genro, Heloisa e outros acabou se aquietando. Mas, isso quer me parecer teve um preço que seria este aí do qual o MC tá reclamando agora.

    Curtir

  7. (…)
    7. Quanto às promessas de campanha, de perguntar: quais promessas? E a quem foi prometido?
    Porque tenho certeza que o que ela está fazendo é exatamente o que ela prometeu para uma certa parcela da comunidade interessada, a qual, sem sombra de dúvidas, não é aquela de quem ela recebeu os votos decisivos para sua vitória.
    (…)

    Curtir

  8. Na quadra das ausências sentidas, além de todos daquelss saborosas sacadas de jornalistas, cantores, compositores, poetas, chargistas e humoristas de um modo geral, utilizando de todo sentimento crítico que os inspirava a criticar o governo e tudo o mais que havia de errado, ainda sente-se falta de outros: cadê a cut, os movimentos eclesiais de base, as pastorais, a teologia da libertação, a une?

    Todos calados, tão calados, que a exemplo de como pregou lamark, tiveram sua capacidade de ação pelo desuso ou por outros fatores limitantes que lhes calaram a boca. Daí que quando se espertaram muitos dos direitos já haviam sido decepafos e ainda vem mais por aí.

    Curtir

  9. Quanto ao acordo de leniência, lembrando que quem pode fazer a proposta às empresas são os órgãos do próprio poder executivo federal? É de se perguntar fazendo coro ao MC: por que o governo ainda não propôs a todas as empresas? E relativamente àquelas que jà propôs porque ainda não concluiu? E se já concluiu porque ainda não divulgou?

    Curtir

  10. Amigo Gerson, mas, se o trabalho que vem sendo feito agora é reflexo dos instrumentos democráticos, cujo funcionamento é permitido pelo governo, então por que tanto se reclama deste funcionamento?

    Veja que no texto o MC não reclama que na época de fhc não se investigava. Ele reclama das investigações atuais e as atribui a ódio de classe, ódio ao p t, reacionarismo sincero, ignorância.

    Tudo como se o governo, ou o partido governista, com seus principais expoentes, em 12 anos tivessem dado mostra d’algum interesse revolucionário, por mínimo que fosse.

    E todos sabemos que não, que não mostrou nenhum interesse. Ao contrário, desde antes da campanha que o levaria ao primeiro governo, o p t, se comprometeu a não revolucionar nada, a se manter tão reacionário, quanto o governo que ele veio suceder. E isso aconteceu quando foi emitida a carta ao “povo brasileiro”. Dali pra cá foram mergulhos reacionários cada vez mais fundos. A única coisa que mudou em relação ao anterior é que f h c dava um peixe e o governo atual passou a dar dois peixes, sendo que atualmente diminuiu para um peixe e meio.

    Curtir

  11. Mas eu não coloco em dúvida a beleza do texto. Inclusive, até faço coro com o autor na parte em que ele reclama que sente falta de mais reclamos da classe artística etc quando aos problemas nacionais. Eu apenas acrescentei alguns elementos de pressãi ao governo que haviam antes e que deixaram de existir nos últimos 12 anos. Além do que trouxe à baila algumas outras questões que ele certamente não julgou conveniente trazer.

    Curtir

  12. Prezado Antônio, hoje você está com a macaca. Mas vamos lá. Os três poderes não são separados por razões científicas, mas políticas. E a razão é muito simples: burgueses não querem correr o risco de ver o poder econômico subjugado pelo poder político do estado. A separação dos três poderes não garante o funcionamento autônomo e automático da lei, apenas destitui o poder total do tirano, do rei absoluto, ao distribuir os papéis de legislador, julgador e executor, antes concentrados nas mãos de um só porque, desse modo, há equilíbrio, não justiça, equilíbrio, entre as forças sociais que governam as relações econômicas. Quem disse que a separação de legislativo, executivo e judiciário é garantia de idoneidade do Estado? Saiba, companheiro, a organização do estado visa garantir um modo de produção, não a espécie humana e suas liberdades (de ir e vir, de pensar e manifestação, de produzir e etc). Você acha mesmo que juízes não têm a medida política das decisões tomadas? E interesses próprios? Onde está a garantia da justiça no cumprimento da lei? Lembro o caso de Lúcio Flávio Pinto, condenado por ser jornalista e ter tido a ousadia de denunciar a grilagem. Ao meu ver, o tribunal o puniu por falta de originalidade, já que a grilagem é conhecida até por crianças do ensino fundamental, mas, pelo mesmo critério, o tribunal merecia algo semelhante, pela desfaçatez de agir à perpetuação de práticas ilegais por quem tem “poder” e, desse modo, apenas imitar o que é ultrapassado… o poder, nesse caso, é apenas econômico, não necessariamente legal. Poder econômico, aliás, que aumenta num estado desacreditado. No país que se quer não mais dividir, mas estilhaçar, o excesso de poderosos têm feito mais mal que bem, porque a noção generalizada é de que o poder deve beneficiar o detentor, o que é claramente chamado de corrupção. O poder econômico ultrapassa o de sociedade e estado porque o valor econômico supera a perspectiva de vida em sociedade e o respeito pelo próximo. O modo de produção impôs a todos seu stablishment, de valorização. Cada coisa é valorizada, o comportamento, o jeito, a cor, a altura e a cor dos olhos; vivemos em meio à cultura da mediocridade em que os valores morais são reduzidos a um conjunto de itens de capital e de mão de obra. Caro Oliveira, é muita “coxinice” (me perdoe por ir tão longe) acreditar que de fato o discurso pró isenção do judiciário corresponda à realidade. Não corresponde. Obviamente. As seguidas denúncias e reportagens especiais têm a clara intenção de destituir esse governo não por haver preocupação com a população, mas consigo mesma, a imprensa que, naturalmente, tem amigos e inimigos. Parceiros e desafetos. O ataque é diuturnamente realizado contras as instituições do estado, não necessariamente sobre o PT ou qualquer outro partido e aqui coloco um raciocínio simples. Que a política, como campo ideológico, nem sempre teórico ou filosófico mas prático, permite que participe aquele que é avesso à política e, logo, contrário à democracia. Aquele que prega contra o estado prega ao mesmo tempo contra o equilíbrio de forças que garante ao proletário alguma justiça social. Sem estado, é o pobre que fica desprotegido socialmente. Quem apoia o ataque à Dilma ou ainda não se deu conta de que se trata de um passo das elites econômicas contra o povo, ou é parte interessada. Não há meio termo, no campo em que os políticos atuam há de haver o apoio dos seus eleitores porque, sem ele, mesmo contra a própria vontade e as próprias convicções, o abandono configura desprezo aos valores defendidos por esse ou aquele partido e, como a presidenta está isolada, só lhe resta ceder espaço ao adversário. O PT puro sangue, como muitos poderiam ter sugerido, jamais seria aprovado por essa mesma elite que influencia a maioria. Por isso, caro Oliveira, considero seus argumentos não mais que políticos, ainda que baseados na legalidade, porque não enxerga o movimento principal das peças do tabuleiro, não vê que o objetivo é a volta de uma realidade nociva ao proletário, de arroxo e dificuldades maiores que as que enfrentamos por hora.

    Curtir

  13. Amigo Gerson, com todo o respeito a sua opinião, mas tudo merece interpretação e reinterpretação.

    Amigo Lopes, concordo em gênero, número e grau, com quase todas as palavras que você grafou e com quase as conclusões que articulou a partir delas.

    Todavia, precisamos convir que você discorre (e muito bem) em tese, filosoficamente. É preciso que você busque amoldar ao caso concreto, os conceitos que você tão bem enuncia.

    Com efeito, se buscar abordar o texto ponto a ponto, ainda que você concorde ponto por ponto com o que escreveu o MC, tenho certeza que você não vai comparar as decisões que vitimaram o LFP (por conta de trabalho jornalístico com aquelas tomadas até aqui, por exemplo, no mensalão e no Petrolão, eis que tenho certeza que você não vai comparar o nosso jornalista LFP, com aqueles, quaisquer deles, que foram condenados nos dois casos que referi.

    Também tenho certeza que se você examinar um a um dos argumentos do MC você vai perceber que em nenhum momento de toda a minha abordagem, onde os comentei, houve qualquer tentativa de negar que ela é política. Ela até referiu alguns aspectos judiciais e legais, mas sem perder de vista a dimensão política destes aspectos.

    Quanto ao termo “coxinice”não há do que perdoar-lhe. Afinal, não o considerei ofensivo. Não me impressionou negativamente. Se muito, como já lhe disse antes, eu apenas noto que você vem fazendo frequentes concessões àqueles clichês que alguns adeptos do partido rubro são usuários contumazes visando preencher a lacuna da falta de argumentos devida à frequente descoberta de problemas políticos, econômicos, sociais etc, a maioria revelados e/ou admitidos pelo próprio governo. Mas, trata-se de um pormenor que não chega a preocupar dado que falta de argumentos não é o seu caso. Atribuo isso a uma inofensiva licença retórica.

    No mais, antes de concluir, dois registros. Sim, parecido a você que tem uma convicção a respeito daqueles que atacam a presidente, eu também firmei uma sobre aqueles que a apoiam. Eu os coloco em dois grupos: (a) aqueles que ainda não perceberam que ela, e seu antecessor,
    não transformaram absolutamente nada daquilo que encontraram feito pelos péssimos governos que os antecederam. Como eu disse antes, apenas passaram a dar dois peixes à massa do eleitorado, quando os antecessores davam apenas um peixe; e (b) aqueles que sabem que ela não transformou nada do que encontrou, seja porque já sabiam desde antes (carta ao povo brasileiro), ou descobriram logo nos primeiros momentos que os rubros subiram a rampa.

    Concluindo, convido-lhe a trocar as lentes da generalidade, por outras que focalizem as questões mais especificamente.

    Curtir

  14. Pois é, caro Oliveira, interpretações e reinterpretações baseiam-se necessariamente numa epistemologia. O ponto do ponto de vista mencionado por Leonardo Boff, prezado Pedro Paulo, é exatamente uma epistemologia. A obra de Marx é uma epistemologia, um ponto de vista da história da civilização e é, por isso mesmo, uma ferramenta de análise histórica e econômica poderosa. A tese central do “O Capital” não é o socialismo, mas a lutra de classes como fenômenos sociais capazes de mudar paradigmas sociais e econômicos historicamente estabelecidos. Como vocês, não gosto nada de ver denúncias de corrupção envolvendo dirigentes do estado, sendo deste ou daquele partido, mas sei perfeitamente que desde sempre a maneira de agir da burguesia é o contrapeso da ação do estado e isso ocorre desde que o capitalismo é capitalismo. De denúncias de corrupção e teorias conspiratórias há inúmeros exemplos, e em vários períodos históricos, não só de hoje. Mas defendo o PT pela natureza prática da ação de estado, das definições de políticas públicas que têm mudado a vida de parcela significativa da população e dos efeitos duradouros de medidas econômicas que trouxeram de novo o Brasil a um papel de estaque na América e no mundo. Podemos observar, também, que o interior dos estados, onde a vida sempre foi muito mais difícil, tem obtido desenvolvimento e podemos citar Paragominas e Parauapebas como exemplos paraenses, além de Marabá, Santarém e outras localidades. O problema não é possuir riquezas, mas transformá-las do potencial de riqueza para riqueza concreta e que beneficie a todos. Esse é o maior desafio e temos visto muito mais de sucesso no governo petista que no tucano, mesmo que não seja o que queríamos. E meu ponto de vista é simples, apenas aceito trocar do PT para um partido que, socialmente, pense o futuro para além da manutenção do estado de coisas às elites tradicionais e retrógradas. O PSDB, para mim, representa uma continuidade perversa não só das velhas oligarquias, mas de políticas públicas ainda mais impopulares que a reforma petista. Como disse, com a presidenta isolada, ela é praticamente obrigada a ceder terreno aos adversários políticos. Crises econômicas em governos tucanos são tratados como inevitáveis e fatídicos, e nos governos petistas, como a mais completa incompetência do partido e fruto da convicção socialista. No entanto, as consequências mais sérias de crises internacionais foram sentidas nos governos tucanos porque a economia brasileira não cresceu praticamente nada na década de 1990, baseada como foi em política econômica macartista. Aliás, o traço macartista salta aos olhos na propaganda coxinha nacional… Aceito trocar o PT do governo, mas não por PSDB ou DEM, isso, de jeito nenhum. Como esquerdista tento manter coerência e acho que o PSOL pode ser uma via diferente daquela que o PT adotou como “standard”. O PSOL, ou o velho PT, por mim, pode ter uma chance, e é contra isso que os coxinhas macartistas lutam, contra uma continuidade da filosofia socialista no estado.

    Curtir

  15. Amigo Lopes, acho que você tem todo o direito de acreditar no p t, de defendê-lo e de não trocá-lo por nenhum partido no qual você não confie. Eu jamais sequer lhe sugeriria que não acreditasse, que não o defendesse, ou que o trocasse. E lhe digo isso com propriedade, eis que baseado na realidade que está aí pra todo o mundo ver, na cidade e no interior, não confio em nenhum. De outra parte estou de acordo que o capitalismo é selvagem, que o socialismo é algo mais consentâneo com o interesse da coletividade e que o que eleva qualquer governo é o seu propósito inclusivo confirmado pela sua prática cotidiana no rumo da inclusão, especialmente na perifetia das grandes cidades e no interior do país.

    Com efeito, não havendo entre nossas posições nenhum dissenso do ponto de vista conceitual, epistemológico, conceitual e quejandos, gostaria de reiterar o convite para que você se deslocasse um pouco desta abordagem mais genérica e se concentrasse no aspecto mais específico, mais concreto, mais factual, daquilo que ponto a ponto foi questionado pelo MC.

    Curtir

  16. Pois é, Oliveira, uma coisa e a outra não se dissociam porque o momento histórico é história também, porque o presente existe numa existência que de tão fugaz é impossível a análise sob uma ótica do presente, e esta nem existe, pois, sempre que olhamos um fato já estamos vendo o passado que de tão longe nos escapa da vista, mesmo que este passado tenha acabado de transcorrer quando você terminou de ler este parágrafo. Tudo o que fazemos é rastrear o fato. Não é que o mundo mude a cada segundo, é que não dispomos de olhos e filosofia para resolver o presente sem história, pontos de vista ou epistemologia e sem se aventurar na seara da política. Somos completamente dependentes da experiência e ela, toda a experiência humana disponível, está organizada, veja só, na história. Qualquer tentativa de sair desse campo é um imenso erro porque toda análise, factual, específica e concreta, depende de duas coisas: 1) da experiência prévia do indivíduo, e; 2) de evidências que norteiem a episteme. Não vejo elementos surpreendentes na mídia porque sei, da história, que o jogo é perfeitamente compreensível do ponto de vista da luta pelo poder, a partir da epistemologia marxista. Sei que indício não é a mesma coisa que evidência e delação pode até ser indício, mas não evidência. A discussão ponto a ponto só renderia debates de temas localizados e de menor importância, como no caso jurídico, e isso não me interessa porque mesmo a legalidade está historicamente tão sujeita à política quanto o legislativo e executivo, o que pensei ter deixado suficientemente claro antes. Cientificamente, prender um homicida é um assunto redutível a questões técnicas e cálculos de agravantes e atenuantes de pena. Daqueles crimes dos quais o PT, ou filiado, seja acusado, que se condene o culpado, quando houver, e se absolva o inocente. É a regra do jogo. As questões postas por MC são retóricas, e toda resposta será política, como a sua, e não uma verdade positiva e cartesiana enquanto o assunto não se esgotar no tribunal e uma sentença for definida porque haverá quem concorde e quem discorde. Talvez nem assim.

    Por outro lado, devo alertá-lo de que o posicionamento de total descrédito da política é uma premissa importante para o fascismo e, quanto mais se distanciar de ideologias, partidárias ou não, mais se corre o risco de o fascismo se estabelecer. E isso não é uma opinião, é um dado concreto e objetivo. Pense bem, Oliveira, e tome partido de algum ideal e julgue por meio desse ponto de vista, e não baseado em legalidade, pois as leis mudam e nem sempre são para beneficiar o pobre.

    Curtir

  17. Pois bem, amigo Lopes, você demonstra, agora bem claramente, que não pretende analisar especificamente aquilo que o MC abordou no artigo postado, quando, por exemplo, diz expressamente que ‘não lhe interessa o debate de temas localizados e de menor importância que resultará da análise ponto a ponto’ que lhe sugeri.

    Tudo bem, não vou insistir.

    Deveras, agora, nada obstante eu experimente alguma curiosidade a respeito do que você pensa especificamente sobre a consistência de alguns assertos e críticas que o MC faz sobre os mais variados temas políticos, sociais, econômicos e mesmo legais, diante de seu desinteresse, tenho que só me resta abordar um ou dois aspectos deste seu último comentário.

    Começo dizendo que tudo o que você escreveu, deixou sim, bem claro todo o seu pensamento, seja do ponto de vista político, seja do ponto de vista filosófico, seja do ponto de vista epistemológico, seja do ponto de vista histórico, tanto no aspecto isolado de cada um, quanto no aspecto em que eles restam sistematizados.

    Na sequência, anoto que tudo que até agora escrevi colocam em prática cada um dos pontos de vista que referi no parágrafo anterior, tanto isolada, quanto sistematicamente, a partir do que foi escrito pelo MC, apresentando uma visão específica (a minha), que ora estende, ora restringe, ora afirma, ora nega o que ele escreveu. Visão esta que não pretende ser a verdade, ou se apropriar da verdade, mas que está lastreada naquilo que os fatos inegáveis e os atos ostensivos e mal disfarçados evidenciam a realidade tanto da classe dominante, quanto da classe dominada.

    Vou adiante, sustentando, a propósito de seu alerta, que descrédito total nos partidos políticos não quer significar, não tem relação de dependência necessária, com descrédito total na política. A existência desta relação de necessária dependência só tem cabimento na cogitação daqueles que acreditam que a única forma do sujeito experimentar a inexorável dimensão política da vida é submeter-se a praxis partidária. E cogitações desta natureza tenho certeza plena de que não integram o universo de suas reflexões.

    No ponto, me permito deixar escapar uma dúvida: tendo o fascismo mais de um caminho disponível para se aproximar de suas vítimas, será um deles a manutenção de um espírito atento e crítico às promessas, aos atos, e, principalmente, à propaganda de quaisquer partidos, de quaisquer políticos e de quaisquer governantes vinculados a tais partidos?

    No mais, é dizer, pra concluir, que a legalidade não é um partido a tomar, não é o fim a perseguir, não é o objetivo a alcançar. Tampouco o pobre representa o meio do qual deve se valer o político, o partido, o governo, para alcançar os seus propósitos muito pouco, quase nada, republicanos.

    Curtir

  18. Caro Oliveira, para mim, o ponto de vista da legalidade é insuficiente porque o discurso político baseia-se nela, ou presume-se isso. Destarte, tenho cada questão levantada por MC como mera retórica, porque, para si, essas questões têm respostas, como para quem lê o artigo. Não julgo precisar dessas respostas para analisar a conjuntura do Brasil atual, mas de entender o porquê do conflito político tão acalorado e intenso em torno da presidência, uma vez que até o observador medíocre sabe que a intenção real da oposição é retomar essa máquina de arrecadação e de corrupção, posto que contra essa mesma oposição, outrora situação, pesam denúncias e acusações ainda piores, ao meu ver, que o que se vê contra o governo petista de hoje. Evidentemente, a corrupção me incomoda, mas tem sido muito mais incômodo para mim um congresso que anda para trás e uma imprensa desmoralizada que vê, e divulga, defeito em tudo, menos em si mesma. Quero dizer, o positivismo determinista, como a lei, pode resolver questões específicas cientificamente, se tratadas cientificamente, mas o critério do julgador e a habilidade de promotores e defensores são determinantes, mesmo que mediante provas, ao desfecho dos casos concretos num tribunal, no que a retórica pode favorecer ao político de ofício. Uma interpretação possível das questões levantadas é justamente a de que a justiça no Brasil tem decisões questionáveis, e citei a decisão contra LFP como exemplo de toda essa “credibilidade”.

    A crítica é importante, e acredito que temos feito bom papel enquanto discutimos nossos pontos de vista ou opiniões. Continuemos, então, a debater.

    Curtir

Deixar mensagem para blogdogersonnogueira Cancelar resposta