O acesso é logo ali

POR GERSON NOGUEIRA

É a melhor campanha do Papão em campeonatos brasileiros na era dos pontos corridos. São 15 pontos em 21 disputados. Terceira colocação e presença na zona de acesso. O triunfo sobre o ABC, sexta à noite, em Natal, deixou o time em situação privilegiada na Série B, permitindo projetar pela primeira vez a possibilidade de acesso.

Para quem começou o campeonato preocupado em não cair, a bela arrancada – cinco vitórias consecutivas – é uma surpresa maravilhosa. O time custou a se encontrar, o técnico Dado Cavalcanti buscou várias alternativas e finalmente encaixou um esquema que tem como principal referência a sólida dupla de zaga, composta por Tiago Martins e Gualberto.

Contra o ABC, a equipe começou explorando bem as subidas do adversário. Com marcação forte sobre Caíque e Ronaldo Mendes, o Papão foi tomando conta do jogo e sentindo-se à vontade em campo. Como resultado natural disso, abriu vantagem logo aos 18 minutos, em belíssimo gol olímpico de Pikachu.

A marcação implacável sobre o setor de ligação do ABC foi o segredo do Papão para controlar o jogo durante todo o primeiro tempo, induzindo o adversário a erros primários na tentativa de chegar tocando a bola. O passeio só não foi maior porque na criação o Papão não conseguia se acertar.

Carlos Alberto, que voltou ao time, ficou muito preso ao cerco do ABC e se movimentou abaixo do esperado, prejudicando várias manobras ofensivas. Ainda assim, o Papão chegou ao segundo gol, aos 35 minutos, através de Leandro Cearense, confirmando a superioridade no jogo.

O segundo tempo foi equilibrado e se tornou tenso, com o ABC lançando-se ao ataque para diminuir a desvantagem e acuando o Papão em seu campo. Mas, se contra o Paraná o time foi instável na maior parte do tempo, contra o ABC mostrou consistência defensiva e determinação no ataque.

Sem alternativas para furar o firme cinturão protetor da zaga do Papão, o ABC ficou cruzando bolas sobre a área, sem maiores consequências. Melhorou no final, na base do abafa, criando algumas situações de perigo.

Com a expulsão de Fahel, Dado lançou Luiz Felipe, deslocando Jonathan para a meia cancha e deixando Pikachu livre para atacar. O ABC melhorou e impôs um certo sufoco, como era previsível, mas, se a armação bicolor funcionasse a contento, aproveitando os espaços, o placar teria sido bem mais amplo.

No final, uma vitória categórica, que confirmou que o time ganha confiança e autoridade a cada rodada. Perdeu, inclusive, o célebre acanhamento em jogos fora de casa. Dado fez o Papão atuar com disciplina tática, exibindo um conhecimento apurado sobre virtudes e defeitos do oponente.

É cedo ainda, mas acreditar no acesso deixou de ser delírio de torcedor fanático. Chances existem.

Bola na Torre

O programa debate a rodada da Série B e a situação geral do futebol paraense. Giuseppe Tommaso comanda, com participações de Saulo Zaire, Rui Guimarães e deste escriba de Baião. Começa logo depois do Pânico na Band, por volta de 00h10.

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No mato sem cachorro

O bloqueio da receita, usado como argumento pelos diretores, é apenas parte do pesadelo que assombra o Remo a um mês da estreia na Série D. Há muito mais do que isso, sendo que muitos problemas nem vieram à tona ainda. O fato é que a caixa-preta das finanças do clube continua a desafiar a lógica e o bom senso.

Os transtornos causados pela falta de dinheiro tornam o futebol do clube praticamente ingovernável, permitindo prever um cenário ainda mais grave nos próximos dias. Por enquanto, os jogadores se recusam a treinar, como forma de protestar pela falta de pagamentos (desde abril) e pela ausência dos dirigentes.

O passo seguinte deve ser a debandada de atletas, alguns dos quais começam a ser sondados para deixar o Baenão. Fernando Henrique, por exemplo, foi procurado por um clube da Série B. Eduardo Ramos pode sair a qualquer momento. As incertezas, que já afetam a preparação do time, podem desfalcar seriamente o elenco na Série D.

Enquanto o clube estiver entregue à própria sorte, com um presidente ausente, a tendência é que a desesperança prevaleça. Principalmente depois que o STJD lavrou a sentença de três jogos de suspensão, condenando a torcida a ver o time em Belém pela Série D somente em setembro.

Diante de tantas notícias ruins, os verdadeiros remistas precisam agir, e rápido.

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Seleção: da vergonha à indiferença

Contra o Peru, hoje, o Brasil estreia na mais encarniçada de todas as Copas Américas. O torneio se desenha como um dos mais difíceis dos últimos anos. Além da favorita Argentina e do Brasil, outras três seleções também estão no páreo – Chile, Uruguai e Colômbia.

O drama de Dunga e seus comandados é que ele corre desesperadamente atrás de um bom resultado para recuperar prestígio, depois do traumático 7 a 1 para a Alemanha. Por mais que os jogadores digam que não precisam provar nada a ninguém, a realidade aponta na direção contrária.

A Seleção vive hoje um de seus piores momentos em termos de popularidade, talvez só comparável à frustração decorrente da tragédia do Maracanazo. A diferença é que em 1950 a frustração se transformou em tristeza. Hoje, a vergonha gerou indiferença, ausência de sentimento. E somente vitórias podem diminuir as mágoas que a torcida carrega no peito.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 14)

A xepa do Jornalismo

xepa

POR MARIANA ZYLBERKAN

O trabalho freelancer está para o Jornalismo assim como o conjunto de leis para os nobres na França pré-revolucionária. Só tinha que obedecê-lo quem estava fora das classes privilegiadas,  assim como o mercado de trabalho se furta das obrigações ao institucionalizar o “jeitinho” trabalhista que corrói cada vez mais a profissão. A desigualdade fez eclodir a Revolução Francesa, o que ainda não aconteceu no Jornalismo, apesar de a profissão ir à forca recorrentemente a cada passaralho nas redações.

Depois da aberração contratual apelidada de freela fixo, tão difundida no mercado, eis que a informalidade mostra seu poder corrosivo ao transformar a profissão em xepa e o ofício de escrever ser negociado a trocados na internet. O fenômeno é fácil de explicar: muita gente qualificada na rua sai em busca de trabalho e a internet viu nisso um nicho de negócio. Alguns sites se disponibilizam a fazer a ponte entre profissionais em busca de bicos e empresas com projetos que demandam produção de conteúdo; é aí que o festival de bizarrices impera.

Nesses sites, a oferta é grande: posts para blogs de cross fit, textos para acompanhar fotos de divulgação de uma clínica dentária no Instagram e publicações “com sacada comercial” para site de tecnologia. Diante dos projetos, cabe ao profissional cadastrado oferecer seu preço para aquele trabalho. Eu me aventurei e fiz propostas justas a cinco deles, todas condizentes com a minha bagagem profissional descrita na minha página. Nenhuma foi aceita.

Pior é quando o próprio contratante faz a proposta. “Pago 5 reais por textos de 300 caracteres para blog de Beleza”; “Escreva sobre pessoas que tiveram experiências ruins em viagens. 20 reais cada”; “12 artigos de 350 palavras sobre o Flamengo para entregar em uma semana. Preço fixo: 45 reais”. Todas essas propostas são reais e eu posso enviá-las a quem se interessar.

É inegável a demanda por pessoas que sabem escrever, ainda mais com a proliferação de sites e blogs, mas por que se paga tão pouco por isso? Podemos atribuir a resposta ao velho mimimi de que o brasileiro é um povo que não lê e, portanto, a escrita não é valorizada, o que não é mentira. O Brasil tem uma livraria por quase 65 mil habitantes, bem abaixo do mínimo recomendável pela Unesco, uma para cada 10 mil habitantes. Bom, mas temos fartura de bancas de jornal, pena que as revistas têm ficado cada vez menos em evidência para dar lugar a qualquer coisa cor de rosa da Peppa Pig e, mais recentemente, aos livros de colorir. Esses devem faturar 30 milhões em 2015, segundo dados do setor.

Em um paralelo, as quinquilharias vendidas em livrarias e bancas de jornal concorrem a atenção das pessoas com livros, revistas e jornais assim como vídeos de bichinhos fofos e fotos do filho bebê da sua amiga passaram a competir pau a pau com o consumo de notícias desde que as redes sociais foram alçadas a publisher. O brasileiro é o povo que mais lê notícias por meio de redes sociais no mundo e também é o que dedica mais tempo a elas. O brasileiro gasta 9 horas por mês (!) em redes sociais, 290 horas a mais do que navega em portais de notícias, segundo relatório recente da Comscore. Natural, portanto, que os meios de comunicação em busca de retomar a relevância do passado recorram às redes sociais para se aproximar dos leitores.

Se o futuro (e o presente) do Jornalismo é online, será sensato atribuir tão rapidamente às redes sociais a função de mediar a relação entre publicações e leitores? Sei que essas relações ainda estão em um turbulento período de transição. Por isso mesmo, cabem questionamentos sobre as soluções apresentadas como milagrosas para uma questão difícil de solucionar.

Se os conteúdos chegam até mim quase acidentalmente, por meio de compartilhamentos na minha timeline, é natural que se pague trocados a quem os produz e cobrar 5 reais por um texto nunca será visto como uma piada de mau gosto. Por enquanto, essa é a realidade de um presente desanimador.