Uma carta de gratidão ao Botafogo

POR GLOBOESPORTE.COM

Foram 12 anos de Botafogo até o ciclo se encerrar. Luis Guilherme chegou ao clube aos 11 anos e, no dia que completou 23, teve seu contrato encerrado, sem que fosse procurado para renovar. Mesmo sem ter disputado sequer uma partida como profissional com a camisa que o revelou, o goleiro descartou qualquer tipo de mágoa. Por isso, publicou uma carta de agradecimento, na qual recorda sua passagem e destaca a importância de tudo o que viveu para sua formação como atleta e homem – em 2016 ele se forma na faculdade de Psicologia.

Luis Guilherme e Jefferson Botafogo (Foto: Vitor Silva/SSPress)
Luis Guilherme em momento de descontração com o capitão Jefferson (Foto: Vitor Silva/SSPress)

Confira a carta de Luis Guilherme na íntegra:

Venho por meio desta carta formalmente agradecer ao clube Botafogo de Futebol e Regatas, que durante esses doze anos me ajudou na minha formação como atleta, como homem e cidadão. Lembro-me bem do primeiro teste para o Botafogo, em janeiro de 2003 para a equipe de futsal. Eu, oriundo do Pavunense Futebol Clube, um pequeno time do bairro da Pavuna onde cresci. Ao chegar me deparei com seis goleiros que lá estavam. Eu era o último deles, o que muitas vezes me levava a pensar em desistir, pois os treinos eram na sede de General Severiano e, como morávamos muito longe, o custo para as atividades eram caras e ainda tinha de comprar os equipamentos. Minha mãe, dona Elisa, e meu pai, seu Sergio, me ajudavam com o que podiam. Minhas irmãs, Anastácia e Tailize, costuravam minhas meias e joelheiras que sempre estavam rasgadas após os treinos. Assim o ano de 2003 passou.
Nesse mesmo ano eu fui para o futebol de campo no mês de agosto. Os treinos eram em Marechal Hermes, lugar que passaria a frequentar diariamente por mais quatro anos. Lembro-me bem quando saía dos treinos com o uniforme da escola para não pagar a passagem, e chegava em casa com a mochila cheia de roupa de goleiro, todas enlamaçadas e que precisavam estar limpas e secas para o dia seguinte. Minha mãe reclamava horas quando isso ocorria, e assim eu prosseguia. Era muito bom ver os pais reunidos, indo assistir a seus filhos jogarem por vários cantos da cidade, dessa forma o tempo foi passando.
Em 2006, já na categoria infantil, recebi um documento do professor Botinha (ex-lateral-esquerdo do Botafogo). Era o fax da minha primeira convocação. Depois daquele dia, e por mais 16 vezes seguidas por quatro anos, aquele fax chegaria ao clube com o meu nome na lista. Eu com 13 para 14 anos, ainda na oitava série, não sabia o que fazer. Um menino do subúrbio, que vivia jogando descalço pela rua com os amigos, viajaria de avião para outro país. Esse dia foi mágico na minha vida! Dias depois estava eu embarcando rumo ao Catar e em seguida para Barcelona, na Espanha. E assim, ano após ano, fui fazendo o que gostava, jogar pelo Botafogo, alcançar a seleção brasileira e me manter estudando.
Em 2007 após uma boa competição também em Barcelona, chegara a Marechal Hermes uma nova carta, esta diferente das anteriores. Tinha o escudo do Arsenal F. C. da Inglaterra. Devido à boa competição na Europa eu fui chamado para passar 15 dias em Londres e treinar no clube. Essa viagem foi a mais maravilhosa da minha vida. Pois poderia levar um responsável como acompanhante. Foi difícil escolher, mas injusto seria eu não levar a  minha mãe comigo. Em 2003 ela trabalhava em dois empregos como diarista, e um era exclusivo para custear o meu lanche, a passagem e o material de treino.

E assim partimos eu e minha mãe rumo à Terra Da Rainha. Tudo era mágico! Conhecemos o Parlamento britânico, vimos o Big Ben, a London Eye, e tantas outras coisas legais. E claro sem esquecer a estrutura incrível do clube londrino e seus jogadores: Lehmann, Fabregas, Gallas, Arséne Wenger e companhia. A felicidade foi em dobro, pois minha mãe estava comigo. De tantos momentos difíceis que passamos juntos este era um grande alento para ela, e a minha grande felicidade foi de poder proporcionar tal momento. Esse ano foi ainda mais completo porque ganhamos o Sul-Americano Sub-15 pela seleção brasileira.
Em 2008, ainda de férias com minha família, recebo uma ligação para me apresentar em Caio Martins para treinar. Volto de Campos Dos Goytacazes e chego a Niterói. Ao abrir o vestiário me deparo com todos os jogadores do time profissional. A princípio, não entendi nada, mais logo fiquei esclarecido. Aos 15 anos de idade eu fui integrado à equipe profissional do Botafogo de Futebol e Regatas. Foi um processo muito delicado devido à minha idade. Exigiu uma adaptação muito rápida e muitas responsabilidades que tive de lidar. Lembro de minha mãe chorando quando o supervisor disse a ela que eu não seria mais dela.

Passaria a semana no clube para os treinamentos, teria acompanhamento de nutricionista, psicólogo, e o clube iria disponibilizar moradia e alimentação, além de um contrato que eu pudesse ajudar em casa. Minha mãe fez ao supervisor uma única ressalva: queria que o clube custeasse meus estudos, porque mesmo com as coisas dando certo no futebol, não queria que eu ficasse sem concluir no mínimo o ensino médio. O clube aceitou, e durante dois anos vivia em mundos extremos, alunos de 15 e 16 anos em aulas de história e matemática pela manhã e treinamentos puxados com marmanjos de 25 a 30 anos pela tarde. Assim fui levando uma vida duplamente corrida: jogador profissional e um adolescente e estudante que tinha de tirar boas notas.
2009! Com tendinite nos dois ombros fui para o Sul-Americano Sub-17, no Chile. Vencemos a Argentina nos pênaltis, fui muito criticado no inicio, mas superei em silêncio e com muito trabalho. Ali comecei a aprender os altos e baixos do futebol. Em seguida fomos ao mundial da categoria, na Nigéria. Um país com muitas dificuldades em vários setores, mas guardo até hoje esta viagem como a mais importante que já fiz na minha vida. Aprendi a sorrir mesmo em grandes dificuldades, aprendi a não reclamar tanto e a me cobrar mais, pois sei que há problemas bem maiores do que os meus.
No ano de 2010, passei pela minha primeira cirurgia no clube, foi um ano difícil, pois tive de seguir esse protocolo nos anos seguintes, e o meu espaço foi diminuindo. Entre inserção e remoção de parafusos no pé e na mão, eu já com o ensino médio concluído, sempre conversava com a psicóloga do clube, Maíra Ruas (hoje no Vasco Da Gama) sobre o futuro. E confessei a ela o desejo de cursar uma faculdade. Tinha tempo de contrato, mas devido às cirurgias, pensei que seria uma boa ideia. Sempre fui muito de ler, mas sentia falta também da minha rotina de estudos. Ela com sua atenção, e me conhecendo bem, desde 2006, me aconselhou na escolha do curso. Em setembro do mesmo ano fiz o vestibular, em janeiro de 2011, fui matriculado na faculdade de Psicologia, o primeiro da família a cursar o nível superior. Uma vitória como atleta? Sem dúvida. Mas ali, com meus 18 anos de idade, foi um grande passo como homem e cidadão.
Entrei para a faculdade e lá conheci não só o ofício de psicólogo, abri a minha mente para novos conceitos.  Aprendi sobre política, filosofia, inglês, sociologia, medicina. Freud explicou! E agora os jornais esportivos se aglutinavam com os livros de Nietzsche, Sócrates, Bandura, Freud, Lacan, Platão, Lipovetsky, Bauman, Hegel, Skinner,  Sartre, Kant e tantos outros grandes pensadores que mudaram e mudam até hoje a minha forma de ver o mundo. O futebol continuou, as lesões me tomaram tempo, os empréstimos tornaram-se rotina, e tudo passou muito rápido.
Fui emprestado para adquirir experiência, joguei e aprendi muitas coisas. Saí de uma bolha. A realidade do futebol é muito difícil e árdua para milhares de jogadores. Vi muitos em grandes dificuldades. Ouvi muitas histórias de superação, atletas que passaram fome, que pararam por lesões, com problemas familiares… A vida do futebol não é fácil. Meu espaço no clube foi diminuindo, um nítido sinal do epílogo de um longo ciclo de formação. Em 2014 eu passei a maior parte do tempo treinando separado. Fui emprestado em 2015 no mês de janeiro e retornei em abril.
No dia do meu aniversário, dia 4 de junho completei 23 anos, também encerrei um ciclo de 12 anos no clube que me formou. Das duas décadas que tenho de vida, uma se passou vestindo o uniforme alvinegro, vivendo o dia a dia do clube, na alegria e na tristeza, na vitória e na derrota. Fiz muitos amigos que levarei daqui pra frente. Aprendi com todos que tive contato, dos porteiros ao presidente. Todos foram meus professores, me passaram ensinamentos e lições de vida. Entrei um menino e saí um homem, de amador a profissional.
O grande motivo para formulação desta carta é o de agradecer ao clube por tudo que passei defendendo-o. Todos os momentos que vivi e todas as oportunidades que tive na vida são oriundos do meu esforço, mas sem duvida o clube Botafogo de Futebol e Regatas foi um grande catalisador para que tudo isso fosse possível. O balanço foi extremamente positivo, e só me cabe agradecer ao clube pelo qual sou um grande admirador e que guardo no meu coração com todo o carinho do mundo. Sempre estarei acompanhando e torcendo para que a sua estrela brilhe sempre. Por ora não pude me tornar um ídolo que estampa as suas galerias e que enche o seu presente e passado de muitas glórias. Seguirei a minha carreira como atleta, e torço para que seja um até breve.
Sou apenas um dentre tantos outros meninos que sonham em ser um jogador de futebol e que veem no Botafogo uma estrada para atingir tal objetivo. Muitos chegarão, muitos se despedirão assim como eu. Torço do fundo do meu coração para que muitos possam viver um pouco do que eu vivi no clube. E que saiam assim como eu saí. De um menino sonhador a um homem e atleta.  Sou hoje um formando em Psicologia, atleta profissional e chefe de família. Tornei-me um bom filho, ajudei a minha família e aqueles que me ajudaram no início. Tornei-me um bom homem. E só tenho a agradecer ao Clube pela sua importância na minha vida e na minha formação. Obrigado por tudo, Botafogo de Futebol e Regatas.
Rio de Janeiro, 7 de junho de 2015

Luis Guilherme L. M. Alves

Na reserva

POR ANDRÉ NUNES

Não é de hoje que os acordos e negócios da Fifa são alvo de suspeita internacional. Por isso, não se pode dizer que o escândalo de corrupção descoberto pelo FBI seja exatamente uma surpresa. O que tem impressionado mesmo é a rapidez com que novos acontecimentos e informações têm surgido: uma coisa meio parecida com os cinco gols que a seleção brasileira levou só no primeiro tempo do funesto 7 x 1. Desde 27 de maio, quando sete dirigentes da Fifa foram presos – entre eles José Maria Marin, ex-presidente da CBF -, muita coisa aconteceu. Joseph Blatter foi reeleito mandatário da Fifa, mas já anunciou que não ficará no cargo, convocando novas eleições para dezembro deste ano. As copas da Rússia e Catar, marcadas para 2018 e 2022, respectivamente, estão a perigo: suspeita-se que a escolha dos países faça parte do esquema de corrupção. Até le main de Dieu do atacante francês Thierry Henry, que tirou os irlandeses da Copa da África do Sul, em 2010, está sendo acusada de fazer parte do esquema. O presidente da Federação Irlandesa, John Delaney, disse que recebeu € 5 milhões de Blatter para a Irlanda esquecer o caso e mandar a bola pra frente.

Anacronismo: instituições ultrapassadas fazem da bola um convite para falta de democracia e transparência

Anacronismo: instituições ultrapassadas fazem da bola um convite para falta de democracia e transparência

No Brasil, o prédio da CBF, batizado com o nome de Marin, ficou anônimo do dia para a noite. Marco Polo Del Nero, atual presidente da entidade, disse que “não tem nada a ver com isso”, mas já começou a preparar sua renúncia, e o Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelou que Ricardo Teixeira movimentou nas suas contas quase R$ 500 milhões nos últimos quatro anos. A sensação geral é de quem vem mais por aí, mas de que essa também é uma ótima oportunidade para se rever muita coisa, especialmente no Brasil que, entra ano, sai ano, continua com as mesmas questões. Só para citar algumas: clubes endividados, calendário de jogos apertado, organização de campeonatos contestada.

Para o professor da Fundação Getúlio Vargas, Pedro Trengrouse, especialista em direito e marketing esportivo, o importante neste momento é não esquecer que a principal questão é a estrutura anacrônica das entidades esportivas, pouco democráticas e transparentes. Consultor da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Copa de 2014, no Brasil, Trengrouse falou ao Aliás sobre os desafios que o futebol brasileiro tem pela frente, caso saiba aproveitar o momento. “O fato é que as organizações esportivas estão num limbo sem lei, onde não há regulamentação ou responsabilidade. O mundo mudou e elas não evoluíram.”

Com as revelações dos últimos dias envolvendo FIFA, CBF e outras entidades do futebol, começou a surgir um clima de “ufa, agora vai”. É para tanto?

Sim. A sociedade está pronta para cobrar mudanças concretas dessas entidades. Eu realmente acho que é para ficar otimista. Só que não podemos vacilar. É preciso modificar as estruturas, não adianta caçar as bruxas, pura e simplesmente. No caso da convocação de novas eleições pelo Blatter, por exemplo, acho que o que está em curso é um grande acordo para acomodar todos os interesses envolvidos. Não acredito que esse movimento foi impensado. Acho que ele calculou muito bem os passos que está dando e tem tudo para fazer seu sucessor, que, acredito, será o Jérôme Champagne, grande aliado dele.

Quando você fala de modificações estruturais, a que exatamente está se referindo?

Quando as organizações esportivas foram criadas, elas administravam a falta de dinheiro. Não havia capital, só existia a vontade de praticar um esporte. Nos últimos 30 anos, conduto, o esporte se transformou em um negócio multibilionário, mas as estruturas que o administram são exatamente as mesmas que foram criadas para trabalhar com a escassez de dinheiro. É natural que faltem mecanismos de controle, que falte transparência e até democracia, partindo do ponto de vista que essas instituições dizem respeito a muito mais gente do que simplesmente aos seus membros. Não é anacrônico, por exemplo, que o presidente do Flamengo, que representa e administra bens de uma torcida de 40 milhões de pessoas, seja eleito apenas com os votos dos associados do clube? Isso cria um conflito de interesses e uma falta de representatividade brutal. Essas instituições simplesmente não são representadas pela coletividade que garante os recursos que elas mesmas administram.

Isso também vale para a CBF?

Sim. Será que a CBF diz respeito somente às 27 federações estaduais que a compõem? Ou ela diz respeito ao povo brasileiro e aos clubes brasileiros que jogam as competições, formam os atletas e dão sustentação à pirâmide do futebol? Toda a forma com que o esporte está organizado no Brasil remonta a uma legislação criada em 1941, durante a ditadura do Estado Novo, período em que o Brasil chegou a flertar com o fascismo. Um dos artigos dessa lei fala até mesmo em proibir que mulheres pratiquem esportes que não estejam de acordo com as suas condições de natureza. Como isso pode dar certo? Esse texto veio sofrendo remendos, mas sua estrutura está toda valendo: clubes e ligas amadoras que formam federações estaduais, federações estaduais que juntas formam as confederações.

O Bom Senso F.C., movimento que pede mudanças no futebol brasileiro, cobra mais participação dos jogadores nas decisões. Essa é uma forma de modificar essa estrutura?

Sim, eles têm toda razão. Todo atleta, participando da competição de uma entidade, tem que ter direito a voto nessa entidade, e o mesmo vale para os clubes. Eu não vejo razão para que isso não aconteça. Um exemplo muito claro disso: de quantas competições as federações estaduais participam na CBF? Zero. Por que, então, são essas mesmas federações que votam para eleger os dirigentes da CBF? Esse modelo precisa ser revisto. A simples ausência de jogadores e clubes no colégio eleitoral das entidades demonstra claramente que elas não têm condições de gerir esse grande negócio que virou o esporte no século 21. Há outra questão essencial: sem democracia não há transparência. E isso vale tanto para os clubes quanto para a CBF. Todo torcedor, todo brasileiro, deveria poder ter livre acesso para opinar e analisar contratos firmados por essas instituições. Falta de participação da comunidade esportiva nas decisões do esporte brasileiro e pouquíssima transparência. Esses são os dois principais problemas.

Saindo um pouco das questões estruturais e descendo para a organização dos nossos campeonatos. Todo ano a importância dos campeonatos estaduais, que acabaram faz cerca de um mês, é colocada em xeque. Qual é a real importância deles?

A realidade da maioria dos Estados é muito diferente da do Rio de Janeiro e de São Paulo. A maioria dos campeonatos estaduais poderia durar o ano inteiro, porque, atualmente, só temos oito Estados com clubes na primeira divisão. O Brasil tem cerca de 800 clubes de futebol e apenas 100 jogam o ano inteiro; os outros 700 jogam cerca de 4 vezes por ano. Se houvesse atividade para esses clubes o ano inteiro, haveria uma geração de R$ 600 milhões por ano na economia brasileira e a criação de 30 mil novos empregos. Existe interesse público para que isso aconteça. Agora, é necessário conhecer a realidade de cada um dos campeonatos para que se possa encontrar soluções locais para garantir essa atividade. Por outro lado, também é necessário diminuir a carga de jogos deficitários dos grandes clubes brasileiros, obrigados a jogar muito porque têm de sustentar os campeonatos estaduais, a Libertadores, a Sul-Americana e acabam não conseguindo desenvolver, ao máximo, o mercado.

Como assim sustentar a Libertadores?

A primeira fase da Libertadores e a Sul-Americana inteira são menos rentáveis para os clubes do que os campeonatos do Rio de Janeiro e de São Paulo. Não há mercado para nós na Argentina, Paraguai, Bolívia, Chile, Equador. Além disso, não temos condição de comparar os nossos campos com os campos de lá. Os times jogam em estádios completamente impróprios, que não passariam em nenhuma inspeção de uma autoridade brasileira. Nós devemos repensar o calendário tanto do ponto de vista interno (reforçando os estaduais, para garantir atividade o ano inteiro) como do ponto de vista continental, que oprime os clubes brasileiros em um mercado pouco significativo. Talvez fosse o caso de pensar em uma competição que fosse do Canadá ao Chile. A liga de futebol americano, por exemplo, fatura cinco vezes mais que a Fifa. O soccer nos Estados Unidos está crescendo e a gente não vai desenvolver mercado lá?

Então, o futebol só vai dar certo com mais dinheiro, mais marketing? Onde entra o lúdico nessa conta?

Na verdade, colocar mais dinheiro na estrutura atual não dá certo. O problema do futebol brasileiro é gestão e governança. Imagine que o Vasco, em 1929, sem dinheiro de televisão, patrocínio ou bilheteria, construiu sozinho, com dinheiro dos seus sócios, o maior estádio da América Latina! Não teve 1 real de dinheiro público, sequer a doação do terreno. Se isso era possível naquela época, hoje não há desculpa, com tanto dinheiro rolando, para que as coisas não aconteçam no futebol. A razão pela qual elas não acontecem é que a governança é ruim. Por exemplo, o campeonato estadual do Rio de Janeiro acabou agora e a federação fez um balanço em que ela ganhou mais dinheiro do que os clubes. Se o dinheiro fica na federação e não nos clubes, como é que eles podem honrar os compromissos, evoluir, mudar alguma coisa?

O desastroso 7×1 da Copa do Mundo é apenas um reflexo de todo esse quadro de falta de transparência e participação?

Eu acho que o resultado, em si, balança as estruturas, porém a gente não pode correr o risco de tratar os problemas estruturais à luz do resultado em campo. Por exemplo, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras indicou que o ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, movimentou nas suas contas pessoais quase R$ 500 milhões nos últimos quatro anos. Esse é um sinal de que é preciso passar tudo a limpo. De onde vem esse dinheiro? Quem é que está pagando essa conta?

Estatizar a CBF seria uma forma de solucionar parte desses problemas?

Do ponto de vista da legislação atual, as organizações esportivas no Brasil são consideradas pessoas jurídicas de direito privado. Porém, eu acabei de dizer que essa legislação é obsoleta e não acompanhou a evolução da sociedade. Talvez seja o caso de uma legislação especial, que trate das organizações esportivas como instituições sui generis. Por quê? Porque ela administra bens de uma coletividade e, por isso, precisa ter controle social. A CBF tem que prestar mais contas, tem que ser mais transparente, ter mais participação, mais democracia. Se as organizações esportivas continuarem sendo vistas como entidades privadas, tal qual empresas que têm donos e investimentos, vamos presumir que os dirigentes correm riscos, quando isso não acontece na realidade. O fato é que as organizações esportivas estão num limbo sem lei, onde não há regulamentação ou responsabilidade. O mundo mudou e elas não evoluíram. Nosso papel deve ser resgatá-las desse limbo. Só com uma nova lei geral para o esporte brasileiro será possível alterar esse cenário.

Da lama ao caos

POR GERSON NOGUEIRA

Ninguém sabe ao certo ainda o tamanho exato da roubalheira na Fifa e confederações a ela vinculadas. Do que foi revelado até agora impressiona a facilidade com que fortunas eram manipuladas e divididas entre os chefões do mundo da bola. Da enxurrada diária de números é possível concluir que a falcatrua foi monstruosa. Ao mesmo tempo, surgem dúvidas quanto aos verdadeiros da investigação conduzida pelos norte-americanos.

Na sexta-feira, soube-se que que a África do Sul pagou gorda propina pelo direito de sediar a Copa do Mundo de 2010. O FBI revelou também que o brasileiro J. Háwilla embolsou R$ 30 milhões pela intermediação fraudulenta do acordo entre Nike e CBF para vestir a Seleção Brasileira.

Como sempre acontece em escândalos financeiros de grande magnitude, aos poucos vão se confirmando todas as suspeitas sobre determinados negócios. É o caso do polêmico acordo entre CBF e Nike, celebrado nos anos 90. Na época, as desconfianças levaram à criação da CPI da Nike no Congresso Nacional.

Nada foi além do barulho inicial em torno de alguns depoimentos e ameaças de punição. O inquérito parlamentar terminou sufocado pela força da chamada bancada da bola, cujos tentáculos se estendem por todos os partidos. Com base nos fatos recém-descobertos pelos americanos, o senador Romário já reuniu as assinaturas necessárias para criar uma nova CPI.

Resta saber se irá resistir à articulação dos bombeiros pró-CBF, ágeis e articulados. E precisa demonstrar coragem de ir fundo na apuração, promovendo, por exemplo, uma devassa nos contratos que garantem exclusividade à Globo nas transmissões dos campeonatos brasileiros, mesmo quando sua proposta é inferior à da concorrência.

Os movimentos esboçados até aqui indicam que a cúpula da CBF manobra para deixar tudo do jeitinho como está. Presidentes de federações foram convocados para reunião com Marco Polo Del Nero, cuja intenção declarada é limitar a reeleição. Nas entrelinhas, fica claro que todos serão chamados a reafirmar solidariedade ao presidente.

Talvez nem fosse necessário. O colégio de presidentes de federações, responsável pela sustentação do esquema de Ricardo Teixeira e José Maria Marin, continua exatamente como antes. A cartolagem mais conservadora segue fechadíssima com Del Nero, por razões que talvez só o FBI tivesse peito para averiguar de verdade.

Por ora, a única voz dissonante é a do presidente da Federação Gaúcha de Futebol, Fernando Noveletto, autoproclamado líder da oposição – embora defensor de práticas arcaicas quando o assunto é democratizar a relação entre clubes e atletas profissionais, representados pelo Bom Senso F. C.

Trocando em miúdos, significa que o tsunami que devasta a Fifa tem tudo para se transformar em brisa suave por aqui, visto que dona CBF, pródiga em afagos e mimos a autoridades executivas, legislativas e judiciárias, continua praticamente intocável.

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Bola na Torre

Guerreiro comanda a atração das noites de domingo, na RBATV, ao lado de Giuseppe Tommaso e deste escriba de Baião. O convidado é o técnico Dado Cavalcanti, do Papão. O programa começa logo depois do Pânico, por volta de 00h10.

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Os muitos mistérios que rondam o Remo

Ninguém entendeu muito bem, mas o Remo agendou um amistoso para Uberlândia (MG), assim do nada, como ensaio para a Série D.

Do mesmo modo, ninguém entendeu a forte boataria sobre um suposto interesse no meia Rogerinho, de quem o Papão acaba de se livrar.

Muito menos deu para entender a propalada intenção de contratar o meia-atacante Gegê, encostado no Botafogo e na faixa salarial de R$ 25 mil.

Na verdade, o Remo é há algum tempo um enigma difícil de decifrar.

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Uma Seleção cada vez mais invisível

Não é exagero supor que a crise moral que assola a Fifa acabe por respingar na Seleção Brasileira. O time de Dunga começa neste domingo contra o México, em São Paulo, a sequência final de amistosos preparatórios à Copa América. Como de hábito desde aquela peia vergonhosa diante da Alemanha, a movimentação do escrete é praticamente ignorada pela torcida brasileira.

É como se a seleção pentacampeã do mundo de repente tivesse ficado invisível aos nossos olhos. Sabe-se que ela está viva e treinando para a maior competição continental, mas é preferível não ver, nem saber nada sobre ela.

Não há como comparar, mas talvez nem o Brasil de 1950, derrotado dramaticamente pelo Uruguai na final, tenha sofrido merecido menosprezo. Por isso mesmo, é louvável o esforço de Dunga e dos jogadores em buscar resultados que ajudem a recuperar a velha chama.

Ganhar a Copa América é missão prioritária a essa altura, apesar das imensas dificuldades que a equipe terá pela frente em gramados chilenos. Argentina, Colômbia, Uruguai e o próprio Chile têm bons times e chegarão fortes à competição. Com a vantagem de não ter a responsabilidade que pesa sobre os ombros do selecionado canarinho.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO de domingo, 07)